Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
... para amar, como concordo com Drumond, em não devendo ser verbo transitivo,
deve-se ser por entre os jardins, as flores e os espilhos que elas contém aos caules escondidos,
aos céus zuis, às areias movediças e aos pantanosos vales onde os fantasmas se abrigam e se escondem,
na cama, como na fama, da flama ou na lama onde possa aparecer todo e qualquer delírio ou desafio ao dois cúmplices amantes!
121
DESNUDEZ
Choveu o céu cristais de gelo nunca antes vistos quando a grande angústia alcançou nuvens horizontais que pairavam escondendo, em sua moldura azul, todo o infinito condenado em suas estranhas frialdades.
Desnudou-se-me a imensidade em vultos frios e mortais. E da terra umedecida pela chuva abismal percebi que minhas frágeis asas, oníricas e desvairadas, convergiam-se em um manto estranho e mortal para, depois, desaparecerem-se com a minha nudez tantas vezes escondida.
Vi-me então como jamais antes me fora visto de meus esconderijos. E grande temor se me apossou com as muralhas destruídas que tantas vezes abrigaram mundos em atuações incompreendidas.
Foi então que percebi que o céu, e o além- dele, e o tudo que há nada mais fora ou venha a ser que o nada que me habita em imagens falsificadas.
Desnudei-me enfim e, no cansaço e dor extrema da queda fatídica, vieram beber de minhas entranhas expostas todos os anjos mascarados de alvo branco, e todos os demônios assumidos em seus delírios, e todos os demais seres bizarros na multidão ainda de mim desconhecida, deixando-me espalhado macabramente, sem essência alguma, numa fina névoa de poeira, sombriamente oculta em teus semblantes.
145
E A NOITE FOI NOSSA…
Noite cheia, noite de brilhantes e silentes estrejas, noite em que as mariposas se suicidavam se esfregando nos postes excitados de neon
e que os anjos se reuniam para suas libidinosas orações e encontros em algum fantástico cando, cheio de cores, de desejos e de encantos;
sim, noite escura, mas sem fantasmas, em que as senciências dos demais sapiens adormecem, deixando-nos somente, à quieta sombra,
o silêncio e o amor para mutuamente (e em paz) desfrutarmos!
232
SE QUERES AMAR MELHOR
... não digas com a boca o que sentes com as genitálias excitadas,
não penses nem elucubres sobre qualquer coisa que não alcancem tuas retinas embaçadas
e se queres pronunciar algo, use uma mordaça na palavra e dize-o com a demonstração dos atos, e com o silêncio de teu adoecido coração apaixonado!
204
ABSTRAÇÕES
Comecei a ver esconderijos há muito tempo. Já na nascente da inocência condenada não compartilhava passivamente as blandícias da véspera dos escarros que viriam.
Ao vento distante daquela época em que não me justificava nas brincadeiras e nos sorrisos dos ainda inviolados templos, nem nas ambiguidades dos homens que se envergavam na corrupção de seus próprios dizeres e ensinamentos, não notaram que, além das palavras primitivas que se ensaiavam para o grande e iminente aviltamento, iniciava-se em mim, tenramente, uma perdição que me levaria ao apartamento de minha alma. A um ponto, a convergência de mundos seria inevitável.
Não sei por que contemplava, inábil e alheiamente, os vastos mundos desconhecidos, além os horizontes fechados pelos morros de minha infância. Talvez houvesse de ter, naquela imensidade dissimulada em minha mente, algo que pudesse me aliviar das visões que se me seriam reveladas, quando me aprofundasse na mística envolvida no decadente ser humano. Foi um engano que não se repetiria: os rabiscos delineadores de purezas, sonhos ou alívios quaisquer se perderiam no debater-se de egos de todos os seres.
De fato, não tardou a se confirmar a estranheza da conjuração dissimulada. Um pouco mais de caminhada e deparei com o desconcertante poder das palavras. Assim percebi que ervas daninhas foram omitidas no magnífico plantio feito nas fontes ingênuas, que se iam transformando em rios de águas turbulentas.
Foi nesse momento que quis tirar satisfação com os mais eficazes pronunciadores de falsas verdades. Tímido e ainda carregando resquícios da semeadura recente, comecei com sussurros abafados. Mas haveria de me desfigurar o rosto, vestir uma máscara para lidar com tantas máscaras, e bradar em alta voz, transformando-me num grande construtor de imagens, mediante mentiras omissas em belas pinturas e sonoras sinfonias.
