paulo63

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Feliz!!!!

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Já era tarde....

Já era tarde, sem alardear abriu a porta igual ao andar macio do gato que espreita a presa. Carregava além dos olhos tristes, as mãos calejadas e um sorriso tímido. Sua barba já estava no ponto de ser aparada. A luminosidade de seu rosto contrastava com a pouca luz que invadia o ambiente. A sala era composta de paredes que guardavam lembranças empoeiradas, sobre a mesa de quatro cadeiras um lampião enfumaçado suspirava a última chama de uma paixão. No fogão, a panela ainda guardava o calor do alimento. Pela fresta da porta era possível ver o outro lado. Pouca coisa se via.
Os primeiros passos foram dados de forma quase que imperceptível. Logo ao chegar o ranger da porta o denuncia. Ela percebe o movimento e indaga sobre a hora. Ele desconversa. Andou perambulando pela cidade, organizando as ideias. Devido a pouca claridade do quarto, a luz sobre a cama era quase neon, a janela aberta e a claridade da lua com a ajuda preguiçosa do candieiro faziam o cenário sob seus olhos refletirem a beleza singular da mulher que se estendia naquela cama.
Ela se endireitou e o chamou para perto de si. Pediu que sentasse. Ela tinha o perfume enebriante e ele o suor de um dia. Permaneceu cabisbaixo. Ela ainda procurava entender o porquê da inquietação que o acompanhava. Ele guardava ainda nos olhos a paixão de outrora, mesmo com todos os percalços que o tempo moldou. Certa vez leu que o raio não tinha só beleza. Na verdade, não sabia administrar a mudança do tempo, não compreendia os sons do vento e nem o que os pingos da chuva traduziam. A segurou pela mão e a beijou na testa, saiu em direção ao banheiro. Sua visão ficou turva com o transbordar da represa de seus olhos. Por um instante levou as mãos ao rosto e sentiu o perfume dos anos.
Quando voltou, ela já adormecia, carregava dentro de si as mudanças, ele ainda transbordava suas inquietações. Na forma horizontal ela era transformada em poesia. Tudo aquilo que estava acontecendo era somente amor.
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Poemas

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Por um triz

Estou por um triz
A flor da pele
O sol se pondo
E a noite fria me perguntando
Se eu vou resistir
Estou a par
Estou silente
Esperando o desdobrar
De meu coração
Eu sou assim
Meio cru
Acomodando os pedaços
Minha defesa
Está em frangalhos
Continuo jogando
Continuo esperando
O apito final.
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A dor que dilacera os olhos....

Não sei porque de vez em quando essa frase de Cecília Meireles me vem a mente. "A maior pena que tenho, punhal de prata, não é a de me ver morrendo, mas saber quem me mata". A dor que dilacera os olhos, encobre sorrisos e anoitece a alma. Fui perguntado porque não me sensibilizei quando estive no Museu dos Direitos Humanos em Santiago. Porque não chorei. Não consegui explicar. Da Praça de Armas até o Museu é um bom pedaço caminhado. O sol escaldante e Santiago com suas ruas transversais, sua arquitetura mais para o neo clássico do que para o colonial faziam meus olhos cintilarem junto ao sol.
​O certo é que caminhávamos e perseguíamos as ruas. Em minha cabeça uma interrogação. O que haveria de se ver naquele museu? Por um breve momento fiquei atônito com a buzina de um carro e um estrondo. Coisa sem importância no país de um antigo Pinochet. Continuamos a seguir. Do ponto onde se estava a rua se alargou, era possível ver a praça, um parque e ao lado o Museu dos Direitos Humanos.
​Depois de uma breve parada, descemos as escadas com passos lentos, o suor perseguia minha camisa e acomodava sua salinidade em meus poros. Entramos e como se fosse um túnel do tempo começamos a ver o quão a dor dilacera os sonhos. Sonhos que se apagam pelo assopro de uma bala. Fiquei meio confuso e confesso que, em cada passo uma revelação se fazia angustiante, um sofrimento silencioso, uma dor muda. Os corredores do museu eram preenchidos pela história sem flor. Algumas dezenas de alunos que, de forma atenciosa, via e ouvia a explicação do mestre. Lembrei da música Sentinela do Milton. "...memória não morrerá...". Naquele dia, cada andar carregava angustias diferenciadas. Mantive-me anestesiado.
​Minha companheira, soluçava a cada foto ou fato que via, seus olhos merejados dialogavam com a dor. Até parecia que era transportada para um labirinto sem fim. Continuava com meu semblante a parecer inquebrável, sisudo, aparentemente. O elevador, o badalar do sino em meu coração o fazia mais fraco a cada batida. Continuava firme. Na parede, o escrito de Carlos: "Para mi madre, mi hermana y mi amigo, Personas que quería encontrar." Queria saber, queria reencontrar, sabia que era impossível. Engoli seco e segui. A foto do pai guatemalteco que sobre a cova de seus três filhos observava o tempo. Não foi possível ver os seus olhos, acho que não suportaria vê-los.
​Saímos e voltamos. Depois de compreender um ponto sobre o golpe militar saímos novamente e tomamos um café. Ficamos ali por uns breves minutos. O silêncio continuava a me acompanhar. Se eu chorei? Somente minha alma sabe. "Un pueblo sen memoria es um pueblo sin futuro."
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Lembrança do Fundo da Manga/MG

