Lista de Poemas
🔵 Cão
Saltitante, trotando como um puro sangue, vinha ele. Pelo negro brilhante e uma mancha branca espalhada pelo peito e as quatro perninhas compridas. Trazia uma característica respeitosa na mandíbula comprida. Merecia um nome nobre: Duque, talvez. Contudo, sua aparência inspirou, ironicamente, a abreviação do terrível pitbull. Como de costume, mas franqueando algum respeito, chamava-o de cão.
Empertigado, pelagem brilhante, mandíbula proeminente, ossatura firme, porte esbelto, um legítimo Fox Paulistinha. Seria assim que o Pit se descreveria se tivesse o dom da fala; eu também exageraria descrevendo os seus atributos se ele fosse inscrito num torneio do Kennel Club. No entanto, o meu cãozinho trazia um rato morto na boca e, pelo que eu saiba, capturar roedores não garante nenhum brinde no Kennel Club.
Se passeasse com o pequeno cão, sei que não poderia fingir que éramos uma dupla muito perigosa (eu, lutador de jiu-jítsu e ele, um pitbull), por isso, só tinha coragem de levá-lo para tomar vacina contra a raiva, em agosto.
Pit caçava ratos e exibia-os como se alguém admirasse essa sua habilidade. Não bastasse a ausência de higiene, o animal fazia questão de mostrar o resultado de sua busca em qualquer ocasião, inclusive na hora do almoço. Sua única habilidade apreciada — embora repetida por qualquer vira-lata velho e zuado — era pegar bolinhas. Ele apenas cessava quando eu parava de chutar as esferas; pela sua incrível frequência cardíaca, tenho certeza que só desistiria quando caísse morto.
Ele não seria útil perante um cão perdigueiro ou um cão pastor. Ele não vinha de uma raça famosa como um dálmata, a Lassie, o Snoopy, o Benji, o Scooby-Doo, o Marley etc. Ele não era um bicho feroz e temido como um dobermann, um fila, um rottweiler ou um, novamente, pitbull.
Não foi nenhum animal premiado, não possuía habilidades especiais, não fazia truques e não era um bom guarda. Entretanto, era um ótimo companheiro. A maior habilidade dele era mostrar qualidades humanas. O grande truque dele viria no ato final: saudades...
O coraçãozinho do Pit parou. Não foi apanhando ratos, nem bolas.
Empertigado, pelagem brilhante, mandíbula proeminente, ossatura firme, porte esbelto, um legítimo Fox Paulistinha. Seria assim que o Pit se descreveria se tivesse o dom da fala; eu também exageraria descrevendo os seus atributos se ele fosse inscrito num torneio do Kennel Club. No entanto, o meu cãozinho trazia um rato morto na boca e, pelo que eu saiba, capturar roedores não garante nenhum brinde no Kennel Club.
Se passeasse com o pequeno cão, sei que não poderia fingir que éramos uma dupla muito perigosa (eu, lutador de jiu-jítsu e ele, um pitbull), por isso, só tinha coragem de levá-lo para tomar vacina contra a raiva, em agosto.
Pit caçava ratos e exibia-os como se alguém admirasse essa sua habilidade. Não bastasse a ausência de higiene, o animal fazia questão de mostrar o resultado de sua busca em qualquer ocasião, inclusive na hora do almoço. Sua única habilidade apreciada — embora repetida por qualquer vira-lata velho e zuado — era pegar bolinhas. Ele apenas cessava quando eu parava de chutar as esferas; pela sua incrível frequência cardíaca, tenho certeza que só desistiria quando caísse morto.
Ele não seria útil perante um cão perdigueiro ou um cão pastor. Ele não vinha de uma raça famosa como um dálmata, a Lassie, o Snoopy, o Benji, o Scooby-Doo, o Marley etc. Ele não era um bicho feroz e temido como um dobermann, um fila, um rottweiler ou um, novamente, pitbull.
Não foi nenhum animal premiado, não possuía habilidades especiais, não fazia truques e não era um bom guarda. Entretanto, era um ótimo companheiro. A maior habilidade dele era mostrar qualidades humanas. O grande truque dele viria no ato final: saudades...
O coraçãozinho do Pit parou. Não foi apanhando ratos, nem bolas.
