Lista de Poemas

INACABADO

Precisasse falar, diria.
Como não preciso calo
Porque sei que minhas mentiras
Nem mesmo eu as ouviria.
Não escutando, ignoro
Ignorando desdenho.
Qualquer coisa que supunha
Em nada ou pouco ajudaria.
Entendam todos que tenho
A liberdade ao meu lado
Por isso entro e saio a passeio
Pelo ângulo e ótica que concebo
Em até partir a verdade ao meio
E suas supostas metades
Retalha-las sem receio.
Desvendando o que não vejo
Não vendo o que não pretendo
Ao tornar prioridade
Deixo as suposições de lado.
Ninguém conclui a própria obra
Sempre haverá um novo verso
Outras sensações e adendo
A um momento inacabado.
Eis o inusitado segredo!
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POR UMA CAMA DESTAS

Por uma cama destas
A gente se deita e abre a estrada.

Seguiremos imperfeitos
Por qualquer caminho,
Amassaremos as coisas
Em meio a ausências e rejeitos
E roupas amarrotadas.

Escolheremos como e de que ter medo
Que cores tingiremos as paredes
De quais verdades iremos brincar
Em quais brinquedos passaremos a crer;

Se no tempo certo ou agora cedo
Deixaremos o porvir dizer
Em que solo devemos pisar.

Haverá sempre um abrigo
Próximo a uma margem mínima
Entre os sinceros sentimentos.

Nenhum estrondo ou silêncio
Irá abalar nossos propósitos
Mas caso haja a hora derradeira
Será esta única dose íntima.

Conviveremos com os ventos
Que têm por habito desalinhar
E tornar perplexo o propósito
Do que se acha fortaleza.

Jamais duvidaremos do que brota
Ainda que a madrugada esgote
Qualquer vontade em seguir.

Entre mãos firmes e dadas seguiremos.
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QUALQUER SOM

Procuro um bolero para dançar
Um tango, valsa, xote, blue
Qualquer som, ritmo, melodia

A parceira eu tenho
Falta-me o canto, a sonoridade
A hora que propicia o baile

Nem precisa ser à noite
Pode ser agora antes da agonia
Dos contrassensos dos passos

No meio do balé das ruas
Em cima da cama num quarto
Na porta de um salão fechado
Sobre a mesa do escritório
Na sacada ou jardim
À beira do fogo na cozinha
Em frente à geladeira
Na sacristia de um convento

Onde houver um momento único
Para nos sentirmos livres pela música
Desenhada na luz do sol
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TORPOR

Faz frio lá fora.
Agora aqui dentro queima
Uma dor que desatina
O juízo de quem teima
Acreditar que o torpor
Seja só uma rotina.
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IMPESSOAIS

Pendurados nas paredes
Olhos espiam onipresentes
Vigiam até mesmo pensamentos
Gravam nossos modos constantes
Transformam em presente passos
De minutos atrás
Ainda que se conteste
E prove a que se preste e pretende
Sem que se perceba ou incomode

Disfarçados detectam movimentos
Frívolos sem preocuparem-se
Com nossa obsessão e desejos
Registram arrepios, olhares, risos
Argumentos impessoais, tiques
Nuances nos ângulos indiscretos
De quem passa, fica, sai
E até o que mesmo nem chega ou vem

Revejo o emaranhado dos teus cabelos
Tua resoluta vontade de chorar
A intenção em contornar o objeto
Os lampejos e brilhos dos gestos
Pelo tempo que quiser do agora
E ainda se não mais puder te encontrar
Fico com as imagens sem endereço
Desafiando apegadas meu olhar
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LAPSOS

Se fosse para enxergar o belo te emprestaria meus olhos
Se desejasses carinhar uma flor daria as minhas mãos
Se pretendesses reverberar os bons sons doaria meus tímpanos
Se quiseres difundir a paz entregaria a ti a minha língua
Se fores pelo reto caminho ofertaria os meus pés
Se intentas celebrar o gozo toma meu sexo
Se buscasses o amor desmesurado tornaria minha alma
E para festejar os bons pecados
Poria ao teu dispor toda emoção e sorriso

Mas se em nada disso houver razão e propósito
Seria eu em ti o mesmo mistério e forma

É engraçada a vida de quem se engraça
Nessa bagunça da raça humana chamada paixão
A gente se arrisca e rabisca e enovela nos lapsos
Muito além do que possa parecer preciso
Por ser a soma do amor a busca de todos os riscos
Enquanto e quando se ama
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O VENDEDOR DE PICOLÉS

Parte um avião rumo ao infinito
Já pensando onde irá pousar
Carros saem de garagens
Motos circulam entre ônibus e caminhões
Todos com viagens demarcadas
Também as bicicletas e os barcos partem
As charretes e carroças os trens
As meninas nos patins
Carrinhos de pedreiros baldeando entulho e massa
A senhorinha da feira arrasta a cesta com rodinhas
Tudo vai girando sobre esferas e aros
Desenhando retas e círculos
Circulando por ruas quietas e tortas
Movimentando elétrons
Por dentro da terra
No meio do mundo
Por entre nuvens e raios
Em todas as horas
Na velocidade do justo

E apesar de toda essa pressa – ou não – sobre rodas
Passei lindos dias esperando na porta
O vendedor de picolés
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BULA

Está claramente descrito
Como remendar essa dor:
É preciso tomar as doses corretamente
Dessa droga que irá cicatrizar
A ausência do amor que deixou de existir

Tudo se encontra minuciosamente prescrito
Em negrito times new roman
Incluindo alta dosagens e contraindicações

Parece que o medico responsável dessa bula
Também se perdera enamorado como eu um dia por ti

Ele assina
Mas não diz escrito
Se curou
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POEMAR

Recrutarei outros conceitos para novos poemas.
A ideia usual até permaneceria comum e corriqueira
Afinal não se pode modificar tanto quanto se queira
Apenas com palavras, sejam novas ou as mesmas.
Poderei até vestir minha máscara com nariz vermelho
Pronto a continuar mentindo poesia por onde passar.
Há quem ache meu poema não ser verdadeiro.
Creio chamam arte a esse sacrossanto exercício de poemar
Nesta cotidiana reflexão diante deste velho espelho.
Não, não importa em qual dia da semana ou do mês;
Continuarei viajante estradeiro, peregrino, caminheiro
Mas deixarei de ser estrangeiro – é isto o que a poesia faz –
Portador das laboriosas e estupendas capsulas de paz.
Se quiser vir comigo, traz tua virtuosa memória
Somaremos nossas rimas, rimaremos o desaparecimento
De todas as mazelas existentes no pensamento.
É, não há melhor remédio que remedeie as intrigas
Senão a velha verve e a rima de um bom cancioneiro.
Cruzaremos o mundo versejando sobre alegorias
Compondo estrofes para singelas cantigas
Depois descansaremos entre os hemisférios
E dormiremos livres nas páginas de algum livro
Sob os olhos entre as mãos de algum menino.
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ÚMIDA

Ela não sabe
Se sai com guarda-chuva
Sob o sol
Se usa o guarda-sol
Sob a chuva
Se guarda tudo
E toma chuva
Ou sol
Ou sol
E chuva

Se espera à sombra
A chuva passar
Pelo sol
O sol
Desmanchar a nuvem
Que sobre ela
Faz chover

Então aguarda úmida
O tempo se resolver
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.