O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Definitivamente, ir ao teatro não é pra mim. Talvez esse hábito exija um nível intelectual que não possuo. Entretanto, quando tento fingir que sou “antenado” e tenho um gosto cultural refinado, faço o sacrifício. Mas, ainda assim, fico com a impressão que a representação teatral não passe de uma pecinha escolar.
Enfrentar uma plateia “blasé” é pior. Este tipo de público faz questão de esfregar na cara que você não deve fazer a mínima ideia do que foi assistir ali. Um pessoalzinho descolado, antenado e citando peças obscuras — dessas que nem a turminha do Metrópolis conhece.
Meu amigo tinha um primo ligado com a cena mais “underground” de teatro que pode existir. Como frequentávamos as excelentes festas na Serra da Cantareira, nada mais justo que tirar uma noite de sábado para prestigiar a atuação da trupe.
Teatro de Bolso, Vila Madalena e aquele público “cabeça”, que olhava para nossa cara como se nós tivéssemos errado o endereço do “stand-up comedy”. Aquela combinação toda era um “combo” perfeito do entretenimento para poucos.
Mesmo assim, arriscamos nos submeter ao critério daquela “gente fina, elegante e sincera” e, automaticamente, sermos observados como uma espécie exótica. Portanto, entramos no teatrinho minúsculo, ocupamos os assentos do fundo e aguardamos a atração. Pelo estado dos nossos trajes, tenho certeza de que éramos temidos. A proximidade realçou nossas diferenças.
Logo na entrada do elenco, gargalhamos ao ver figuras masculinas exibindo trajes femininos. Continuamos rindo meio fora de hora. Nossos risos tomaram conta daquele tacanho ambiente. A plateia, formada por gente do teatro e a nata da vanguarda das artes cênicas paulistana, no princípio ficou incomodada com o péssimo comportamento daquela escória em ambiente tão nobre. Nossa visão turva de mundo continuava contrastando com aquele povinho que se achava mais moderno porque tinha a “cabeça aberta”.
O quão ridícula era aquela situação: aquele teatro, aqueles atores, a plateia.... Todos fingindo pertencer a uma elite cultural urbana, tendo o “privilégio” de testemunhar uma manifestação artística para poucos. Mas todos estavam ávidos para devorar um “dogão” de rua com purê, milho, ervilha e batata palha, logo vi.
Nossa insistência em gargalhar começou a ser replicada. A nova reação do diminuto público nada mais era do que a galerinha “blasé” achando que não estava entendendo alguma coisa. Não cedemos o protagonismo. Conduzimos aquela pantomima ridícula, aquele jogral mal ensaiado até o derradeiro ato. Levamos aqueles nobres falidos para onde quisemos.
No final daquela aventura, o primo do meu amigo agradeceu as risadas efusivas. Coitado, mal sabe que havia franqueado a entrada àquela arena teatral a uma horda acostumada a rir de humor pastelão, histórias rasteiras, videocassetadas e piadas de mau gosto. O resultado de estudos e ensaios foi recebido com a mesma profundidade de um capítulo do ‘Big Brother’ ou ‘A fazenda’. Pronto, enfim havíamos encarado o programa do qual lamentaríamos eternamente.
Logo seríamos expelidos para o subúrbio, devolvidos ao porão cultural, garimpando no esgoto o que nos é permitido nos momentos de lazer.
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🔵 Passarás vergonha
Fui à missa da igreja do bairro. Fui com a minha mãe e, sendo muito novo, me comportei bem porque ali, além de ser a casa de Deus, Ele poderia castigar-me. Eu estava sendo avaliado por minha mãe, Deus e o padre. Não adiantava olhar para os lados, os santos pareciam me encarar, às vezes com cara de acusação. Eu nunca me senti tão vigiado exposto aos olhos dessa turma. Se eu me submetesse ao escrutínio implacável desta turma, quem sabe, no Natal, isto poderia me render bons presentes.
Estava montado o cenário que corroborava com o temor que Deus castigava e os olhos d’Ele estavam em todos os lugares. Seria relativamente fácil ouvir a palavra de Deus. Contudo, a dificuldade, que mantinha a preocupação fora do meu alcance, era o forte sotaque do pároco. Como não entendia o que era dito, copiei os fiéis. Num mimetismo católico, e caótico, que poderia ser confundido com demonstração precoce de fé, sentei, levantei, fiz o sinal da cruz e murmurei algumas palavras rituais.
