RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

20

RIBEIRÃO DA CACHOEIRA

Luzindo a cada salto; a cada queda,
As águas nos lajedos de granito...
Era tudo tão bom quanto bonito,
Por onde o rio abaixo s'envereda.

Um pássaro outro pássaro arremeda
Seu trinado de quero-quero aflito.
Mas oculta entre as águas acredito
Da própria Uiara ouvir sua voz leda.

Bandos de maritacas fazem festa
No dossel verdejante da floresta
Até a tarde cair mais preguiçosa.

E, por fim, espraiado n'um remanso,
Paro para admirar como descanso
O céu se colorir em tons de rosa...

Betim - 14 01 2018
324

ERRATA

Onde se lê "justiça", leia "vingança"
Quem se quiser bom entendedor!
Dos males d'esta vida, um mal menor
É ver cada palavra em sua nuança.

De certo modo, escreve em contradança
Aquele que suaviza em tudo a dor
E, eufemisticamente, ao seu leitor
Deixa ao menos uma última esperança.

De boa ou má fé o erro, em realidade,
É o que às ideias muda a intensidade,
Mesmo quando mais nada faz sentido.

N'isto, para julgar, antes vingar:
Corrija-se o que está subliminar,
Na sentença d'um juiz obscurecido...

Betim - 22 01 2018
500

ÀS CLARAS

ÀS CLARAS

AQUINO:

Não se pode negar que te desejo,
Embora diga não mais te querer.
Pois tudo em ti me atrai tão-logo vejo
Meus olhos em teus olhos sem querer.

CLARA:

Sei que foges dos meus olhos. Sim, eu sei!
Tentas dissimular e me esconder
O que sentes sob tão obtusa lei,
Que faz do amor um jogo de poder.

AQUINO:

Não quero mais dizer que não te quero
E mesmo que não possa ou que não deva
Sem mais nada esperar, ainda espero
Do que já me foi luz e agora é treva...

CLARA:

Não há treva que dure: Vem a aurora!
O amor que fere é o mesmo que sara...
Permite que a verdade surja agora
E transforme estas trevas em luz clara.

AQUINO:

Sim, Clara, se me tomas pela mão,
Falando enfim à minha fantasia,
Talvez finja que não finjo a emoção
De tua fala feita de poesia.

Se finjo não saber que te desejo
E minto a te dizer que não te quero,
Sei que nada te impede um outro beijo
Ou de dizer que tudo fora invero.

CLARA:

Deixa apenas falar ao coração
O mel que me derrama pela boca
Da impossível poética em canção,
Que então dentro de mim agora toca.

Deixa que minha boca toque à tua
No encontro pleno d'uma estrofe muda:
Seja poesia a minha carne nua
E seja luz minh'alma em ti desnuda!

Belo Horizonte - 18 12 2016
261

O MONGE E A SERPENTE

O MONGE E A SERPENTE

prólogo

Contam que quando andava pela Terra
O iluminado espírito de Buda
Vivera em penitência surda e muda
Um monge seu ferido pela guerra.

Acolhido por Buda, mais se aferra
À sã meditação com que se escuda
A alma necessitada mais de ajuda
E que uma grande angústia em si encerra.

Aquele monge à paz se disciplina,
De sorte que mais nada o encoleriza,
Mesmo quando o tinhoso desatina.

Assim, quer na tormenta quer na brisa,
Seguia sempre o mesmo a sua sina
No carma que só seu mantra suaviza.

* * *

o carma

Na guerra, conduzira ele elefantes
Contra inimigos vindos de bem longe.
Nada, porém, de qu'ele se lisonje,
Sim o atormente todos os instantes.

Ferido após barbáries devastantes,
Decide, mudo e só, fazer-se monge...
A fim-de que da guerra mais se alonje
E o coração da sua vida d'antes.

À espera da impossível redenção,
Procura compensar sua violência
Com uma radical resolução:

-- "Enquanto eu respirar n'essa existência,
Nada mais morrerá por minha mão
Até ter de novo limpa a consciência."

* * *

o encontro

'Pós anos de silêncio e solidão,
Aquela alma culpada e penitente
Encontrara uma filha de serpente
Totalmente indefesa sobre o chão.

Tão fraca, o monge a pega com a mão
Quedando quase inerte simplesmente
Co'os olhos em seus olhos, frente a frente,
Sem esboçar a mínima reacção.

O monge a colocou em sua cesta
E a carregou consigo para fora
Da sempre tão quente e húmida floresta.

A todos no mosteiro ele apavora
Como afinal tivesse má a testa
Em face da serpente n'aquela hora...

* * *

o concílio

Buda, que às boas almas conhecia,
Pede a palavra ao povo alvoraçado:
-- "Amigos, escutai cá do meu lado!
É necessário mais sabedoria..."

"Deixai-o co'a serpente noite e dia
Até que por fim todo o seu cuidado
Mostre-nos a que fora destinado
Isto o que só loucura parecia."

-- "Ouço e obedeço." -- disse-lhe um por um.
Assim o monge pôde co'a serpente
Viver essa vida um tanto incomum.

Por resto, vivia ele tão-somente
Como se fosse sem perigo algum
Aquela realidade surpreendente.

* * *

a ophiophagus

Pelas selvas dos Gates Orientais
Já na estação das chuvas das monções,
Cobras que comem cobras são vilões
D'estas tórridas terras tropicais.

Deveras, as imensas cobras reais
S'elevam tão ferozes quanto leões
E inoculam peçonha aos borbotões
Sobre maiores e mais fortes rivais.

