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Cães (Pelópidas Gouvêa)

Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.

De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.

Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;

Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
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Poemas

20

Ela (Pelópidas Gouvêa)

Bem-aventurada, sublime e única.
Desprendimento e bondade.
Gênese!
Na vida é toda amor,
Na morte, eterna saudade.
Ela, sempre Ela - Mãe!
154

Maio (Pelópidas Gouvêa)

Em tempos idos quando Maio vinha
Trazendo luz de um sol que não morria,
Florindo o campo, o vale, a serrania,
De incenso enchendo a antiga Capelinha;

Do passaredo alegre, a sinfonia
Lembrava à gente, a santa ladainha,
Hino de glória, salmos à Rainha
Virgem de Maio, divinal Maria.

E lá no céu imenso, azul-turqueza,
A lua branca - sideral princesa -
Deixava em tudo seu fulgente raio.

Hoje recordo cheio de saudade,
De minha mãe, o amor, a fé, piedade,
Em tempos idos, quando vinha Maio!
165

Cães (Pelópidas Gouvêa)

Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.

De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.

Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;

Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
178

Estrada da vida (Pelópidas Gouvêa)

Da vida, à percorrer, é curta a estrada
Curta e falaz; no início doce leito,
De alamedas floridas, todo feito;
Acariciante brisa e luz dourada.

Mais alguns passos e ei-la acidentada:
Trechos de espinho que nos fere o peito,
A hipocrisia, a inveja, vil despeito
E a dor secreta n'alma sepultada.

Crestada a pele, alquebrantado o dorso,
Colado à encosta, num supremo esforço,
Galga-se enfim o cimo da colina;...

E ali, de um arvoredo curvo e falho
De clorofilas, hirto, um velho galho
Aponta a estrada que a seguir se enclina...
137

O adeus do sol (Pelópidas Gouvêa)

Ave-Maria o sino badaleja,
Desaparece a última andorinha;
Do sol no poente a luz em leque beija,
Em despedida, a nuvem mais vizinha.

Furtivamente, lá no céu, lampeja
A branca estrela Vésper, - vem sozinha -
Círio, velando a tardeque ainda arqueja,
Dos horizontes, na purpúrea linha.

Revoam pássaros beirano os ninhos,
Em defesa, talvez, dos passarinhos
Que se aninham à luz de um arrebol.

Silêncio estranho envolve a natureza,
É tudo encanto, além, tudo é grandeza,
Em apoteose de luz - O adeus do Sol!
165

O Médico (Pelópidas Gouvêa)

Ser médico e ter sempre em risco a vida,
Jamais negar-se ao próprio sacrifício,
Fazer aos inimigos benefício,
Sem outra paga que não a da ação cumprida.

Ser médico é ser cego ao artifício,
Mudo ao queixume, à confissão contida
Pela vergonha de íntima ferida,
E não poder sanar o malefício...

Ser médico é passar pela amargura
De ver, inerte, em dores a criatura.
E, quanta vez? (desapiedosa sorte!)

Contendo a lágrima que se derrama,
Ouvir, tremente, o peito à quem nos ama,
Sentindo dele aproximar-se a morte!
167

Entre o mar e o céu (Pelópidas Gouvêa)

Velejando a jangada, rumo sul,
O jangadeiro vai à pescaria.
Embaixo o mar, em cim o céu azul.

Na praia a noiva ao pescador vigia...
Se foi com ele todo seu amor,
Ficou com ela só melancolia.

E de tardinha, ao loiro sol se pôr,
Desarvorada dá na praia, ao léu,
A jangadinha sem o pescador...

Do crepúsculo envolta em roxo véu,
A pobre noiva soluçante espera,
Interpelando o mar, rogando ao céu!
165

A Violeta (Pelópidas Gouvêa)

Humildemente oculta na folhagem
Que a viu nascer e se fazer em flôr,
Tem a violeta singular imagem

Guarda ciumenta seu sutil odor,
Que, à sombra amena de úmidos recantos,
Doce se evola denunciando a flôr.

Violeta mística de mil encantos,
Que mais se exalta pela singeleza,
Pelo recato de fascínios tantos.

Entanto, mesmo a senhoril princesa
Para colher, ao pé, a humilde flôr,
Fá-lo curvada e dócil - Sua Alteza!
167

Cristo Redentor (Pelópidas Gouvêa)

Em pleno espaço azul do firmamento,
Do "Corcovado" além, Jesus, clemente,
Os braços abre acolhedoramente,
Fitano a terra e o mar, piedoso e atento.

As mãos estende aos olhos do descrente,
Mostrando em cada palma um ferimento,
Marca dos cravos, rudo sofrimento,
Que Ele aceitou p'ra redimir a gente...

Convida, em vão, Jesus à Eucaristia:
A mesa do perdão, se faz vazia...
Negam a Deus, fugindo à Santa Luz!

Cristo perdoa e volta a aconselhar;
Zeloso, aos ímpios desce o meigo olhar,
Braços abertos à feição da Cruz!
174

Rio de Janeiro (Pelópidas Gouvêa)

Cidade linda de contraste vivo:
De um lado o marque a onda altea
E, com fragor, impele sobre a areia
- Branco lençol de folios e de crivo;

De arranha céus a sólida cadeia
Parece opor-se ao mar intempestivo.
No grande asfalto - centro produtivo -
Desgasta-se o homem na brutal colméia.

De luxo, passam desabridamente,
Os automóveis obstruindo as ruas,
Deixando opresso o coração da gente.

Nas praias chiques as mulheres belas,
À luz do sol, se exibem semi-nuas...
Enquanto aflige, o quadro das favelas!
157

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