Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Sim, de esguelha, eu vi por entre as horas e as ondas incertas:
há sonhos e esperanças aos jardins outonais, há desejos e concupiscências aos leitos caudais;
lendas e mitos vão colher frutas nos pomares, homens vão cair com seus lumes bipolares.
233
UMA VITÓRIA APÓS A MORTE!
E atravessaram, enfim - poeta e poetisa -, as frias e voláteis grades das verbalizações;
e se amaram - onírica, silente e distantemente - com versos secretos, corpos ausentes e fulgurosas imaginações;
e com tal fulgor que não esperaram sequer serem servidos do doce e infinito cântaro de sublime união;
logo eles, conhecedores do quão difícil seria voltarem à laiva e dura realidade, com suas almas em exausta desilusão.
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CHUVAS QUE LAVAM AS ALMAS
Gosto de quando chove e os homens ficam quietos nos parâmetros faustos do mundo.
Gosto de quando chove e se afastam de mim os vestígios púmbleos dos contínuos ciclos abnormais salpicados nos desalinhos.
Gosto de quando chove e me escondo em meu canto, anoitecendo-me em claustro silêncio, de onde não posso ver nem atuar nos entrevados palcos de concretos.
Gosto de quando chove, porque tento me desfazer - em vão - também de meus próprios vestígios espúrios, lançando-os às enxurradas dos precipícios.
Mas, quando a chuva para, perco com o líquido o momento onírico e retorno à coleção de imagens e de superficialidades cimentais,
com minhas performances dissimuladas e com meus versos escumalhados.
170
O BAILE CHEGOU AO FIM
Pensei que um dia descansaríamos em caminhos que não se convergissem em chuvas de fogo,
ausentes da rigorosa complexidade de nossos cernes, dos malfazejos versos de nossas bocas,
dos rútilos devaneios de nossas mentes, dos inalcançáveis silêncios de nossos sonhos e das afiadas lâminas de nossas fantasias.
Mas, de minha falésia ao árido deserto, onde não mais podes me escorrer tua seiva, e de onde não mais posso descortinar teus véus,
ainda guardo reminiscências de teu cântaro esquálido, de tua alma nevoenta, de tuas enigmáticas reticências
e de tuas sílabas juncas a forjarem alvos arrebóis em itinerários de pseudoliberdade, onde tantas e tantas vezes te caías camuflada.
Ainda bem que outros pássaros, também puristas como tu, apaziguaram-te com novos sonhos, alegorias, versos, concupiscências e salivas ébrias;
ainda bem que não mais podes me ver com tempestades na retina, a lutar, enquanto não se extingue o dia, contra minhas próprias apocrifias,
que tantas vezes me conduziram a soberbos voos e cruciantes quedas - junto com meus semelhantes sapiens -
nas dissimuladas coreografias da vida.
170
SE NÃO CONTIVER LOUCURA, NÃO É AMOR!
Não consigo amar, porque o ser humano não sabe amar ddebaixo da água sob a carestia de oxigênio,
nem no sincero escuro onde, tendo de ser apalpado ou imaginado, tudo e qualquer coisa pode acontecer e se tornar incontrolável;
não, não sei amar porque as estações que me dão contêm muitas promessas e poucas dádivas
e eu sou do tipo que, para amar, não me protejo do frio, do ângulo em fúria ou do inferno em gula:
eu apenas seuspendo o céu e lambo, e chupo, e engulo todo o rio que deságua da beldosa criatura,
mesmo que eu tenha de cerrar a noite, ou o dia, ou o paraíso ou meu inferno com silêncio e gula!
142
EU QUERIA
161
O PULSO
Pulsa o hieróglifo da existência: os soberbos pássaros - que colecionam imagens, sonhos, pedras e musgos - não estão libertos em seus viveiros de ouro.
Há ecos de dor entre as paredes:
por isso mandem livros aos prisioneiros, contando-lhes as estórias dos poetas, das lendas e dos cancioneiros.
Mas, para que não morram na alfama, não deixem que descubram a grande verdade:
de que são aves absolutamente planas, e de que as grades são feitas de ebriedades
originadas de suas mentes insanas e de suas salivas humanas.
208
O CIRCO CHEGOU!
Neandertais amanhecem embriagaos em ondulações lumes, a descobrirem os pálidos véus das sombras inocentes
e a adornarem os vazios ermos com plenitudes figuradas.
Pelos chãos pavimentados de melodias chilreadas por pássaros azuis e de cheiros aspergidos por flores madrigais,
caminho buscando algum sentido em cada ato e em cada passo entre o estranho magnetismo da coisas,
não obstante sempre me afogando em algum rio de turvas águas, ou em alguma viela escura e alagada.
211
MUTAÇÕES
Ao alvorecer, entre as coisas singras do mundo,
aprendi a fertilizar vazios, com as incautas salivas do verbo.
Ao entardecer, entre as metamorfoses dos pássaros e das borboletas,
já era céus, mares e sonhos no disfarce plácido.
Ao crepúsculo, pela primeira vez, resolvi contemplar meu envilecido reflexo
e percebi que era, na verdade, um penhasco taciturno.
À noite, fria e insone, com o cálice vazio entre destroços e cinzas rupestres,
ando-me a esperar, em convulsões íntimas, meu definitivo estio de mim
no apagar-se das faustas e degeneradas luzes do palco.
194
LOUR
Quero esconder-me nas paredes da nova casa,
a casa que aguardou meu regresso, com meu fiel espelho pendurado na sala;
quero retornar à casa nova com nossas noites de amor, de chuvas de fogo, de incontroláveis desejos e também de severos pesadelos.
Não quero mais ficar adoecido da sepultada, qnquanto me aguarda e me acolhe a casa nova,
que, como eu, não acredita em amores infinitos, mas que sabe fazer com que o momento se torne perpétuo!
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*