Lista de Poemas

O TEMPO

                           Paulo Sérgio Rosseto

Tu és mercador de sementes
Não somente semeador ou reles sementeiro

És a verdadeira pureza
Que deteriora o fruto arrebata o bago
Estala a vagem decompõe a polpa
Resseca o talo carcome a carne
E oferece aos homens ventos e pássaros 
As chances cruas da refloresta
A oportunidade de novas mudas
O reinicio dos ciclos
A perene teia que peneira

Independe que tuas mãos sintam
A repentina ou comprometida fiança em plantar

Os meus amigos passam pelo pórtico da Cidadela
Arrebatam jardins e pomares
Sentem as rosas colhem mangas maduras
Descansam sob os pequenos arbustos
Conversam com as ciganas cigarras 
Que adivinham as manhãs e temerosas
Entreolham nos olhos da esperança venenosa
Simplesmente trabalham comem engendram
Regeneram recuperam as forças tamanhas

Eu? sou só essa incólome presença
E apenas trago a teimosia resoluta dos amanhãs

@psrosseto

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VERBAL

A língua ávida passeia a cavalo
destemida e solta. Lambe
o pescoço em revista à bandeira;
atrevida ergue a face onde o dorso
curva perplexo pelo próprio beiral
sua confortável e certa trilha.
Pátria-palavra nada frívola
súbita conjunção que exulta
o mais nobre preceito verbal.

Amar é todo esse exercício
explicito de exuberância efêmera,
de um povo-poder evidente
incrível e intencional cabível.
Comove-se com a rude arte
faz parte desse ápice supremo
Imparcial inexato convincente;
convive com o sempre
envolto em um desafio real.

Do amor a língua por fim tritura
de forma ambígua e frugal.
Arrebata a criatura e a mente,
debela estruturas e intenções.
Desestrutura o secreto,
preconiza rupturas virais,
torna plausíveis as esperas,
entendimentos concretos,
possibilidades únicas do anormal.

Mesmo quem surja impróprio inviável
controvertido e estrábico contundente
de benevolência augusta improvável;
que apoie ao ócio entre o ópio e a pia
pelas risíveis manchas promíscuas nas vias -
também enxerga relevantes e indomáveis
imagens, registros de indecifráveis cores:
sentimos transpirar incontinente o ardor
que amarga e queima a verve da gente.
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SEPARAÇÃO

Eram frutos de uma busca indiscreta
Corrigida pelo tempo abstrato.
Não detinham essa plácida paciência.
Cultuavam sim a perplexa vertigem
De quando checavam suas miragens
Com meia dúzia de linhas levitadas
Declaradamente inibidas que por si só
Astutas os amavam inteiras, secretas.

As tardes arrebatavam os seus barcos
Reviravam suas terras
Onde sombreavam porções de idolatria
Nutridas, reciprocas, reavivadas
Atadas às incontáveis e desejadas
Esperas dos voluptuosos abraços
Que os detinham enamorados
Entre as longas gloriosas rotinas.

Então se olharam pelo avesso, certa feita
E não mais viram defeitos nem distâncias.
Desaproximaram as faces das labaredas
Repensaram sensatos as verdades abertas
E se deixaram incontáveis à separação
Sob o limite da ventura coincidência
Intocáveis, temidos, exaustos
Onde hoje o amor não mais se deita.
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ARAUTOS

Bem feita terra à espera da chuva
Apupos do arado depois da colheita
Como quem espelhando louva
De olhos cerrados a primavera
Ouvindo os ventos harmoniosos
Da era dos trópicos e hemisférios
Brindando o solstício entre os mistérios
Revelados nas forças da natureza

As almas carreando a luz do verão
Sorriem sucintas festejadas
Entrecortadas entre frutos maduros
Hão de existir definidamente
Suculentas em meio a sinfonias
Dezembrinas transmutadas em gente
Arrebatando nós e correntes
Enunciadas pragmáticas de pura leveza

Então copiosos arautos desses aromas
Nos conduzimos pelas baías vertentes
Onde o sol nas salinas custa surgir
Nas distantes geleiras dos continentes
Nas frias semânticas tão primitivas
Galerias de neves entremeadas
Respeitando intenções e pressentimentos
Celebramos a dádiva, a vida e a beleza
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DIALOGUINHO

- Bom dia.
- Bom dia.
- Como vai?
- Vivo!
- Qual a certeza de estar vivo?
- Estar lendo este dialoguinho!
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ENTRE UM E OUTRO GRITO

Quem imagina um verso e não o anota
Perde a essência de seu momento
Acontece comigo às vezes o absurdo
Em passar a noite versejando solto
E após perder toda ideia remota
Ver-se por ordem todo incompleto

