Lista de Poemas

ÓBVIO

                                          Paulo Sérgio Rosseto

Tem certas coisas no mundo que é bem melhor não saber
Fatos que o tempo diz explicar, mas que prefere esconder
Camufla no já moído peito da gente e se descobre faz doer
Dói tanto que às vezes mata segredos do bem viver

Ninguém procura verdades pelo tosco prazer de sofrer
Assemelha-se à saudade, vem com o inconsequente querer
Desce e se apossa da mente, invade o corpo, confunde o dever
De se evitar que se morra matando o seu próprio ser

Se um dia for necessário seu cais impedi-lo ver
O sol das respostas claras da clarividência desprender
Jamais constranja o destino, deixe o impreciso acontecer

Pois tudo se acha, se encontra ou também pode se perder
No exato propósito do óbvio repentinamente surpreender
O intenso paradoxo da vida que se renova ao nascer

@psrosseto

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COTIDIANO

Quase não tenho tempo para
Ouvir teus planos e
Já não tens paciência para
Escutar as minhas lamúrias

Confidenciamos com os
Mais distantes desejos que nos procuram
Buscamos soluções às
Propostas mais imponderáveis porém
Nos furtamos em proferir as
Palavras doces que desejamos ouvir

Ainda temos traçado nas veias os
Sinais das vias da gentileza e
A grandeza da consciência do
Que necessitamos interagir

Somos generosos e
Mansos personagens do
Absorto cotidiano

Falta-nos tempo – esse
Limado grão intransponível da
Soma de todas as
Horas
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NOVELOS

Varri as tuas ruas
Lustrei tuas calçadas
Escovei os cabelos dos teus quintais

Limpei os armários e gavetas das casas
Banhei as asas dos teus telhados
Afiei as tuas facas e o cortante
Punhal com que descascas as tuas frutas
Desafias as dobras dos sentimentos
E os amarelados novelos de barbantes e lãs
Enfiados entre ralos e apelos
Pelas orelhas dos livros de histórias ainda nem abertos
Nos caminhos incertos com que teces
As teias em que te isolas e enrolas

Santa cidade
Tenho medo e pena
Da falsa piedade plena que distribuis
Da cega fé que te morde o lombo
Endurece a tez
Apodrece o arame com que amarras
As tuas conquistas e ensejos
Pelo singular capricho
Vergado no desejo espúrio
Enciumado de moldar
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PREGUIÇA

Acordei
Era manhãzinha
E ante o sol lépido
A figura lerda e sozinha
De um anjo tísico
Perguntou-me como queria
O plácido dia

Respondi incondicionalmente
- Intrépido e narcísico
Quiçá sem essa doce divina preguiça!
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CONFESSO

Meu belo lugar disciplinado
Passeia por dentro de mim
Acolchoando os sentimentos
Depois preventivamente faz companhia
À minha sombra fria e flana
Com ela inocente por toda luz
Impedindo que eu minta, roube
Xingue, mate, arrebente
Faça caretas, cuspa longe
Admoeste, desabe e amoleça 

São estes pecados professos
Intimamente travessos
Que desconheço, não reconheço
Mas são confessos de penitência

Rogai, pois, por mim o perdão dos mundos
E não precise abalroar nenhuma intenção
Exceto a de não querer ser bom enquanto reto
E pródigo com aquilo que não me seja válido
Por ter valido ser correto
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RESPINGOS

Certas histórias precisam ser contadas
Outras simplesmente vividas.
Trazemos um pouco da necessidade
De imitar algumas performances
E um percentual incrível de inventarmos
Os nossos próprios compêndios.
Há quem se acomode sob fantasias
Há quem daqui a pouco esquecerá
De incomodar-se com os esquecimentos.
Dirijo meus dias espaçosamente
Inspirado no protagonismo
Das coisas mais suaves, leves e simples
Afugentando furtivas contendas
Deificando as vultosas texturas
Que abrangem os desejos abundantes
Por onde somente a reflexão perpetua.
Aprendi assim a viver nos respingos
Dos fatos das novelas do cotidiano
Capítulo a capítulo, focado nas finalidades
No entanto longe, bem longe do fim.
Sou eu a maior propriedade destas escritas
O deserdado protagonista sem foco e fora da luz
Porem consciente de que tudo se torna necessário
Desde que de alguma maneira necessite.
Estendo democraticamente a mão
Para que tu me conduzas por estes labirintos
Sem calvário mas com o prazer da jornada
De juntos sermos robustos detentores
Das incontestes superações.
Tens as chamas da perseverança
Trago as garras da esperança.
Somos puros e valorosos irmãos.
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A VISÃO DO FAROL

Eu ando pela praia escolhendo historias
Como escolhe a onda quem deseja surfar
Entre areia e espumas recolho conchas
Seleciono pérolas, poemas do mar

Da enseada de saudades cato lembranças
Separo algas das lagrimas das pedras
E do sal das frias e insensatas marolas
Revivo os relatos de heroicas esquadras

Quem anda comigo enfim não ancora
Se preciso nada, segue com afinco
O traçado espelhado do céu e do sol

Assim incitando o amanhã de mãos dadas
Renovamos o tempo, cientes que a estrada
É a mesma, o que turva é a visão do farol
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MUDE

Troque de roupa quando o desejo mandar
Por estar demasiadamente justa ou largada
Limpa ou suada
E tua carne pedir outra pele
E teu apelo querer outro pano
Ou se porventura na casa falte um botão
Ou enguice o fecho
Ou rasgue a gola
Ou enjoe a cor
Ou não caiba o tamanho
Da dobra da barra
Do frio ou calor
Comprida ou curta
O tecido incomoda
Está fora de moda
Por algum motivo não satisfaz
Põe pra lavar, mude, doe, cose, cirze, remende
Passe, alise, desamarrote, customize