Nem o grande mestre, insipiente aos olhos de todo o resto, tendo percebido no pequeno amigo o assentamento da deformidade, pôde desveredar-lhe o caminho sinuoso. Deuses ditos em purezas e onipotências, lendas disseminadas com amplidões falsas, sonhos e projeções exaltadas em ineficácias, vastos conhecimentos forjados, amores jurados em eternidades, e rancores trancados em crueldades, tudo seria confrontado com um vigor que não continha permissão para derrotas no cerne da aberração, onde se escondia as construções de si: fatídicas a emanações quaisquer.
Lembro-me, dentre tantas coisas, a um encanto perdido na bravia e condenada vereda de fantasias efêmeras, de um mito que ousou me amar e me defrontar. Antes tivesse apenas amado, ou apenas defrontado. Mal sabia que a espectação mútua viria a lhe consumiria o resto do caminho até o grande penhasco, condenando ambos a mais uma grande queda em si mesmos. Todos os dias a fábula balbuciava entregas purificadas, forjadas na delicadeza de sinfônicas palavras. Em contraparte, todos os dias havia chuvas torrenciais advindas da macabridade, que lhe aplicava um veneno invisível nas veias. De ambos, foram-se sentenciados a ações mútuas e a um aniquilamento ausente, sem perceberem que em seus rios corriam angústias inconscientes: comprimidos nas margens mal delineadas havia, entre a água gélida, destroços mortais, travestidos de notáveis aparências. E ela não notou que todos que afirmam suas personalidades são reféns da representação falsificada de si mesmos.
- Um dia, serei eu, e somente eu, quem poderá te resgatar! Grava isso nos ares dos tempos todos, pois isso exigirá minha morte!
Com zelo, até intentei procurar zelo outras possibilidades, em todos os cômodos havidos e por haverem, e por fim compreendi que a desembocadura se dá no mesmo ponto: uma chaga interna, de onde eflui todas as criações e todas as imperfeições.
De fato, os andantes atemporais são indolentes no olhar e no desafio perante o abismo em que se colocam. Talvez não tenham percebido bem os monstros que abrigam em seus refúgios internos. Em toda parte do espectro, assentam-se imagens tão puras e grotescas que seus ecos sufocam qualquer essência diligenciada.
Toda fonte é, por si, tão límpida como fecunda a tudo que lhe correrá no veio de possibilidades que se seguirão pelo leito. O maior problema dos que se chamam humanos é que sempre deparam com outros humanos. Tais encontros não se mostram, além dos estereótipos, esvaziados de cobiças e pretensões subjetivas. Aprendi a não subestimar meus semelhantes: vistos de fora, resplandecem como um belo jardim cujas flores se desdenham magnificamente em palavras que manifestam purezas e belezas extasiantes. Além da alegoria, onde repousa a sinceridade omissa, há paradoxos profundos que não contemplam alguma perfeição moral, tantas vezes regurgitada aos ares exteriores.
Se toda observação pressupõe queda pela visão das imagens que figuram perante os olhos e das que propagamos a todo canto e a todo tempo, devo admitir que de tudo que se surgiu e surgirá de mim e a mim permitido, sou o culpado.
Sou anomalia indizível. Bem sei disso. Poderia dizer de outra forma, mas nunca devo ser confiável. E mentir é uma confirmação de minha natureza. Sou meu Deus morto. E sou Senhor e carrasco meu. Se me dou ou se conquisto, se me permito ou se violo, se amo ou se me dou a ser amado, se alço algum voo fadado à queda ou se me mantenho no rastejo do chão, escolho.
Sim, faço escolhas. E, na imperfeição de julgamentos e de visões, todos os erros são meus. Acertos, não. Não existe isso, condenados que estão à farsa da figuração egocêntrica. Dos erros sou detentor inalienável, embora cuspa aos versejantes inconsciências em forma de lâminas afiadas. Não obstante, sois vós todos também culpados da grande farsa que convosco coabito. E já não me apiedo de mim, nem de vós outros em vossas próprias insignes.
Isso também aprendi ao me ofertar a mundos alheios e também deles me alimentar nos mesmos moldes e nas mesmas sombras em que todos nos sentamos para aliviar uma chama qualquer - vaga, perene e insustentável em seus bocejos pronunciados -, sabendo que as metas de todos os sonhadores culmina na imperfeição natural de suas próprias fraquezas, não reveladas nas translucidações de seus seres. Assim foi que, em angústia - e até de minha dor devem duvidar -, vi-me impotente contra minha própria humanidade. E me percebi um inconfiável contracenante na abstração horrenda de todas as coisas vivas ou mortas. Incapaz de ser sincero por nascença, confesso que, ao penhorar ilusões ou outra coisa qualquer, consciente estava de que o desdouro se daria em algum cruzamento de escolhas fugazes.
