O ditado foi interrompido para mais um vendedor apresentar seu fantástico produto na sala de aula. Já sabia que meus pais ignorariam lousinhas mágicas, livros para colorir e demais bugigangas educativas. Meus argumentos seriam as facilidades de pagamento; porém, meus pais achariam aquilo caro e saberiam que aquele meu “coração de estudante” era falso, portanto, arrefeceria antes do pôr do sol.
Entretanto, agora era diferente. O sujeito que entrou na sala era figurinha conhecida na escola. Sempre sorridente, ele distribuiu um panfleto: Fundação do Partido Verde. Faz tempo, descobri que a causa ambientalista era só um chamariz para atrair e capturar “almas e corações” juvenis para o sempre anacrônico marxismo. Sem saber, eu estava diante do “diabo” querendo “comprar” algumas almas, representando um “partido melancia” (verde por fora, vermelho por dentro).
No final, confiante na cooptação e contente, ele disse: “Depois eu pago uma paçoquinha”. A fala, perigosamente infantilizada, me remeteu à tática usada pelos traficantes. Sabendo da doutrinação ideológica e manjando o “modus operandi”, se eu entrasse naquela, teria xingado meus pais, trabalhadores, de “porcos capitalistas” e, hoje, estaria vagando numa “cracolândia ideológica”.
A abordagem do “amigão” lembrou tudo o que meus pais (visionários) sempre disseram para evitar. Nesse momento, eu acionei o alarme interno. Aquele “aviãozinho a serviço do tráfico de almas” estava perdendo tempo comigo e, espero, com o restante daqueles aluninhos. Comecei a ouvir o blá, blá, blá disfarçado, fazendo o que eu já sabia: deixando “entrar por um ouvido e sair por outro”.
Demorou para eu descobrir, mas a imprensa que manipula a informação, continua tentando me convencer a destruir a minha e outras existências. Certamente, vitimas, seduzidas por militantes que ofertam doces a crianças, insistem, com um método mais abrangente, em fazer o mesmo.
Há muito tempo, percebi que o meio ambiente era apenas um chamariz “bonitinho”. Se eu caísse nessa armadilha, possivelmente faria o “L”, botaria um boné do MST, vestiria uma camiseta do Che Guevara, tremularia uma bandeira do Hamas, leria Foucault, cantaria a Internacional Socialista...
Aquele sambinha no ônibus, a alegria movida a “ON e OFF” das câmeras e a “pachequice” do Galvão Bueno. A nada disso foi atribuída a eliminação do Brasil. Fatores extracampo não faltaram para explicar o fracasso da Seleção. Durante o torneio, Casagrande tratou de ser o zangado comentarista de comportamento dos jogadores, técnico, jornalistas, torcedores... Seu olhar acusador não deixou escapar: as dancinhas, os ex-jogadores na tribuna, todos os seres vivos bolsonaristas e a carne de ouro. Era óbvio que o episódio da churrascaria seria usado para explicar a eliminação da Seleção.
A peça de carne não tem nada de especial, além de custar caro, ser pulverizada com o metal precioso e ser preparada por um chef-celebridade e servida com salamaleques exagerados. A cena dos jogadores rindo, enquanto a carne era confeccionada com ouro, só é patética. Um personagem de peso (Ronaldo Fenômeno) se destacava. Apesar de não jogar futebol, o ex-craque foi escalado para o restaurante, tendo sido alimentado bem.
Não vejo mal nenhum em visitar um restaurante com carne folheada a ouro; eu mesmo escapei dos holofotes quando frequentava o rodízio chamado ‘Novilho de Ouro’. Em termos de ostentação, isso é bem pior. Posso ter sido poupado dos “flashs” porque peguei a promoção da quinta-feira, quando o espeto corrido era mais barato. Bife de ouro.. Isso é nome de churrascaria de beira de estrada.
Prefiro o ‘Novilho de Ouro:, porque dá direito a: promoção de quinta-feira, bufffet de salada à vontade, um pedaço de pudim de graça e um cafezinho. Logo na entrada, uma lousinha, rabiscada de giz, informa qual é a especialidade do dia. Tudo isto por um precinho que cabe no bolso. Isso vale ouro!
O Brasil tentou conquistar a Copa do Mundo, mas, como consolação, comprou a carne de ouro.
A ‘carne de ouro’ é nossa,
com brasileiro não há quem possa.