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🔴 Simão Bacamarte
Saiu um novo pedido de prisão de Alexandre de Moraes. O aviso consta na página do Banco Nacional de Monitoramento de Prisões (BNMP). Curiosamente, o Mandado de Prisão foi expedido pelo próprio ministro. O documento é falso, claro.
O texto ostenta uma pompa, falsa erudição e arrogância típica dos documentos jurídicos, portanto, poderia ser escrito pelo magistrado. Embora plausível, a “brincadeira” deve ter sido executada por um “hacker”.
Texto: “De todos os inquéritos de censura e perseguição política, em curso no Supremo Tribunal Federal para o CNJ, a fim de que me punam exemplarmente. Diante de todo o exposto, expeça-se o competente mandado de prisão em desfavor de mim mesmo, Alexandre de Moraes. Publique-se, intime-se e faz o L”, diz trecho do mandato de prisão falso.
Sem muita atenção, nota-se a inteligência e o humor do “hacker”. No entanto, depois de descoberto, o sujeito será preso. Tudo o que envolve cadeia, atualmente, é um mistério. Advogado (com acesso aos autos), Estado Democrático de Direito e Constituição, esqueça. O máximo de direito que um preso político consegue é uma tornozeleira eletrônica.
O destemido “hacker” deve ter um diferencial: é letrado. É fácil constatar isto: o trote jurídico pode ter inspiração no conto de Machado de Assis ‘O Alienista’. Nesse conto, Simão Bacamarte, o alienista, é um médico de loucos que, em nome da Ciência, prende no manicômio todos que julga serem loucos. Arrogante, exercendo uma suposta ciência, acaba confinando a si mesmo como louco. Justo.
Qualquer semelhança com a coincidência é mera realidade. Todas as vezes que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) aparece, nos brinda com um discurso ameaçador. Somando a voz arrogantemente impostada, as ameaças e a gargalhada malígna, ele me lembra um vilão caricato de filme de super-herói, dos anos 70. Esses que planejam dominar o mundo do começo ao fim do filme. Este tipo de personagem sempre encontra um fim trágico.
Entretanto, embora não pareça, estamos vivendo o que chamam de realidade, e neste contexto o “hacker instruído” passará alguns dias numa cela fria, lotada e sem cigarros. Ah, sem direito de acesso aos autos.
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🔴 Funcionário do Mês
O comediante Paulo Vieira foi incumbido de alegrar a turma da Globo. Não precisava muito, quem estava no programa do Luciano Huck, teria que gargalhar. Isso fazia parte do trabalho. Não podemos esperar outra reação dos funcionários, onde os premiados como “Melhores do Ano” são apenas funcionários da casa. É, basicamente, uma festa de fim de ano da firma.
O piadista escolheu um repertório sob medida para agradar os chefes e, consequentemente, a trupe global, que, “acima da espinha dorsal ereta” (caráter), tem o instinto de sobrevivência de manter o emprego. É compreensível.
Paulo Vieira atendeu a claque — que, prudentemente, ria antes do início da piada. Porém, o humor televisivo está muito fraco. Os humoristas eram provocativos, sem freios e anárquicos. No entanto, hoje eles são panfletários, autocontrolados e procuram agradar ao patrão — agradar é muito diferente de fazer rir.
O humorista reuniu, como por encomenda, temas que, sem erro, agradariam: falar mal do Luciano Hang (Véio da Havan) e dos Patriotas, que acampam nas frentes dos quartéis por não aceitarem ser roubados. Na mosca! Embora previsíveis, ele arrancou risos cenográficos e aplausos entusiasmados de Luciano Huck, Fábio Porchat, Dira Paes, Marcos Palmeira, o jornalista William Bonner e grande elenco,
Tudo, é claro, não passou de uma piada. No entanto, o humorista soube selecionar os chistes que seriam aprovados pela direção e ganharam a reação esperada dos colegas. Escravo das amarras do politicamente correto e atento à política de “compliance ESG” (conformidade com o meio-ambiente, o social e o gerenciamento sustentável) da empresa, ele não ousou contar piadas ofensivas à “tchurma” e que pudessem lhe custar o emprego.
E assim foi mais um domingo na Globo: repleto de “Melhores do Ano” que se comportam como “Funcionários do Mês”.
Obs: engraçada ou não, é apenas uma piada. Entretanto, o humorista ganhou uma lupa ideológica. Depois da reação dos que não acharam graça na pilhéria (pelo contrário, sentiram-se ofendidos), Paulo Vieira “pegou pilha” e começou a ofender quem pensa diferente. Aí não.
