Reirazinho

Reirazinho

n. 1999 BR BR

Túneis de pensamentos perdidos.

n. 1999-01-09

Perfil
13 508 Visualizações

Mórbida Reflexão

Mais um anoitecer pensando em outrora, nostalgia que deveria me pungir, só me deixa desvairado com uma utópica felicidade. Algo falta para compensar o meu vazio. Aniquilo a mim mesmo com meus devaneios[...]. O perecimento me trará paz.
O desejo de eliminar-se desse mundo funesto, como um solitário no alto de um edifício, um problema qualquer no sistema de controle, emerge e cresce. Refletindo aqui não chegarei a lugar nenhum? Seria eu sadomasoquista mental? Por que tantas questões? Seria eu um alheio ao rebanho ou um inconsequente se preocupando com coisas banais?

''A vida a doce ilusão; a realidade a solidão; o abismo o medo; as correntes o eterno pesadelo''.

Clamo por felicidade nesse universo errôneo. Queria sentir o sabor da famosa felicidade; o paladar da existência. Enquanto isso não acontece, sentirei a dor na pele a doença chamada vida corroer-me por dentro. Agonia infernal inerente, talvez contingente. Para retribuí-la, sinto o sangue mortuário exaurir de minhas veias.
Minha alma aqui jaz...
Ler poema completo

Poemas

48

O Poema do Morto

No caixão putrefato vou ficar 
no ritmo da terra no corpo,
o ditirambo da inércia, matar.
Coveiro consolando o morto,
da funéria sombra etérea, 
o divino esqueceu o cadáver
quando deu fruto a matéria;
Mornou a água do precaver,
ignorou as súplicas do filho
do fatídico Cristo-martírio. 
   
Eu deveria sair do mausoléu,
mas, deixei os vermes no fel.
Caminhar no ritmo que a terra
sucumbiu minha veste férrea;
Coagir meu coração a bater
na força de bomba a crescer.
O segmento do meu crânio 
quebra justaposto ao ânimo:  
o sentimento de persistência
soterrado na clemência.
208

O Ultimo Conto

Lágrima gelada faz derreter
o anjo da última lápide. 
Gesso enfraquecido na força
da batida do último corvo, 
na vertigem de sua asa,
a última morte; 
nas rosas do último defunto,
o fim da primeira saudade. 
Velório do assombro sujeito,
da sexta casa à direita,
donde residia a garota do
véu, aquela que faleceu
jurando vingança.
O pássaro morto no tapete 
foi a prova do crime, 
ninguém entendeu como,
mas assim foi o funesto fim.
Ela tinha o sonho do matrimônio,
ele, o vil desejo de suprimir.
No vai e vem da sanfona, a música
da vida os ensurdeceu;
o enterro do último corpo lava
a redenção da vingança, enquanto
o céu não obscurecer, a lágrima 
reluzente do anjo não findará...
o mar de fogo; o primeiro sofrimento
do último engano.
201

A Lindeza do Feio

Salvai-os da fuga do belo,
fisionômicos abutres 
vivos, perpetuam o zelo
dos noctívagos alvitres;
da estética mundana.

Gárgula esdrúxula em caça
de carne podre, morgado 
pela antípoda do bem; crassa.  
Revirado o pecado expurgado.

Feiura belíssima dos mancos,
que perambulam o sublime
na estrada longa dos francos. 
Ao deleite da agonia, exprime. 

Baila-vos na grotesca dança,
no inferno da terra carnal,
ímpio esqueleto balança...
Na festa da beleza banal.
360

Paredão

Lembranças de quando as paredes
das ruas eram a liberdade
que eu tinha, paredes de girassóis,
enriquecidos como o sol amarelado
nos antigos dias de verão.
Nostalgia familiar vieste debulhar
meu espírito, trazendo os grãos de
amargor; semeando a inação.
meu passado me condena!
Pois sem ele a vida não se move.
Estou trancada nas celas do paralisar:
O ruído das pessoas ensurdece a
sonoridade dos bem-te-vis
das gotículas de água na folha
e faz sangrar minha conexão
com o mundo.
Queria poder enxurdar meu amor
com a multidão, mas sou apedeuta.
Mormente quente no interior, mas
congelado pelo meu mitigado
violoncelo, que de suas cordas
foram fincadas na garganta do medo.
Tempo? Infindável passagem que
Distrai a minha carne.
218

Nono Soneto do Criador

Anjos de Deus em Bach engenham o baile divino,
harmonia ressoa e consoa o glossário do bem.
Diligente ser compõe harmonia vindoura aquém,
orquestra angelical fandanga com o concerto exímio.

Rei dos reis, Handel agita o baile profano,
aleluia aos guturais das impurezas patrióticas.
Liturgia nacional exprime as vidas escatológicas,
bastardos gloriosos exaltam a si: crasso engano.

Noturno eclipse de Chopin poetisa o monismo,
na vinda do homem romântico sentimento de dor.
Vemos que o patriotismo é insuficiente perante a Deus.