Na hora das ofertas, eu cometi o ato que até hoje deve ser lembrado. Pois bem, a sacolinha percorria as mãos do povo, mas aquele domingo não parecia ser o dia das grandes ofertas. Talvez, do outro lado, algum empresário garantisse um bom vinho. A canção, tocada num violão desafinado, mas que era honesto. O som me deixou num inédito estado meditativo. Isto deveria fazer parte do rito ou efeito do incenso.
Quando voltei a mim, notei que tudo havia cessado: o recolhimento da contribuição financeira, o burburinho e a canção. A igreja estava em silêncio, e o padre voltou a citar a Bíblia ou dar conselhos. De repente, minha mãe sacou uma inacreditável nota. Como não havia nenhuma loja nas proximidades, meu maior temor havia se materializado: sim, eu subiria no altar e depositaria a derradeira oferta.
Segurando o dinheiro como quem transportava um cartaz, fui liberado e segui o trajeto sob os olhares da minha mãe, de Deus, dos santos, dum padre (incrédulo com a cena) e de uma plateia silenciosa e atenta. Não interrompi só o padre, interrompi a missa, talvez uma visão celestial, uma santa vertendo lágrimas ou o Arrebatamento. Fui e voltei, cabisbaixo, com as perninhas céleres, como um coelho de gincana de quermesse ou um frango de granja.
Quem sabe a minha prova de fé sirva de exemplo, mostrando que para Deus nada é impossível, nem mesmo passar vergonha. Este singelo gesto pode ser lembrado mais que as festas católicas e, provavelmente, deve ter destravado as eternas obras da igreja e a troca do telhado.
Foi, literalmente, o maior mico da paróquia, afinal, os olhos de Deus estão em todos os lugares, mas naquela igreja estavam olhos, ouvidos e bocas de toda a vizinhança. Eu acredito que a frase mais repetida, naquele dia, foi: É o filho da Neuza!
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🔴 O país do futebol
No dia 30 de outubro, o Brasil deixou de ser o “país do futuro” para voltar a ser o “país do futebol”. Ziriguidum, borogodó, telecoteco, balacobaco, essas palavras, que parecem sem significado, sugerem a malemolência, o jogo de cintura, a malandragem e o jeitinho brasileiro. Jeitinho que conduziu o presidente daquela republiqueta sul-americana terceiro-mundista do cárcere ao Palácio da Alvorada. O próprio Lula é a personificação do jeitinho brasileiro.
É hora de deixar esse negócio de Judiciário, Legislativo e Executivo para quem entende. Ninguém quer saber de STF, TSE, STJ ou BNDES, são somente siglas desimportantes para quem deseja só um churrasquinho com uma gordurinha e cervejinha na hora do gol. Teto de gastos, responsabilidade fiscal e independência do Banco Central são coisas de neoliberal. O papo é bola na rede.
Dá de bico que o jogo é de taça; pra cima deles, Brasil; Brasil, vai buscar esse caneco. Lula pensa igual a um estelionatário: fala o que a vítima quer ouvir, faz o “otário” ser atraído pela própria ganância e usa metáforas e comparações futebolísticas. Tudo inteligível e empático.
Com sinais claros de psicopatia, o ex-presidiário falava do Mercado e arriscava o “economês”, quando queria encantar uma plateia de empresários; quando encarava o povão, ludibriava com promessas de “cervejinha” e “chuva de picanha”.
Com quaisquer meios justificando seus objetivos, o “sapo barbudo” segue mentindo para alojar seu exército de desocupados e incompetentes em Brasília. Obtém êxito mentindo como se não houvesse amanhã e transformando “o país do futuro” em “país do futebol”.
Pouco interessa que a Copa do Catar foi comprada, afinal “futebol é a coisa mais importante, dentre as menos importantes”. Vivemos num país onde um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não sabe se aqui o crime compensa, outro diz, malandramente, “perdeu, mané”. Eu digo: nóis é tudo assim.