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🔵 Carreta Furacão
A Carreta Furacão, quando surge, parece inofensiva. Apenas parece. Trata-se de um trenzinho turístico feito para alegrar toda a família, independente da idade. Tem o aspecto inofensivo porque apresenta tudo muito colorido, uma seleção formidável de personagens (super-heróis, bichos e personagens infantis sortidos) e uma seleção incrível de canções animadas. Essa fauna de animadores alegra, mas também barbariza e “toca o terror”, por onde passa.
Ao dobrar a esquina, surge o veículo encantado, espalhando alegria e “terror” nos transeuntes distraídos. Ora, quem está nos pontos de ônibus, portas de lojas ou simplesmente caminhando lentamente e cabisbaixo não espera que surgirá um Fofão, Capitão América, Homem-aranha, Goku, entre outros, completamente anárquicos.
Os animadores, devidamente fantasiados, geram um humor involuntário porque são ensandecidos. Fazem rir, porque não é todo dia que vemos uma briga de mascotes. Pois é essa cena, dentre o cardápio de travessuras, que os bonecos anárquicos proporcionam quando são soltos.
O grau de barbarização em via pública corrobora a ideia de que não é obrigatório embarcar na ‘Carreta Furacão’ para se divertir, com direito à trilha sonora infantil. Aliás, quando eu era criança, havia um trenzinho que animava o meu bairro. O mais divertido era seguir esse tipo de “trio elétrico infantil” sem pagar. A rabeira do veículo da alegria garantia uma maior interação com o Fofão, o Snoopy e grande elenco, apesar de ser um atestado de miséria.
A equipe de transição do, vá lá, governo Lula é comparada com a atração infantil. Chamada de ‘Carreta Furacão’, a tal equipe é igualmente numerosa e aleatória. Com quase 1000 integrantes, a equipe junta uma galera quase tão estranha quanto Fofão e Goku, heróis do trem, juntos.
Metendo o pé na porta, a turma do petista tem quatro vezes mais integrantes que a equipe de Bolsonaro. Portanto, tem o potencial para ser inversamente proporcional em competência e honestidade. O estrago começou antes da posse.
Uma coisa a equipe de transição do Lula e a ‘Carreta Furacão’ provaram ter em comum: são utopias que geram um riso involuntário e nervoso.
319
🔵 Lula lá, eu aqui
Naquele dia, acordei mais cedo e tomei o café da manhã. Antes de sair, peguei uma pilha de “santinhos”. No panfleto, havia um sujeito barbudo e alguns escritos, dentre eles, um em destaque: “Lula lá”. Àquela época, ainda era romântico votar no PT e achar que o Lula significava o povo no poder.
Quem não foi socialista na juventude, não tinha coração; quem permanece socialista depois de adulto, não tem cérebro. Esta anedota talvez entregue que eu sempre fui frio e calculista. Não precisei receber boletos, nem DARF’s para descobrir que o Estado seria meu maior inimigo e as estatais são “elefantes brancos” que favorecem a corrupção e expõem a ineficiência do governo. Logicamente, eu ainda não havia estabelecido estes conceitos, de modo que fui convencer alguns eleitores, que assinalando na cédula o nome daquele cara, que eu mal conhecia, teríamos um País melhor.
Eu não sabia, mas aquela experiência tinha o potencial de alterar o rumo da minha vida. O terreno era espinhoso, de modo que gás lacrimogênio, jato d’água, cassetete, bala de borracha, algemas e camburão abririam um portal sem volta, deixariam uma ferida impossível de cicatrizar e alterariam minha incipiente personalidade para o resto da vida. Eu seria cooptado como um adepto de uma seita cujo fim é o suicídio coletivo.
Nem a escola, nos anos 80, foi capaz de me tornar ávido por justiça social. As aulas de História e Geografia não me convenceram de que éramos todos opressores e oprimidos. A propaganda, feita por um professor, da fundação do Partido Verde não me comoveu, continuei achando o feto humano mais importante do que o ovo de tartaruga.
A contestação, causada pelo choque de gerações, aos meus pais era facilmente dissuadida com um pacote de ‘Biscoitos São Luiz’ sabor chocolate e a revolta com a Igreja Católica era aplacada com a ameaça de um deus vigilante e vingativo.
