Flor do Deserto, vês como já há tanto tempo me encontro?
Sabes quanto me custa ser franco quanto a meus sentimentos por alguém que já passou a um leito negro de onde jamais retornará?
Alguns anjos me julgam dizendo que é derespeito amar uma defunta,
outros vão além e dizem que com ela ainda me masturbo,
e há os que não me perdoam por quererem a carne deste corpo, que nada vale perante o sentimento que se assentou em minha alma;
e eu fico aqui pensando: "O que posso fazer por alguém, uma flor tão boa para comigo, de modo que a agrade, sem que minta ou a engane sobre meus sentimentos mais profundos?
Pensei que um dia descansaríamos em caminhos que não se convergissem em chuvas de fogo,
ausentes da rigorosa complexidade de nossos cernes, dos malfazejos versos de nossas bocas,
dos rútilos devaneios de nossas mentes, dos inalcançáveis silêncios de nossos sonhos e das afiadas lâminas de nossas fantasias.
Mas, de minha falésia ao árido deserto, onde não mais podes me escorrer tua seiva, e de onde não mais posso descortinar teus véus,
ainda guardo reminiscências de teu cântaro esquálido, de tua alma nevoenta, de tuas enigmáticas reticências
e de tuas sílabas juncas a forjarem alvos arrebóis em itinerários de pseudoliberdade, onde tantas e tantas vezes te caías camuflada.
Ainda bem que outros pássaros, também puristas como tu, apaziguaram-te com novos sonhos, alegorias, versos, concupiscências e salivas ébrias;
ainda bem que não mais podes me ver com tempestades na retina, a lutar, enquanto não se extingue o dia, contra minhas próprias apocrifias,
que tantas vezes me conduziram a soberbos voos e cruciantes quedas - junto com meus semelhantes sapiens -
nas dissimuladas coreografias da vida.
169
INSOLENTES MÁSCARAS
Os abnormais se disfarçam com insolentes máscaras, entre labirintos idílicos e bestiários demoníacos.
As rimas que engravidam sonhos e os verbos que ressoam regozijos evidenciam as hégiras iludidas das próprias senciências espúrias.
A pura e virgem floresta foi inexoravelmente violada, gerando multidões de filhos apócrifos, de modo que as chagas marfolhas se espalharam por todo espectro:
pássaros artificiais voam a cingirem os céus com sonhos, fantasias e esperanças exíguas;
borboletas flutuantes pululam, de flor em flor, a adornarem esplêndidos jardins rupestres;
pavões menestréis pupilam composições de belas sinfonias, para tentarem mover inércias oníricas;
papagaios despercebidos tartareiam, em repetições moucas, as reticentes promiscuidades dos verbos e dos versos;
vagalumes incautos elogiam, luzindo seus faróis, os ermos e frios silêncios das sombras noturnas;
marimbondos negros não conseguem, carregados de solidão e ruína, ladear risos em quimeras inexeqüíveis;
serpentes assassinas silvam, em fome insaciável, às rasas e secas superficialidades dos chãos e dos lodos;
lobos se vestem ovelhas, em soturnas esperas, para o abate das frágeis presas que perderam as asas.
Ao fim, o baile está formado no inferno dos homens; e os corpos dançam encurvados em intensos frenesis,
à nau das insânias incontidas, das palavras voláteis, das concupiscências vadias e das esperanças exíguas.
E as almas - se existem - singram em agonia, por não termos o mínimo de cuidado para que não morram no vazio.
170
NO TEMPO DO SEVERO INVERNO!
... houve um tempo
em que nos amávamo de tal modo
que não conseguíamos nos aceitar
humanos,
e eu não falo
de crises, de inseguranças de ciúmes
causadores de tempestades
e de chuvas,
eu falo
é que nos queríamos (e ainda vou
buscá-la no pós-morte, um dia para tentarmos novamente) com o amor, com a sabedoria
e som o sublime silêncio
dos anjos!
246
SE NÃO CONTIVER LOUCURA, NÃO É AMOR!