Este texto cheio de ironia é para alertar que, sim, como sempre, ficaremos inebriados durante os jogos da Seleção Brasileira, mas os políticos que confundem pacificação com distração terão oposição e vigilância ferrenhas. Será que “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” subirá a Rampa?
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🔵 Copa 1990
Décadas depois, abri o álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1990. Senti o cheiro das páginas besuntadas de cola Tenaz. O olfato me tragou para a memória afetiva (ou seria memória olfativa?). Quando folheei mais o livro ilustrado, tive a impensável surpresa de encontrar um envelope de figurinhas. O cheiro me puxou de vez e, quando fechei os olhos, tinha apenas 15 anos novamente.
***
A caminho do clube, seguindo a trilha de pacotinhos abertos e espalhados pela calçada, descobri de qual banca vinham os rejeitos. Comprei os meus pacotinhos e fiz o mesmo; sem nem sequer entender o conceito de limpeza pública, espalhei-os pelo meio-fio. Parece que como castigo o “bolo” de repetidas só aumentava. Às vezes, de bicicleta eu ía à banca “que dava sorte”: por coincidência ou nexo causal, quase sempre funcionava.
Já no Esporte Clube Vila Galvão, era hora de trocar cromos repetidos, mas não sem antes fazer uns gols e defesas gritando “É do Maradonaaaa” ou “Espalma Michel Preud-Hommeeee”, craque da Argentina e goleiro da Bélgica, respectivamente.
Aos 15 anos, tudo ainda podia acontecer, inclusive completar o álbum. Essa coleção é uma excelente metáfora ou comparação com a própria vida: alguns têm a perseverança de completá-los, enquanto outros desistem; antigamente a coleção era pregada com cola escolar, hoje é com a facilidade dos cromos autocolantes.
*
Arremessando bolas na cesta de basquete, enquanto as caixas de som reverberavam por todo o “Vila” os sucessos do momento, adivinhava que a incipiente década de 90 seria muito boa, a julgar pela infância favorável. Entretanto, naquele momento, minha única preocupação era completar o livro ilustrado, enquanto me “embriagava” de refrigerante e aplacava o meu vício em misto-quente. E foi este meu bem sucedido objetivo. Naquele ano, eu me dediquei nesta coleção mais do que nos álbuns da falecida Copa União, do Campeonato Brasileiro de 1988 e, até mesmo, que na escola.
Após essa “viagem”, fechei o álbum, voltando à atual década, que transformou a infância em algo remoto. Infância que pode ser relembrada intensamente, abrindo um velho álbum de figurinhas que guarda o cheiro de 1990.
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🔴 Alemanha, deixe de manha
A seleção da Alemanha posou para uma fotografia do time, estrategicamente, tapando a boca. Legal. Algum coletivo “mimizento” deve ter achado o pseudoprotesto revelador, uma denúncia corajosa, “lacrador”, o máximo e blá-blá-blá... No entanto, quem queria ver apenas um bom jogo de futebol começou achando a coisa estranha. O alemão que torcia para ver sua “Deutschland” classificada decepcionou-se.
Ajoelhar-se, negar-se a cantar o hino, esse tipo de atitude, combinada e ensaiada para ser registrada pelas câmeras, é eficaz para sinalizar virtude. Ou seja, quem toma essa atitude inócua faz uma propaganda de si mesmo; quem, mesmo sendo favorável à causa, se nega a se submeter ao gesto, é rotulado de misógino, homofóbico, intolerante etc.
Antes que eu seja rotulado, devo dizer que minha crítica é só com a sinalização de virtude e, em casos mais severos, o monopólio da virtude. A Alemanha podia ser mais radical no protesto com o boicote à competição. Não enviando o escrete, demonstraria total repúdio ao país oriental (Catar) e ao certame (eivado de denúncias) e, ainda mais, evitaria o vexame futebolístico.
Dificilmente, todos os jogadores alemães estavam dispostos a “pagar o pedágio ideológico”, o que não significa ser indiferente às restrições do país. Protesto de ocasião foi inventado para aparecer bem na foto, literalmente e figuradamente.
