Lista de Poemas

Toda palavra

Não
Não caiam na tentação
Não é conselho, é absolvição!
Ela finge inocência
Satisfaz sua consciência
Alimentando a prepotência
Em hipótese alguma caiam nessa
Ela encurrala na travessa
Quero ver escapar dessa (...)
Pensando bem, é até cheirosa
Também graciosa
Mas não menos impetuosa
Não vá com sede ao pote!
Como toda dama têm seu dote
Não há quem boicote
Nem por um instante
A voz errante
Cretina, galante.
220

Algemado

Não vejo horizontes
Avisto penhascos aos montes
E a dor não passa
Se arrasta
Algemada aos meus pés
Que não tenho sido um homem de fé
E quanto ao rio
Solitário e sombrio
Narra meus sussurros
E meus medos que são noturnos.
232

O lírio e o encanto

Dedilhava cores
Como quem retrata amores
Pincelava letras
Como se escrevesse veredas
Artista poeta
Poeta autor
Na incontinência do tempo
Vê seu rigor
E nas claras do céu
Suspiradas
Compõe seu canto
E sem nenhum espanto
Num lapso de tempo
No espetáculo do vento
Sem tato, nem pranto
Prostrou-se no campo
O lírio e o encanto.
197

Tristeza

Tristeza é sapato apertado
Sonho transfigurado
Sorriso rasgado
Amor encenado
Tristeza é um canto
Sem choro, sem encanto
É dolorosa e no entanto
Tristeza é falso amigo?
Digo que não foi comigo!
Talvez contigo?
Não, por quê digo:
Tristeza não tem amigos!
E quem é ela?
Dizem que é bela!
Tristeza é um quadro torto na parede
Calor para quem têm sede
Água para quem sente fome.
187

Passagem

Apenas passagem
Quimera selvagem
Doçura
Agrura
É ferida latejante
Solidão sufocante
Estado vago
Compromisso pago
E agora?
Não me resta vasta hora?
O tempo galopante
Albatroz sussurrante
Levou-me embora
Espero lá fora!
Lá fora, na rua?
Não cultive ideia crua
Falo do fim
O tão esperado sim
Que Romeu apaixonado
Aguardou agoniado
Estou partindo
Indo
Picotando a passagem
Carregando minha mensagem
Semeando pelo mundo
Meu amor tão profundo
Então saltarei do vagão
Soltarei sua mão
Atarei os laços frouxos
E levarei os sentimentos coxos. 
190

Bendigo I

Não é a passagem do ano que renova cada um de nós,
mas sinto que nada faz sentido senão,
para unirmos forças em prol do amor.

Bendigo minha mãe pelas vidas,
tão cativas e instintivas,
almas de pureza intuitiva.

Bendigo os amigos e momentos vívidos,
na memória de cada um de nós,
no coração que soa sua inigualável voz.

Bendigo as uniões e famílias,
nos enlaces e desatar dos nós,
também palpitam na mesma voz.

Bendigo as conquistas e utopias, os sonhos,
porque se não sonhássemos, nada faria sentido,
um sopro rouco e abatido?

Ora, digo-lhes!
Bendigo a cada um de vós!
E agradeço por junto ao meu,
pulsante,
saltitar a mesma voz!
280

Tudo sem um título

Não atire a pedra, espere!
Repense agora, é a hora!
Nada passou em branco, garanto!
Você estava amando, no comando!
De acácio a tupiniquim!
De apático a diadorim!
Por que reclamas?
Pelo quê clamas?
É você narrando! - Por que o espanto?
193

Bendigo II

Não é a passagem do ano que renova cada um de nós,
mas sinto que nada faz sentido senão,
para unirmos forças em prol do amor.

Bendigo os amigos e momentos vívidos,
na memória de cada um de nós,
no coração que soa sua inigualável voz.

Bendigo as uniões e famílias,
nos enlaces e desatar dos nós,
também palpitam na mesma voz.

Bendigo as conquistas e utopias, os sonhos,
porque se não sonhássemos, nada faria sentido,
um sopro rouco e abatido?

Ora, digo-lhes!
Bendigo a cada um de vós!
E agradeço por junto ao meu,
pulsante,
saltitar a mesma voz!
243