Essa opção, numa encruzilhada da vida, me impediu de virar um Che Guevara de butique, vestindo sandálias de couro e calça de algodão cru, passar as tardes na Vila Madalena me entupindo de cachaça com linguiça e achando Guilherme Boulos e Marcelo Freixo caras legais.
***
Consegui abstrair aquela situação e vi que não ornava. A estética era péssima: eu distribuindo panfletos do PT, sorrindo e sendo retribuído com indiferença. Constatando que aquilo não era pra mim, devolvi a pilha de panfletos e segui me decepcionando com a política, mas, a partir dali, somente com a direita.
A minha alternativa foi o Collor, o caçador de marajás.
Fim.
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🔵 O último jogo de futebol
Já não passaria mal. Antes, quase vomitei, depois das corridas entre defesa e ataque. Esse era meu retorno, após um período de algum grau de sedentarismo, ao futebol de meio de semana. Todo o vigor físico conquistado era confiscado na churrasqueira e no balcão do bar.
Com a mudança de trabalho, o futebol, o churrasco e a cerveja no meio da semana tiveram que ser sacrificados. Por um lado isso era bom: não precisaria mais chegar em casa às quatro da madrugada nem acordar quebrado. Aquela vida de “atleta de um único dia” havia ficado para trás.
Domingo, novamente entregue ao sedentarismo, os amigos me chamaram para assistir à final do campeonato. Relutei, dando explicações que não pareceram convincentes. Não conseguindo aplicar uma desculpa plausível, desisti e aquiesci ao insistente convite.
Chegando na quadra, aproximei do narrador para ver o placar da partida. Não queria acreditar no que vi: o meu nome estava escrito na escalação que o narrador consultava. Tive um misto de orgulho e frustração típica de quem caiu numa pegadinha televisiva. A solução era eu me esconder entre os espectadores. Mas não teve jeito, fui descoberto e “convidado” (mais um convite) para vestir o uniforme e entrar na quadra.
O sedentarismo causou uma incompatibilidade entre a vontade de vencer e o corpo. O cérebro estava na quadra “society”, correndo da defesa ao ataque (e vice-versa); o corpo ainda tentava se esconder entre a torcida, “assistir” a churrasqueira ou debruçar no balcão.
A minha gana de vencer sempre contrastou com outros que, ao contrário, pareciam com vontade de perder. O placar adverso refletia o ânimo da equipe, pois, já estava estabelecida a derrota. Portanto, pouco adiantou o reforço, mesmo que eu estivesse em melhor forma física.
Apesar de eu jogar apenas para dividir a frustração por perder o campeonato, cheguei à conclusão de que os tempos de “atleta” haviam se esgotado. E, para não sofrer nenhum gol, fiquei na defesa, já que eu também estava esgotado. Apenas sobrava disposição para o churrasco e a cerveja.
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🔴 Fernando Haddad colou, mas não colou
A equipe de transição do PT (Partido dos Trabalhadores) assusta. A mistura aleatória de colaboradores da volta do projeto nefasto de poder confirma os maiores temores de “volta ao local do crime”, dando uma leve parafraseada na exata fala de Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito. Apelidada de Carreta Furacão — trenzinho infantil que reúne uma turminha inacreditável de personagens —, a absurda e meganumerosa equipe de transição ocupa o Palácio do Planalto como um local abandonado. Calma, quando anunciarem os ministérios, pode piorar.
Fernando Haddad, possível ministro da Fazenda, cursou apenas dois meses de mestrado em Economia, tendo “colado”. Eu não tenho sequer essa curtíssima experiência de 60 dias na disciplina, logo, não colei. Num país em que a maioria valoriza a honestidade, eu ganharia o cargo no quesito confiança. No entanto, como o STE (Superior Tribunal Eleitoral) quis dizer, a maioria não valoriza a honestidade e é ingênua, quando ao mesmo tempo cai fácil no “conto da picanha”. Triste...
Fora de contexto, piada, brincadeira, as desculpas seriam suficientemente tranquilizadoras se o político do PT não fosse cotado para o Ministério da Fazenda. Apesar das ideias assustadoras, o fato do petista ter “colado” na disciplina, pode ser uma excelente notícia, afinal o desconhecimento significa impedimento de implementá-la. Afinal, o que é pior: alguém como Guido Mantega ou Fernando Haddad?
