Lista de Poemas

Carta à Friedrich Nietzsche

Ao ilustríssimo amigo Friedrich Nietzsche,
"Enquanto desejas que haja saudade, há desprezo, fique sozinho e morra!" - Disseram os apaixonados aos frutos de seu imortal desejo.
Curioso, porém pouco inédito, constatar a aparência, tão frígida e sem essência, das falsas juras ditas sob abstenção de culpa ou interesse supérfluo, social.
(...) Encontrado um morto em prantos na escadaria da Sé!
Sobre a escadaria da majestosa catedral, arrítmico e hipovolêmico, faleceu nesta noite, maltrapilho, embriagado e choroso, aquele que ousavam chamar de amor.
Não haviam trocados, papéis ou frascos de cianureto em seus bolsos.
Calças largas, sua braguilha fechada e descalço, sobre os ombros, paletó antigo comprado a prazo, um lenço que cobria-lhe o pescoço nu e dois brincos sem lastro. (...)
Seria esta a manchete circulante na manhã paulista?
Tresloucados amigos, digo-lhes então, não há amor verdadeiro senão, aquele cujos olhos terceiros vertem lágrimas em emoção.
Virtuoso amigo, das letras e conversas nunca tidas, dou-lhe um conselho, talvez um tanto crítico, porem certeiro, não percais tempo incitando pessimismos pequenos, amores nunca plenos ou sentimentos quaisquer. Eis cá meu brado, a morte do "amor" dos meus tempos, sem errata, sem nenhum afago.
270

Nordeste Sangue e Coração

Sereia a nos inebriar
Sem pranto e em canto
Doce voz a clarear
Nordeste sangue e coração
Apaixonados sob o ar
Canoas e cantos
Pés à areia, a caminhar
Suor nas mãos
Nossa pele ao mar
Nossos contos de paixão
Sutil dom de amar
Dos reis magos à imensidão.
155

Florescer

E nada na vida fará sentido
Se não soubermos o caminho
Das migalhas deixadas
Sei que nada parece certo
Os olhos fitam o incerto
E a tristeza faz morada
Porém, um novo dia nos aguarda
Os campos no caminho hão de florescer
O sol iluminará as gotas de orvalho
E a luz brilhará novamente sobre nós
Assim vivem os sonhadores
Na esperança nunca morta
Pois felicidade que bate à porta
Dos que nunca desistem de recomeçar.
175

Confessaram-me as estrelas

Luzidias bailadeiras
Ora, confessem-me!
Que aprontam?
Sutis brincadeiras, estimado!

Gracejos de amor juvenil?
Ora, dir-me-iam então?
Porventura, dirá o tempo!
Por tal, fartei-me em gratidão.

Astros meus, que sobre vós brilha?
Mulher, que a todos cativa!
(...) suspirei aliviado

Agora compreendo bem...
Cintilam neste mundo
Não somente estrelas!
248

Sonho de verão

Curioso, não?
Hoje, sinto-me tocado pela certeza do incerto!
Ora sonhos...
Ora pesadelos...
Porém o inverso
Também sutil no universo
É a chegada do expresso
Que rasteiro, confesso
Leva-me daquela velha estação
Num longo sonho de verão.
126

Homenagem - Ilma. Sra. Sandra Maria Bovo Deziderá

Se você, por alguns momentos nesta vida, buscar a experiência de navegar por um universo indefinido onde "o tudo" exemplifica a razão do porquê, encontrará na expressividade adimensional deste autor, o êxtase que procura. “Um paralelo entre genialidade e psicopatologia, cabendo outras tantas definições, porém, a única forma de viver era superar dia após dia todos os dissabores. Amar e contigo conviver, uma experiência inigualável.”

E você leitor(a), mergulhe neste universo.

Sandra Maria Bovo Deziderá[1]
(São Carlos - SP, 28 de setembro 2019)
[1]Projetista de módulos e eventos expositivos, promotora de eventos e espetáculos na capital paulista entre os anos de 1980 e 1990.
"...você fez de mim um artista!", amada avó do escritor.
209

O amor morreu e não deixou herança?

