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À MANEIRA DAS CADELAS



olhando o sangue
de moscas vespertinas
e pedaços de carne
pendurados no açougue
penso sempre o poder
parido à maneira das cadelas:
crescendo GEOMETRICAMENTE
a fome dos cachorros


Maria Silva
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Poemas

25

FRACASSO



e
abandono o palco
como quem
vai procurar
nos bastidores
uma gota d'água
pra tentar salvar
nosso teatro em chamas


Maria Silva
177

INÉDITO



após
tantas bocas
tantos corpos

paira
entre as pernas
e os poros

a sensação
de que o amor
ainda é inédito


Maria Silva
194

ESSÊNCIA



dessas noites contigo
não me basta saber
se me amas ou não

mas extrair tuas loucuras e tolices
tuas asneiras e recatos

enquanto me roça as coxas
e abre mãos sobre meus seios

extrair de teu corpo
o corpo inteiro
como se nunca tivéssemos amado


Maria Silva
181

TRINCHEIRAS



o que tenho de mim
são esses restos
resquícios de batalhas anteriores
estilhaços de tédio
dolorosas medalhas

esgotada de mim
o que mais poderia te oferecer
além de tréguas
tratados

além de mãos que vasculham
teu território abandonado
formulando um perigoso pacto
bélicas promessas de romance

mas
como cumprí-las
se o conflito é inevitável
e o medo demarca fronteiras
aprisionando a poesia
nos corações derrotados


Maria Silva


185

ACROBACIAS DO DESEJO



imprescindíveis
eram tuas coxas
a roçar-me sempre
naqueles dias frios

acrobacias
de orgasmos duvidosos
que repetidas vezes
se faziam

imprescindíveis
eram tuas coxas
e tudo que teus pêlos escondiam

no frio duvidoso daquelas noites
em que teus prazeres me aqueciam


Maria Silva
157

DESCRITIVO



a maneira como te amo
estabelece seguranças aparentes
sobre fronteiras de perigo

a maneira como te amo
descreve discretos símbolos
a incendiar com orgias
o inferno de meus desejos esquecidos


Maria Silva
166

BATALHA



é necessário
que me ameace sempre
de ambos os lados
com lâminas finas

é necessário
que me corte sempre
constantemente
em metades distintas

pra que me sinta forte
sincera
inteira
e finalmente vencida


Maria Silva
177

HIPOCRISIA



a facilidade
com que você me fere
é a calma
certeira e lenta
com que se desfecha um soco

é a facilidade
descarada e cínica
com que acabo
por te perdoar


Maria Silva
112

ALGODÃO DOCE



e como num circo
te alimento de magias e pipocas
nos intervalos: algodão doce...

tiro da cartola
um amor eterno
abro a jaula
e te liberto
de mim


Maria Silva
183

BANAL



inútil
permitir que doa tanto
se com o tempo
mesmo a dor
se vai

se há de se somar
às dores
que agora tenho

e no esquecimento
doer só essa mágoa
quando a dor
por si só
já não dói mais


Maria Silva
189

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