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Cães (Pelópidas Gouvêa)

Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.

De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.

Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;

Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
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Poemas

20

Cães (Pelópidas Gouvêa)

Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.

De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.

Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;

Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
178

O adeus do sol (Pelópidas Gouvêa)

Ave-Maria o sino badaleja,
Desaparece a última andorinha;
Do sol no poente a luz em leque beija,
Em despedida, a nuvem mais vizinha.

Furtivamente, lá no céu, lampeja
A branca estrela Vésper, - vem sozinha -
Círio, velando a tardeque ainda arqueja,
Dos horizontes, na purpúrea linha.

Revoam pássaros beirano os ninhos,
Em defesa, talvez, dos passarinhos
Que se aninham à luz de um arrebol.

Silêncio estranho envolve a natureza,
É tudo encanto, além, tudo é grandeza,
Em apoteose de luz - O adeus do Sol!
165

Maio (Pelópidas Gouvêa)

Em tempos idos quando Maio vinha
Trazendo luz de um sol que não morria,
Florindo o campo, o vale, a serrania,
De incenso enchendo a antiga Capelinha;

Do passaredo alegre, a sinfonia
Lembrava à gente, a santa ladainha,
Hino de glória, salmos à Rainha
Virgem de Maio, divinal Maria.

E lá no céu imenso, azul-turqueza,
A lua branca - sideral princesa -
Deixava em tudo seu fulgente raio.

Hoje recordo cheio de saudade,
De minha mãe, o amor, a fé, piedade,
Em tempos idos, quando vinha Maio!
165

O Médico (Pelópidas Gouvêa)

Ser médico e ter sempre em risco a vida,
Jamais negar-se ao próprio sacrifício,
Fazer aos inimigos benefício,
Sem outra paga que não a da ação cumprida.

Ser médico é ser cego ao artifício,
Mudo ao queixume, à confissão contida
Pela vergonha de íntima ferida,
E não poder sanar o malefício...

Ser médico é passar pela amargura
De ver, inerte, em dores a criatura.
E, quanta vez? (desapiedosa sorte!)

Contendo a lágrima que se derrama,
Ouvir, tremente, o peito à quem nos ama,
Sentindo dele aproximar-se a morte!
167

Brasil (Pelópidas Gouvêa)

Brasil, maravilhosa natureza
De mar cerúleo e rio cristalino.
É sua história incomparável hino
De glórias, de labor e de beleza

Vestindo as cores vivas da realeza
Gigante que é da América o destino,
Os pés plantados no vergel sulino
Ergue-se só, com varonil firmeza.

Pulsa seu doce e nobre coração
Nas planícies centrais, no solo quente,
Nas verdejantes matas do sertão.

Alta a cabeça, luminosa e forte,
Vibra pensante, num vigor crescente,
Nas plagas tropicais do heróico Norte.
168

Cristo Redentor (Pelópidas Gouvêa)

Em pleno espaço azul do firmamento,
Do "Corcovado" além, Jesus, clemente,
Os braços abre acolhedoramente,
Fitano a terra e o mar, piedoso e atento.

As mãos estende aos olhos do descrente,
Mostrando em cada palma um ferimento,
Marca dos cravos, rudo sofrimento,
Que Ele aceitou p'ra redimir a gente...

Convida, em vão, Jesus à Eucaristia:
A mesa do perdão, se faz vazia...
Negam a Deus, fugindo à Santa Luz!

Cristo perdoa e volta a aconselhar;
Zeloso, aos ímpios desce o meigo olhar,
Braços abertos à feição da Cruz!
174

Estrada da vida (Pelópidas Gouvêa)

Da vida, à percorrer, é curta a estrada
Curta e falaz; no início doce leito,
De alamedas floridas, todo feito;
Acariciante brisa e luz dourada.

Mais alguns passos e ei-la acidentada:
Trechos de espinho que nos fere o peito,
A hipocrisia, a inveja, vil despeito
E a dor secreta n'alma sepultada.

Crestada a pele, alquebrantado o dorso,
Colado à encosta, num supremo esforço,
Galga-se enfim o cimo da colina;...

E ali, de um arvoredo curvo e falho
De clorofilas, hirto, um velho galho
Aponta a estrada que a seguir se enclina...
137

Rio São Francisco (Pelópidas Gouvêa)

Quando demoromeu olhar nas águas
Do caudaloso rio São Francisco,
Admiro, em cardume, o peixe arisco
E a esteira branca que nos leva as mágoas.

Sob um céu claro - luminoso disco - 
Ardem nos pastos crepitantes frágoas;
Ao sol, nas margens, secam as anáguas
E a cabocla jeitosa faz petisco.

Desce o "Gaiola" deslizando a quilha
À flor da correnteza, milha a milha,
E mais se vê crescer a terra do agreste.

Ó São Francisco, rio de águas mansas,
Serás um dia, ó rio de esperanças,
A Redeção do povo do Nordeste!
174

Ela (Pelópidas Gouvêa)

Bem-aventurada, sublime e única.
Desprendimento e bondade.
Gênese!
Na vida é toda amor,
Na morte, eterna saudade.
Ela, sempre Ela - Mãe!
154

Amor de mãe (Pelópidas Gouvêa)

Num prostíbulo, ardendo em febre, chora
Inquieta, debatendo-se, a criancinha.
Ao pé do leito u'a mulher implora
E, maternal, abraça-se à doentinha.

Na morna alcova, onde a volúpia mora
E a boca impura, os beijos amesquinha,
A mesma boca que assim beija, agora
Se purifica ao murmurar: filhinha...

Naquela cena em meio ã desventura,
Paira sublime, plena de beleza,
Esta verdade santamente pura:

Que importa o berço, a cor, as condições? ...
No fausto que desdenha ou na pobreza,
O amor de Mãe nivela os corações!
158

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