Memória de Sofia

Era tarde de outono, o vento brincava acariciando os cabelos longos e soltos de Sofia, que despreocupada, admirava as acrobacias das abelhas que ali rodeavam o perfume das flores. Dois olhos negros a fitavam insolentes, a antipatia foi recíproca. Sensação inquietante a percorreu enquanto sentia-se fisgada pelas mãos, queimadas de sol, enlaçando-a. Não imaginava que a euforia envolvendo seus pensamentos seria amor, sentimento que não dá oportunidade de expectativa, tampouco avisa com antecedência sua forma de manifestação, simplesmente acontece de maneiras inesperadas.
Seria inevitável a existência de um contato íntimo, então, a fez sentir-se completa, quando sua pele já correspondia às carícias mais suaves. A felicidade era plena, aconchegada no calor daqueles braços que a imunizavam de qualquer reação de fuga. No mesmo instante, aqueles olhos rubros a admiravam serenos, e um sorriso tranquilo se fez naqueles lábios macios, realçando os traços da face queimada. Todavia, a insegurança e o receio de perdê-lo a fizeram tremer.
O momento de separação estava próximo, os braços se tornaram mais apertados, os beijos sempiternos e úmidos e as mãos mais atrevidas nas carícias. Mais tarde, seria apanhada pela sensação de vazio e de abandono. As palavras da despedida, permaneceriam nos ouvidos de Sofia:
 – “Eu te amo! (...) És minha! (...) Não te aflijas que voltarei!”.
O íntimo de Sofia, em instantes de rebelião pergunta:
– Quando?
Sofia tinha então dezenove anos, o tempo passa e as lembranças permanecem. Sofia guardou tudo o que restou daquele amor; - uma carta, um telegrama, um cartão, as fotografias, que indubitavelmente se deteriorariam com o tempo e as sensações que não envelhecem, são intangíveis, ninguém terá meios de destruir. Poderiam apenas fazê-la revisitar velhas cicatrizes, quiçá descobrir um outro amor, que não de esperas e lembranças.
Foram muitas as vezes que o procurou para confessar o mesmo amor. Cativou a brisa da noite, que lhe consumia as lágrimas de saudades. Tantas foram as vezes que Sofia tentou substituí-lo, entretanto, todas as tentativas foram em vão.
Após tantas buscas, o encontrou junto à outra. A dor de saber que a substituíra e que recebia tudo quanto desejava para si, a fez resolver o futuro. Porém, o arrependimento daquele reencontro superava a angústia em casar-se com outro, amando-o como amava. Falsas as promessas, os carinhos, a espera, ilusões que somente ela alimentou.
Daquela união logo desfeita, Sofia gerou uma filha, e transferiu a ela toda dedicação sufocada no seio. Trabalha, diverte-se, tem amigos, mas não quer envolvimentos emocionais, talvez preserve ainda uma tênue esperança de algum dia redescobrir os mesmos olhos, os mesmos lábios, o mesmo sorriso e tudo mais que o compusera, até mesmo alguns fios de cabelo prateados, provando que para ele também o tempo passou.
Muitas vezes, se entrega às doces lembranças daqueles dias, tantos anos se passaram, talvez trinta ou quarenta, não importa. Brincando e sorrindo, percorre a imensa cidade, milhares são as pessoas que por ela passam, e em cada fisionomia, busca traços daquele mesmo amor, mas não existe identificação, traçado único.
Quem sabe algum dia, Sofia encontrará alguém que consiga em seu peito, reacender a chama da paixão aprisionada, alguém que a faça superar o sentimento pulsante das recordações insensatas.
No silêncio da noite, relembra os olhos profundos medindo-a, pensa na leveza das carícias e nos beijos apaixonados, e a mesma voz se faz ouvir:
– “Te amo! (...) És minha (...)
É o fantasma da saudade, apenas sopro de memória.
A realidade de hoje é diferente. O sorriso infantil de sua filha a libertara das correntes que a prendiam ao passado, dos poucos casos inconsequentes que arriscara nos últimos anos.
A saudade já não é tão amarga.
Com um gesto, afasta os fantasmas do passado e sorri para a filha, seu presente.
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Carta de amor

Agarrei-me nos seus dedos
Amordacei meus medos
E enfim pude sentir
Suave arrepio me fez sorrir
Lançados sob os lençóis os dados
Meus olhos por ti vendados
Em seus braços, adormeci
Como nos jardins onde cresci
Abrolhou-me à pele os beijos
Mil cores em feixos
Amor em florada matinal
Desejo nada trivial
Que súbito tocou a pena
Trêmula, porém doce e serena
Nesta confissão farta
De amor contido nesta carta.
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Biografia do autor

Pintor, desenhista, gravador e escritor, autodidata no ofício da composição, inspirado pelo legado dos modernistas no Brasil. Na infância, sob o zelo da bisavó, nasce nos pincéis e têmperas a paixão pela cor e a euforia encoraja-o à prática. Em 2005, J. Borges e suas criações inspiraram-lhe aos primeiros contatos com Xilogravura. Nos anos seguintes dedicou-se à promoção cultural originando seu espólio profissional em 2014, sua primeira coletânea pictórica - “Reflexões”. Dedica-se desde 2016 aos estudos arquitetônicos e urbanísticos e, a partir de 2018, a maturidade de sua obra torna-se protagonista na pinacoteca de A. dos Santos, distinto colecionador carioca. O artista teve 7 exposições nacionais individuais em um fluxo itinerante. Atualmente, seu trabalho percorre exposições por toda Europa e, no Brasil, mantém cronograma contínuo de mostras e publicações literárias, havendo em sua jornada destacados prêmios literários entre os anos de 2017 e 2018.

Titulação

A Academia Independente de Letras junto à Casa Literária Enoque Cardozo, no uso e atribuições de suas finalidades legais, presente em seus estatutos confere o Título de Imortal ao escritor: 

RAFAEL RUIZ ZAFALON DE PAULA 

Reconhecendo assim o valor por força e mérito daquele que carrega em si o dom e o talento literário, diplomando-o e empossando-o como Membro Vitalício à cadeira de n.31, a Resiliência,outorgando-lhe os direitos e prerrogativas estatutárias regimentais.