Certo dia, a vi vagando na praça, descontente e cansada, secando as poucas lágrimas que havia poupado para aquela tarde, então perguntei-lhe espantado o que causava tão grosso pranto. Num suspiro sem encanto, disse-me que amava ao sujeito, porém em vão conjugava-me tal oração. Então, como cínico escritor, talvez audacioso, ou charlatão, pedi que me confessasse o que ouvira daquele amor "naturalmente contemporâneo" e, escarrando um pigarro súbito, jurou-me a fala - "Você quer que eu me castre de livre e espontânea vontade. Ficar só com um o resto da vida sempre pareceu filme de terror para mim". Consciente do caso, levantei-me desnorteado e caminhei, sem rumo, sem esperança.

Questiono-os cordialmente – o amor morreu e não deixou herança?
179

Pandeiro

Desbravando todo o campo
ansiosa à sua procura
meu peito ardendo em pranto
por sua partida tão dura.
Minha mão cambaleando sobre ti
cantarolando compreendi
seus olhos desejosos convenci
a batucada da noite percorri.
Seus lábios pousam suavemente aos olhos,
prenhes de paixão escapando aos poros.
179

Cordel encantado

Venho lhe buscar
Para num instante provar
O beijo doce do Giracá.
Por um instante o sabiá
Sobre o que diria?
Se acaso um dia
Giracá fosse me visitar.
Pois que Giracá é esse?
Que despertou em mim
Tão doce interesse
Cria de Caim e Abel
Afirmou a singeleza
E pelo sertão foi caminhar.
Viajei pelos sertões
Do tempo ao vento
Da terra rachada ao mar
Sem Giracá encontrar.
Vendo todo desperdício
Do meu povo trabalhar
Mas sobre essa terra seca:
Macaxeira, fiz brotar
Nas ossadas, pus-me a chorar
Nos terreiros, a orar
Para cá lhes contar
Esse cordel encantado de amar.
261

Crônica de Gení

Pés cansados, propósitos amados
O soar sinfônico da chegada não foi preciso
Estavas entretido, confesso
Larguei a exaustão física
Pus-me nua em peito à brisa
Arrisquei olhares desejosos
Comprimia os olhos com vigor
Mas em vão
Senti-me indesejável, porém
Não lhe supliquei
Hão os que fornicam, e basta
Se eterna é a alma
Por que não o frenesi em fazer o amor?
204

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Biografia do autor

Pintor, desenhista, gravador e escritor, autodidata no ofício da composição, inspirado pelo legado dos modernistas no Brasil. Na infância, sob o zelo da bisavó, nasce nos pincéis e têmperas a paixão pela cor e a euforia encoraja-o à prática. Em 2005, J. Borges e suas criações inspiraram-lhe aos primeiros contatos com Xilogravura. Nos anos seguintes dedicou-se à promoção cultural originando seu espólio profissional em 2014, sua primeira coletânea pictórica - “Reflexões”. Dedica-se desde 2016 aos estudos arquitetônicos e urbanísticos e, a partir de 2018, a maturidade de sua obra torna-se protagonista na pinacoteca de A. dos Santos, distinto colecionador carioca. O artista teve 7 exposições nacionais individuais em um fluxo itinerante. Atualmente, seu trabalho percorre exposições por toda Europa e, no Brasil, mantém cronograma contínuo de mostras e publicações literárias, havendo em sua jornada destacados prêmios literários entre os anos de 2017 e 2018.

Titulação

A Academia Independente de Letras junto à Casa Literária Enoque Cardozo, no uso e atribuições de suas finalidades legais, presente em seus estatutos confere o Título de Imortal ao escritor: 

RAFAEL RUIZ ZAFALON DE PAULA 

Reconhecendo assim o valor por força e mérito daquele que carrega em si o dom e o talento literário, diplomando-o e empossando-o como Membro Vitalício à cadeira de n.31, a Resiliência,outorgando-lhe os direitos e prerrogativas estatutárias regimentais.