167
EM CHAMAS!
Às vezes não quero, chego irritado e começo a escrever já soltando meus literários raios negros;
às vezes não quero, porque estou chato equero refletir, analisar e pregar em cruzes poéticas ou filosóficas a besta do ser;
às vezes não quero porque não estou a fim de mais uma vez me render ao êxtase supremos do desejos
e, depois, ter de enfrentar suas consequências sinuosas, tênebras e avessas;
nas em todas as vezes em que ela entra, torno-me frágil, rendo-me, e entrego-me logo que a vejo ali de lingeri e calcinha enfiada,
desfilando pelo corpo lindo e seansual, com seus delicados dedos!
159
AMARGAS ILUSÕES
Não chorem pelo que não somos na terra desconhecida, Nem pelo que almejamos ser em alma posta na carne, em egos translúcidos que se deleitam com imagens magníficas, contidas nas seduções e nos delírios do grande cenário abismal.
Foi assim me perdi ao ousar caminhar sem pisar o chão ressequido, pavimentado com espinhos invisíveis, caídos de frágeis sonhos suspensos no ar, incapazes de alimentar seres estranhos com espíritos mumificados que nele habitam, Sob a falsa luz que esconde infalivelmente a noite interior, a consumir canibalisticamente das próprias entranhas, quando se movem durante o dia, entre os aromas das flores e os suaves toques do vento, sem que se percebam que as flores são gélidas e que o vento é traiçoeiro.
Não me lembro quando percebi que o mundo se esconde atrás dos rostos de tantos protagonistas, Atuando incessantemente na imensidade à qual se centram e fazendo-me quedar diante da vulnerabilidade do olhar, posto nos corpos nus e nas mentes contrastantes das multidões que se desvencilham dos espinhos mortificados pela planície, em busca do ponto de equilíbrio inexistente no mar de sentimentos invasores.
Ânsias e vômitos desvendados, máscaras e faces expostas sem que se possam distinguir entre uma e outra, deuses criados para salvação do que já predestinadamente está salvo, e demônios criados para a condenação do que já predestinadamente está condenado.
Não sei onde me encontro com o andar suspenso, talvez entre a loucura e a razão. Se tento fugir de retalhos de tempos e vidas irrecuperáveis ou se fico em dor e lamento. Se tento me soerguer para a queda certa, ou se me abandono prostrado à angústia. Se busco a liberdade nascituramente condenada, ou se me deixo escravo da tragédia.
Sei apenas que ousei romper num momento perdido, incapaz e sem sentidos, extremos de meu ser contido, nos mesmos caminhos irreconhecíveis agora atacados por minha loucura assentada, onde também sou prisioneiro nos limites em que se encontra o olhar de minha face.
172
HORA VAZIA
... sempre tive o péssimo hábito de imaginar que podia levar tudo no peito,
o que pensava ser um mar, um céu , um paraíso onde houvesse uma possível paz pela qual lutar,
o que pensava amar e o que pensava odiar, sempre transcendendo tolamente a dimensão do real.
E ela ali, do meu lado, dizendo-me que eu me andava longe de mim mesmo,
com meus pensamentos vagos, com meus desejos bastardos
E com minhas visões embaçadas,
Sempre
alheio de que nossa sorte
já estava lançada!
151
HORA VAZIA II
... entre mitos, anjos, deusas, liliths e belas e sensualíssimas ninfas,
ia-me suicidado, com prazeres cada vez mais tolos nas estradas, nas matas e nos leitos vadios
cada vez mais longe de mim mesmo; e ela me amando com toda paciência e me mostrando
que, um dia, ao estar me passando do suicídio de meus dias, eu perceberia, enfim, olhando-lhe as lágrimas nos olhos
o que é um amor de verdade.
164
A VISÃO DO ESPELHO
Não é difícil analisar, compreender, foder e até julgar os outros
(aliás, até fazemos isso a todo momento diante de nossos andandes e semelhantes espelhos,
mas torna-se-nos, por inconsciente defesa da pisiqué, quase impossível analisar, compreender,julgar a e foder com nós mesmos!
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*