A melodia que se escorrega nua Em seus florais que se revelam almas Numa sonata que acorda a lua E o seu som desliza em folhas calmas.
A sua beleza que se encarna crua Pelas magnólias nos pés e palmas E seu amor cheiroso atenua O musical das madrugadas alvas.
Todos sorriem pelo tom solene O lumiar, pelo contrário, chora. A madrugada se tornou Selene…
E as magnólias viraram sono Onde se dorme a perdida hora. Não haverá outra voz nem outono.
2
Mórbida Reflexão
Mais um anoitecer pensando em outrora, nostalgia que deveria me pungir, só me deixa desvairado com uma utópica felicidade. Algo falta para compensar o meu vazio. Aniquilo a mim mesmo com meus devaneios[...]. O perecimento me trará paz. O desejo de eliminar-se desse mundo funesto, como um solitário no alto de um edifício, um problema qualquer no sistema de controle, emerge e cresce. Refletindo aqui não chegarei a lugar nenhum? Seria eu sadomasoquista mental? Por que tantas questões? Seria eu um alheio ao rebanho ou um inconsequente se preocupando com coisas banais?
''A vida a doce ilusão; a realidade a solidão; o abismo o medo; as correntes o eterno pesadelo''.
Clamo por felicidade nesse universo errôneo. Queria sentir o sabor da famosa felicidade; o paladar da existência. Enquanto isso não acontece, sentirei a dor na pele a doença chamada vida corroer-me por dentro. Agonia infernal inerente, talvez contingente. Para retribuí-la, sinto o sangue mortuário exaurir de minhas veias. Minha alma aqui jaz...
430
A Lindeza do Feio
Salvai-os da fuga do belo, fisionômicos abutres vivos, perpetuam o zelo dos noctívagos alvitres; da estética mundana.
Gárgula esdrúxula em caça de carne podre, morgado pela antípoda do bem; crassa. Revirado o pecado expurgado.
Feiura belíssima dos mancos, que perambulam o sublime na estrada longa dos francos. Ao deleite da agonia, exprime.
Baila-vos na grotesca dança, no inferno da terra carnal, ímpio esqueleto balança... Na festa da beleza banal.
363
Repressão Poética
Caminhando entre versos perdidos na mão, os papiros ditando as regras da razão. Sílabas nas construções, nos grandes muros, sermões; exército marchando a pátria poética, cantarolando na mira de rima noética.
Ele atira contra a vanguarda: sangra o civil em desalento. Exaure sua mágoa, escreve antologia de lamento, e apaga o macabro livro, suspira... vidas perdidas um dia.
363
Impostor de sentimentos genuínos
Impostor de sentimentos genuínos, após anos de funesta lamúria, acordo do sono adentro no ímpio. A mentira que contei para outrem balsama-me o coração sujo de graxa, sua negritude é a metáfora da inação: escura, sem vida e com odorosa ilusão. Eis a suma de minhas palavras soltas. Provérbios, frases e poemas falsos, tudo em nome de impostura; medo talvez em querer se deleitar no colo de quem queria me proteger com seu afago carinho, mas que para mim era apenas educação ou dor de consciência. Eu agora sou o juiz, réu e promotor da própria existência: júri, repreendido e acusador dos meus sentimentos genuínos.
398
Ódio Latente
Ódio latente que me faz lamuriar sobre essa vida Nenhum senso de esperança Somos levados a acreditar na mentira da esperança Enquanto somos levados discrepância Falsa liberdade, mentira da verdade Escravo da liberdade, senhor do ócio da maldade Nunca pedi para entrar, mas sou obrigado a sair Todavia, um porém, um ótimo porém: sou livre Como um macaco enjaulado na gaiola, sou livre Livre para morrer e com amargura no coração
''As minhas lembranças são como espinhos cravados na pele Pregos que encerram o meu caixão Durante anos visitei esse mato, não para me prolongar de sofrimento Mas para apaziguar o meu espírito dos tormentos [...]Uma vez mortas… Os momentos penosos, as sombras ilustram figuras Uma vez morto… Jamais sentirei dor… Jamais sentirei Dor… Da vida.''
Condicionados ao ego, elevados ao apogeu da ignorância Somos irrelevantes porcos em busca de um chiqueiro dos sonhos Diante do agora, o tempo nos parece tão sujo, por isso necessitamos o transcendente. Qual a conclusão da vida? Não se segue, é uma mentira porca que somos obrigados a aceitar.
408
Supremo
Esculpido na influência venusiana, perfeito e grandioso mármore, o corpo pintado pelo sangue divino das cores mais vitais. Puro como conceitos não compostos, Uno por clara excelência, imortal e rei do esplêndido florescer: conhecei-vos o inominável! Excita todos os corpos existentes, e outrossim, ninguém o toca, traz metáforas mais que poesias e aquém da imaginação. Vislumbrado nas belas-artes, crucificado pelos fracos, abre os braços para universos, deuses e mundos subjugados.
120
Talvez o tempo me matará
Sinto que a dor será eterna. Sinto que felicidade é ilusão, os jovens são a plateia, o sistema é o circo e os palhaços, adultos pagando os ingressos.
O mundo para mim é intenso, mas eu sou tão palerma quanto o desabrochar da rosa. Sou tão morto quanto o outono, quando o outono chega a rosa já murchou.
120
Os tais sofredores
I
Você, o tal salafrário daquelas noites sem fim, madrugada, tal horário pra tentar fugir assim: rastejando a escuridão sob as presas do acaso, as drogas acabarão nas picadas do trago.
II
Você, tal itinerário no qual viaja sem rumo, sem bagagem, solitário, vai na estrada do luto. Foge da tal polícia: sentenciado por ter medo de caminhar sem carícia... de ser réu por ter apego.
III
Você, o tal hereditário programado pro inferno, e num maldito cenário sofrer por quem está perto. Mas não tem culpa de nada, pois então, aguente a vida, cairá como gota d'água, e sofrerá em seguida.
IV
Você, o tal dicionário das mil palavras perdidas, acha até o meu diário de anotações castiças. Sou casto por amar muito, amo o verdadeiro amor, mas eles riem no intuito de anotar a minha dor.
130
Liberdade de expressão
Liberdade de expressão é quando nossa essência expande ao desconhecido. Quando somos folhas transvoando todas as ruas e os novos bairros. Para alguns, as folhas ao vento são uma dança da natureza, bailando o ar no compasso da beleza. Já para outros, as folhas sujam as avenidas, amiudadamente tendo que serem varridas para em seguida serem sujas novamente. Nada mais claro que expressão é o nosso ser interrompido e fomentado ao mesmo tempo. Vivemos na era da censura, pois somos afetados pelo açoite do outro, ainda mais que a subjetividade apoquenta a civilização. Ser sem essência nada é, então como podemos ainda estar de pé? Somos livres amenos quando afeta o outro, o que é deveras correto, mas e quando somos todos afetados? Quando nossos sentimentos ditam as regras? Nem sempre as folhas ao vento podem ser belas, podem perturbar com a feiura do vendaval. Todavia, liberdade de expressão agora é uma árvore com troncos caídos e quebrados: somos todos podados. Folhas incomodam.