Da arte ao criador, teremos a vindoura força do otimismo,
mesclado com a responsabilidade pessimista do pecador.
De Handel a Haynd a criatura não é indelével perante aos seus.
217

Corvos (Wrony)

Como um corvo, sou solitária,
sempre nas frestas da rua.
Sou livre, mas trancada na cela
Maternal...

Quero ser amada como uma pétala, 
onde o aroma agrada sua jardineira.
Quero voar feito um corvo nas paisagens,
das nuvens...

Os meus amigos imaginários validam
a falta de afago que vossa pessoa não deu;
desde do monstro do mar ao poliglota
gentil... 

Mãe, por que tenho que jantar só? 
O sabor desta sopa é intragável, 
só porque você não está aqui.
Irei embora e não mais voltar!
Mãe...

Serei uma verdadeira mamãe; 
como você nunca será.
Essa garotinha é minha filha e juntas,
transvoaremos o mundo como corvos
à beira do mar...

Apesar de tudo, sinto saudade da senhora.
A criança voltou para sua real progenitora.
O barco que nós velejaríamos, afundou; 
junto com minha vida...


Eu também voltei, mas não quero saber
de broncas e nem de problemas. 
Quero a senhora, a que realmente 
é real e que fatalmente amo:
Mãe...
261

A sinfonia última

Corda do celo rasga a nota,
do último trágico som,
mortal à alma já quase morta. 
Mitigado no penumbre bom.

Fúnebre adágio nos ouvidos
é o turíbulo que pendula lembrança.
Nostalgia de dias anímicos,
marcados com pureza de criança.

Luctíssono é sensível ao toque. 
Do garoto colérico ao austero sujeito,
escuro mundo de sentimento fechado.

Espelho manchado de desfoque,
é o reflexo penoso do homem afeito.
Sinfonia lamentosa do ser apartado.
233

Sufocado por si

Palavras sufocam minha garganta,
ao mesmo tempo que querem sair,
ficam soterradas na ansiedade.
Obsoleta vida que desalenta,
olhando o horizonte...
ermo sofrimento a banhar-me;
preto é a cor dos meus ossos,
cinza a cor do meu mundo:
paisagem impressionista: minha vida.
Sufocado por si próprio, asma mortal,
olhando as estrelas...
linhas tortas descrevem o monólogo,
fatídico ser humano buscando o fim.
Monotonia mental, cotidiano vivo.
Musicalidade profunda me atinge,
vômito orquestral alivia meu sufoco;
no dó menor, ou nas batidas batedoras
a magia do entendimento permanece.
Olhando a desgraça...
Sou finito, sou pleno, sou tudo.
263

Meu ideal

Meu ódio é obscurecido pela minha temperança calma, onde demonstro a imagem de um monge, sempre sereno com as circunstâncias da vida. Todos os problemas com pessoas que me afligem são transgredidos em palavras apaziguantes, gestos de tranquilidade e expressões faciais ilógicas à minha alma. Acabo por escrever míseras linhas onde afogo meus detentores, estas mesmas linhas que são imprescritíveis no meu âmago; me odeio, no fundo do coração, me odeio. Não consigo me expressar em meu social e muito menos em prosas de palavras infindáveis. Um terço do que digo não é uma gama do que realmente penso, na realidade, tudo o que escrevi são vômitos na privada prontos para sumir na descarga. Essa prosa de agora, por exemplo, não é o que minha angústia quer falar, ela pede para se libertar, mas eu estou fitando-a todos os dias, guardando-a em meu peito.
Eu sou um mudo, sou deficiente, de palavras vazias a ideais quiméricas. Sou um plantonista em excelência: vivo imaginando uma vida onde consigo realizar meu bem-estar, meus livros e minhas conquistas. Com pesar, abro os olhos, me deparo com a realidade, ela dói. A minha velha companheira Angústia sempre retorna quando penso muito sobre isso; ela tenta me consolar, como uma mãe que consola seu filho após se sentir triste. Mas ela se esquece que ela me faz mal, coloca a mão no lado esquerdo do meu peito e começa a me afagar. Sonho no dia que tudo isso vai acabar, onde após a minha morte, me restará eu sozinho no mundo, no espaço sideral, junto com as lindas estrelas e planetas orbitando o nada. Quero derramar a última lágrima e subir ao céu como um foguete, serei um ínfimo elemento da galáxia dando razão a existência.
Eu sou pequeno demais, mas minha fantasia é magnânima, onde lá na minha imaginação, o bom e belo são a quintessência de meu mundo. Cada segundo que se passa, me converto a esse ideal; talvez tudo seja melhor para mim se eu for em direção ao caminho universal da vida, quando finalmente serei pleno.
228

Retrotemporal

Calendário anno domini ao contrário
Relógio retrocede os segundos temporários
Corro na contramão da necrofalmognose
Vivo meus dias na necrocitose
Quero encontrar o ponto inicial
Para balbuciar o destino fatal
Retroalimentação do meu ser anormal
Eternamente vivendo o loop infernal
Vertigem de Kairós me oportuna
Meu Aeon é meu castigo de usura
Quebrado novamente o ciclo itinerário
Voltemos ao maldito calendário contrário
216

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.