Lista de Poemas

LÁBIOS

A agua e o ar se movimentam
O sopro no vento
A onda no mar
Um voa meus sonhos
Outro afaga os ais
E todos se encontram
Num único porto
No limbo dos dentes
Nem longe nem perto
No abismo do olfato
Batendo nas bordas
Onde os lábios margeiam
E a úmida língua
Bailando na boca sentindo sabores
Sacia a alma
Alimenta o corpo
Respira em poesia
Inspira depois
Acaricia
Repousa
E a alma desposa-me
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SOBRE AS CAMAS

A vara que ergue a corda
Estica o varal até a altura do sol
Para que o lençol seque e quare
Um pouco mais alvo debaixo do céu
Permanecendo hasteado no alto do pau
Livra os arrastos da límpida barra no chão
E preserva o mundo exposto de cada um

A moça contempla o acinte do vento que acorda
Esvoaça o tecido e embandeira o quintal
Então penso que todos os dias lavam-se roupas
Onde se apagam os rastos deixados de suor e amores
Apenas para estender as cores e enfeitar o portal
Por onde transitam prazeres e dores
Vestígios dos nossos sonhos e dramas

O mundo é esse circo irreal
Enquanto descortina o próximo segundo
Achamos que o envelhecer amarrota as camas
Mas na verdade revive as fibras e o ideal
E renovam-se os panos enviesados
Enternecidos por vivas chamas
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ETAPAS

Considero paixão cada etapa vencida
Mas para que possa vencê-las
É preciso lutar essa luta aguerrida
E dela entender os ditames do tempo
Cada oportunidade e a rotina da vida

Lá de cima da montanha
De onde possam vir teus medos
Ouço chamados contínuos e apelos
Para que eu chegue ao cimo
E contemple a paisagem

Certamente seja esse o segredo do vento
Varrer-se na pedra sem perder-se da nuvem
Inda que não as tenha entre os dedos
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INDIGENTE

O santo torrão onde pisa meu pé pode não ser meu
Pois nenhum palmo desse abençoado solo sequer me pertence
Não se lavrou em meu nome nenhuma escritura pública
Em que me ateste a posse de qualquer morada ou cerca
Não grilei gleba alguma no radar da noite nem a herdei
E nem de ti o mundo tomei para que desolasses sem chão

Plantei sim árvores inúmeras nas beiras das plagas
Semeei o verde ainda que tuas mãos devastassem as eiras
Ajudei-te a recolher os grãos e preservei tuas sombras
Transmutando as poças em riachos viçosos diversos
Que seguem o curso no entorno da orla de versos
Juntando as fronteiras longínquas desta nação

Sou eu agente dessa massa que se orgulha e se ampara
Se te envergonhas não seja de mim ou da raça
E sim da oculta imagem que te reflete no espelho
Pois a terra que é tua é o lugar que me abraça
Ainda que seja eu indigente e não comungue dessa hóstia
Prossigo forte país feliz altaneiro – sou o povo tua pátria
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IMAGINA

Imagina enfim
Se a luz é ou não companheira das sombras
Pois tantas vezes seria a noite quem iluminaria o dia

Desapercebido porém
Passando de soslaio pela penumbra me iludiria
Não fosse a certeza de que esses raios são apenas sobras
No extenso veludo negro do alpendre do céu
Onde o sol morreria

Apenas pelo gosto de ressuscitar no brilho de cada estrela
Amanhã a tarde intensa poderia predizer-se ainda mais bela
Desde que eu a olhasse pelos olhos da poesia
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APERTO

As nossas mãos já não sabem dessa procura
Desacostumaram de carregar-nos pelos parques
De passearem grudadas por calçadas e ruas
Nem mesmo andarem pela orla pedem mais

Os nossos dedos são aleatórios fantasmas
Permissivos transmissores predatórios
Não mais podemos transitar pela cidade
As mãos unidas foram sinônimo de amizade

Não sinto mais o suor das nossas palmas
Da calorosa sensação de protegidas
Da transição entre o perfeito e o rascunho

Agora cerro o pulso e toco leve seu punho
São novas formas de expressão mais consentidas
E as nossas mãos unem a seu modo as nossas almas
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BEM MAIS LONGE

Faço de cada ida a algum lugar uma viagem
Pouco importando a distância que caminhe
Se a intenção e o destino é chegar perto
Sair já fora uma rotina corriqueira
O resultado de partir desenha a meta
Mas se não venho tantas vezes é porque perco
A referência dos rastros para o retorno

Há quem estime que voltar é desprazer
Há quem espera que regresse sem pudor
A vida é fase e a gente sempre faz de conta
Que o ir e vir nada mais é senão a ponta
Da alça de cada aventura que nos lança
À incríveis jornadas que nos exigem como prova
Minimizar o que o horizonte arrefecer

Porem se creio piamente no que acho
E busco sempre alcançar todos os sonhos
Componho por minha conta o meu presente
Eu vou além muito além e bem mais longe
Mesmo quando inconsequente ainda rechaço
Não por temor mas precaução do que disponho
O amor me ampara mesmo que eu não saiba ver
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A ÚLTIMA HORA

As roseiras e samambaias na floreira
Nada dizem se não as rego
Apenas secam e despetalam
Pelo brio que sustentam
Não vergam seus talos
Endurecem-nos e se não apodrecem
Estalam

Eu no entanto
Quedo por qualquer besteira
Desmancho desmantelo
Resseco os lábios pela ausência de riso
Introspecto
Impossibilito e apavoro

Mas nossas raízes teimosas
Permanecem ávidas por uma chance
Até a última hora
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PELA CROSTA DA TERRA

Este céu ainda que amanhã tenha as mesmas cores
Carregará novas nuvens por ventos diversos
Também eu espero encontrar lumiares
Como os tantos que em mim estiveram

Céu e eu estamos além dessa nebulosidade mera
Ele faz chover nos lugares dispersos
E apazigua ou alenta as dores enraizadas no dorso

Enquanto eu lavro meu mundo insalubre
Ele revolve alumia e procria a esfera

Ambos vagamos insanos soltos pela crosta da terra
Ele transmutando em sereno minhas lágrimas tortas
Eu lambuzando em azul esse orvalho dos ares


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O CASCO DESSE NAVIO

Quisera
Que a mesma vela que nos levará para outra quimera
Navegasse sob a intensa luz de um só pavio
Esperando derreter a cera sob um sol de primavera
Imerso nas aguas de qualquer um lago
Por onde deslizasse o grosso casco desse navio

Seguíssemos talvez
Ainda que seguidas vezes diluídos em rios
Ao invés de consumirmos em cinzas nossos pedaços
Soldássemos as fendas desse calado
Equilibrando o corpo à sombra do círio
Revestíssemos de coragem abóboda e lastro
E simplesmente de novo partisse

E se lá na frente assoreasse
Ou se tombasse o mastro sobre delírios toscos
Enxergássemos ainda que febris desastres
Por vieses e enroscos
A fugaz serenidade face a face




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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.