Abraçar, coletivamente, a Lagoa Rodrigo de Freitas, vestir-se de branco ou cantar ‘Imagine’ não combate a violência. Pelo contrário, até aumenta. Por quê? Porque essa é a reação que o assassino gosta. É o “Não reaja” do assassinato.
A FIFA ameaçou punir as seleções “lacradoras” com uma farta distribuição de cartões amarelos. A punição mostra que a federação aceita disputar o torneio fora de campo. Aliás, é longe do gramado onde os dirigentes estão acostumados a decidir as “jogadas” e onde essa Copa do Mundo começou.
O país, onde um chanceler barbarizou o mundo, terá quatro anos para protestar contra absurdos que ocorrem em outros países. Enquanto isso, dá até para treinar futebol.
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🔵 A revolução dos bixos
Resolvi começar mais uma faculdade. Sempre tomando o devido cuidado para não virar aquela piadinha besta do pedreiro que fez cinco faculdades e ía começar mais uma. A decisão era séria, entretanto desta vez os objetivos eram alguns: dar um “upgrade” na minha formação intelectual, bem como obter um diploma para pendurar no lugar do diplominha da escolinha infantil. O principal era que, com o terceiro grau completo, eu poderia prestar um concurso público mais robusto.
Ingressei numa dessas universidades “shopping center”, conhecidas como “pagou, passou” ou, ainda, prédios escolares que, distribuindo canudos, despejaram caixas de supermercados advogados e balconistas administradores de empresas.
Nosso quadro docente contava com uma equipe pronta para formar uma guerrilha urbana e a luta armada, almejando, eternamente, a “ditadura do proletariado”. Para não sobrar dúvidas, um professor chamava-se Vladimir. Como eu não tinha talento para disfarçar que era capitalista e, além disso, conservador, só continuei o curso porque Vladimir (logo ele!) me deu cobertura e garantiu minha vida enquanto não instalassem o paredão. Descartando a possibilidade de me tornar um marxista, tratei de autopoliciar o emprego das palavras. Sem o estereótipo das classes trabalhadoras, menos favorecidas, minorias ou coletivos, logo vi que eu estava em território inóspito. Portanto, enfrentaria anos difíceis.
Mas, descobri, eu não era o único direitista infiltrado naquele ambiente socialista. O curso de Letras e os descontos atraíram um “enxame” de policiais civis e militares com o objetivo de ingressar na Polícia Federal. Um pouco de tirocínio identificava a ideologia dos indivíduos (professores e alunos).
A profissão da maioria dos calouros intimidava a aproximação dos veteranos e seus trotes. Nós, os calouros, passeávamos pelo “templo do conhecimento” espantando quaisquer ameaças de trote e, até eu evadir-me de mais uma faculdade, do trote. Enfim, consegui dissuadir a ameaça de perseguição dos malditos comunistas.
Me sentindo um veterano já no primeiro dia e incólume à doutrinação escolar, senti-me livre para acessar os gráficos da Bolsa de Valores e outros ícones da burguesia. Naquele momento, me senti incólume às lesões cognitivas causadas pela leitura de Jean-Jacques Rousseau e Michel Foucault, bem como militantes disfarçados de professores implementando sua tática gramsciana. Minhas credenciais garantiam que ninguém se aproximaria de mim me chamando de companheiro.
Eu nunca tive vocação para me fazer de oprimido, muito menos “posar” de vítima da suposta classe opressora. A utopia socialista jamais me usaria de massa de manobra. O Diretório Acadêmico, naquele ano, garantiria uma fornada de idiotas úteis voluntários. As expectativas iniciais tornavam tinta na cara e um corte mal feito no cabelo os menores dos males.
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🔴 Fernando Haddad colou, mas não colou
A equipe de transição do PT (Partido dos Trabalhadores) assusta. A mistura aleatória de colaboradores da volta do projeto nefasto de poder confirma os maiores temores de “volta ao local do crime”, dando uma leve parafraseada na exata fala de Geraldo Alckmin, vice-presidente eleito. Apelidada de Carreta Furacão — trenzinho infantil que reúne uma turminha inacreditável de personagens —, a absurda e meganumerosa equipe de transição ocupa o Palácio do Planalto como um local abandonado. Calma, quando anunciarem os ministérios, pode piorar.
