pmariabotelho

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n. 1965 PT PT

serei breve serei ave

n. 1965-10-22

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A espera

Não só a vida, também o tempo.
A questão da vida e do tempo não interessa absolutamente nada.
Dizemos frequentemente esta frase no dia-a-dia, para atenuar a circunstância do momento ou o tema da conversa.
Em verdade, resume-se à longa espera do tempo novo.
Mas a espera ou as esperas que fazemos ao longo da vida, concluo que é um grande erro.
A espera é um engano e são imensas as desculpas que damos a nós próprios, quando não temos a coragem para virar a página ou quebrar um hábito, …
Aqui não só a vida, mas essencialmente o tempo é mestre nos argumentos da preguiça e do medo.
Esperar por um tempo novo é um erro.

pmariabotelho
20210306
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Poemas

8

Eis que chega o dia


Eis que chega o dia e que o espelho não reflete o sorriso de uma criança feliz. Eis que chega o dia em que os dias se formam em sucessivas notas de piano perpetuando um dia a dia sem diferença. Eis que chega o dia em que resumes o teu dia numa linha de paragrafo e ponto final. Eis que chega o dia que afinal tanto esperavas para pensar e refletir. Eis que chega o dia em que o passado e o presente se encontram no aconchego de uma palavra, amor. Sim sempre fui, sou e serei amor. Um amor que sinceramente não sei de que parte de mim nasce e vive. Não sei se do coração, das mãos, dos pés, dos braços, de todo o meu ser, não sei, … 
Em tempos e dias de desventura e de mal dizer desta vida, acho que destes desamores momentâneos já todos tivemos ou vamos tendo, em dias vulgares, sim, os dias em que nos esquecemos de nós próprios e atiramos a culpa de tudo o que a vida amarra, disparando para todos os lados como se estivéssemos num oásis construído de amargura dura e pesada loucura. Eis o dia em que perguntamos de quem será a culpa e se existirá alguma culpa e de que culpa falo eu?
 
 pmariabotelho
0181117
383

outubro

Outubro é o meu mês, porque nele nasci

Quando as folhas caíram, eu nasci
Quando as primeiras chuvas deram de si e o céu ficou cinza, eu nasci
Quando o cheiro da terra molhada se sente no ar que respiras, eu nasci
Quando o poente virou rubi, eu nasci
Quando os livros fizeram desfolhadas e os poemas foram uvas colhidas, eu nasci
Nasci
No mês em que algo morre e hiberna
tanto mais que nasce, renasce, cai do céu,
corre nos rios, vive no ar 
adormece
emerge no brilho do meu olhar
 
Assim é outubro e algo mais

Pmariabotelho
0181016
450

Rios

Existem rios que correm e que não  conheço
desconheço as suas águas, e os seus leitos 
Sabemos das suas águas , pelas imagens que correm 
Uma verdadeira doçura translúcida 
Mas a verdadeira essência dessas águas 
eu não canto
eu não sinto 
apenas sonho
Quem sabe um dia
apenas exista as estrelas 
e a água 
e eu

pmariabotelho 
0181008
214

Por hoje


Nas tuas mãos
Ficaram
Passeios cruzados
Os dedos
E longas conversas
Ditados, sumários e cópias
Das tuas mãos
Obras
Edifícios tão altos
Que poucos podem alcançar
Das tuas mãos
Flores e frutos
Tiveram vida
E fizeram alguém feliz
Caminho
Caminho com a sonoridade
Dos teus ensinamentos
E em cada dificuldade
Pergunto-te
E tu, meu querido pai
Que farias, que me aconselharias?
Assim, como uma voz off, um som acústico, uma nota de piano solta, livre…
Quantas vezes penso e sonho-te do meu lado
Sinto a tua presença em luz e alegria
Foi na terra que mexeste e remexes-te, que plantei, também o teu cato no meu jardim.
Não existem mais palavras
Não tenho mais palavras
Por hoje
Apenas deixo nestas páginas
A felicidade de lembrar-te
Por bem imensa a saudade…

Pmariabotelho
02.10.018

279

Fecha a cortina

Fecha a cortina

- Fecha, fecha a cortina, minha filha, dizia o meu pai.

E eu, estranhamente perguntava?

Mas, porquê?

Meu querido pai, se estamos num hospital.

E ele respondia:

- Fecha, minha filha, porque nem eu quero saber da vida dele e da sua doença, nem ele deve querer saber da minha, por isso fecha a cortina.

Era tudo muito estranho, mas percebi, que o pai merecia esse silencio...esse sossego...

Só ele sabia da sua partida, estaria para breve, ...

Fechei sempre a cortina, mas nunca acreditei nessa brevidade

O poente adormeceu no mar e as estrelas brilham sem cessar

Passei a fechar algumas cortinas no meu dia a dia



Pmariabotelho

018.09.08
171

Quando cai a noite

Quando cai a noite

Fecha o dia,

Em criança, as noites de setembro fechavam dias de alegria e brincadeira.

A mãe fazia chã de cidreira, ou leite com bolachas, para fechar o dia e dar graças à noite que seria brindada de episódios diários dos seus filhos, ... As histórias das namoradas, que os meus irmãos contavam, davam origem a gargalhadas (...)

Uma vez por mês, a vizinha entregava lá em casa, a sagrada família e então rezávamos todos juntos...
Nunca percebi muito bem, naquela altura, porque o faziam de casa em casa, mas o certo é que havia muito respeito pela imagem da sagrada família e nós rezávamos...



Pmariabotelho

018.09.07
298

a noção exata da perda

Quando bate na minha varanda
a noção exata da perda
olho em redor
e tenho a certeza
da não presença física
quando a emoção de uma lágrima é profunda
e é verdadeiramente contida num soluço
em um trago de saliva
engolido rapidamente
de golada como um shote sem sabor
com ardor
fico meio desamparada e atordoada
sinto-me tão pequenina
tão emocionalmente entregue
que apenas
me assemelho ao nada
um nada que é tudo
e assim
de alegria e tristeza
vive a minha alma
acabo de estender a roupa
e entro em casa desfeita em lágrimas
a saudade mata silenciosamente
e transforma uma mulher
emocionalmente entregue
à noção exata da perda
tão particularmente sentida
e única em cada um de nós

018/06/08
pmariabotelho

442

Deixei-me chorar porra!



Deixei-me chorar porra!
Deixei-me desmaiar ondas nas faces
e colhê-las com as mãos!
Que venham os cinco oceanos
tragam ondas e vendavais
pois sempre que
a saudade
suster a minha respiração
eu irei chorar porra!


pmariabotelho
13-02-018
459

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