Lista de Poemas

A FLOR DO DESERTO III

... que houve
com teus olhinhos ontem que brilhavam
como a luz cheia em noite
escura?

Que houve
com teu jeitinho ontem que te parecias
como uma donzela em perigo
pedindo ajuda?

Que houve
que te parecias tão bela e tão frágil
exatamente diante daquele a quem chamam
de lobo mal?

Que vi senão
uma mistura de sentimentos tão fortes,
sublmes e extáticos onde, por escolha própria,
tu punhas o amor vencendo o medo
e ao desejo?

Por que só apareceste
agora tão tarde, já no fim de minha vida
e em um fronte impossível de ser
vencido?

Que houve contigo
ontem e esses dias, afinal,
em que, mesmo vestido de fortes chuvas,
eu te admirava e te amava, e tu nem
percebias?
179

NUA

183

DEZEMBRO ENCANTADO

Era dezembro. Chovia fino e constante nos meus idos de infância perdida. Minha vó fazia pirulitos puxentos, com açúcar e limão para vendermos. Também vendíamos, sob a chuva fina, ovos e verduras que pai e mãe traziam da roça. E em dias de sol, picolés em uma caixa pendurada no pescoço. Ganhava-se alguns trocados e, vez em quando, apenas riam, zombavam e saíam chupando o picolé sem pagar.


Mas vamos de volta ao dezembro de constante chuva. Eu amava dezembro com seus cheiros de plástico, com férias de escola e com a alegria de todo mundo naquele mês.


Num deles, desses dezembros, uma amiguinha minha perdera o pai. E eu pensei comigo, estou triste, mas vou aproveitar o dezembro, afinal é só um por ano e nem fui lá ver o defunto, coisa que eu fazia por curiosidade.


Uma semana depois, briguei com um amiguinho. E no trava-trava de gavetas, mãos nos pescoços, derrubei-o e montei nele. E o humilhei "Vai mexer comigo de novo, vai?"


O coitado sangrava pelo nariz e nada respondia se esperneando para sair. Outros me tiraram de cima dele e fomos embora.


Bem, mas o destino é o destino. Uma semana depois, ao descer de bicicleta uma rua com forte inclinação, trombou na trazeira de uma carroça que carregava, arrastando, ferros para construção. Ficou tão machucado pelas ferragens que, quando o fui ver, estava todo enfaixado dentro do pequeno caixão.


E eu pensei. É dezembro. É dezembro. É dezembro, poxa. E sinto o cheiro de plástico, dos presentes do papai noel. E dali me fui.


No dia de natal, ganhei um aviãozinho de plástico. Para a desgraça voar só na minha mão e com a minha mente no céu. Então pensei para que serve esse aviãozinho se sem ele posso voar mais, e o pai da minha amiguinha e meu amigo não podem nem andar mais.


Então fui tomar um banho. E descasquei a banana voando com uma mulher. Aquilo foi mágico, imaginar algo grande e peludo.


Gozei! Pela primeira vez na vida, gozei, embora não tivesse saído nada, a não ser um liquidozinho transparente. Mas o fato é que tremi e gostei.


E pensei de novo: "Caramba, que coisa boa!" Daí para frente, como sabem, é o humano cão.


E nunca mais deixei de descascar, nos banhos, a banana, com o uso da mente sobrepujando o mundo, a vida e suas trágicas contradições!
176

A CONDUÇÃO

... que engraçado,
________________ hilária
é a piada _________ humana;

vejam só,
agora no fim da jornada

é que me
perguntam: "Thor,
você é escritor?",

e logo
agora que nem tenho
mais tempo para tirar
uma panorâmica
foto;

quando
antes as interrogações
e as exclamações
eram feitas

________________ assim:
"Você é o Thor,
sonhador e punheteiro
dos teatros e das
__________________ salas?
180

FORA DO NINHO

Estava mais uma vez fora do ninho. E eu tinha uma péssima mania de deixar a porra do seguro ninho.

De repente, ouvi um barulho naquela trilha entre a mata. Já havia começado a escurecer e a noite se antecipava. Nem sei como eu, esperto, não reparara. Ali estava eu, só eu, Deus e o diabo.

