Lista de Poemas

TUDO FALA

Efêmera
Nenhuma frase é tão efêmera 
Ainda que a palavra do núcleo se perca 

De fato 
A gramática é um parto
Escrever é justamente o ato léxico
Do cumprimento extremo de um dom 

Desconstruir
Não levar-se a serio emudece
No exercício de pesar pausa e silêncio

Esse pontual mistério até enlouquece
Tudo fala além da língua que externa 
Exala cálculos

Nenhuma sílaba é pequena
Que não caiba num som


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TALVEZ FOSSE EU

Eu sempre via
Brilhantes olhos d´agua me seguindo

Cantarolavam debaixo das folhas
Dentre as pedras onde nasciam
E feito enxurrada depois
No curso dos riachos sumiam

Diacho de tempo ligeiro
Talvez fosse eu
Quem não os acompanhasse de fato
E deixasse que se quebrassem
Nas quedas da cachoeira
E se perdessem no mato
Para ver se os esquecesse
Ou sentir se me esqueciam

Aqueles olhos verdes ligeiros
Por onde agora andariam?


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ONDE NASCI E MOREI

Onde nasci e morei
A areia funda na fenda tonteia
A poeira moída e teimosa impregna pó
E se chove a lama coada vermelha
Afunda no contorno e debaixo da unha
Que chega a dar dó

Aquela terra cheia de marra corre na veia
Quando agiganta o passado
Engasga o nó seco e esbarra na garganta
Não há sequer lágrima que se contenha

Onde morei e vivi é diferente até
Aquele mar doce no entorno da gente
Tem forma de lagoa de agua fria
Embebida e benta no amargo da jurubeba
Num quintal de casa num fruto de guavira
Onde nem marmanjo e nem menino se aguenta

À sombra sob a flor do dia
Entremeio ao sol e aos temporais daqui
Aquilo por lá chega a ser ameno
Espinha profunda a saudade doída
Tão íntima que me mantém de pé
Mas me põe abrupto e pequeno

Teria sucumbido incrédulo na distância
Não fosse a indelével poesia e a profunda fé


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APRENDE

Aprende:
Se trazes à tona
Amiúdes detalhes
Suaves
Miúdas vontades
Em singular artimanha
Destas que burlam internamente
E doem ou alegram até as vísceras 
E perambulam entre uma ideia qualquer
E qualquer outra forma premente
Onde apenas a serena figura das gentilezas
Dome a doma dos sentimentos

Bem sabes não contraponho -
Fogem-me as palavras ainda que amenas
- Fico sem argumentos



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EM PLENO ESTADO DE POESIA

Ela costuma vigiar
As flores da orquídea que lhe enviei
E rega cheia de ternura as pétalas macias

Às vezes tem os talos entre os dedos
Às vezes examina as sépalas
Às vezes toca em torno dos labelos
E põe os bulbos tão perto dos lábios
Que o vento entrelaça pela haste esguia
E desfia com singela simetria 
Tanto que embaraça nos rostelos
Os fios de trigo dos seus cabelos

Depois espia encantada 
Cada nuance de cor
E sente um cheiro de poema 
Em pleno estado de poesia



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PROCISSÃO

Quando chegavam os santos dias
Ficava da janela olhando a procissão
Alguns levavam velas acesas nas mãos
Enquanto outros disputavam o andor

Cantavam
Mas o burburinho nem sempre era oração

Então não entendia bem os modos da minha gente

Nos outros dias comuns
Eu ficava observando as saúvas
Que imitavam os adultos com exímia precisão

Algumas carregavam folhas
Com tamanho ardor que pareciam homens
Desfilando nos ombros os santos da cidade

Mas o chiado que faziam as formigas
E os rastros que deixavam pelo chão
Era a mais sagrada e sincera definição
De profusa religiosidade

Então bem ouvia Deus gargalhando de contente


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PARA O OUTRO LADO

                 Paulo Sérgio Rosseto

São os laços que trouxemos 
Que diversamente nos atraem
Ademais criamos os demais
Os quais nos fortalecem
Ou por vezes nos traem

Diferente de embaraços os laços
Prendem tanto quanto os nós
E se desmancham se não bem apertados
Dificilmente desapropriam 
Ambos os lados até saltam 
Mas nem sempre repentinamente 
Soltam se descuidados

Se bem arrochados comprimem
E exprimem excelsa união das partes
Selam os valores ainda que inaptos
Pois que se opostos sobrepõem-se
Os lados quando se unem entrelaçam
 
Realmente os laços que trouxemos 
Ou criamos ou refizemos se desmanchados
Mostram-nos que do cordão que viemos atados
Somente estes levaremos de volta 
Para o outro lado


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ELOGIO À TERNURA

A ternura é uma espécie rara
De silêncio de pomar ao meio dia
Onde somente há o zunir de moscas azuis
E abelhas ocupadas em lamber frutas maduras
Semeando polens entre as flores
Levando cera pelas folhas
Misturando cores e cheiros ocultos
Dos frutos presos nos visgos e galhos
Alimentando pássaros e formigas cortadeiras

A ternura faz com que o anjo
Se ocupe em descobrir
Porque a flor desprendeu-se da haste
Tombou sobre a mesa
E foi ao chão voar entre as cadeiras

A ternura é um vulto solto
Sob o céu arcado de estrelas
Ainda que sujo de nuvens e sol
À noite talvez se possa vê-las

Ela junta conformidades às hipóteses
E nos dá a certeza de que 
Se não se pode colar certas extremidades
Tudo se refaz desde que se respeitem vontades

A ternura é justamente esse olhar sobre as esperas


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TEMPO DE PASSARINHO

Ainda que a pequenos passos
Os espaços se tornem lerdos lentos e longos
Difíceis e cadenciados e largados

Ainda que menos largos 
Causem embaraços intransponíveis 
Mesmo a um pássaro acostumado aos altos rumos
De velha ave desprendida do ninho

Mesmo as vontades se tornando menos
Mesmo tendo voado a qualquer risco 
Ao menor trisco
Soe manso sob a impressão de arisco
O mundo continuará vasto

Quanta diferença fazem os anos voados

Mas ainda que voe somente o pensamento
Espero jamais em nenhum momento 
Perder meu tempo de passarinho


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SONETO DE SAUDADE

Passei tantos anos peneirando areia
Retirando a sujeira jogada na praia
Rastelando retalhos de algas sargaços
Pedaços de plástico e madeira

Às vezes não se podia esvaziar a lixeira
Havia tralhas que não queriam ser desfeitas
Restos de tudo abandonado sem dó
Mas que serviam de alguma maneira

Como se estivesse abanando sentimentos
Limpo agora as saudades do coração
Rastreio palavras renasço esperanças

De no árduo deserto da árida inspiração
Voando no passado mil pensamentos
Ver fluir em versos tão doces lembranças 


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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.