Lista de Poemas

Introito - Ilmo. Sr. Rodrigo Augusto Prando

O poema mais lindo do mundo, recusado pelo seu autor, nunca será lido, expurgado, no fundo da lata de lixo. Quantos de nossos textos, de nossas vontades, de nossas ações vão, antes, para o ostracismo? Se não rasgamos e jogamos, vamos, com os dedos, selecionando, na tela, e deletando; numa tecla, com seta voltada à esquerda, vamos apagando.
Voltava, ao final e ao cabo do dia de trabalho, para casa e, bem posicionado na poltrona, lia os poemas de Rafael. Há tempos, dizem, que se deve escrever com o vinho e revisar com o café. Eu, que não sou o autor, tomei a liberdade de ler, em muitas ocasiões, com uma taça de vinho. Fui, em alguns momentos, tomado por um arrebatamento, por uma lança, cuja ponta tinha enorme beleza conjugada à força erótica de versos, do amor e da dor.
Em tempos de sociedade hiperconectada, de redes sociais, a sociedade em rede, nos leva, cada vez mais, a comunicações breves, instantâneas e, não raro, abreviações dilacerantes para a língua pátria. Há tempos, por isso, decidi retomar o hábito de escrever cartas para os amigos.
Penso que os que, como eu, estão, no mínimo, na casa dos 40 anos, escreveram e receberam cartas. Mensagens por e-mail são, para mim, de 1996 para frente. As cartas sempre foram uma paixão. Hoje, imagino que se sentar para escrever para alguém, não digitando, mas um texto manuscrito é um ato de enorme apreço. Quantas não foram as missivas que, sim, traziam “Nesta confissão farta/De amor contido nesta carta”? As cartas que chegavam, na maioria das vezes, com o perfume da mulher amada, já em minhas mãos, faziam-me arrepiar, de desejo e de paixão. Como, meu Deus, consegue em poucos versos, sutis, lindos, Rafael sintetizar um turbilhão de sentimentos? 
Leia. Refugie-se no talento do artista, na sensibilidade do poeta. Nessa nossa sociedade fraturada entre “nós” e “eles”, regadas por sentimentos de medo, ódio, angústia e quase esquizofrenia coletiva; a arte e a beleza são a resistência, o espaço da pulsão de vida e o encontro do ser humano com sua obra, com sua vida, com seus projetos. O mundo, às vezes, quer nos massacrar, nos humilhar. Há que se armar de poesia, música, literatura, filosofia e enfrentar esse sentimento de ódio, de desumanização, de autoengano e de frustrações socialmente fabricadas.
Rafael Zafalon – artista invulgar – nos brinda com seu texto. Nos convida, assim, à leitura, ao tempo precioso de nos dedicarmos à nossa própria existência. Lendo os seus versos, vamos pensando em nossa vida, em nossas alegria e agruras. Não creio numa felicidade absoluta, mas, sim, em felicidades cotidianas, simples, presentes naquilo que, por muitos, é desprezado, no ínfimo, nas fímbrias das relações sociais. O poder da poesia de Rafael será, caro leitor, inquietante, mas, também, revigorante. A inteligência e a beleza vencerão a obtusidade e o escárnio dos poderosos e maldosos.

Rodrigo Augusto Prando[1]
(São Paulo - SP, 29 de setembro de 2019)
[1] Possui Graduação em Ciências Sociais (1999), Mestrado em Sociologia (2003) e Doutorado em Sociologia (2009) pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Atualmente, é Professor Assistente Doutor da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), do Centro de Ciências Sociais e Aplicadas. Na Graduação ministra as disciplinas Sociologia Geral e Sociologia das Organizações. Na pós-graduação lecionou a disciplina Sociologia do Terceiro Setor. Administrativamente, foi Coordenador Didático da área de Sociologia e Humanidades e, posteriormente, Professor Responsável pela Linha de Formação "Humana e Social", do CCSA - UPM (2008-2013) e foi Professor Responsável pelo curso "Lato Sensu" de Gestão em Organizações do Terceiro Setor (2005-08). Professor da UNIFAE lecionando Sociologia para o curso de Publicidade e Propaganda e Professor do Mestrado em Desenvolvimento Sustentável e Qualidade de Vida. Na tese de doutorado versou acerca da trajetória intelectual e política de Fernando Henrique Cardoso e fez análise de conteúdo dos discursos presidenciais (1995-98). Na UPM, realizou pesquisas no Núcleo de Estudos do Terceiro Setor (NETS), no Núcleo de Empreendedorismo e Desenvolvimento Empresarial (NEDE) e no Núcleo de Pesquisa em Qualidade de Vida (NPQV) atualmente, é pesquisador da Agência Mackenzie Sustentabilidade. Desenvolve pesquisas e orienta nas áreas de empreendedorismo, empreendedorismo social, gestão em Organizações do Terceiro Setor, Responsabilidade Social Empresarial, valores, história e cultura brasileira, Pensamento Social Brasileiro e Intelectuais e poder político.