E a desgraça do barulho em minha mente fez um estrago tal que saí em disparada, com meu bodoque na mão.

À mente, viria o castigo pela matança de pássaros. E o monstro que nela se criou, quanto mais eu corria mais se aproximava.

Cheguei, em um momento, a sentir o roçar de suas garras às costas, mas eu já era meio cãozinho e estiquei-me para frente para escapar de sua pegada.

E corri mais, e mais, e mais, até chegar a uma porteira, de frente para um bar onde homens tomavam cachaça.

Foi a única vez na vida que agradeci a Deus por ver um sapiens na minha frente.

O monstro ainda rosnava na mente mente quando cheguei em casa. O monstro morou comigo, andou comigo e cresceu comigo.

O monstro era o próprio cão niilista que ali se formava!
242

A FLOR DO DESERTO

316

ANGELICAL TENTAÇAO

215

TEMPESTADE QUE ME ASSOLA

A tempestade que me assola e desnuda meu ser, em chuvas contínuas de dor e de descrença em tudo, revela a frágil existência do ser mortal, imoral, que ainda ousa voar, quedado sob o escarro do mundo.

A quanto tempo já não vejo o sol acender sua ira,e Em raios que fulminam a morte e escondem as sombras, trazendo à luz a essência de uma vida ilusória?

Sem remorsos, é nas sombras que me movo em fúnebre morada.

Vermes miseráveis, rastejantes seres sois também vós. Comeis e bebeis das vísceras de vossos semelhantes!

É à luz que escondeis, teatralmente, vossos paradoxos, em sombras das quais surgistes para atuar no palco iluminado: silenciosas lâminas, infernais garras, prontas para o golpe fatal.

E quem do mundo enevoado e obscuro, como vós próprios, será a próxima refeição: um ser andante qualquer sem rosto, o O melhor amigo ou a amada a quem perjurais lealdade e fidelidade?

Devoradores, pragas, insetos humanizados de razão, tornai-vos mais insaciáveis que o próprio demônio, pelo vivo sangue e pelo corpo vil, em injúria a vosso deus, pPor vós mesmos, e para vosso refúgio, inventado insanamente, oO qual agora apenas se contorce em gritos silenciosos e tristes.

E eu, serena, fria e incompreendida bactéria tetânica, nego as vossas ilusões e todas as vossas esperanças mortas.

Pior que vós me torno. Sou a sombra que persegue e devora, que convida ao pecado, e abro as cortinas do espetáculo, em pleno reinado da luz onde vos escondeis!
159

DESTA NÃO VOLTAREMOS

... os vigorosos,
explêndidos e claros dias de outrora,
em que nos amávamos como
deuses alados

foram perdidos
primeiramente em insane desventura
e chuvas de fogo; e,depois, para lindos
e negros braços da morte;

sim, as coisas
eram mais coloridas, mais sublimes,
mais harmoniosamente extáticas
e infinitas

e, sempre que
nos desentendíamos regressávamos
da morte; mas esta é uma morte
da qual nunca se regressa!
160

ALTA TENSÃO: QUANDO TUDO PARECE DIFÍCIL

Desde fim de semana passada,
dias difíceis,
e contra dias
difíceis, desses dificílimos
que vez em quando nos ocorrem,
costumamos
buscar algum refúgio, algum alívio,
algum porto mais seguro,
seja na ilusão
do amor, seja no desejo ou em sua tentativa
quando tudo parece desabar,
seja viajando,
seja como for, mas há dias
tão severos e difíceis
que somente
uma flor do deserto, consegue
em algo nos aliviar!
212

Comentários (7)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.
fernanda_xerez

SEMPRE SUSPREENDE-ME COM TUA INESGOTÁVEL INSPIRAÇÃO. AMO TEUS POEMAS PARA A FLOR DE INVERNO, sinceramente. Saudações Alenarinas da Flor*

fernanda_xerez

Por tudo, mais uma vez, obrigada! ¨¨¨¨¨Beijo_Flor*

Trivium
Trivium

Olá, cara. Gostei bastante desta poesia tua. Você com partilha suas poesias em algum outro site que não este?

fernanda_xerez

E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.

fernanda_xerez

Lindo e provocante!