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🔵 O último jogo de futebol
Já não passaria mal. Antes, quase vomitei, depois das corridas entre defesa e ataque. Esse era meu retorno, após um período de algum grau de sedentarismo, ao futebol de meio de semana. Todo o vigor físico conquistado era confiscado na churrasqueira e no balcão do bar.
Com a mudança de trabalho, o futebol, o churrasco e a cerveja no meio da semana tiveram que ser sacrificados. Por um lado isso era bom: não precisaria mais chegar em casa às quatro da madrugada nem acordar quebrado. Aquela vida de “atleta de um único dia” havia ficado para trás.
Domingo, novamente entregue ao sedentarismo, os amigos me chamaram para assistir à final do campeonato. Relutei, dando explicações que não pareceram convincentes. Não conseguindo aplicar uma desculpa plausível, desisti e aquiesci ao insistente convite.
Chegando na quadra, aproximei do narrador para ver o placar da partida. Não queria acreditar no que vi: o meu nome estava escrito na escalação que o narrador consultava. Tive um misto de orgulho e frustração típica de quem caiu numa pegadinha televisiva. A solução era eu me esconder entre os espectadores. Mas não teve jeito, fui descoberto e “convidado” (mais um convite) para vestir o uniforme e entrar na quadra.
O sedentarismo causou uma incompatibilidade entre a vontade de vencer e o corpo. O cérebro estava na quadra “society”, correndo da defesa ao ataque (e vice-versa); o corpo ainda tentava se esconder entre a torcida, “assistir” a churrasqueira ou debruçar no balcão.
A minha gana de vencer sempre contrastou com outros que, ao contrário, pareciam com vontade de perder. O placar adverso refletia o ânimo da equipe, pois, já estava estabelecida a derrota. Portanto, pouco adiantou o reforço, mesmo que eu estivesse em melhor forma física.
Apesar de eu jogar apenas para dividir a frustração por perder o campeonato, cheguei à conclusão de que os tempos de “atleta” haviam se esgotado. E, para não sofrer nenhum gol, fiquei na defesa, já que eu também estava esgotado. Apenas sobrava disposição para o churrasco e a cerveja.
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🔵 Mistérios da meia-noite
Todos concordaram com aquele desafio. Talvez alguém não concordasse com a prova besta, contudo não ousou se manifestar. Aquilo era quase um clichê: entrar no cemitério à meia-noite. No entanto, mais do que ter, era preciso demonstrar coragem.
Este plano não estava incluído no rol de atividades relacionadas a uma banda de rock. Contudo, a presença em frente à necrópole, àquele horário, instigou a triste ideia. Como ninguém arredaria o pé, perante uma plateia sedenta por localizar a covardia, todos concordaram em invadir o dormitório eterno.
O arame farpado sobre o portão denunciava a frequência do local: penas de frango enroscadas. Vencendo o portão secundário, seria muito humilhante desistir do infeliz rito de passagem.
Andando lentamente e em silêncio, o objetivo óbvio era alcançar o meio do cemitério e aguardar para... não acontecer nada. A lógica indicava que o cemitério à noite era menos frequentado e mais silencioso. Qualquer som ou movimento que alterasse o esperado seria motivo para esquecer a coragem e correr. A interpretação imediata seria de um acontecimento sobrenatural.
As árvores secas, os monumentos funerários, algumas sepulturas precárias e as lápides lembravam que estávamos num ambiente sombrio. Os retratos e os epitáfios emprestavam uma perturbadora pessoalidade ao fúnebre “passeio”. O fogo-fátuo, embora seja um fenômeno facilmente explicável pela ciência, seria o suficiente para povoar de contornos fantasmagóricos a nebulosa excursão. O horror da expectativa era o suficiente para gelar a espinha.
Como não acontecia nada (ainda bem), a tranquilidade aparente favoreceu arriscarmos algumas estórias de terror. Fora os roedores e insetos rasteiros, nem os contos manjados causavam pânico. A atitude mais sóbria era nos evadir do local, tomando cuidado para não rasgar a pele no arame farpado.
Seria mais embaraçoso acusar o terror de ratos e baratas, saindo e entrando nas tumbas, realizando o asqueroso, embora necessário trabalho de decompor os cadáveres. Fantasmas, em comparação com os animais nojentos, seriam encarados com mais altivez e relatados com um indisfarçável orgulho.
