Ordem Impura
Numa órbita cinzenta giramos em torno da pureza. Ela brilha no raio distante da nossa ótica, nós não podemos alcançar, às vezes nem entende-la. A ordem foi obliterada pelo caos como a tibieza de nossos pálidos membros. O lampejo de esperança definha na ímpia vontade; talvez sejamos uma espiral de morte, tudo o que nos atrai, mata. O impuro bebe do sangue, como o rei do cálice subjuga os servos. Não tem oração que alivie, como não há arte que exprime: a tinta de nossa civilização pinta a realista obra de vis mãos.
O astro melopeia, a priori, o grave tom de tristeza, feito órgão na missa o acorde macabro. Luz apagada, ansiedade acesa, a intuição vai longe, a prática, nem perto. Altivez, soberba, ego: a tríade do ser: imparcial, indiferente, imperfeito: geometria do cosmos.
Estações Complicadas
Enfrentas o mundo pessoal,
impessoal é aquele imortal
que da lógica fria, inverne
o solstício contrário, e a neve
congela a primavera da razão.
Relação interpessoal do irmão
secando lágrimas feito outono,
fez do possível pelo teu afago,
mitigou os frutos, mas escarro
foi o que levaste na face.
Não entendes que ódio nasce
quando argumenta por via
dos rios de verão que morria;
lavando o sentimento de amor
o banho inútil que mata o labor.
Tanto Faz
Minha passagem será essa,
ser ausente de movimento,
zero acertos e erros vazios.
Um mero observador da vida,
na ótica difusa desistir antes
do tentar, patética situação
admoestada por mim.
Conformismo, desleixo,
são sinônimos d’alma perdida.
Não sei de nada da vida prática,
quem dera sobre ideologias.
Mas sei deixar a paixão literária
amar a vida, o coração pulsar
até enjoar, como o sol fervente
nas tardes de verão.
Se o propósito da vida é evoluir,
vou à contramão, não cresci e muito
menos desandei. Morri apático
provavelmente, caro leitor.
Algum dia isso será procurado,
meu trabalho, não como um diamante,
mas sim como um afago para almas
vazias; de sentido, de amor ou de
pulsão. Quem sabe isso te mude,
pessoa.
Pretensão, minha sombra carrega
a ideia de ser lida: a piada da noite.
Quem dera eu fosse alguma coisa
nessas linhas que percorrem seus
trilhos incertos, terminal por terminal,
o vazio preenche esse trem.
Batalhando contra a poesia
Ophel deve ter sido amaldiçoado,
seu autoflagelo com sua caneta,
punia-se ao lançar palavras
contra a folha, como que fincado
na terra, o espantalho semântico.
Aprecia a verdadeira poesia,
como o perfume de primavera,
aos sonetos do velho marujo.
Sentia-se morgado quando uma
rima limitava o coração da
sentença; ele, tolo homem,
está preso junto aos falsos
poetas, de que se orgulham
ao gritar aos montes suas obras
efêmeras junto às suas ideias;
Nunca engoliu a soberba
literária do homem que vende
o linguajar recheado de vazio.
Detesta o verso mais dedicado
ao populismo, prestes em meio
a sinceridade artística.
A vida palpita êxtase de verdade,
corpos vestidos de corpo e alma,
não como de corpo e adorno.
Primeiro dia de um robô
O ancião mecanizado por pecados,
Sobrepondo seu prazer em laços,
Como assim fosse presentes de natal
Foi construído pela mecânica do mal.
Seu feitio mascarado por algoritmo;
Sua bateria carregada em ritmo
Da engrenagem que move o sentir.
Sobre o óleo do motor: mentir;
Dissimular sobre lágrimas de ferro
O robô-humano vivendo em esmero;
Fatalmente recorrendo às emoções,
Obtusamente agredido por noções
De seus próprios códigos sagrados.
A arte do eu
Eu, Matheus, sou falso. Cheguei a essa conclusão hoje de manhã. Não falo o que é necessário, apenas o desconfortável para as pessoas. A indiferença correu minhas vísceras, tudo é tanto faz, tanto fez; se eu morrer amanhã, não faz diferença, nem para mim, quiçá, nem para todos. Sou honesto o bastante para admitir meu amor pelo mundo. Quero ser parte dele, uma peça do quebra-cabeça, jogar o seu jogo e raciocinar como ele. Simultaneamente, faço o possível para afasta-lo. Sinto-me uma estrela qualquer que irá explodir e brilhar com toda sua essência, vitalizar sua força em luz. A única diferença é que estou além de zilhões de anos-luz de uma estrela. Minha luminosidade foi escurecida há séculos.
