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Cães (Pelópidas Gouvêa)

Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.

De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.

Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;

Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.
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Poemas

20

Entre o mar e o céu (Pelópidas Gouvêa)

Velejando a jangada, rumo sul,
O jangadeiro vai à pescaria.
Embaixo o mar, em cim o céu azul.

Na praia a noiva ao pescador vigia...
Se foi com ele todo seu amor,
Ficou com ela só melancolia.

E de tardinha, ao loiro sol se pôr,
Desarvorada dá na praia, ao léu,
A jangadinha sem o pescador...

Do crepúsculo envolta em roxo véu,
A pobre noiva soluçante espera,
Interpelando o mar, rogando ao céu!
165

A Violeta (Pelópidas Gouvêa)

Humildemente oculta na folhagem
Que a viu nascer e se fazer em flôr,
Tem a violeta singular imagem

Guarda ciumenta seu sutil odor,
Que, à sombra amena de úmidos recantos,
Doce se evola denunciando a flôr.

Violeta mística de mil encantos,
Que mais se exalta pela singeleza,
Pelo recato de fascínios tantos.

Entanto, mesmo a senhoril princesa
Para colher, ao pé, a humilde flôr,
Fá-lo curvada e dócil - Sua Alteza!
167

Rio de Janeiro (Pelópidas Gouvêa)

Cidade linda de contraste vivo:
De um lado o marque a onda altea
E, com fragor, impele sobre a areia
- Branco lençol de folios e de crivo;

De arranha céus a sólida cadeia
Parece opor-se ao mar intempestivo.
No grande asfalto - centro produtivo -
Desgasta-se o homem na brutal colméia.

De luxo, passam desabridamente,
Os automóveis obstruindo as ruas,
Deixando opresso o coração da gente.

Nas praias chiques as mulheres belas,
À luz do sol, se exibem semi-nuas...
Enquanto aflige, o quadro das favelas!
157

Partida do rebanho (Pelópidas Gouvêa)

Paira ao redor da casa, do mangueiro,
Em tudo ali, silêncio estranho e forte.
Dir-se-ia, talvez, que o hálito da morte
Enchera de tristeza o ambiente inteiro.

Mudou na herdade, totalmente, a sorte,
Não mais se vê na lida, audaz, ligeiro,
Jogar o laço, intrépido vaqueiro,
Filho do sul ou do longínquo norte.

Tudo é vazio, campos e currais,
Dos bezerrinhos não se escuta mais
Triste mugido em rústica balada.

Foi-se o rebanho... Só se escuta agora
De uma buzina além, a voz sonora
E vê-se apenas, longe, o pó da estrada!
158

Sabendas (Pelópidas Gouvêa)

O homem, na sua grande maioria,
Na maioria mesmo dos mentores,
Como o balão, inflado e de mil cores,
Sem "gaz" se apaga e quase se esvasia...

Exaltando seus múltiplos pendores,
Deixa patente sua egolatria.
De seu fátuo saber se vangloria
E se crê favoritos entre os doutores!

De apenas panorâmica cultura,
Já se diz mestre de literatura
E se exede na crítica aos geniais!..

Assim se vem tecendo a "nova" História:
Sábios extintos, sem Panteão de glória!
Lidos obscenos, entre os "Imortais"!
182

Piedosa Mentira (Pelópidas Gouvêa)

O mentiroso, ser imponderado,
Que a sociedade marca e repudia
É um ente frívolo, desajustado,
Que todos leva à desarmonia;

Que traz na língua o vírus do pecado,
Urdindo a cada instante uma heresia.
Dói-nos vê-lo versátil, dominado,
Pelas tendências à mitomania...

Cícero, em Äcadêmicas", sofisma,
Zenon, em Ärgumento Mentiroso",
Ambos comentam sobre dúbio prisma..

Ao doente - face à morte em rude assédio - 
Viverás, diz o médico piedoso...
Santa mentira, último reédio!..
159

O Poeta (Pelópidas Gouvêa)

Excelso peregrino universal,
Templário Sonhador de Céus ausentes,
Da coisa bela e sobrenatural.

Ispirado das Musas, refulgentes,
Paladino elegante do lirismo,
Que o verso canta em rimas reticentes.

Fiel adepto do romantissismo,
Do casto enlevo de um amor sonhado,
Do drama nos enredos, no eufemismo.

Cavaleiro do ideal na glória ungido
O poeta! Ídolo imortalizado
No áureo poema por si, talvez vivido!..
167

Idealismo (Euzébio de Carvalho Guerra)

Embora sintas a aridez da terra,
semeia...

Mesmo que disso fique
apenas o teu gesto
e que o suponhas inútil
semeia...

Se vozes estranhas
te quebrarem o ânimo,
ou se mãos inimigas
te afastarem do campo,
ergue a cabeça, volta e
semeia...

Não penses nunca na colheita...
Ela há de vir um dia,
e, para teu consolo,
há de ser farta e boa.

Basta, que a semente seja pura
e que molhes a terra,
a abençoada terra do teu sonho,
com o sangue do teu idealismo!
167

Teu retrato (Pelópidas Gouvêa)

O teu retrato à beira-mar pousado,
À luz de um sol pendente, quase posto,
Tem a fiel doçura do teu rosto,
Da tua face o tom aveludado.

Pelo correio já nos fins de agosto,
Recebi-o, de rosas perfumado.
Da saudade senti-me confortado,
Na carícia de um beijo dado a gosto...

Fitando-a a sós, mais uma vez o beijo,
Mas, se arrefece logo meu desejo
Ante a fria e penosa realidade...

Antes não o visse, nunca, asim perfeito...
Não sentiria, no sofrido peito,
Recrudescer a minha atroz saudade!
169

Fim! (Pelópidas Gouvêa)

Horizonte confuso, luz escassa,
Mal, a paisagem, ilumina agora.
O sol se ponha ou reapareça a aurora,
A luz é a mesma, bruxoleante e bassa.

Palmeira esbelta e verdejante outrora,
Já não dá sombra a quem por ela passa;
Curvada, o caule todo o musgo enlaça,
Asfixia e, voraz, corroe, desflora.

Descamba o sol, seus últimos lampejos
São como adeuses, derradeiros beijos
De ressequido lábio descorado...

Amanhã de manhã, talvez a luz
Aclare, da palmeira, ao pé da cruz,
O velho estipe sobre o chão tombado!..
172

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