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🔵 Passarás vergonha
Fui à missa da igreja do bairro. Fui com a minha mãe e, sendo muito novo, me comportei bem porque ali, além de ser a casa de Deus, Ele poderia castigar-me. Eu estava sendo avaliado por minha mãe, Deus e o padre. Não adiantava olhar para os lados, os santos pareciam me encarar, às vezes com cara de acusação. Eu nunca me senti tão vigiado exposto aos olhos dessa turma. Se eu me submetesse ao escrutínio implacável desta turma, quem sabe, no Natal, isto poderia me render bons presentes.
Estava montado o cenário que corroborava com o temor que Deus castigava e os olhos d’Ele estavam em todos os lugares. Seria relativamente fácil ouvir a palavra de Deus. Contudo, a dificuldade, que mantinha a preocupação fora do meu alcance, era o forte sotaque do pároco. Como não entendia o que era dito, copiei os fiéis. Num mimetismo católico, e caótico, que poderia ser confundido com demonstração precoce de fé, sentei, levantei, fiz o sinal da cruz e murmurei algumas palavras rituais.
Na hora das ofertas, eu cometi o ato que até hoje deve ser lembrado. Pois bem, a sacolinha percorria as mãos do povo, mas aquele domingo não parecia ser o dia das grandes ofertas. Talvez, do outro lado, algum empresário garantisse um bom vinho. A canção, tocada num violão desafinado, mas que era honesto. O som me deixou num inédito estado meditativo. Isto deveria fazer parte do rito ou efeito do incenso.
Quando voltei a mim, notei que tudo havia cessado: o recolhimento da contribuição financeira, o burburinho e a canção. A igreja estava em silêncio, e o padre voltou a citar a Bíblia ou dar conselhos. De repente, minha mãe sacou uma inacreditável nota. Como não havia nenhuma loja nas proximidades, meu maior temor havia se materializado: sim, eu subiria no altar e depositaria a derradeira oferta.
Segurando o dinheiro como quem transportava um cartaz, fui liberado e segui o trajeto sob os olhares da minha mãe, de Deus, dos santos, dum padre (incrédulo com a cena) e de uma plateia silenciosa e atenta. Não interrompi só o padre, interrompi a missa, talvez uma visão celestial, uma santa vertendo lágrimas ou o Arrebatamento. Fui e voltei, cabisbaixo, com as perninhas céleres, como um coelho de gincana de quermesse ou um frango de granja.
Quem sabe a minha prova de fé sirva de exemplo, mostrando que para Deus nada é impossível, nem mesmo passar vergonha. Este singelo gesto pode ser lembrado mais que as festas católicas e, provavelmente, deve ter destravado as eternas obras da igreja e a troca do telhado.
Foi, literalmente, o maior mico da paróquia, afinal, os olhos de Deus estão em todos os lugares, mas naquela igreja estavam olhos, ouvidos e bocas de toda a vizinhança. Eu acredito que a frase mais repetida, naquele dia, foi: É o filho da Neuza!
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🔴 Alemanha, deixe de manha
A seleção da Alemanha posou para uma fotografia do time, estrategicamente, tapando a boca. Legal. Algum coletivo “mimizento” deve ter achado o pseudoprotesto revelador, uma denúncia corajosa, “lacrador”, o máximo e blá-blá-blá... No entanto, quem queria ver apenas um bom jogo de futebol começou achando a coisa estranha. O alemão que torcia para ver sua “Deutschland” classificada decepcionou-se.
Ajoelhar-se, negar-se a cantar o hino, esse tipo de atitude, combinada e ensaiada para ser registrada pelas câmeras, é eficaz para sinalizar virtude. Ou seja, quem toma essa atitude inócua faz uma propaganda de si mesmo; quem, mesmo sendo favorável à causa, se nega a se submeter ao gesto, é rotulado de misógino, homofóbico, intolerante etc.
Antes que eu seja rotulado, devo dizer que minha crítica é só com a sinalização de virtude e, em casos mais severos, o monopólio da virtude. A Alemanha podia ser mais radical no protesto com o boicote à competição. Não enviando o escrete, demonstraria total repúdio ao país oriental (Catar) e ao certame (eivado de denúncias) e, ainda mais, evitaria o vexame futebolístico.
Dificilmente, todos os jogadores alemães estavam dispostos a “pagar o pedágio ideológico”, o que não significa ser indiferente às restrições do país. Protesto de ocasião foi inventado para aparecer bem na foto, literalmente e figuradamente.
