Teu retrato (Pelópidas Gouvêa)
O teu retrato à beira-mar pousado,
À luz de um sol pendente, quase posto,
Tem a fiel doçura do teu rosto,
Da tua face o tom aveludado.
Pelo correio já nos fins de agosto,
Recebi-o, de rosas perfumado.
Da saudade senti-me confortado,
Na carícia de um beijo dado a gosto...
Fitando-a a sós, mais uma vez o beijo,
Mas, se arrefece logo meu desejo
Ante a fria e penosa realidade...
Antes não o visse, nunca, asim perfeito...
Não sentiria, no sofrido peito,
Recrudescer a minha atroz saudade!
Rio de Janeiro (Pelópidas Gouvêa)
Cidade linda de contraste vivo:
De um lado o marque a onda altea
E, com fragor, impele sobre a areia
- Branco lençol de folios e de crivo;
De arranha céus a sólida cadeia
Parece opor-se ao mar intempestivo.
No grande asfalto - centro produtivo -
Desgasta-se o homem na brutal colméia.
De luxo, passam desabridamente,
Os automóveis obstruindo as ruas,
Deixando opresso o coração da gente.
Nas praias chiques as mulheres belas,
À luz do sol, se exibem semi-nuas...
Enquanto aflige, o quadro das favelas!
Brasil (Pelópidas Gouvêa)
Brasil, maravilhosa natureza
De mar cerúleo e rio cristalino.
É sua história incomparável hino
De glórias, de labor e de beleza
Vestindo as cores vivas da realeza
Gigante que é da América o destino,
Os pés plantados no vergel sulino
Ergue-se só, com varonil firmeza.
Pulsa seu doce e nobre coração
Nas planícies centrais, no solo quente,
Nas verdejantes matas do sertão.
Alta a cabeça, luminosa e forte,
Vibra pensante, num vigor crescente,
Nas plagas tropicais do heróico Norte.
Entre o mar e o céu (Pelópidas Gouvêa)
Velejando a jangada, rumo sul,
O jangadeiro vai à pescaria.
Embaixo o mar, em cim o céu azul.
Na praia a noiva ao pescador vigia...
Se foi com ele todo seu amor,
Ficou com ela só melancolia.
E de tardinha, ao loiro sol se pôr,
Desarvorada dá na praia, ao léu,
A jangadinha sem o pescador...
Do crepúsculo envolta em roxo véu,
A pobre noiva soluçante espera,
Interpelando o mar, rogando ao céu!
Cristo Redentor (Pelópidas Gouvêa)
Em pleno espaço azul do firmamento,
Do "Corcovado" além, Jesus, clemente,
Os braços abre acolhedoramente,
Fitano a terra e o mar, piedoso e atento.
As mãos estende aos olhos do descrente,
Mostrando em cada palma um ferimento,
Marca dos cravos, rudo sofrimento,
Que Ele aceitou p'ra redimir a gente...
Convida, em vão, Jesus à Eucaristia:
A mesa do perdão, se faz vazia...
Negam a Deus, fugindo à Santa Luz!
Cristo perdoa e volta a aconselhar;
Zeloso, aos ímpios desce o meigo olhar,
Braços abertos à feição da Cruz!
Piedosa Mentira (Pelópidas Gouvêa)
O mentiroso, ser imponderado,
Que a sociedade marca e repudia
É um ente frívolo, desajustado,
Que todos leva à desarmonia;
Que traz na língua o vírus do pecado,
Urdindo a cada instante uma heresia.
Dói-nos vê-lo versátil, dominado,
Pelas tendências à mitomania...
Cícero, em Äcadêmicas", sofisma,
Zenon, em Ärgumento Mentiroso",
Ambos comentam sobre dúbio prisma..
Ao doente - face à morte em rude assédio -
Viverás, diz o médico piedoso...
Santa mentira, último reédio!..
O Poeta (Pelópidas Gouvêa)
Excelso peregrino universal,
Templário Sonhador de Céus ausentes,
Da coisa bela e sobrenatural.
Ispirado das Musas, refulgentes,
Paladino elegante do lirismo,
Que o verso canta em rimas reticentes.
Fiel adepto do romantissismo,
Do casto enlevo de um amor sonhado,
Do drama nos enredos, no eufemismo.
Cavaleiro do ideal na glória ungido
O poeta! Ídolo imortalizado
No áureo poema por si, talvez vivido!..
Maio (Pelópidas Gouvêa)
Em tempos idos quando Maio vinha
Trazendo luz de um sol que não morria,
Florindo o campo, o vale, a serrania,
De incenso enchendo a antiga Capelinha;
Do passaredo alegre, a sinfonia
Lembrava à gente, a santa ladainha,
Hino de glória, salmos à Rainha
Virgem de Maio, divinal Maria.
E lá no céu imenso, azul-turqueza,
A lua branca - sideral princesa -
Deixava em tudo seu fulgente raio.
Hoje recordo cheio de saudade,
De minha mãe, o amor, a fé, piedade,
Em tempos idos, quando vinha Maio!
O Médico (Pelópidas Gouvêa)
Ser médico e ter sempre em risco a vida,
Jamais negar-se ao próprio sacrifício,
Fazer aos inimigos benefício,
Sem outra paga que não a da ação cumprida.
Ser médico é ser cego ao artifício,
Mudo ao queixume, à confissão contida
Pela vergonha de íntima ferida,
E não poder sanar o malefício...
Ser médico é passar pela amargura
De ver, inerte, em dores a criatura.
E, quanta vez? (desapiedosa sorte!)
Contendo a lágrima que se derrama,
Ouvir, tremente, o peito à quem nos ama,
Sentindo dele aproximar-se a morte!
Cães (Pelópidas Gouvêa)
Os cães são cresos de fidelidade,
Uns, caçadores, vivem mais nas matas,
Outros, de "fila", rondam a cidade;
Na guerra os há para missões ingratas.
De estimação, alguns, na sociedade,
Tem o afago de mãos aristocratas;
Humildes, quantos, na adversidade,
Volvem o lixo, lacerando as patas.
Há dentre os cães, porém, um cão sem raça,
"Festeja e morde" a quem por ele passa:
É o homem judas, torpe, contumaz;
Cão rabujento, reles, asqueroso,
Julga ferir-nos (- pobre cão leproso - )
Ladrando à própria sombra - ladravaz.