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À MANEIRA DAS CADELAS



olhando o sangue
de moscas vespertinas
e pedaços de carne
pendurados no açougue
penso sempre o poder
parido à maneira das cadelas:
crescendo GEOMETRICAMENTE
a fome dos cachorros


Maria Silva
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Poemas

25

À MANEIRA DAS CADELAS



olhando o sangue
de moscas vespertinas
e pedaços de carne
pendurados no açougue
penso sempre o poder
parido à maneira das cadelas:
crescendo GEOMETRICAMENTE
a fome dos cachorros


Maria Silva
181

BEM QUERER



é como se abrisse o gás
e me sufocasse
entre avencas e gardênias

é como se espalhasse pela casa
incenso
ervas
eras rasteiras

se te amo
é pela solidão desses naufrágios
é pelo acordo tácito
entre tristezas imbecis

se te amo
é porque me rasga entranhas
com tal cuidado
que penso até que sou feliz


Maria Silva
171

AMEAÇA



e a vida vai bem
até o dia
em que bates
em minha porta
e perguntas
se eu estou


Maria Silva
180

CRIAS



tenho medo sim
dessa fragilidade
que me faz tecer histórias
e chorar
a cada final


Maria Silva
187

QUATRO PAREDES


ando cansada
de me matar
a todo instante

melhor seria
acabar logo com isso

abrir todas as torneiras
e me afogar
em cada pia da casa

Maria Silva
122

SÍNTESE



volte...
se sentir
saudades


Maria Silva
178

MASOQUISMO



como quem atiça a própria dor
jogo carne fresca aos leões
porções exatas
que cresçam a fome
ao invés de estancá-la

por outras
sempre pergunto notícias tuas
como quem passa pimenta nos dedos
e depois rói as unhas

e às vezes
me divirto e gozo
ao receber os tomates e ovos podres
que vêm da platéia


Maria Silva
196

DUPLA EXISTÊNCIA



sempre senti assim
e então
meus dias são como gritos
a povoar a garganta
e um de meus olhos é uma manhã ensolarada
enchendo a casa de luz

mas sempre senti assim
qualquer coisa como um punhal
reprimida vontade de matar


Maria Silva
168

BURRICE



assumo
que não tenho
a mínima vergonha na cara:
se pudesse te amar de novo
juro que amava outra vez!


Maria Silva
187

DENSIDADE



melhor ires embora
porque te quero tanto
que seria capaz de te esfarelar
furar tuas veias
deixar escorrer gota por gota
teu sangue
teu rh positivo
te rasgar pedaço por pedaço
violentar teu corpo
só pra provar
a densidade do que sinto

melhor fugires
antes que seja tarde
antes que possamos nos amar
veia por veia
gota por gota
até a última violência
até o último pedaço


Maria Silva
148

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