Primeiro dia de um robô
O ancião mecanizado por pecados,
Sobrepondo seu prazer em laços,
Como assim fosse presentes de natal
Foi construído pela mecânica do mal.
Seu feitio mascarado por algoritmo;
Sua bateria carregada em ritmo
Da engrenagem que move o sentir.
Sobre o óleo do motor: mentir;
Dissimular sobre lágrimas de ferro
O robô-humano vivendo em esmero;
Fatalmente recorrendo às emoções,
Obtusamente agredido por noções
De seus próprios códigos sagrados.
A arte do eu
Eu, Matheus, sou falso. Cheguei a essa conclusão hoje de manhã. Não falo o que é necessário, apenas o desconfortável para as pessoas. A indiferença correu minhas vísceras, tudo é tanto faz, tanto fez; se eu morrer amanhã, não faz diferença, nem para mim, quiçá, nem para todos. Sou honesto o bastante para admitir meu amor pelo mundo. Quero ser parte dele, uma peça do quebra-cabeça, jogar o seu jogo e raciocinar como ele. Simultaneamente, faço o possível para afasta-lo. Sinto-me uma estrela qualquer que irá explodir e brilhar com toda sua essência, vitalizar sua força em luz. A única diferença é que estou além de zilhões de anos-luz de uma estrela. Minha luminosidade foi escurecida há séculos.
Melancólico sujeito preso em solipsismo, não consegue escapar disso. Todo seu condutor de energia é mental. Ele busca entender a estrutura do real através da lógica. O que é a lógica se não o objeto cognoscente com ela mesma, vivendo em um eterno enamorar constante interrompido pelo elemento ‘’emoção’’; a lógica é a emoção emparelhada em setores, classificada e usada conforme o meio. Falo em terceira pessoa, quero ser uma apercepção, um Deus ex machina que sabe de tudo e irá resolver tudo impetuosamente.
A arte é o religare com o meu sagrado, a forma que tenho para atender as preces de um homem fatigado. Na arte sou mais intrínseco. O fantástico mundo da idealização é aqui, onde os fantasmas da ópera dançam na macabra sonata da morte. Na arte consigo ser o homem mais verdadeiro-falso escritor das montanhas. O antizaratustra: os sermões da desolação para mentes tranquilas, mas turbulentas.
Caosmológico
Colisão entre planetas,
a órbita rasga a harmonia
dos dias furtivos de outrora.
Saturno retira seu anel,
joga fora sua essência cordial,
porque sua ábdita Lua
decide eclipsar junto ao
Sol, o rei cósmico do espaço.
Meteoritos decaem sob
o solo da terra, perpetuam
a destruição perene,
decretada desde sempre
as poeiras humanas.
Ódio sideral: lei una
onto(cosmo)lógica
oposta a Vênus.
Cometas espiam o futuro
do universo, fofocam
para Marte as expedições
em seu território.
Netuno, com seu invernal
gás misantrópico, afasta
até seus semelhantes, como
Urano, o deus do tempo,
poderoso por ascender
seu brilho sobre tudo.
As formas do todo compõem
a desarmonia, o degredo
solar que engolirá o corpo
celeste; não poupara
nem Mercúrio, cônjuge
da Terra, o casal peremptório.
Quem dera se o sistema fosse
antinatural, onde o buraco
negro sugasse todo para o fim,
enxugasse o chão dos vermes,
e assoprasse os gases,
como uma tempestade que
mata o velho marinheiro
no seu velejar marítimo.
Supressão do ego
Quatro do dez de dois mil e vinte e um
as redes caíram,
o jovem não sabe se distrair.
Respira, toma refri, engole a ansiedade:
almoço tomado.
Vai pro Twitter reclamar da falta dos
seus comprimidos diários;
paciente à beira da crise está sem
psiquiatra, não quer nem tentar o
divã consigo mesmo.
Abre o navegador, F5, F5: nada!
Chama o Ifood para ter alguém para
ver sem ser seus pais;
come a refeição, ainda insatisfeito.
Está dentro de casa sem máscara,
mas se sente sufocado por dentro.
O mal-estar da pandemia faz ele
ficar preso com o pior inimigo de
todos: seu próprio pulmão, seu
próprio nariz, seu próprio ser.
Tenta meditar, mas não consegue
passar dos dez minutos.
Lê um livrinho para se distrair,
mas, quer tudo fácil, nada complexo;
vai um de literatura comercial,
ou então um livro de investidores
para ele aprender a gastar o dinheiro
que não tem, e nem se tivesse, saberia
como gastar.
Dá uma passada no Medium, quer ler
qualquer coisa, melhor ler uns poemas
curtos, ou então sobre a política nacional,
tudo em nome do banal.
Sem problemas, para enfrentar a crise
existencial tem que ser forte, perceber
que a vida está estranha, muito cibernético
para um sujeito pós-vacina.
O demônio do malogro visita seja no
trabalho, na arte ou nas redes: ele,
infelizmente, está sozinho…