Abraçar, coletivamente, a Lagoa Rodrigo de Freitas, vestir-se de branco ou cantar ‘Imagine’ não combate a violência. Pelo contrário, até aumenta. Por quê? Porque essa é a reação que o assassino gosta. É o “Não reaja” do assassinato.
A FIFA ameaçou punir as seleções “lacradoras” com uma farta distribuição de cartões amarelos. A punição mostra que a federação aceita disputar o torneio fora de campo. Aliás, é longe do gramado onde os dirigentes estão acostumados a decidir as “jogadas” e onde essa Copa do Mundo começou.
O país, onde um chanceler barbarizou o mundo, terá quatro anos para protestar contra absurdos que ocorrem em outros países. Enquanto isso, dá até para treinar futebol.
54
🔵 Vá ao teatro! Mas não me chame
Definitivamente, ir ao teatro não é pra mim. Talvez esse hábito exija um nível intelectual que não possuo. Entretanto, quando tento fingir que sou “antenado” e tenho um gosto cultural refinado, faço o sacrifício. Mas, ainda assim, fico com a impressão que a representação teatral não passe de uma pecinha escolar.
Enfrentar uma plateia “blasé” é pior. Este tipo de público faz questão de esfregar na cara que você não deve fazer a mínima ideia do que foi assistir ali. Um pessoalzinho descolado, antenado e citando peças obscuras — dessas que nem a turminha do Metrópolis conhece.
Meu amigo tinha um primo ligado com a cena mais “underground” de teatro que pode existir. Como frequentávamos as excelentes festas na Serra da Cantareira, nada mais justo que tirar uma noite de sábado para prestigiar a atuação da trupe.
Teatro de Bolso, Vila Madalena e aquele público “cabeça”, que olhava para nossa cara como se nós tivéssemos errado o endereço do “stand-up comedy”. Aquela combinação toda era um “combo” perfeito do entretenimento para poucos.
Mesmo assim, arriscamos nos submeter ao critério daquela “gente fina, elegante e sincera” e, automaticamente, sermos observados como uma espécie exótica. Portanto, entramos no teatrinho minúsculo, ocupamos os assentos do fundo e aguardamos a atração. Pelo estado dos nossos trajes, tenho certeza de que éramos temidos. A proximidade realçou nossas diferenças.
Logo na entrada do elenco, gargalhamos ao ver figuras masculinas exibindo trajes femininos. Continuamos rindo meio fora de hora. Nossos risos tomaram conta daquele tacanho ambiente. A plateia, formada por gente do teatro e a nata da vanguarda das artes cênicas paulistana, no princípio ficou incomodada com o péssimo comportamento daquela escória em ambiente tão nobre. Nossa visão turva de mundo continuava contrastando com aquele povinho que se achava mais moderno porque tinha a “cabeça aberta”.
O quão ridícula era aquela situação: aquele teatro, aqueles atores, a plateia.... Todos fingindo pertencer a uma elite cultural urbana, tendo o “privilégio” de testemunhar uma manifestação artística para poucos. Mas todos estavam ávidos para devorar um “dogão” de rua com purê, milho, ervilha e batata palha, logo vi.
Nossa insistência em gargalhar começou a ser replicada. A nova reação do diminuto público nada mais era do que a galerinha “blasé” achando que não estava entendendo alguma coisa. Não cedemos o protagonismo. Conduzimos aquela pantomima ridícula, aquele jogral mal ensaiado até o derradeiro ato. Levamos aqueles nobres falidos para onde quisemos.
No final daquela aventura, o primo do meu amigo agradeceu as risadas efusivas. Coitado, mal sabe que havia franqueado a entrada àquela arena teatral a uma horda acostumada a rir de humor pastelão, histórias rasteiras, videocassetadas e piadas de mau gosto. O resultado de estudos e ensaios foi recebido com a mesma profundidade de um capítulo do ‘Big Brother’ ou ‘A fazenda’. Pronto, enfim havíamos encarado o programa do qual lamentaríamos eternamente.
Logo seríamos expelidos para o subúrbio, devolvidos ao porão cultural, garimpando no esgoto o que nos é permitido nos momentos de lazer.
