O Poeta (Pelópidas Gouvêa)
Excelso peregrino universal,
Templário Sonhador de Céus ausentes,
Da coisa bela e sobrenatural.
Ispirado das Musas, refulgentes,
Paladino elegante do lirismo,
Que o verso canta em rimas reticentes.
Fiel adepto do romantissismo,
Do casto enlevo de um amor sonhado,
Do drama nos enredos, no eufemismo.
Cavaleiro do ideal na glória ungido
O poeta! Ídolo imortalizado
No áureo poema por si, talvez vivido!..
Partida do rebanho (Pelópidas Gouvêa)
Paira ao redor da casa, do mangueiro,
Em tudo ali, silêncio estranho e forte.
Dir-se-ia, talvez, que o hálito da morte
Enchera de tristeza o ambiente inteiro.
Mudou na herdade, totalmente, a sorte,
Não mais se vê na lida, audaz, ligeiro,
Jogar o laço, intrépido vaqueiro,
Filho do sul ou do longínquo norte.
Tudo é vazio, campos e currais,
Dos bezerrinhos não se escuta mais
Triste mugido em rústica balada.
Foi-se o rebanho... Só se escuta agora
De uma buzina além, a voz sonora
E vê-se apenas, longe, o pó da estrada!
Brasil (Pelópidas Gouvêa)
Brasil, maravilhosa natureza
De mar cerúleo e rio cristalino.
É sua história incomparável hino
De glórias, de labor e de beleza
Vestindo as cores vivas da realeza
Gigante que é da América o destino,
Os pés plantados no vergel sulino
Ergue-se só, com varonil firmeza.
Pulsa seu doce e nobre coração
Nas planícies centrais, no solo quente,
Nas verdejantes matas do sertão.
Alta a cabeça, luminosa e forte,
Vibra pensante, num vigor crescente,
Nas plagas tropicais do heróico Norte.
Cristo Redentor (Pelópidas Gouvêa)
Em pleno espaço azul do firmamento,
Do "Corcovado" além, Jesus, clemente,
Os braços abre acolhedoramente,
Fitano a terra e o mar, piedoso e atento.
As mãos estende aos olhos do descrente,
Mostrando em cada palma um ferimento,
Marca dos cravos, rudo sofrimento,
Que Ele aceitou p'ra redimir a gente...
Convida, em vão, Jesus à Eucaristia:
A mesa do perdão, se faz vazia...
Negam a Deus, fugindo à Santa Luz!
Cristo perdoa e volta a aconselhar;
Zeloso, aos ímpios desce o meigo olhar,
Braços abertos à feição da Cruz!
Fim! (Pelópidas Gouvêa)
Horizonte confuso, luz escassa,
Mal, a paisagem, ilumina agora.
O sol se ponha ou reapareça a aurora,
A luz é a mesma, bruxoleante e bassa.
Palmeira esbelta e verdejante outrora,
Já não dá sombra a quem por ela passa;
Curvada, o caule todo o musgo enlaça,
Asfixia e, voraz, corroe, desflora.
Descamba o sol, seus últimos lampejos
São como adeuses, derradeiros beijos
De ressequido lábio descorado...
Amanhã de manhã, talvez a luz
Aclare, da palmeira, ao pé da cruz,
O velho estipe sobre o chão tombado!..
Teu retrato (Pelópidas Gouvêa)
O teu retrato à beira-mar pousado,
À luz de um sol pendente, quase posto,
Tem a fiel doçura do teu rosto,
Da tua face o tom aveludado.
Pelo correio já nos fins de agosto,
Recebi-o, de rosas perfumado.
Da saudade senti-me confortado,
Na carícia de um beijo dado a gosto...
Fitando-a a sós, mais uma vez o beijo,
Mas, se arrefece logo meu desejo
Ante a fria e penosa realidade...
Antes não o visse, nunca, asim perfeito...
Não sentiria, no sofrido peito,
Recrudescer a minha atroz saudade!
Sabendas (Pelópidas Gouvêa)
O homem, na sua grande maioria,
Na maioria mesmo dos mentores,
Como o balão, inflado e de mil cores,
Sem "gaz" se apaga e quase se esvasia...
Exaltando seus múltiplos pendores,
Deixa patente sua egolatria.
De seu fátuo saber se vangloria
E se crê favoritos entre os doutores!
De apenas panorâmica cultura,
Já se diz mestre de literatura
E se exede na crítica aos geniais!..
Assim se vem tecendo a "nova" História:
Sábios extintos, sem Panteão de glória!
Lidos obscenos, entre os "Imortais"!
O adeus do sol (Pelópidas Gouvêa)
Ave-Maria o sino badaleja,
Desaparece a última andorinha;
Do sol no poente a luz em leque beija,
Em despedida, a nuvem mais vizinha.
Furtivamente, lá no céu, lampeja
A branca estrela Vésper, - vem sozinha -
Círio, velando a tardeque ainda arqueja,
Dos horizontes, na purpúrea linha.
Revoam pássaros beirano os ninhos,
Em defesa, talvez, dos passarinhos
Que se aninham à luz de um arrebol.
Silêncio estranho envolve a natureza,
É tudo encanto, além, tudo é grandeza,
Em apoteose de luz - O adeus do Sol!
O Médico (Pelópidas Gouvêa)
Ser médico e ter sempre em risco a vida,
Jamais negar-se ao próprio sacrifício,
Fazer aos inimigos benefício,
Sem outra paga que não a da ação cumprida.
Ser médico é ser cego ao artifício,
Mudo ao queixume, à confissão contida
Pela vergonha de íntima ferida,
E não poder sanar o malefício...
Ser médico é passar pela amargura
De ver, inerte, em dores a criatura.
E, quanta vez? (desapiedosa sorte!)
Contendo a lágrima que se derrama,
Ouvir, tremente, o peito à quem nos ama,
Sentindo dele aproximar-se a morte!
Maio (Pelópidas Gouvêa)
Em tempos idos quando Maio vinha
Trazendo luz de um sol que não morria,
Florindo o campo, o vale, a serrania,
De incenso enchendo a antiga Capelinha;
Do passaredo alegre, a sinfonia
Lembrava à gente, a santa ladainha,
Hino de glória, salmos à Rainha
Virgem de Maio, divinal Maria.
E lá no céu imenso, azul-turqueza,
A lua branca - sideral princesa -
Deixava em tudo seu fulgente raio.
Hoje recordo cheio de saudade,
De minha mãe, o amor, a fé, piedade,
Em tempos idos, quando vinha Maio!