Reirazinho

Reirazinho

n. 1999 BR BR

Túneis de pensamentos perdidos.

n. 1999-01-09

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Mórbida Reflexão

Mais um anoitecer pensando em outrora, nostalgia que deveria me pungir, só me deixa desvairado com uma utópica felicidade. Algo falta para compensar o meu vazio. Aniquilo a mim mesmo com meus devaneios[...]. O perecimento me trará paz.
O desejo de eliminar-se desse mundo funesto, como um solitário no alto de um edifício, um problema qualquer no sistema de controle, emerge e cresce. Refletindo aqui não chegarei a lugar nenhum? Seria eu sadomasoquista mental? Por que tantas questões? Seria eu um alheio ao rebanho ou um inconsequente se preocupando com coisas banais?

''A vida a doce ilusão; a realidade a solidão; o abismo o medo; as correntes o eterno pesadelo''.

Clamo por felicidade nesse universo errôneo. Queria sentir o sabor da famosa felicidade; o paladar da existência. Enquanto isso não acontece, sentirei a dor na pele a doença chamada vida corroer-me por dentro. Agonia infernal inerente, talvez contingente. Para retribuí-la, sinto o sangue mortuário exaurir de minhas veias.
Minha alma aqui jaz...
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Poemas

8

Corvos (Wrony)

Como um corvo, sou solitária,
sempre nas frestas da rua.
Sou livre, mas trancada na cela
Maternal...

Quero ser amada como uma pétala, 
onde o aroma agrada sua jardineira.
Quero voar feito um corvo nas paisagens,
das nuvens...

Os meus amigos imaginários validam
a falta de afago que vossa pessoa não deu;
desde do monstro do mar ao poliglota
gentil... 

Mãe, por que tenho que jantar só? 
O sabor desta sopa é intragável, 
só porque você não está aqui.
Irei embora e não mais voltar!
Mãe...

Serei uma verdadeira mamãe; 
como você nunca será.
Essa garotinha é minha filha e juntas,
transvoaremos o mundo como corvos
à beira do mar...

Apesar de tudo, sinto saudade da senhora.
A criança voltou para sua real progenitora.
O barco que nós velejaríamos, afundou; 
junto com minha vida...


Eu também voltei, mas não quero saber
de broncas e nem de problemas. 
Quero a senhora, a que realmente 
é real e que fatalmente amo:
Mãe...
261

A sinfonia última

Corda do celo rasga a nota,
do último trágico som,
mortal à alma já quase morta. 
Mitigado no penumbre bom.

Fúnebre adágio nos ouvidos
é o turíbulo que pendula lembrança.
Nostalgia de dias anímicos,
marcados com pureza de criança.

Luctíssono é sensível ao toque. 
Do garoto colérico ao austero sujeito,
escuro mundo de sentimento fechado.

Espelho manchado de desfoque,
é o reflexo penoso do homem afeito.
Sinfonia lamentosa do ser apartado.
233

Sufocado por si

Palavras sufocam minha garganta,
ao mesmo tempo que querem sair,
ficam soterradas na ansiedade.
Obsoleta vida que desalenta,
olhando o horizonte...
ermo sofrimento a banhar-me;
preto é a cor dos meus ossos,
cinza a cor do meu mundo:
paisagem impressionista: minha vida.
Sufocado por si próprio, asma mortal,
olhando as estrelas...
linhas tortas descrevem o monólogo,
fatídico ser humano buscando o fim.
Monotonia mental, cotidiano vivo.
Musicalidade profunda me atinge,
vômito orquestral alivia meu sufoco;
no dó menor, ou nas batidas batedoras
a magia do entendimento permanece.
Olhando a desgraça...
Sou finito, sou pleno, sou tudo.
263

Meu ideal

Meu ódio é obscurecido pela minha temperança calma, onde demonstro a imagem de um monge, sempre sereno com as circunstâncias da vida. Todos os problemas com pessoas que me afligem são transgredidos em palavras apaziguantes, gestos de tranquilidade e expressões faciais ilógicas à minha alma. Acabo por escrever míseras linhas onde afogo meus detentores, estas mesmas linhas que são imprescritíveis no meu âmago; me odeio, no fundo do coração, me odeio. Não consigo me expressar em meu social e muito menos em prosas de palavras infindáveis. Um terço do que digo não é uma gama do que realmente penso, na realidade, tudo o que escrevi são vômitos na privada prontos para sumir na descarga. Essa prosa de agora, por exemplo, não é o que minha angústia quer falar, ela pede para se libertar, mas eu estou fitando-a todos os dias, guardando-a em meu peito.
Eu sou um mudo, sou deficiente, de palavras vazias a ideais quiméricas. Sou um plantonista em excelência: vivo imaginando uma vida onde consigo realizar meu bem-estar, meus livros e minhas conquistas. Com pesar, abro os olhos, me deparo com a realidade, ela dói. A minha velha companheira Angústia sempre retorna quando penso muito sobre isso; ela tenta me consolar, como uma mãe que consola seu filho após se sentir triste. Mas ela se esquece que ela me faz mal, coloca a mão no lado esquerdo do meu peito e começa a me afagar. Sonho no dia que tudo isso vai acabar, onde após a minha morte, me restará eu sozinho no mundo, no espaço sideral, junto com as lindas estrelas e planetas orbitando o nada. Quero derramar a última lágrima e subir ao céu como um foguete, serei um ínfimo elemento da galáxia dando razão a existência.
Eu sou pequeno demais, mas minha fantasia é magnânima, onde lá na minha imaginação, o bom e belo são a quintessência de meu mundo. Cada segundo que se passa, me converto a esse ideal; talvez tudo seja melhor para mim se eu for em direção ao caminho universal da vida, quando finalmente serei pleno.
228