Assim são as chances que se busca e almeja
Passam coloridas pelas sarjetas
As contemplamos e deixamos seguir
Pelas horas macias das preguiçosas sestas
Esvaem-se ligeiras e jamais retornam
E se voltam talvez não venham perfeitas

Onde mora a palavra simples, em qual fonte
Reside também o absoluto ar devaneio
As falhas do que valha o princípio da graça
A generosidade do risco pela ventura
Loucuras do perder-se em outro dia
Porque nos sentimos frágeis e débeis

Esquecemos dos boleros, folhas que bailam
Ante os ditames que desafiam um aflito
Sabor de vento doce recheado de aromas
Que afugenta os dilemas e retoma
Ao menos a vontade de novas conquistas
No silencio sereno entre um e outro grito
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MEU CORAÇÃO TE ESPERA

Na superfície virgo da terra
Submundo do universo
Meu coração te espera
Anverso e vagabundo
Desesperado de antevéspera
Em qualquer buraco que seja
De profundeza imensa ou rasa
Instado a um esteio de casa;
Na garganta dos questionamentos
Nas cordas vocais dos relâmpagos
Junto a estrondosos trovões
Meu coração te espera
Em matizes pintadas por sóis
Em meio a esplendorosas placas
Multicoloridas de cal
Com gosto de cana e ácido
Azedo agridoce dessa imensa
Saudade pálida vertical;
Entre virgens flores cheirosas
Poderosas torres de verdes talos
Meu coração te espera
Onde os insetos se aninham
E dormem os ariscos pássaros
E sonham os anjos cansados
Enquanto seguem os passos
Dos ventos anciãos
Que assopram e espalham na esfera
As boas e más notícias
Sem subestima e esperas;
No paradoxo de ideias
Sob impactantes mudanças
Ideologicamente perfeitas
Meu coração desespera
Vivendo a opção desse aguardo
Na simples rimada filosofia
Em que amar é modificar
Geopoliticamente reinventar-se
Nas sobras da própria poesia.
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INCIDENTE URBANO

uma incerta lua todo dia
atira-se do semáforo
entre avenida e rua
vestida de alizarina
travestida de heroína e anjo

surge dentre os prédios
e descalça perambula
onde nenhum olhar alcança
junto a poças de células vivas
sobreviventes do asfalto
em meio a ocre via de fumaça

sai recolhendo o caráter sintético
dos obituários por falência múltipla
desperdiçados como tantos passantes
insertos e perplexos suburbanos
provisórios habitantes da rotina
dessa contemporânea falácia
clamando por misericórdia

assusta-se unicamente
quando ouve claros rumores
de que a todo momento morrem
eternos amores e sentimentos
antes da hora ou passados do ponto

explica-me então que esses abissais incidentes
dependem da ilusória sorte
e que além da cobiça e mais
haverá sempre por certo
entre as faces duplas dessas veias
possíveis acelerados desacertos
pois enquanto alguns fenecem
abrem outros triviais sinais
em outros tantos cruzamentos
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INSENSATOS

Preciso alguns gomos para compor poncãs
Inserir sementes nos bagos
Envelopar delicadamente seus adocicados cristais
Costura-los então com cordões de cera e seda cítrica
Acoplar tudo no hermético veludo interior das cascas
Para que não se deteriorem e suportem as intempéries
Dos olhares de cobiça pelo viés cheiro hibrido
E suas magnificas alaranjadas cores

Depois pendura-las na ponta dos galhos
No segundo andar dos pés como bandeiras expostas
Já todas madurecidas pelas mãos do tempo
E aguardar a hora propicia de as apanharmos
Insensatos da janela
Igual fez Deus outrora incendiando astros
Para espalhar estrelas

Simples assim como fazer poesias
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UM MAR MAIOR QUE TODOS

Carrego eu um mar maior que todos
Vive ele revolvendo intensas ondas
Dentro dos imensos oceanos
No derredor das ilhas que construo
Entremeio às vértices hipotéticas do mundo

Ainda assim busco entre as vagas
O que talvez não vá encontrar nas entrelinhas:
Leituras diárias da realidade pífia
Compilação de experiências diversificadas
Desertos escondidos no subterrâneo da alma
E a fé sedimentada na concreta diferença
Capaz de entrever a gravidade das minhas luas

Sobre o amor que orbita acima das nuvens
Que cegam minha pátria enquanto julgo espúria
Afogo e submeto minhas vontades
À luz da leitura das leis que regem nossos sistemas
Para remar expressivas naus nas águas claras
Que banham com ardor essa costa finita
Engrandecido pelo significado da palavra amém
Própria dos insanos armadores enquanto amam
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.