Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Antes do eclipse, na omissão de minha verdadeira face sob belas máscaras dissimuladas, deixei todas as minhas fragrâncias espúrias perdidas pelas efemeridades de minhas atuações pelos ventos de todas as épocas; pelos mares, cujas ondas ritmavam danças sensuais; pelos prados onde se versejavam cantos e encantos a romperem a brisa cipreste; pelos belos jardins floridos, onde desfilavam as senhoras com suas peles claras e acetinadas, a se me oferecerem em volúpias de enlaces em santuários de amor.
Não sei por quanto tempo andei perdido entre minhas próprias e frágeis luzes. Mas lembro-me de todos os náufragos - com seus amores, com suas dores, com seus sonhos e com suas esperanças - que acoitei com promessas puras e com elocuções divinas, salpicadas a ouro falso, que agora ressoam silenciosamente em meu âmago, em dor que não suspeitava existir.
A estátua posta sobre a relva ostenta-se sob o brilho dos dias, mas por dentro há convulsões insanáveis e gritos mudos de angústias que, alheios ao belo arlequim, nunca ouviram. Sou algo qualquer entre meus próprios céus e infernos, a andar sob sóis e chuvas constantes, enquanto tudo a meu redor se consome em vastidões empalidecidas sobre a terra devastada, na qual não passo de um murmúrio presente, sem aprimoramento de uma vontade qualquer.
Agora, o dia se precipita ao fim da tarde e as dobras da jornada se acentuam, efêmeras, com seus ares carregados de essências incapazes de ressoar uma melodia qualquer, como alívio à cólica derradeira que precede o declínio meu. No sangue esvaído do crepúsculo, sacudo-me em crises de angústias e delírios translucinados. De que adianta tamanha encenação humana de todos, e também de mim, a esconder o quanto impiedosos somos em nossas alegorias pálidas?
Com o olhar perdido, contemplo meu retrato encharcado de atraentes cores irreais, e caio no mesmo poço de criadouros absurdos, com a exaustiva tarefa de viver sempre a esconder o que me tornei a outros compositores, com suas próprias urdiduras secas, e com seus próprios sonhos incautos.
Em pouco, a noite se abrirá gélida e negra, acolhendo minha mortalha. E minhas próprias sinfonias compostas em minha mente tresloucada; meus passeios e meus voos invisíveis por paragens que jamais se possam sonhar além das palavras-pincéis que meus lábios pronunciaram; minha descrença no porvir de um resgate da simplicidade e da pureza que nunca senti em plenitude em nenhum emanador de sombras ou de luzes; meus âmagos dissecados em incompreensões assassinas e minhas entranhas apodrecidas na lama negra que me corrói adentro, resguardados em minha bela crosta externa; meus pesadelos entorpecedores de todos os meus sentidos adulterados; minhas promiscuidades disfarçadas em poses magníficas, de contornos expressivamente claros demais para que se possam notar além a superfície minha; e minha alma combalida pela tresloucura que se assenta mendigando gotas de consolo a uma realidade inexistente.
Tudo me leva a um caminho único rumo à decrepitude fatal; onde árvores e flores se murcham perante minha simples presença; onde amores e venturas condenados pela simples versificação me são uma praga atirada à beira do abismo; e onde todas as demais coisas confundem minha visão falha. Já não sou mais sequer senhor dos segundos de meus próprios tempos, e nem de meus próprios templos, e nada mais se pode decifrar por si só, senão por minha loucura posta.
223
PESOS E PESADELOS
Há pesos demasiado excessivos ao ser humano.
Há ocasiões em que se dobram até os mais fortes joelhos.
E, essas horas, invocados são todos os deuses para o utópico sonho de um amanhã mais ameno.
Sim, sempre o dia seguinte: Só ele contéem tanto o contraveneno ao presente, como o alívio do apagamento!