Retrotemporal

Calendário anno domini ao contrário
Relógio retrocede os segundos temporários
Corro na contramão da necrofalmognose
Vivo meus dias na necrocitose
Quero encontrar o ponto inicial
Para balbuciar o destino fatal
Retroalimentação do meu ser anormal
Eternamente vivendo o loop infernal
Vertigem de Kairós me oportuna
Meu Aeon é meu castigo de usura
Quebrado novamente o ciclo itinerário
Voltemos ao maldito calendário contrário
216

Túneis de pensamentos perdidos

Pensamentos leves como penas,
transvoam o espaço feito fenas.
Superficiais feito idosas na rua,
fatídico à vida feito a sua.
Embalagem plástica é a emoção.
Lixo reciclável é toda a corrosão,
Faz mal ao meio ambiente,
degradação necrótica me é suplente.    
Tudo o que vem, morre no amanhã,
sou o paciente póstumo do divã.
Queimei cigarros após o sexo,
tudo foi tão bom... se tivesse nexo;
Você na minha imaginação deu vida,
mas no contraste do real, és olvida.
Mais um devaneio me foi tirado:
sonhei que tinha me matado.
Sorri na vertigem do abismo-além;
Faca na clavícula corta meu ‘’amem’’.
Já no céu, os anjos compõe o belo,
no além-vida eu quebro meu elo:
Os deixei e voltei a vida bastarda.
Infeliz, atomizei a existência fracassada.
 
207

Amante da vida (ode ao viver)

Sou devoto à vida, simplesmente não suporto a ideia de morrer. A amo como as folhas que caem no fim de primavera e as miúdas gotículas d’água que exaure de meus olhos no simples ato de contemplá-la. Minhas lágrimas de felicidade transbordam meu amor e faz do mundo um dilúvio de alegria. Eu criei o sol e o sol me mimetiza, eu sou o conceito do brilho e do bem. O taciturno da lua é como deixo o céu mais agradável às vidas cotidianas no meio da noite. Bebo todos os dias a Artemísia da natureza; a planta que me intersecciona e, ao mesmo tempo, me une ao todo. Sou o tronco das árvores, os vermes da terra, as leoas da mata e tudo o que nasce e morre em instantes. Sou o verde do pântano, o mesmo verde da cor da esperança e liberdade. Não há tempo em meu ser, o cronos é um erro. Tudo a mim, é eterno, não só sentimentos, como atitudes — sou especial, pois, não existe angústia em meu coração, só amor. O todo sou eu, assim como o amor é o todo.
A beleza da vida é verbalizar ao abrir os olhos no amanhecer do sol, em sílabas, ‘’Eu sou feliz!’’ sem o maior receio. Na realidade, não preciso dizer estas palavras, a própria vida já sabe disso, porém, eu sacralizo tal frase sem pestanejar, somente como ato benfazejo em gratidão ao viver.
O sorriso da minha boca é a forma neutra do meu rosto; talvez meu rosto seja deformado, pois, sou incapaz de mudar de expressão. Tudo a mim, é engraçado e perfeito; não entendo como existem pessoas que não entendem o ato de ser feliz. A vida é simples: viva. Meu cérebro não contempla muito bem ‘’tristeza’’, para mim, você só está triste quando é ignorante. A ignorância é o ato de ignorar o fato que a vida é ato puro (ser feliz). Tudo sempre deu certo para mim e nunca houve problemas. Queria lamentar para os depressivos que rotam no errante, mas felizmente, não consigo lamentar, pois, como disse, só sei ser feliz e me sentir bem. Uma ‘’lástima’’ aos afortunados que não são amantes da vida como eu sou.

231

A perversão de Devorath

Crânio em mãos pesa meus ignóbeis dedos,
fatiga meus ossos e coagula meu podre sangue.
Seus obscuros olhos molestam meus medos;
abjeto sorriso a fagocitar minha boca infame.
Madrugada, ábdito ódio perece minha calma;
que vedes a putrefação de meu lindo rosto,
e de augúrio profetiza minha néscia alma.
Meu castelo inundado nas marés do poço.
Assombração malogra meu ouvido;
busca o sacrossanto em completude:
mal sabe que meu espírito é omisso.
Folhas do meu Éden secas em atitude.
Sou como os vermes da terra santa,
sangrado, angustiado e prostrado.
Neofilia no profano, silaba do mantra.
Extenuado em viver, a heresia alvitrado.
213

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