Haddad é uma mentira ambulante. Forma uns três acordes, mas posa segurando um violão que é uma beleza, fingindo, assim, que toca o instrumento. Ele também carrega uma estética meio tucana (petista de paletó). Contudo, não se engane, apesar da estampa de professor do ‘Mackenzie’, suas ideias são radicais como as de um comunista do início do século XX. Só essas características credenciam-no como um Cavalo-de-Troia perfeito. Apesar de multi derrotado, ele se infiltrou no coração do poder.
Quando Haddad confessou que não sabia nada de Economia, a plateia aplaudiu. Essa atitude escancara o jeitinho brasileiro (malandragem). Haddad diria a seus professores: Perdeu, mané.
Não há reza que faça isso dar certo.
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🔴 Azar deles
Um povo não merece ser governado por um mandatário condenado. Ontem, Cristina Kirchner foi condenada pela Justiça. Como os argentinos têm azar!
Como dar o exemplo? Os pais ensinam que é feio roubar, que isso não compensa. Os argentinos não têm mais este argumento. Aqui no Brasil, os juízes têm plena consciência: o crime não compensa. Por isto, lamento muito: que pena dos argentinos.
Governantes amigos de ditadores sul-americanos. Ditadores sul-americanos donos de uma estética caudilha terceiro-mundista. Foro de São Paulo, Grupo de Puebla, Unasul, Bolivarianismo etc. Esse pacote de besteiras faz parte do glossário do Mal e compõe essa estética latino-americana terceiro-mundista. Todos esses mandatários parecem oferecer um ideal de sociedade tão utópico que não conseguem entregar nunca. Acabam por “quebrar alguns ovos para fazer uma omelete”. Prometem uma igualdade que, se existe, se materializa como escassez para todos. A Argentina padece na mão dessa gente. Que azar!
O futebol é o ópio do povo. É Copa do Mundo, a seleção está classificada para as quartas de final, portanto, tudo é válido; é nessas horas que medidas impopulares passam no Congresso, A nossa rivalidade é só em campo. Por serem tratados assim, tenho pena deles, os argentinos.
Mesmo após a sentença, a permanência no governo é praticamente garantida. O crime, quando não é punido se banaliza, aí a cara de pau é institucionalizada, e até a Presidência abre as portas para quem deveria estar na cadeia. Governados por quem deveria estar na cadeia. E, pela idade avançada, isso não vai acontecer. Ah, os “hermanos”, quanto azar. Graças a Deus, sou brasileiro.
Perseguição política é a narrativa padrão para “vender” a condenação como algo ilegal. A turma da vice também fala em “máfia judicial” e “Estado paralelo”. A Argentina não é para amadores.
As urnas eletrônicas provam que no Brasil, sim, existe democracia. A apuração sempre ocorre magicamente, e os resultados são divulgados como, mágica, no dia. Eleições, aqui, são tão confiáveis e ágeis, que esse dia é conhecido como: “A festa da democracia”.
Realmente, nós temos muita sorte.
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🔵 A revolução dos bixos
Resolvi começar mais uma faculdade. Sempre tomando o devido cuidado para não virar aquela piadinha besta do pedreiro que fez cinco faculdades e ía começar mais uma. A decisão era séria, entretanto desta vez os objetivos eram alguns: dar um “upgrade” na minha formação intelectual, bem como obter um diploma para pendurar no lugar do diplominha da escolinha infantil. O principal era que, com o terceiro grau completo, eu poderia prestar um concurso público mais robusto.
Ingressei numa dessas universidades “shopping center”, conhecidas como “pagou, passou” ou, ainda, prédios escolares que, distribuindo canudos, despejaram caixas de supermercados advogados e balconistas administradores de empresas.
Nosso quadro docente contava com uma equipe pronta para formar uma guerrilha urbana e a luta armada, almejando, eternamente, a “ditadura do proletariado”. Para não sobrar dúvidas, um professor chamava-se Vladimir. Como eu não tinha talento para disfarçar que era capitalista e, além disso, conservador, só continuei o curso porque Vladimir (logo ele!) me deu cobertura e garantiu minha vida enquanto não instalassem o paredão. Descartando a possibilidade de me tornar um marxista, tratei de autopoliciar o emprego das palavras. Sem o estereótipo das classes trabalhadoras, menos favorecidas, minorias ou coletivos, logo vi que eu estava em território inóspito. Portanto, enfrentaria anos difíceis.