188
ANTES DE PARTIR
... serei um caminho, uma luz ou uma cruz,
ora cordeiro, ora devorador,
ora um anjo sublime, ora um demônio devorador,
ora ainda ao chão ora ainda à transfiguração à nuvem;
toma e alastra em mim a fronteira do amor
até que me vigore a grande noite escura
e o silêncio que não mais possa ser agredido.
252
CALVO MAR
... não tens nada com o que te preocupares, realmente;
como cão niilista, a única coisa que eu poderia fazer
é te desprover dessa sua fausta realiza e te comer como uma puta dourada!
260
POR UMA NOITE
Não fales alto: depois de tanto tempo em chuvas, acabamos de fazer amor
- se olhares pela janela, verás que as estrelas ainda estão gozando,
tremeluzidamente -
e necessitamos paz, pelo menos nesta noite;
deixa, pois, todo o resto, e sussurremos somente coisas que nos alivie a dor.
143
PODERIA
Poderia dizer dos segredos escondidos num canto escuro ou sob um lençol qualquer, dos mundos que se escondem em tantas máscaras, durante grandes espetáculos, e antever o severo castigo à pretensão de um porvir onde se possam reter delicados feixes de luz, antes que, novamente, seja feito o contato vulnerável com os mesmos caminhos que deságuam em nada.
Poderia dizer dos sonhos que em mim quebrei alimentando presas férteis, do meu triste canto, violado, que protesta em sinfonias mudas, das lembranças que escorrem transbordando a grande ponte, das lágrimas de cristais invisíveis que, após preencherem brancas nuvens, e caírem como ácido pelas minhas desertas estradas, envenenaram a sede insaciável dos que me habitam.
Poderia omitir minhas jornadas por veredas estranhas e incompreensíveis, e sob a escolta de tantas orações proferidas, fingir não ver a porta errada. Num esforço indigente tirar-me o rosto, arrebentar todas as correntes, e deixar ecoar em mim, aos raios de um falso e magnífico alvorecer, somente as doces palavras que tocariam meu corpo e emudeceriam minha dor.
Poderia tudo, belo ator que sou, em efemeridades de sonhos sem aprimoramento.
Mas queria mesmo é poder transpor mais do que o pensamento e a alma, numa devastadora revolução de águas límpidas e desconhecidas a me romper, em noite fria, emudecendo meus fantasmas e, de mim, a voz do cão que ladra.
185
LILITH PERDIDA
... parece que já não é mais dos picos que olhas as coisas do mundo;
parece que realmente perdeste o sentido da ilha
e da reflexão, ao dançares tanto nas picas do chão!
177
A CÉZAR O QUE É DE CÉZAR
... teus olhos, teus peitos e tua vulva
muitos já viram; e eu já vi muitos olhos, peitos e vulvas como e até melhores que as tuas;
a questão, baby, é que acho que ninguém, além de mim, viu o mais fundo de teus fundos,
onde carregas, ocultamente, as zonas mais absortas e loucas de tuas sombras!
225
E TODOS SEGUEM, SILENTES, COM SEUS SEGREDOS!
As luzes neon, as maiores mentiras já pregadas pelas retinas sapiens;
aos espelhos, as mais belas, sublimes e leiais atuações ao membembe espetáculo sapiens;
sob as nuvens que acima passam despercebidas, procissões e mais procissões de sapiens pregando o bem e a boa vontade:
aos lábios, porém, não se ouve nenhuma confissão de seus piores, mais aterradores, mais libidinosos e mais hediondos segredos!
182
XANAS SÃO SÓ A METADE DO NEGÓCIO. É PRECISO TAMBÉM UMA MENTE CAPAZ!
... o desejo ocupa a planície do corpo, o gemido da boca, os fogos em descontrolados gozos,
isso é bom, isso é delicioso, isso é mais que demais;
mas, infelizmente, não contempla o todo, nem as ciências e as delícias do mal e dos abismos insossos,
que nos provoquem as verdadeiras dores do amor e da parturiente em literários fogos
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*