Quando teu desejo pedir
Quando tua vontade mandar
Sempre há motivo e lugar
Aguardando uma nova atitude
Mude
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UTOPIA

Passamos a infância entre a cozinha e o quintal

Lá fora cortávamos os cabelos das bonecas de milho
À beira do fogo assávamos as espigas e nos fartávamos de pão

Nas arvores balançávamos nas sujas cordas dos galhos pendulares
À mesa saciávamos as vontades no ato propício da mastigação

Pelo terreiro corríamos arvorados comungando entre a sombra e o sol
Sob o teto santificávamos com leite puro e chocolate as hóstias de polvilho

Do pátio partíamos desmedidos atrás da arrelia dos similares castelos vizinhos
Sentados disfarçávamos os olhares da mãe das unhas pretas de terra dos dedos das mãos

Após a porta, serelepes voávamos pelo horário infinito e as constelações
Entre as paredes aquecíamos das esbranquiçadas geadas das friorentas manhãs

Estudávamos nas cartilhas dos portais
Mapeávamos geopoliticamente as trilhas das lagartas
Retapávamos os buracos dos formigueiros
Desviávamos das valas os tenros filetes dos ribeirões
Varríamos dos caminhos as folhas soltas no chão
Distribuíamos as migalhas aos bichos que especulavam pomares e jardins
Cobríamos com penas as leves perebas e arranhões
E dávamos conta das contas dos rosários que a rotina nos permitia rezar

Ainda hoje plantamos utopia
E repartimos os brinquedos de fazer bem
Com tudo o mais que há, houvera e sentimentalmente havia
Porque aprendemos e continuamos a prender
Viajar e conviver entre o quintal e a cozinha
Da casa repleta de construções de silêncio e algazarras
Enquanto os sonhos de infância por complacência permitirem
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EQUALIZANDO

Penso agora sobre a análise dos números
Em tudo o que com eles incide e procede
Nas propriedades que as equações detém

Entre a esquerda e a direita dos zeros
Como se comportam, se nos importunam
Ou o quanto importam em cada ser

E nos cálculos e resultados impactantes
Das planilhas elaboradas com a meticulosidade
Que a matemática, a lógica e a genialidade pontuam

Entre sensíveis prognósticos e reflexos
Impares sobre a materialidade constante
Nos modelos distintos das exceções semelhantes

Nos pontos percentuais que resultam das oscilações
O quanto tudo é tão abominavelmente efêmero
Indizível e ao mesmo tempo sociável nas fórmulas infinitas

Quando a ilusão diz ter, mas na verdade não se possui
Dissociando as exatas ideias e o ideário das frações
Arquitetadas nas pranchetas do que do imaginário flui

Pensando nisso, tudo é muito tenso e intenso
Deixe-me quieto com minhas elucubrações
Enquanto degusto equalizando a textura de um doce
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Comentários (2)

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Meus sinceros parabéns sr. Poeta Sergio Rosseto... teus textos são de tanto amor conquistado e perdidos ... que nos faz imaginar um universo sendo criado a todo dia em que o sol aparece no colo de uma nova mulher. Felis ano vovo.

Rodrigo Marques
Rodrigo Marques

quantas verdades com perfeição!

Paulo Sérgio Rosseto nasceu em Guaraçai, SP, na manhã de 11 de Abril de 1960. Filho de Paulo e Celestina. Seus irmãos são Fátima Aparecida e Delermo de Jesus. Em 1966 seu primeiro poema (MEU CACHORRINHO) foi publicado no Jornal da Cidade (Folha de Guaraçai), destaque de um concurso de escritores mirins promovido pela escola local que frequentava. 
      A familia Rosseto muda-se para Selvíria/MS em 1968 e em 1970 mudam-se para a Cidade de Três Lagoas, também no MS. Entre 1974 e 1981 estudou nos colégios internos Salesianos de Araçatuba/SP, Campo Grande/MS, São Carlos/SP e Alto Araguaia/MT. Ainda em 1981 retorna para Três Lagoas. Casou com Soraya em 1984, com a qual tem dois filhos (Thais e Yuri).
      Reside na Cidade de Porto Seguro/Bahia desde 1988.
      Em Três Lagoas estampava seus poemas no Jornal do Povo, tendo publicado em 1982 o Livro O SOL DA DOR DA TERRA; em 1984 O Livro MEMORINHA - POEMAS INFANTIS e em 1985 o Livro ATO DE POEMA E UMA CANÇÃO e 1986 AMOROSIDADE. 

LIVROS RECENTES: 

CRÔNICAS ABERTAS - Poemas - 2018
DOCES DOSES de POESIA - Aldravias - 2018
VERSOS de VIDRO e AREIA - 2019
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - 2019
LÁ PELAS TANTAS DA VIDA - 2019
FAZENDA HAICAIS - 2020
ABELHINHA PEQUETELLA - 2020
POETA ENTRE COLUNAS - 2020
POEMAS QUE VOCÊ FEZ PRA MIM - Vol.2 - 2020
NAS ASAS DAS HORAS - 2020
BULBOS diVERSOS - 2021
SONETOS ESQUISITOS PARA NINAR MOSQUITOS - 2021
BORDEJAR - 2021
PLENO ESTADO DE POESIA - Poemas Reunidos Até Aqui - 2021

Membro da ALB - Academia de Letras do Brasil - Cadeira 18 - Seccional Porto Seguro/Ba.
Membro da ALSPV - Academia de Letras Sociedade dos Poetas Virtuais - Cadeira 38.