Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Pensei que um dia descansaríamos em caminhos que não se convergissem em chuvas de fogo,
ausentes da rigorosa complexidade de nossos cernes, dos malfazejos versos de nossas bocas,
dos rútilos devaneios de nossas mentes, dos inalcançáveis silêncios de nossos sonhos e das afiadas lâminas de nossas fantasias.
Mas, de minha falésia ao árido deserto, onde não mais podes me escorrer tua seiva, e de onde não mais posso descortinar teus véus,
ainda guardo reminiscências de teu cântaro esquálido, de tua alma nevoenta, de tuas enigmáticas reticências
e de tuas sílabas juncas a forjarem alvos arrebóis em itinerários de pseudoliberdade, onde tantas e tantas vezes te caías camuflada.
Ainda bem que outros pássaros, também puristas como tu, apaziguaram-te com novos sonhos, alegorias, versos, concupiscências e salivas ébrias;
ainda bem que não mais podes me ver com tempestades na retina, a lutar, enquanto não se extingue o dia, contra minhas próprias apocrifias,
que tantas vezes me conduziram a soberbos voos e cruciantes quedas - junto com meus semelhantes sapiens -
nas dissimuladas coreografias da vida.
167
FLOR DESPETALADA
Alguém machucou seu coração dizendo-lhe que me viu cachorrando por aí.
Com a singra no peito, ela foi averiguar o maldito dito, e me viu cachorrando por aí.
E eu, que realmente a amo, mesmo cachorrando dissimuladamente por aí,
e que me escondia para não fazê-la sofrer, só queria saber quem foi o grande filha da puta que lhe contou isso.
150
UMA VITÓRIA APÓS A MORTE!
E atravessaram, enfim - poeta e poetisa -, as frias e voláteis grades das verbalizações;
e se amaram - onírica, silente e distantemente - com versos secretos, corpos ausentes e fulgurosas imaginações;
e com tal fulgor que não esperaram sequer serem servidos do doce e infinito cântaro de sublime união;
logo eles, conhecedores do quão difícil seria voltarem à laiva e dura realidade, com suas almas em exausta desilusão.
163
LAÇOS AMALDIÇOADOS
Passou por mim uma flor de fulgas palavras, a me mostrar rotas de liberdade entre sonhos e fantasias bordadas;
quando percebi que ela escondia seu outro lado que, obscurecidamente, nada tinha de agrado,
já era tarde demais: foi então que começou meu fardo entre ventos, tempestades e descalabros.
155
MUTAÇÕES
Ao alvorecer, entre as coisas singras do mundo,
aprendi a fertilizar vazios, com as incautas salivas do verbo.
Ao entardecer, entre as metamorfoses dos pássaros e das borboletas,
já era céus, mares e sonhos no disfarce plácido.
Ao crepúsculo, pela primeira vez, resolvi contemplar meu envilecido reflexo
e percebi que era, na verdade, um penhasco taciturno.
À noite, fria e insone, com o cálice vazio entre destroços e cinzas rupestres,
ando-me a esperar, em convulsões íntimas, meu definitivo estio de mim
no apagar-se das faustas e degeneradas luzes do palco.
194
SIMPLESMENTE NADA!
... nem a vida nem a morte, nem o céu, nem o inferno, nem a salvação, nem o apocalipse,
nem o amor, nem a dor, nem o rancor, nem a paixão, nem o tesão,
nem o sonho, nem a fantasia nem nenhuma dos sapiens criação
realmente é de conhecimento ou importa ao eterno, frio e insenciente Cosmo de Deus!
137
O PULSO
Pulsa o hieróglifo da existência: os soberbos pássaros - que colecionam imagens, sonhos, pedras e musgos - não estão libertos em seus viveiros de ouro.
Há ecos de dor entre as paredes:
por isso mandem livros aos prisioneiros, contando-lhes as estórias dos poetas, das lendas e dos cancioneiros.
Mas, para que não morram na alfama, não deixem que descubram a grande verdade:
de que são aves absolutamente planas, e de que as grades são feitas de ebriedades
originadas de suas mentes insanas e de suas salivas humanas.
206
EU VI
Sim, de esguelha, eu vi por entre as horas e as ondas incertas:
há sonhos e esperanças aos jardins outonais, há desejos e concupiscências aos leitos caudais;
lendas e mitos vão colher frutas nos pomares, homens vão cair com seus lumes bipolares.
231
A MORTE VEIO E DEIXOU TUDO TARDE DEMAIS!
Às vezes, sinto até um pouco de falta daquela viciante ___ droga,
mas não atendo chamados, nem a convoco ___ de volta,
por ter certeza de que abriria todas as feridas, e lançaria nossa vil ___ existência,
e nosso ominosa estória de outrora ao lugar certo: na lama ___ e no caos.
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*