Lista de Poemas

PARA DEPOIS DO CARNAVAL

Deixem as batalhas para depois do Carnaval.
Contenham os ânimos
Embainhai as espadas
Guardem os rifles e canhões, fuzis
Poupem a língua do sarcasmo hostil.
Deem às crianças liberdade e fantasia
Às deusas fantasias e malemolência.
Desmanchem os pelotões
Criai apenas blocos.
Cessem as marchas para ouvirem os coros
Das simétricas matreiras marchinhas nas ruas e salões.
Hasteiem as bandeiras das escolas
Os estandartes das agremiações
Os santos mantos dos desejos
Estampados nos mastros da alegria dos trios.
Desnudai os sentimentos que invadem as praças
Com sonoros tambores e tamborins.
Arrastões somente de ousadia
Excessos de explosões de felicidade nas avenidas.

E depois, quando tudo isso passar pela cidade
Riremos incomodados da paz que essa guerra de folia
Por alguns inconsequentes e deliciosos dias
Conseguiu nos dar.
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RABISCOS

Fico a perguntar
Qual a diferença da fome
Entre um lado e outro da fronteira
Da sede se é maior ou menor aqui ou acolá
Das ideias, ideais, culpa e ideologias
Da necessidade de entendimentos
Das concepções, expectativas e experiências
Da beneficência que assimila o beneplácito
Das nuances da língua, transcritas na fala
Da confidência do acerbo causal
Que por vezes exacerbados nos toma

Achamos que somente nós detemos
A bandeira mais bela
Um hino emblemático
A épica epopeia
Um enviesado ontem de glórias
A certeza mais pródiga
Um futuro tão próximo
E esse presente útil e absoluto
Que nos imprime soberanos

A mesma chuva que aqui orvalha ali molha
E quando aqui encharca talvez ali apenas serene
Mas a neblina é só uma
E jamais apequena a terra
Apesar das duras penas e da febre
Que sem dó tapa, impõe, arrolha
A consciência de quem labuta e assume a batalha

Quem dividiu os lados
Esqueceu-se de desligar os rabichos
Dos rabiscos sujos de guerra
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PERGUNTO

Pergunto
Se no futuro haverá criancices
Dessas corriqueiras sandices
Feitas por mim e qualquer um
Nas esquinas das ruas
Amoitadas no banheiro
À beira da piscina
Escondidas no mato
Amassadas nas beiras
Rabiscadas no muro
Debaixo das fuças
Onde todos passam
E os loucos nem sonham
Que possam existir
Assim tão saborosas e boas

Pergunto
Somente porque
Sempre haverá perguntas
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TORTA

O que pensa aquele
Que mapeia a terra ao meio
Põe recheio assa e come
Vai à tribuna e discorre
Sobre a necessidade que resta
E se presta à exegese
Caricata aventura
Dessa massa disforme
Lixada xingada e some
Em nome da caridade
Das mãos que doam
Repartem se vaza
Na vala onde a brasa
Dispersa a sobra rejeitada

Longa estrada essa torta
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CHACINA

De repente e
Sozinho
Ele aparece embriagado
Falando coisas sem sentido
Sentindo náuseas da própria fala
Como se assoprasse uma imaginária flauta
Ou apertasse as teclas de uma sanfona
De fole furado
Chutasse uma bola sem ar
Rodasse um pneu sem aro
Se deitasse numa cama sem forro
Varasse um cerco de nóias
Comprado um pão endurecido
Feijão brocado
Lastimando a perfeição

E amanhã estarão nos jornais
Todas as suas artes
Peripécias
Indecências
Ousadias
Morto na porta de um bar
Sem explicação
Ao lado de outros dez
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ROTINA

Minha cidade tem apenas alamedas

Não existem ruas
Nem vielas avenidas travessas trilhas ou becos
Mas sim somente alamedas
Por onde largamente disfarço
E vivencio
Na rotina dos meus medos
A imprecisão dos meus passos
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SUPER LUA

A primeira vez que ela viu
Aquela imensa chama fevereiro à noite
Contou a todos que no céu
Havia
Uma super lua
Do tamanho do farol
De um trem
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PASSARINHAR

Não invejo os pássaros
Pelas asas
Pelo canto
Ou pelo pio
Muito menos pela leveza da pluma
Ou pelo ziguezagueio matreiro no ar

Não os invejo por serem passarinhos
Pelo desenho de seus ninhos
Ou por outra razão alguma
Senão o relance do olhar

- Isto sim me põe zonzo de arrepio
Enxergando a diferença
Entre seus necessários voos
E meu reles caminhar
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SOZINHO

                                Paulo Sérgio Rosseto

Então parece que Deus foi cuidar dos outros
Daqueles que moram além da minha rua e dentro doutros muros
Daqueles que estão em outras avenidas bairros e vilas
Daqueles que se encontram nos castelos das cidades vizinhas
Em outros estados em outras capitais 
Em outros países e continentes bem longe da Terra

De repente Deus fica infinitamente distante
Tão longe quanto um instante no escuro 
Que só me aparece daqui há milênios
Parece que foi passear em outro mundo
Que vive em outro mundo divino
Assistindo os bons brincarem de guerra
E o cruel na subserviência da miséria

Quisera um Deus mais humano mais próprio mais nosso
Perto do que somos e entendedor do que posso e meu

Para que esconder-se no fundo dos oceanos?
Para que deitar-se sobre as geleiras dos polos?
Para que sentar-se à beira dos vulcões e brincar com as lavas?
Para que abobalhado ficar observando 
O movimento de translação dos astros?

Oh Deus vem cuidar de nós
Afinal disseram-nos que somos sua maior criatura
Afinal somos sua criatura
Afinal sou eu a sua criatura?

Se não for assim adeus!

@psrosseto

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IRREALIDADES

O que prende as águas ao leito
É unicamente a aparência das imagens
O que segura as ondas sobre a flor
É puramente a coincidência
Não há beirais
Não existem orlas
Inexistem as margens
Não há prudência na testa das tormentas
São meros paradigmas boçais

Achamos que alicerce prende e separa
Que amarra ancora
Que âncora sustenta, fixa e aferra

Tolos conceitos, tudo esvai ligeiro, degenera
Ensaboa como nó na garganta, dor no peito
Prenúncio de temporal

Tão frágil é o mundo
Fortes são as sombras
Que assopram e assombram
Irrealidades coadas sobre todos nós
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.