Só falo por mim as ideias do José e do Camões
(Tentativas para não inventar não faltam
Pena é que às vezes a pressa da verdade
Tudo corrompa, e a mentira torna-se
A realidade da imaginação.)
Pois hoje sou um poeta lírico
Como diria José Régio:
Daqueles que perdem totalmente a cabeça
Focando-se na cousa amada.
E o eixo em que gira essa cousa amada
Sendo a minha própria condição de suspirante
Torna-se risonha e de arte
Nas mãos da imaginação.
Esperemos que não nos engula inteiros
Este corrupção para a visão da felicidade.
Depois, sabendo-se incerto o verdadeiro
Tudo tem término num criado mal.
A sério que não tenho este fétiche
Os teus beijos
Criam passos.
São sons de bucólicos passos
Os passos que oiço
Enquanto te descalças à varanda do meu pensamento.
Oh, como olho os teus passos
Apressado em te ver as meias
E, depois, os pés nus
No meio disto tudo - paro
Para tocar os teus pés -
E caio para a frente, redondo.
Se tivesse dinheiro comprava-te uns ténis de corrida, era mais fácil
Preciso de imagens para traduzir.
Preciso que corras pela praia
E que caias no meio da areia
Fiques por lá, enquanto me chamas,
E eu vou ter contigo.
Reparar que ainda estás de vestido
Vermelho. Entrar na água contigo
E todo aquele frio fazer-se quente.
Preciso de imagens para traduzir,
Preciso que corras por aí.
Voltámos aos cafés
Fui a Lisboa e o café era caro para caraças
E agora estou aqui sentado a escrever desgraças
Como esta que pelos vistam não ensinam nada
Já que me martelam na fronte que não tenho nada p'ra ensinar.
Havia cães de variada envergadura e dóceis brincalhões
Que bateram várias vezes nas mesas do café
E uma vez até o amarelo trouxe a bola até a mim
Que eu me importei em devolver a troco de lhe dar uma festa.
A conversa tinha uma pitada de vermelho a tingir a face
E três dedos de oculto, como não os seis que o barbeiro me tirou
Gosto desta forma de conversa inteligente
Mas não sei se estou a ser verdadeiro:
Que a minha face mais verdadeira é quando eu não me agarro
E no meio de inteligências digo dezenas de barbaridades
Até que sumo à depressão de pensar na questão
De que talvez mais verdadeiras sejam as barbaridades
Do que as minhas verdades.
Depois, fomos embora e eu para não parecer forreta
Paguei o café. Dois euros e eu achei uma roubalheira
O carioca de limão (desconhecido para os teus) até compreendo
Mas o café a 1.10 é coisa com que não me entendo.
Um galão e um croissant na espera do café
Seriam as metas objectivos?
Os objectivos querem-se dificeís,
Mas de alcance indisputável,
Fitas vermelhas a pedir uma tesoura na mão.
E cada pedra, afinal, é calçada,
Um desenho feito para ser pisado,
Decorado de tijolos sobrepostos e varandas regurgitadas
Para um vazio aéreo de olhares atentos.
Cada suspiro, cada laço, cada horizonte
Amontoa-se a juzante, na foz, no imenso.
Objectivos inalcançáveis
Até se ter um barco.
Tomo outro, que demora
Três e meia.
E eu,
Ainda aqui, no café
Desenhando cafés em guardanapos
Sujos
Por borras de paciência.
Tostas de esperas eternas,
Espalhadas em
Migalhas de decepção.
(Só espero mais 10 minutos.)
E eis que chegas, ensopada
Abres os dentes e pedes um leite
Para tingir o granito dos teus lábios.
Pedes desculpa pela demora,
E eu digo: "não faz mal",
Mas os meus lábios sabem a café.