Fernando Haddad, possível ministro da Fazenda, cursou apenas dois meses de mestrado em Economia, tendo “colado”. Eu não tenho sequer essa curtíssima experiência de 60 dias na disciplina, logo, não colei. Num país em que a maioria valoriza a honestidade, eu ganharia o cargo no quesito confiança. No entanto, como o STE (Superior Tribunal Eleitoral) quis dizer, a maioria não valoriza a honestidade e é ingênua, quando ao mesmo tempo cai fácil no “conto da picanha”. Triste...
Fora de contexto, piada, brincadeira, as desculpas seriam suficientemente tranquilizadoras se o político do PT não fosse cotado para o Ministério da Fazenda. Apesar das ideias assustadoras, o fato do petista ter “colado” na disciplina, pode ser uma excelente notícia, afinal o desconhecimento significa impedimento de implementá-la. Afinal, o que é pior: alguém como Guido Mantega ou Fernando Haddad?
Haddad é uma mentira ambulante. Forma uns três acordes, mas posa segurando um violão que é uma beleza, fingindo, assim, que toca o instrumento. Ele também carrega uma estética meio tucana (petista de paletó). Contudo, não se engane, apesar da estampa de professor do ‘Mackenzie’, suas ideias são radicais como as de um comunista do início do século XX. Só essas características credenciam-no como um Cavalo-de-Troia perfeito. Apesar de multi derrotado, ele se infiltrou no coração do poder.
Quando Haddad confessou que não sabia nada de Economia, a plateia aplaudiu. Essa atitude escancara o jeitinho brasileiro (malandragem). Haddad diria a seus professores: Perdeu, mané.
Não há reza que faça isso dar certo.
50
🔴 “Vou festejar o teu sofrer”
Dançando ao som de Beth Carvalho. Que mal pode haver nisto? Quando o presidente do TSE, Alexandre de Moraes, está na festa, algo está muito estranho. A letra da música ‘Vou Festejar’ cabe perfeitamente para escarnecer de quem se deu mal no pleito. O curioso é que o responsável pela votação foi parcial. A eleição foi empurrada de qualquer jeito, não foi transparente e colocou na Presidência um sujeito que não atua como um servidor público, mas um realizador de interesses particulares.
Dentre as imagens que eu vi, chamou a atenção um sujeito dançando solto como um “tiozão” no final de um baile de debutante. Como se não houvesse amanhã, o camarada, que devia ser um cidadão compenetrado, sério mesmo, balançava o esqueleto ao som da “melô da vingança” ‘Vou Festejar”. Com a gravata frouxa, paletó amarrotado e os dedinhos indicadores em riste (como um legítimo japonês sambando), ele gritava: “(...) vou festejar o teu sofrer, o teu penar”. Chora. Deve ser a tal “festa da democracia”. Pode não ser nada do que parece, mas tudo isto tem a estética do escárnio.
Se há políticos e autoridades comemorando absolutamente nada numa festinha brega e nababesca, o interesse público está vazando pelo ladrão. O pouco caso pode ser traduzido numa dancinha. Quem não se lembra da deputada Ângela Guadagnin e a “Dança da Pizza”. A performance, que poderia ser facilmente confundida com uma celebração mística, era a ofensiva e obscena comemoração da absolvição de um colega acusado no “Mensalão”.
“Eleição não se ganha, toma-se”; “Já vai tarde” e “Perdeu, mané” contribuem para o argumento do escárnio. Luís Roberto Barroso justifica a infelicidade do que diz como sendo piadas. O repertório de baboseiras é o suficiente para um “open mic” (microfone aberto) de “stand-up comedy”.
Políticos arriscando dancinhas, trilhas sonoras e frases que evidenciam (ao menos simbolizam) que eles não estão nem aí para o povo, são o prenúncio de uma disrupção. O ‘Baile da Ilha Fiscal’ ficou conhecido por isso. O evento que ofereceu diversão para os nobres antecipou a queda do Império e início da República.
Já temos a dancinha, a trilha sonora e as frases infelizes. Falta pouco.