Mas, descobri, eu não era o único direitista infiltrado naquele ambiente socialista. O curso de Letras e os descontos atraíram um “enxame” de policiais civis e militares com o objetivo de ingressar na Polícia Federal. Um pouco de tirocínio identificava a ideologia dos indivíduos (professores e alunos).
A profissão da maioria dos calouros intimidava a aproximação dos veteranos e seus trotes. Nós, os calouros, passeávamos pelo “templo do conhecimento” espantando quaisquer ameaças de trote e, até eu evadir-me de mais uma faculdade, do trote. Enfim, consegui dissuadir a ameaça de perseguição dos malditos comunistas.
Me sentindo um veterano já no primeiro dia e incólume à doutrinação escolar, senti-me livre para acessar os gráficos da Bolsa de Valores e outros ícones da burguesia. Naquele momento, me senti incólume às lesões cognitivas causadas pela leitura de Jean-Jacques Rousseau e Michel Foucault, bem como militantes disfarçados de professores implementando sua tática gramsciana. Minhas credenciais garantiam que ninguém se aproximaria de mim me chamando de companheiro.
Eu nunca tive vocação para me fazer de oprimido, muito menos “posar” de vítima da suposta classe opressora. A utopia socialista jamais me usaria de massa de manobra. O Diretório Acadêmico, naquele ano, garantiria uma fornada de idiotas úteis voluntários. As expectativas iniciais tornavam tinta na cara e um corte mal feito no cabelo os menores dos males.
74
🔵 Passarás vergonha
Fui à missa da igreja do bairro. Fui com a minha mãe e, sendo muito novo, me comportei bem porque ali, além de ser a casa de Deus, Ele poderia castigar-me. Eu estava sendo avaliado por minha mãe, Deus e o padre. Não adiantava olhar para os lados, os santos pareciam me encarar, às vezes com cara de acusação. Eu nunca me senti tão vigiado exposto aos olhos dessa turma. Se eu me submetesse ao escrutínio implacável desta turma, quem sabe, no Natal, isto poderia me render bons presentes.
Estava montado o cenário que corroborava com o temor que Deus castigava e os olhos d’Ele estavam em todos os lugares. Seria relativamente fácil ouvir a palavra de Deus. Contudo, a dificuldade, que mantinha a preocupação fora do meu alcance, era o forte sotaque do pároco. Como não entendia o que era dito, copiei os fiéis. Num mimetismo católico, e caótico, que poderia ser confundido com demonstração precoce de fé, sentei, levantei, fiz o sinal da cruz e murmurei algumas palavras rituais.
Na hora das ofertas, eu cometi o ato que até hoje deve ser lembrado. Pois bem, a sacolinha percorria as mãos do povo, mas aquele domingo não parecia ser o dia das grandes ofertas. Talvez, do outro lado, algum empresário garantisse um bom vinho. A canção, tocada num violão desafinado, mas que era honesto. O som me deixou num inédito estado meditativo. Isto deveria fazer parte do rito ou efeito do incenso.
Quando voltei a mim, notei que tudo havia cessado: o recolhimento da contribuição financeira, o burburinho e a canção. A igreja estava em silêncio, e o padre voltou a citar a Bíblia ou dar conselhos. De repente, minha mãe sacou uma inacreditável nota. Como não havia nenhuma loja nas proximidades, meu maior temor havia se materializado: sim, eu subiria no altar e depositaria a derradeira oferta.
Segurando o dinheiro como quem transportava um cartaz, fui liberado e segui o trajeto sob os olhares da minha mãe, de Deus, dos santos, dum padre (incrédulo com a cena) e de uma plateia silenciosa e atenta. Não interrompi só o padre, interrompi a missa, talvez uma visão celestial, uma santa vertendo lágrimas ou o Arrebatamento. Fui e voltei, cabisbaixo, com as perninhas céleres, como um coelho de gincana de quermesse ou um frango de granja.
Quem sabe a minha prova de fé sirva de exemplo, mostrando que para Deus nada é impossível, nem mesmo passar vergonha. Este singelo gesto pode ser lembrado mais que as festas católicas e, provavelmente, deve ter destravado as eternas obras da igreja e a troca do telhado.
Foi, literalmente, o maior mico da paróquia, afinal, os olhos de Deus estão em todos os lugares, mas naquela igreja estavam olhos, ouvidos e bocas de toda a vizinhança. Eu acredito que a frase mais repetida, naquele dia, foi: É o filho da Neuza!
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