Melancólico sujeito preso em solipsismo, não consegue escapar disso. Todo seu condutor de energia é mental. Ele busca entender a estrutura do real através da lógica. O que é a lógica se não o objeto cognoscente com ela mesma, vivendo em um eterno enamorar constante interrompido pelo elemento ‘’emoção’’; a lógica é a emoção emparelhada em setores, classificada e usada conforme o meio. Falo em terceira pessoa, quero ser uma apercepção, um Deus ex machina que sabe de tudo e irá resolver tudo impetuosamente.
A arte é o religare com o meu sagrado, a forma que tenho para atender as preces de um homem fatigado. Na arte sou mais intrínseco. O fantástico mundo da idealização é aqui, onde os fantasmas da ópera dançam na macabra sonata da morte. Na arte consigo ser o homem mais verdadeiro-falso escritor das montanhas. O antizaratustra: os sermões da desolação para mentes tranquilas, mas turbulentas.
Caosmológico
Colisão entre planetas,
a órbita rasga a harmonia
dos dias furtivos de outrora.
Saturno retira seu anel,
joga fora sua essência cordial,
porque sua ábdita Lua
decide eclipsar junto ao
Sol, o rei cósmico do espaço.
Meteoritos decaem sob
o solo da terra, perpetuam
a destruição perene,
decretada desde sempre
as poeiras humanas.
Ódio sideral: lei una
onto(cosmo)lógica
oposta a Vênus.
Cometas espiam o futuro
do universo, fofocam
para Marte as expedições
em seu território.
Netuno, com seu invernal
gás misantrópico, afasta
até seus semelhantes, como
Urano, o deus do tempo,
poderoso por ascender
seu brilho sobre tudo.
As formas do todo compõem
a desarmonia, o degredo
solar que engolirá o corpo
celeste; não poupara
nem Mercúrio, cônjuge
da Terra, o casal peremptório.
Quem dera se o sistema fosse
antinatural, onde o buraco
negro sugasse todo para o fim,
enxugasse o chão dos vermes,
e assoprasse os gases,
como uma tempestade que
mata o velho marinheiro
no seu velejar marítimo.
Supressão do ego
Quatro do dez de dois mil e vinte e um
as redes caíram,
o jovem não sabe se distrair.
Respira, toma refri, engole a ansiedade:
almoço tomado.
Vai pro Twitter reclamar da falta dos
seus comprimidos diários;
paciente à beira da crise está sem
psiquiatra, não quer nem tentar o
divã consigo mesmo.
Abre o navegador, F5, F5: nada!
Chama o Ifood para ter alguém para
ver sem ser seus pais;
come a refeição, ainda insatisfeito.
Está dentro de casa sem máscara,
mas se sente sufocado por dentro.
O mal-estar da pandemia faz ele
ficar preso com o pior inimigo de
todos: seu próprio pulmão, seu
próprio nariz, seu próprio ser.
Tenta meditar, mas não consegue
passar dos dez minutos.
Lê um livrinho para se distrair,
mas, quer tudo fácil, nada complexo;
vai um de literatura comercial,
ou então um livro de investidores
para ele aprender a gastar o dinheiro
que não tem, e nem se tivesse, saberia
como gastar.
Dá uma passada no Medium, quer ler
qualquer coisa, melhor ler uns poemas
curtos, ou então sobre a política nacional,
tudo em nome do banal.
Sem problemas, para enfrentar a crise
existencial tem que ser forte, perceber
que a vida está estranha, muito cibernético
para um sujeito pós-vacina.
O demônio do malogro visita seja no
trabalho, na arte ou nas redes: ele,
infelizmente, está sozinho…
Sentido
Poeta sozinho no escuro,
com crânios de estimação
ao lado, às folhas do mundo
na perícia de um escrivão.
À procura de um fascínio.
Aquele que dá vasão a tudo,
acusado por morticínio,
limpa a alma do sujo
agir dos homens, mas
na contramão do fugir,
concomitante, ele apraz;
a ínfima fagulha do existir.
Confunde amor e ódio,
regurgita o instinto de viver
enquanto afirma o ópio:
feito seu poema: renascer.
A Queda
A dúbia ressaca moral que corrói o pulmão, secando o ar corrompido pelas tentativas falhas de se reerguer. Minha ourobouros devorando o próprio pecado na medida que se satisfaz. Estou intoxicado pelo vírus da enganação, como Apóstolo Paulo diz: ‘’Porque haverá homens amantes de si mesmos… desobedientes a pais e mães, ingratos, profanos, sem afeto natural’’, homem com a pomba branca morta no peito, sou mais que ímpio; desobediente e ingrato pelas oportunidades. Não suporto mais olhar o reflexo penoso de um sujeito acabado. Sorriso falso machuca a arcada dentária, não está dando mais para dissimular. O fim está próximo e a redenção me foi tirada antes do nascimento. Relógio temporal vai morrendo conforme as belas gotículas d’água escorrem as mudas. Tudo tende a entropia do absoluto, a verdade do início, do meio e do homem.