56
🔵 O supermercado hiper assaltado
Inocentemente, me dirigi à caixa do supermercado, coloquei a garrafa de Coca no balcão e aguardei a minha vez. Saindo do meu transe e reparando bem, notei que a demora se devia a um assalto. Obedecendo a autoridade de um revólver, fui expulso para não atrapalhar a “limpeza” da caixa registradora.
Fui ao estoque, esperar os “clientes preferenciais” serem atendidos. Chegando lá, o que vi mudou minhas impressões acerca da gravidade do evento: ajoelhados, clientes e funcionários rezavam com muita fé. O local não era apropriado para aquela genuflexão forçada, mas, naquele depósito imundo, eu somava, entre barras de sabão e pacotes de bolacha, à demonstração de fé.
A cena ecumênica, emocionante, foi interrompida pelos disparos do revólver. Os estampidos acrescentaram às orações, os choros. Foi nesse momento que eu me entreguei ao “muro das lamentações”. O cenário era, definitivamente, de fanatismo explícito em direção a Meca do que os fundos de um supermercado. Como não estávamos em uma agência bancária, não havia cofre, então estava praticamente descartada a probabilidade da quadrilha espalhar o pânico.
Reconheci alguns dos “fiéis”. Apesar da pouca experiência e inédita participação em assaltos, mantive a calma. Minha vida começou a ser reproduzida como um curta-metragem, mas interrompi aquele terrível clichê e tentei lembrar das táticas dos filmes de assalto a banco. Entretanto, não havia jeito, teria que sair daquela situação constrangedora. Foi o que fiz, pois eu só queria sair daquele maldito supermercado vivo e com a garrafa de refrigerante.
Quando acabou a forçada transferência de renda, esperei o som de “fim de festa” para arriscar sair da toca. Sei que a minha humilde bebida não compensaria o prejuízo causado pela expropriação, mas, é claro, paguei a mercadoria.
Semanas depois, quando eu via aquele repositor, concentrado, entre latas de extrato de tomate e pacotes de sal, logo lembrava dele ajoelhado, rezando e murmurando aos prantos.
47
🔴 Ele nunca mais
Choveram textos comparando todo o processo eleitoral com uma partida de futebol conduzida por um juiz ladrão. Essa comparação (às vezes metáfora) é injusta. Vou fazer algo que nunca fiz: defender Alexandre de Moraes. A comparação é injusta porque o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) não é juiz. Entendeu? Simples assim.
E as velhas mídias? A imprensa se acostumou a assumir o lado errado. Em 1964, estimulou o Regime Militar; está até hoje, mal acostumada a reescrever a História, tentando dizer que “não era bem assim”. Agora, está torcendo pelo petista assumir plenos poderes, depois de fazer militância descarada durante a campanha; daqui a 50 anos, vai se tocar que, novamente, estava do lado errado, bem como tentará reescrever a História. Quando a imprensa está sempre atrasada, muita coisa está errada.
Eu já assinei a revista Veja e o jornal Folha de SP; descobri que as duas publicações estão contra o Brasil. É fácil entender porque esses negócios carecem de credibilidade e vendas. Jornais, revistas, portais de internet e emissoras de televisão e rádio são negócios com fins lucrativos. Porém, vimos uma imprensa promovendo o retorno de um governo que assaltou os cofres cheios de dinheiro público. Além disso, apoiou a censura e a perseguição a um grupo político.
Quando vi Gleisi Hoffmann e sua turma visitando a nova ocupação, não pude deixar de notar a demonstração de deslumbre por invadir um palácio (Planalto). O objetivo deles nunca foi governar o País.
Alguns ditadores da América do Sul correram felicitar O Chefe para garantir generosas parcerias. Esses ditadores vêm com uma abstinência de quem vislumbrou uma oportunidade de fazer “chover picanha” em seus gabinetes — se é que vocês me entendem.
Ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) são hostilizados dentro e fora do País. Isso ocorre porque muitas decisões, comportamentos e atitudes são conflitantes com a liturgia do cargo do Tribunal. Exemplos: falar em público fora dos autos, fazer campanha política e adiantar votos.
A nova ditadura age dizendo que é pela “democracia”. Com o mesmo método, Hitler surgiria, hoje, bonzinho como um integrante do Clube do Mickey.
Você pode ignorar a realidade, mas não pode ignorar as consequências de ignorar a realidade.