 
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Críticas - Ilmo. Sr. Oscar D’Ambrósio

VERSOS NASCEM DE INSTANTES

O que é a poesia? Existem milhares de definições, mas talvez as mais importantes sejam aquelas que apontam para a arte de escrever como forma de interpretar o mundo. E, nesse sentido, os versos de Rafael Zafalon trazem um conteúdo a ser lido com carinho, pois nos motivam a repensar aquilo que entendemos como existência.
Um de seus poemas mais significativos menciona que, no fundo de uma lata de lixo, num papel amassado, pode estar o poema mais lindo do mundo. Trata-se de um belo alerta para o nosso exercício cotidiano de escolhas, nem sempre as mais sábias, mas as possíveis em cada momento que atravessamos.
O mais complexo e interessante dessa jornada é que a vida é sinônimo de transformação. Portanto, o que jogamos ao lixo ou o que dele recuperamos varia ao longo do tempo. E não adianta pensar que vivemos apenas nosso tempo terreno. Somos a soma dos que viveram antes de nós – e nós somos, de uma forma ou de outra, a base do futuro.
A meninice, como alertam os poemas de Zafalon, também artista plástico, traz consigo amores e a jornada do viver se consolida como uma errata permanente. Nesse contexto, o poeta alerta que versos nascem de hiatos e esses breves instantes são prelúdios de sonhos. Assim se instaura a magia da escrita, da existência e da vida.

Oscar D’Ambrósio[1]
(São Paulo - SP, 02 de Outubro de 2019)
[1] Jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e Gerente de Comunicação e Marketing da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo.
 
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Chaga inlúcida

Vejam o quanto é difícil
Para os desgraçados meninos
Que choram sua inocência
Vertigens ao caminho
Pobre e breve bravura
Veracidade num beco sem lua
Ora, tresloucado amigo, que espera?
Do escriba maltrapilho algum unguento?

(...)

As armas que aqui estalam
Já não estalam em outro lugar
Educação não estanca chaga inlúcida
Amor tampouco salva maldade lúcida.
242

Raiz em mim

Ipê aflorado sem primavera
Doçura ao mundo dera
E nada mais se espera
Em tão tortuosa era
Não há neste mundo
Tortuoso
Profundo
Onde todos circundam
Bastava ela
Múltipla aquela
Cá caminha bela
E todos fitam a força dela.
166

Todo sopro é prelúdio dos sonhos

Os versos nascem dos hiatos
Adormecidos naqueles rastros
Que risonhos desbravam o céu
Mesmo distantes
Aqueles mesmos amantes
Acima de toda palavra
Nas folhas claras e secas
Ou mergulhados no mais doce mel
Dos amores nada enfadonhos
Todo sopro é prelúdio dos sonhos!
203

Falta ao mundo

Décima sétima parada
Daquele mês duradouro
Conquistando-nos Mouro
Digo-lhes Maio, eis a errata!

Cometeria tal, trágico escriba?
-Pois bem, amar sem ver a quem!
ah! ah! ah! (...) Não pensas bem?
-Tresloucado, desrespeito proíba!

Fervoroso pleito, compadecido
Rogo igualdade, cá sereno
Infindável clímax, guarnecido

Embarquei então, entristecido
Falta ao mundo um toque pleno
Todo amor é válido, enriquecido.
173

Na beira do mar

Eu e você
Num só compasso
Rabisco um traço
Ora cá
Na baixada
Ora lá
Na beira da estrada
Você está
Desembaraçado
Cambaleante
Juvenil amante
Na beira do mar.
168

Oratório

Ficam nos passos meus
Amores passados
Minutos rasgados
E no entanto
Memoráveis são os sonhos
Tortuosos ou risonhos
Flutuantes
Livres
Como este poeta amador
Que destemido roga amor
Sob as ruínas
Desta concha da fé.
130

Éramos nós duas

Naquela língua tênue
Regozijando sua doçura
A flor da pele nua
Fiz-me cálida às pétalas
Perdidas entre nós
Na cama, no suor
Viajando da boca aos lábios
Onde fiz língua ser chave
Sépala ao fruto
Fruto à polpa
E adormeci em seu peito.
146

Ouça o som!

Oco espaço nas mãos
Som em responsos
Contínuos zombeteiros
Recolhendo os pés
Mordiscando os joelhos
Amordaçada voz
Deliberada mente
Balançando, só ouço sons
Ouça os sons!
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Biografia do autor

Pintor, desenhista, gravador e escritor, autodidata no ofício da composição, inspirado pelo legado dos modernistas no Brasil. Na infância, sob o zelo da bisavó, nasce nos pincéis e têmperas a paixão pela cor e a euforia encoraja-o à prática. Em 2005, J. Borges e suas criações inspiraram-lhe aos primeiros contatos com Xilogravura. Nos anos seguintes dedicou-se à promoção cultural originando seu espólio profissional em 2014, sua primeira coletânea pictórica - “Reflexões”. Dedica-se desde 2016 aos estudos arquitetônicos e urbanísticos e, a partir de 2018, a maturidade de sua obra torna-se protagonista na pinacoteca de A. dos Santos, distinto colecionador carioca. O artista teve 7 exposições nacionais individuais em um fluxo itinerante. Atualmente, seu trabalho percorre exposições por toda Europa e, no Brasil, mantém cronograma contínuo de mostras e publicações literárias, havendo em sua jornada destacados prêmios literários entre os anos de 2017 e 2018.

Titulação

A Academia Independente de Letras junto à Casa Literária Enoque Cardozo, no uso e atribuições de suas finalidades legais, presente em seus estatutos confere o Título de Imortal ao escritor: 

RAFAEL RUIZ ZAFALON DE PAULA 

Reconhecendo assim o valor por força e mérito daquele que carrega em si o dom e o talento literário, diplomando-o e empossando-o como Membro Vitalício à cadeira de n.31, a Resiliência,outorgando-lhe os direitos e prerrogativas estatutárias regimentais.