Não consigo amar, porque o ser humano não sabe amar ddebaixo da água sob a carestia de oxigênio,
nem no sincero escuro onde, tendo de ser apalpado ou imaginado, tudo e qualquer coisa pode acontecer e se tornar incontrolável;
não, não sei amar porque as estações que me dão contêm muitas promessas e poucas dádivas
e eu sou do tipo que, para amar, não me protejo do frio, do ângulo em fúria ou do inferno em gula:
eu apenas seuspendo o céu e lambo, e chupo, e engulo todo o rio que deságua da beldosa criatura,
mesmo que eu tenha de cerrar a noite, ou o dia, ou o paraíso ou meu inferno com silêncio e gula!
142
FLOR DESPETALADA
Alguém machucou seu coração dizendo-lhe que me viu cachorrando por aí.
Com a singra no peito, ela foi averiguar o maldito dito, e me viu cachorrando por aí.
E eu, que realmente a amo, mesmo cachorrando dissimuladamente por aí,
e que me escondia para não fazê-la sofrer, só queria saber quem foi o grande filha da puta que lhe contou isso.
151
ENGANOS EM CACOS
Pouco sabeis a meu respeito, e nada mais podeis prometer-me com vossas tremeluzentes lamparinas, ou atirar-me de vossas ominosas latrinas,
porque há tanto tempo caminho com o peso quase insuportável do que houve e do que possa haver em minhas margens espúrias,
que os sonhos, e os amores, as esperanças e até os medos e receios caíram neste caos de mim.
154
SÓ ELA ME CONHECEU TÃO BEM!
Vejo reflexos do ser disperso por todos os lados,
não ligo, não me importo, porque sei que são imanentemente negados em suas falas;
e eu sei o que é ser um inconsciente náufrago, que espera salvação ou redenção em algum novo elogio, jura ou afago;
mas queimo como um sol, sem piedade, quando adentram com má fé, em meu retiro mais tranquilo, fiel e solitário!
219
O PULSO
Pulsa o hieróglifo da existência: os soberbos pássaros - que colecionam imagens, sonhos, pedras e musgos - não estão libertos em seus viveiros de ouro.
Há ecos de dor entre as paredes:
por isso mandem livros aos prisioneiros, contando-lhes as estórias dos poetas, das lendas e dos cancioneiros.
Mas, para que não morram na alfama, não deixem que descubram a grande verdade:
de que são aves absolutamente planas, e de que as grades são feitas de ebriedades
originadas de suas mentes insanas e de suas salivas humanas.
208
MUTAÇÕES
Ao alvorecer, entre as coisas singras do mundo,
aprendi a fertilizar vazios, com as incautas salivas do verbo.
Ao entardecer, entre as metamorfoses dos pássaros e das borboletas,
já era céus, mares e sonhos no disfarce plácido.
Ao crepúsculo, pela primeira vez, resolvi contemplar meu envilecido reflexo
e percebi que era, na verdade, um penhasco taciturno.
À noite, fria e insone, com o cálice vazio entre destroços e cinzas rupestres,
ando-me a esperar, em convulsões íntimas, meu definitivo estio de mim
no apagar-se das faustas e degeneradas luzes do palco.
194
ESPELHOS DA ALMA
Mesmo que usem as melhores máscaras,
nesmo que passem as melhores maquiagens,
mesmo que usem as melhores, mais lindas e mais eficazes palavras voláteis,
mesmo que façam juras de solidezes sublimes e infinitas;
eu afirmo, se repararem bem, os espelhos da alma não mentem jamais
e irá lhes revelar, em algum momento, toda a verdade!
E eu tenho acompanhado toda esta história... E eu tenho me sentido feliz com as ''gotas orvalhadas'' que representam um passo a cada dia. Estamos juntos.
Quero, sim....
Olá poeta Thor Menkent, boa noite! im te visitar neste site tão agradável. Linda tua poesia, amei! ¨¨¨¨¨¨Beijo da Flor*