90
🔵 O supermercado hiper assaltado
Inocentemente, me dirigi à caixa do supermercado, coloquei a garrafa de Coca no balcão e aguardei a minha vez. Saindo do meu transe e reparando bem, notei que a demora se devia a um assalto. Obedecendo a autoridade de um revólver, fui expulso para não atrapalhar a “limpeza” da caixa registradora.
Fui ao estoque, esperar os “clientes preferenciais” serem atendidos. Chegando lá, o que vi mudou minhas impressões acerca da gravidade do evento: ajoelhados, clientes e funcionários rezavam com muita fé. O local não era apropriado para aquela genuflexão forçada, mas, naquele depósito imundo, eu somava, entre barras de sabão e pacotes de bolacha, à demonstração de fé.
A cena ecumênica, emocionante, foi interrompida pelos disparos do revólver. Os estampidos acrescentaram às orações, os choros. Foi nesse momento que eu me entreguei ao “muro das lamentações”. O cenário era, definitivamente, de fanatismo explícito em direção a Meca do que os fundos de um supermercado. Como não estávamos em uma agência bancária, não havia cofre, então estava praticamente descartada a probabilidade da quadrilha espalhar o pânico.
Reconheci alguns dos “fiéis”. Apesar da pouca experiência e inédita participação em assaltos, mantive a calma. Minha vida começou a ser reproduzida como um curta-metragem, mas interrompi aquele terrível clichê e tentei lembrar das táticas dos filmes de assalto a banco. Entretanto, não havia jeito, teria que sair daquela situação constrangedora. Foi o que fiz, pois eu só queria sair daquele maldito supermercado vivo e com a garrafa de refrigerante.
Quando acabou a forçada transferência de renda, esperei o som de “fim de festa” para arriscar sair da toca. Sei que a minha humilde bebida não compensaria o prejuízo causado pela expropriação, mas, é claro, paguei a mercadoria.
Semanas depois, quando eu via aquele repositor, concentrado, entre latas de extrato de tomate e pacotes de sal, logo lembrava dele ajoelhado, rezando e murmurando aos prantos.
46
🔴 Aquele que tudo vê
Chico Vigilante, deputado petista, sugeriu bustos de Alexandre de Moraes em praças do Brasil. Esta sugestão virou manchete. Entretanto, foi a maior demonstração pública e desavergonhada de bajulação ou retribuição de favor. Um neologismo se aplica melhor a essa infeliz ideia: “puxasaquice”.
Coincidentemente, “Xande” foi exaltado pelo deputado petista como merecedor do monumento, depois que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) foi elevado à presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral). Lá, “Xande” conseguiu emplacar o seu projeto de vida: o “Lava Lula.
Chico Vigilante apareceu com um esclarecedor segundo nome. Vigilante pode ser, sem erro, interpretado pela distopia orwelliana ‘1984’, pelo regime comunista e ditaduras como a stalinista. Para estes paralelos, nada mais adequado como uma homenagem personalista que simboliza aquele “que tudo vê”. A única certeza de um monumento como esse, é sua derrubada.
Alexandre de Moraes vem cumprindo a “cartilha do tirano”: vigiando, prendendo, cancelando e perseguindo quem declara algo que o desagrade. Ele vem censurando, desmonetizando, calando etc quem irrita-o com publicações contrárias a seu objetivo: reescrever a História.
A “xandecracia” extrapola a perseguição do TSE além do período eleitoral. A cena começou errada: uma posse que remeteu-nos ao que deve ter sido a coroação de um imperador. No final de tudo (ou não), foi celebrada a rápida apuração dos votos. Mais rápido, somente nas ditaduras, nas quais é comum se saber do resultado antes mesmo do início do processo. Entendi, o objetivo nunca foi transparência, foi ligeireza. Tudo como num crime perfeito.
Um busto ou uma estátua era o que faltava para ilustrar o grau de tirania do ministro. Medidas mais evidentes de homenagem impopular e inútil só mesmo “nome de logradouro público” ou “dia de alguma coisa”, como “o dia da sanfona”.
A História mostra que o destino das representações de poder acabam representando a queda de um poder. Isso é muito simbólico.
84
🔵 Copa 1990
Décadas depois, abri o álbum de figurinhas da Copa do Mundo de 1990. Senti o cheiro das páginas besuntadas de cola Tenaz. O olfato me tragou para a memória afetiva (ou seria memória olfativa?). Quando folheei mais o livro ilustrado, tive a impensável surpresa de encontrar um envelope de figurinhas. O cheiro me puxou de vez e, quando fechei os olhos, tinha apenas 15 anos novamente.
