A Violeta (Pelópidas Gouvêa)
Humildemente oculta na folhagem
Que a viu nascer e se fazer em flôr,
Tem a violeta singular imagem
Guarda ciumenta seu sutil odor,
Que, à sombra amena de úmidos recantos,
Doce se evola denunciando a flôr.
Violeta mística de mil encantos,
Que mais se exalta pela singeleza,
Pelo recato de fascínios tantos.
Entanto, mesmo a senhoril princesa
Para colher, ao pé, a humilde flôr,
Fá-lo curvada e dócil - Sua Alteza!
Piedosa Mentira (Pelópidas Gouvêa)
O mentiroso, ser imponderado,
Que a sociedade marca e repudia
É um ente frívolo, desajustado,
Que todos leva à desarmonia;
Que traz na língua o vírus do pecado,
Urdindo a cada instante uma heresia.
Dói-nos vê-lo versátil, dominado,
Pelas tendências à mitomania...
Cícero, em Äcadêmicas", sofisma,
Zenon, em Ärgumento Mentiroso",
Ambos comentam sobre dúbio prisma..
Ao doente - face à morte em rude assédio -
Viverás, diz o médico piedoso...
Santa mentira, último reédio!..
Entre o mar e o céu (Pelópidas Gouvêa)
Velejando a jangada, rumo sul,
O jangadeiro vai à pescaria.
Embaixo o mar, em cim o céu azul.
Na praia a noiva ao pescador vigia...
Se foi com ele todo seu amor,
Ficou com ela só melancolia.
E de tardinha, ao loiro sol se pôr,
Desarvorada dá na praia, ao léu,
A jangadinha sem o pescador...
Do crepúsculo envolta em roxo véu,
A pobre noiva soluçante espera,
Interpelando o mar, rogando ao céu!
Idealismo (Euzébio de Carvalho Guerra)
Embora sintas a aridez da terra,
semeia...
Mesmo que disso fique
apenas o teu gesto
e que o suponhas inútil
semeia...
Se vozes estranhas
te quebrarem o ânimo,
ou se mãos inimigas
te afastarem do campo,
ergue a cabeça, volta e
semeia...
Não penses nunca na colheita...
Ela há de vir um dia,
e, para teu consolo,
há de ser farta e boa.
Basta, que a semente seja pura
e que molhes a terra,
a abençoada terra do teu sonho,
com o sangue do teu idealismo!
Cães (Pelópidas Gouvêa)
Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.
De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.
Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;
Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
Rio de Janeiro (Pelópidas Gouvêa)
Cidade linda de contraste vivo:
De um lado o marque a onda altea
E, com fragor, impele sobre a areia
- Branco lençol de folios e de crivo;
De arranha céus a sólida cadeia
Parece opor-se ao mar intempestivo.
No grande asfalto - centro produtivo -
Desgasta-se o homem na brutal colméia.
De luxo, passam desabridamente,
Os automóveis obstruindo as ruas,
Deixando opresso o coração da gente.
Nas praias chiques as mulheres belas,
À luz do sol, se exibem semi-nuas...
Enquanto aflige, o quadro das favelas!
Estrada da vida (Pelópidas Gouvêa)
Da vida, à percorrer, é curta a estrada
Curta e falaz; no início doce leito,
De alamedas floridas, todo feito;
Acariciante brisa e luz dourada.
Mais alguns passos e ei-la acidentada:
Trechos de espinho que nos fere o peito,
A hipocrisia, a inveja, vil despeito
E a dor secreta n'alma sepultada.
Crestada a pele, alquebrantado o dorso,
Colado à encosta, num supremo esforço,
Galga-se enfim o cimo da colina;...
E ali, de um arvoredo curvo e falho
De clorofilas, hirto, um velho galho
Aponta a estrada que a seguir se enclina...
Ela (Pelópidas Gouvêa)
Bem-aventurada, sublime e única.
Desprendimento e bondade.
Gênese!
Na vida é toda amor,
Na morte, eterna saudade.
Ela, sempre Ela - Mãe!
Rio São Francisco (Pelópidas Gouvêa)
Quando demoromeu olhar nas águas
Do caudaloso rio São Francisco,
Admiro, em cardume, o peixe arisco
E a esteira branca que nos leva as mágoas.
Sob um céu claro - luminoso disco -
Ardem nos pastos crepitantes frágoas;
Ao sol, nas margens, secam as anáguas
E a cabocla jeitosa faz petisco.
Desce o "Gaiola" deslizando a quilha
À flor da correnteza, milha a milha,
E mais se vê crescer a terra do agreste.
Ó São Francisco, rio de águas mansas,
Serás um dia, ó rio de esperanças,
A Redeção do povo do Nordeste!
Amor de mãe (Pelópidas Gouvêa)
Num prostíbulo, ardendo em febre, chora
Inquieta, debatendo-se, a criancinha.
Ao pé do leito u'a mulher implora
E, maternal, abraça-se à doentinha.
Na morna alcova, onde a volúpia mora
E a boca impura, os beijos amesquinha,
A mesma boca que assim beija, agora
Se purifica ao murmurar: filhinha...
Naquela cena em meio ã desventura,
Paira sublime, plena de beleza,
Esta verdade santamente pura:
Que importa o berço, a cor, as condições? ...
No fausto que desdenha ou na pobreza,
O amor de Mãe nivela os corações!