Já é final de tarde. A noite com sua sutileza poética embebedou o sol fazendo-o dormir por detrás das montanhas. Em nossa casa, entre conversas paralelas são as gargalhadas que revelam segredos desnudados ao pé do ouvido. Os trovões ao longe, o bater de portas, o vento que assovia e a procura pelos cães de um lugar seguro anuncia a chegada da chuva. São as telhas de barro batido as primeiras a receberem os pingos que bem mansamente irão retirar o pó da terra exalando seu cheiro molhado.
Minha mãe, com seus olhos tristes, mãos compridas, pele rosada e cabelos negros como a noite, ao passo que contempla pela janela a chuva, assopra o fogo desfazendo as intenções insistentes do vento. A chaleira ainda contém água fervente e o café há pouco passado invade os quatro cômodos da casa com seu aroma inconfundível. A gata malhada com os olhos entreabertos encosta-se ao pé da mesa a espera da sua ninhada que brinca por perto.
O puxar da cadeira arrastada era e é característico de meu pai. Sua pouca idade já revelava sua calvície que não tardaria a chegar, sua pele avermelhada e seu bigode ralo contrastava com sua barba por fazer. Suas mãos calejadas pelo labor da roça e sua camisa puída aberta até a altura do peito combinava com o ar bucólico do interior. Sobre a mesa o chapéu e o canivete que às vezes servia para limpar as unhas. As botas encostadas na porta recebia os pingos de uma goteira preguiçosa.
O olhar pidão dos meninos em meio a tantas risadas era por biscoito de queijo que se encontrava na dispensa. As calças curtas, os pés sujos e o tom amarelado nas bocas deixado pelas mangas revelavam lembranças já esmaecidas.
Ao fundo da casa, o ribeirão Riacho Fundo encorpado devido à chuva arrastava galhos secos e árvores já mortas pelo tempo. Renovava sua água cristalina matizando com os barrancos outras tonalidades de cores. Sua força era tanta que o medo impedia uma aproximação mais íntima. Passado alguns dias, a humildade do mesmo era percebida na mansidão com que corria rumo ao mar. Em época de calmaria, era possível ouvir o cantarolar de mulheres sovando roupas em suas pedras.
Os Mangues, o Fundo da Manga e o ribeirão Riacho Fundo revelam o amor de meu pai, de minha mãe e porque não dizer, o meu. Riacho fundo, me leve aonde for. Em seus braços, serei só canção. Enfim, represo em meus olhos, os segredos do amor. Que deságuo em teu leito, para o fundo do mar.
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Já era tarde....

Já era tarde, sem alardear abriu a porta igual ao andar macio do gato que espreita a presa. Carregava além dos olhos tristes, as mãos calejadas e um sorriso tímido. Sua barba já estava no ponto de ser aparada. A luminosidade de seu rosto contrastava com a pouca luz que invadia o ambiente. A sala era composta de paredes que guardavam lembranças empoeiradas, sobre a mesa de quatro cadeiras um lampião enfumaçado suspirava a última chama de uma paixão. No fogão, a panela ainda guardava o calor do alimento. Pela fresta da porta era possível ver o outro lado. Pouca coisa se via.
Os primeiros passos foram dados de forma quase que imperceptível. Logo ao chegar o ranger da porta o denuncia. Ela percebe o movimento e indaga sobre a hora. Ele desconversa. Andou perambulando pela cidade, organizando as ideias. Devido a pouca claridade do quarto, a luz sobre a cama era quase neon, a janela aberta e a claridade da lua com a ajuda preguiçosa do candieiro faziam o cenário sob seus olhos refletirem a beleza singular da mulher que se estendia naquela cama.
Ela se endireitou e o chamou para perto de si. Pediu que sentasse. Ela tinha o perfume enebriante e ele o suor de um dia. Permaneceu cabisbaixo. Ela ainda procurava entender o porquê da inquietação que o acompanhava. Ele guardava ainda nos olhos a paixão de outrora, mesmo com todos os percalços que o tempo moldou. Certa vez leu que o raio não tinha só beleza. Na verdade, não sabia administrar a mudança do tempo, não compreendia os sons do vento e nem o que os pingos da chuva traduziam. A segurou pela mão e a beijou na testa, saiu em direção ao banheiro. Sua visão ficou turva com o transbordar da represa de seus olhos. Por um instante levou as mãos ao rosto e sentiu o perfume dos anos.
Quando voltou, ela já adormecia, carregava dentro de si as mudanças, ele ainda transbordava suas inquietações. Na forma horizontal ela era transformada em poesia. Tudo aquilo que estava acontecendo era somente amor.
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