A Violeta (Pelópidas Gouvêa)
Humildemente oculta na folhagem
Que a viu nascer e se fazer em flôr,
Tem a violeta singular imagem
Guarda ciumenta seu sutil odor,
Que, à sombra amena de úmidos recantos,
Doce se evola denunciando a flôr.
Violeta mística de mil encantos,
Que mais se exalta pela singeleza,
Pelo recato de fascínios tantos.
Entanto, mesmo a senhoril princesa
Para colher, ao pé, a humilde flôr,
Fá-lo curvada e dócil - Sua Alteza!
Estrada da vida (Pelópidas Gouvêa)
Da vida, à percorrer, é curta a estrada
Curta e falaz; no início doce leito,
De alamedas floridas, todo feito;
Acariciante brisa e luz dourada.
Mais alguns passos e ei-la acidentada:
Trechos de espinho que nos fere o peito,
A hipocrisia, a inveja, vil despeito
E a dor secreta n'alma sepultada.
Crestada a pele, alquebrantado o dorso,
Colado à encosta, num supremo esforço,
Galga-se enfim o cimo da colina;...
E ali, de um arvoredo curvo e falho
De clorofilas, hirto, um velho galho
Aponta a estrada que a seguir se enclina...
Idealismo (Euzébio de Carvalho Guerra)
Embora sintas a aridez da terra,
semeia...
Mesmo que disso fique
apenas o teu gesto
e que o suponhas inútil
semeia...
Se vozes estranhas
te quebrarem o ânimo,
ou se mãos inimigas
te afastarem do campo,
ergue a cabeça, volta e
semeia...
Não penses nunca na colheita...
Ela há de vir um dia,
e, para teu consolo,
há de ser farta e boa.
Basta, que a semente seja pura
e que molhes a terra,
a abençoada terra do teu sonho,
com o sangue do teu idealismo!
Rio São Francisco (Pelópidas Gouvêa)
Quando demoromeu olhar nas águas
Do caudaloso rio São Francisco,
Admiro, em cardume, o peixe arisco
E a esteira branca que nos leva as mágoas.
Sob um céu claro - luminoso disco -
Ardem nos pastos crepitantes frágoas;
Ao sol, nas margens, secam as anáguas
E a cabocla jeitosa faz petisco.
Desce o "Gaiola" deslizando a quilha
À flor da correnteza, milha a milha,
E mais se vê crescer a terra do agreste.
Ó São Francisco, rio de águas mansas,
Serás um dia, ó rio de esperanças,
A Redeção do povo do Nordeste!
Ela (Pelópidas Gouvêa)
Bem-aventurada, sublime e única.
Desprendimento e bondade.
Gênese!
Na vida é toda amor,
Na morte, eterna saudade.
Ela, sempre Ela - Mãe!
Fim! (Pelópidas Gouvêa)
Horizonte confuso, luz escassa,
Mal, a paisagem, ilumina agora.
O sol se ponha ou reapareça a aurora,
A luz é a mesma, bruxoleante e bassa.
Palmeira esbelta e verdejante outrora,
Já não dá sombra a quem por ela passa;
Curvada, o caule todo o musgo enlaça,
Asfixia e, voraz, corroe, desflora.
Descamba o sol, seus últimos lampejos
São como adeuses, derradeiros beijos
De ressequido lábio descorado...
Amanhã de manhã, talvez a luz
Aclare, da palmeira, ao pé da cruz,
O velho estipe sobre o chão tombado!..
Amor de mãe (Pelópidas Gouvêa)
Num prostíbulo, ardendo em febre, chora
Inquieta, debatendo-se, a criancinha.
Ao pé do leito u'a mulher implora
E, maternal, abraça-se à doentinha.
Na morna alcova, onde a volúpia mora
E a boca impura, os beijos amesquinha,
A mesma boca que assim beija, agora
Se purifica ao murmurar: filhinha...
Naquela cena em meio ã desventura,
Paira sublime, plena de beleza,
Esta verdade santamente pura:
Que importa o berço, a cor, as condições? ...
No fausto que desdenha ou na pobreza,
O amor de Mãe nivela os corações!
O adeus do sol (Pelópidas Gouvêa)
Ave-Maria o sino badaleja,
Desaparece a última andorinha;
Do sol no poente a luz em leque beija,
Em despedida, a nuvem mais vizinha.
Furtivamente, lá no céu, lampeja
A branca estrela Vésper, - vem sozinha -
Círio, velando a tardeque ainda arqueja,
Dos horizontes, na purpúrea linha.
Revoam pássaros beirano os ninhos,
Em defesa, talvez, dos passarinhos
Que se aninham à luz de um arrebol.
Silêncio estranho envolve a natureza,
É tudo encanto, além, tudo é grandeza,
Em apoteose de luz - O adeus do Sol!
Partida do rebanho (Pelópidas Gouvêa)
Paira ao redor da casa, do mangueiro,
Em tudo ali, silêncio estranho e forte.
Dir-se-ia, talvez, que o hálito da morte
Enchera de tristeza o ambiente inteiro.
Mudou na herdade, totalmente, a sorte,
Não mais se vê na lida, audaz, ligeiro,
Jogar o laço, intrépido vaqueiro,
Filho do sul ou do longínquo norte.
Tudo é vazio, campos e currais,
Dos bezerrinhos não se escuta mais
Triste mugido em rústica balada.
Foi-se o rebanho... Só se escuta agora
De uma buzina além, a voz sonora
E vê-se apenas, longe, o pó da estrada!
Sabendas (Pelópidas Gouvêa)
O homem, na sua grande maioria,
Na maioria mesmo dos mentores,
Como o balão, inflado e de mil cores,
Sem "gaz" se apaga e quase se esvasia...
Exaltando seus múltiplos pendores,
Deixa patente sua egolatria.
De seu fátuo saber se vangloria
E se crê favoritos entre os doutores!
De apenas panorâmica cultura,
Já se diz mestre de literatura
E se exede na crítica aos geniais!..
Assim se vem tecendo a "nova" História:
Sábios extintos, sem Panteão de glória!
Lidos obscenos, entre os "Imortais"!