***
A caminho do clube, seguindo a trilha de pacotinhos abertos e espalhados pela calçada, descobri de qual banca vinham os rejeitos. Comprei os meus pacotinhos e fiz o mesmo; sem nem sequer entender o conceito de limpeza pública, espalhei-os pelo meio-fio. Parece que como castigo o “bolo” de repetidas só aumentava. Às vezes, de bicicleta eu ía à banca “que dava sorte”: por coincidência ou nexo causal, quase sempre funcionava.
Já no Esporte Clube Vila Galvão, era hora de trocar cromos repetidos, mas não sem antes fazer uns gols e defesas gritando “É do Maradonaaaa” ou “Espalma Michel Preud-Hommeeee”, craque da Argentina e goleiro da Bélgica, respectivamente.
Aos 15 anos, tudo ainda podia acontecer, inclusive completar o álbum. Essa coleção é uma excelente metáfora ou comparação com a própria vida: alguns têm a perseverança de completá-los, enquanto outros desistem; antigamente a coleção era pregada com cola escolar, hoje é com a facilidade dos cromos autocolantes.
*
Arremessando bolas na cesta de basquete, enquanto as caixas de som reverberavam por todo o “Vila” os sucessos do momento, adivinhava que a incipiente década de 90 seria muito boa, a julgar pela infância favorável. Entretanto, naquele momento, minha única preocupação era completar o livro ilustrado, enquanto me “embriagava” de refrigerante e aplacava o meu vício em misto-quente. E foi este meu bem sucedido objetivo. Naquele ano, eu me dediquei nesta coleção mais do que nos álbuns da falecida Copa União, do Campeonato Brasileiro de 1988 e, até mesmo, que na escola.
Após essa “viagem”, fechei o álbum, voltando à atual década, que transformou a infância em algo remoto. Infância que pode ser relembrada intensamente, abrindo um velho álbum de figurinhas que guarda o cheiro de 1990.
51
🔴 O país do futebol
No dia 30 de outubro, o Brasil deixou de ser o “país do futuro” para voltar a ser o “país do futebol”. Ziriguidum, borogodó, telecoteco, balacobaco, essas palavras, que parecem sem significado, sugerem a malemolência, o jogo de cintura, a malandragem e o jeitinho brasileiro. Jeitinho que conduziu o presidente daquela republiqueta sul-americana terceiro-mundista do cárcere ao Palácio da Alvorada. O próprio Lula é a personificação do jeitinho brasileiro.
É hora de deixar esse negócio de Judiciário, Legislativo e Executivo para quem entende. Ninguém quer saber de STF, TSE, STJ ou BNDES, são somente siglas desimportantes para quem deseja só um churrasquinho com uma gordurinha e cervejinha na hora do gol. Teto de gastos, responsabilidade fiscal e independência do Banco Central são coisas de neoliberal. O papo é bola na rede.
Dá de bico que o jogo é de taça; pra cima deles, Brasil; Brasil, vai buscar esse caneco. Lula pensa igual a um estelionatário: fala o que a vítima quer ouvir, faz o “otário” ser atraído pela própria ganância e usa metáforas e comparações futebolísticas. Tudo inteligível e empático.
Com sinais claros de psicopatia, o ex-presidiário falava do Mercado e arriscava o “economês”, quando queria encantar uma plateia de empresários; quando encarava o povão, ludibriava com promessas de “cervejinha” e “chuva de picanha”.
Com quaisquer meios justificando seus objetivos, o “sapo barbudo” segue mentindo para alojar seu exército de desocupados e incompetentes em Brasília. Obtém êxito mentindo como se não houvesse amanhã e transformando “o país do futuro” em “país do futebol”.
Pouco interessa que a Copa do Catar foi comprada, afinal “futebol é a coisa mais importante, dentre as menos importantes”. Vivemos num país onde um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) não sabe se aqui o crime compensa, outro diz, malandramente, “perdeu, mané”. Eu digo: nóis é tudo assim.
Este texto cheio de ironia é para alertar que, sim, como sempre, ficaremos inebriados durante os jogos da Seleção Brasileira, mas os políticos que confundem pacificação com distração terão oposição e vigilância ferrenhas. Será que “Macunaíma, o herói sem nenhum caráter” subirá a Rampa?