Essa serpente, pouco antes que nasça,
É logo pela mãe abandonada
Pr'os próprios filhos não haver por caça.

Ainda bem pequena é encontrada
Pelo silente monge cuja graça
Lhe acreditava ser por ela dada.

* * *

a iluminação

Dia após dia, o monge em seu cuidado
Alimentava a cobra presa ao cesto,
Trazendo camundongos que, de resto,
Ninguém mais parecia achar errado.

Tinha fé que co'o tempo do seu lado
Perderia ela instinto tão molesto
A ponto de entender do monge o gesto
E ter o seu furor pacificado.

Julgava que seria agradecida
Ao ser tratada com suma bondade
Ao longo já de toda a sua vida.

Mas se aproximava ele da verdade,
Por uma estrada então desconhecida,
Cercado de total perplexidade...

* * *

o nirvana

Grande demais pr'o cesto em que vivia,
A serpente s'eleva toda ereta.
Em frente o monge jaz, silente e asceta,
A lhe encarar nos olhos, todavia.

Ameaçadoramente bela e esguia,
Já prepara seu bote por repleta
D'uma violência própria, pois abjeta
E tão diversa ao qu'ele oferecia.

N'um átimo, ela voa em seu pescoço...
E crava as suas presas já tristonha
N'aquele qu'ela mata 'inda tão moço.

Após, ela inocula-lhe a peçonha
Que lhe faz já da morte abrir o fosso
E logo morrer como alguém que sonha.

* * *

o darma

Procuraram o Buda entristecidos
Seus discípulos mais a má serpente.
E pretendiam matá-la simplesmente
Depois dos factos já acontecidos.

Que, embora fossem bem esclarecidos
Sobre o valor de todo ser senciente,
Bradavam por justiça, mas somente
Buscavam a vingança dos perdidos.

E Buda disse: -- "Leva para a mata
A cobra ainda viva, com certeza!"
Mas os monges: -- "Jamais! É uma ingrata!!!"

Pagou tanta bondade com torpeza..."
E Buda: "Só segue ela a Lei inata:
Agiu conforme sua natureza.

* * *

epílogo

"Estamos todos -- Buda diz -- sujeitos
À lei do Darma, isto é, Lei Natural.
Tanto um humano quanto um animal
Vive segundo seus sábios preceitos."

"E ainda que dotados de direitos,
Seres sencientes somos afinal.
A luz está em ver o próprio mal
Para então renunciar a seus malfeitos."

"Pois, mais que da serpente essa maldade
-- Na qual vedes traiçoeira ingratidão -
Havia sim desejo à liberdade!"

"Aos olhos da serpente, era prisão
E os cuidados no monge -- a tal bondade --
A mais só e absoluta reclusão."

Betim - 20 02 2002
570

MARAVILHOSO

MARAVILHOSO

Já cansado de ser, talvez lograsse
Tornar-me a personagem vã de mim.
De sorte que quem sou, ao cabo e ao fim
Aquele que não sou melhor ficasse.

Estivesse eu de mim bem face a face
à maravilha em ser quem fosse, enfim,
Eu sequer saberia d'onde vim,
E tão perdido n'outros eu me outrasse.

Porque quem se torna outro se projeta
No vazio da imagem predileta,
E dá-se aos outros o outro que bem quer.

Quem é, no entanto, está subentendido:
No melhor de mim, não tão comedido,
Soube maravilhoso estar e ser.

Inhapim - 22 04 2016
401

E A COISA TODA

E A COISA TODA

Não há-de haver debate verdadeiro
Se se reduz ao absurdo um adversário.
As certezas impostas pelo ideário
Nos limitam somente ao costumeiro.

Cada homem é de si bom conselheiro,
Mas o mais, por complexo e mesmo vário,
Transita entre o caótico e o arbitrário
N'um posicionamento derradeiro.

Estar mais à direita ou mais à esquerda
Revela tão-só mais ou menos perda
Dos discursos em face da verdade.

Quem busca a verdade antes a investiga
E não repete o que quer que se lhe diga
Como se sem consciência nem vontade.

Betim - 19 01 2018
419

MULHER-ESPETÁCULO

MULHER-ESPETÁCULO

Ela sozinha vale já o ingresso!
Seminua no palco, sensualiza
E faz caras e bocas mil à guisa
De quem antes celebra cada excesso.

Mesmeriza com seu olhar travesso
Como se ora indecente; ora indecisa...
Ainda do que quer me desavisa
E me vira a cabeça pelo avesso.

Ela é um tanto nova para mim,
Mas diz que vai comigo até o fim,
Embora não lh'entenda patavina.

Eu ora apenas sei que aos olhos salta
Sua imagem nas luzes da ribalta:
Uma mulher com rosto de menina.

Betim - 12 01 2017
379

ULTRARROMÂNTICO

ULTRARROMÂNTICO

Amar, não para ter família e filhos
Ou envelhecer tentando ser feliz!...
Sim para querer mais do que já quis,
Alheio a conveniências e empecilhos.

Dois a morrer d'amor, feito andarilhos,
Que têm no coração seu vasto país
Todo eterno amador, como se diz,
Há-que buscar aos olhos novos brilhos.

Amor, como sentido e até destino,
Da forte correnteza que nos leva
Indiferentes se à luz ou para a treva...

Pois, ainda que um outro desatino,
Sê tu no peito amante quem de novo
Me leva ao mal-d'amor que agora trovo.

Betim - 15 01 1998
405

O CABULOSO

O CABULOSO

Faltava à faculdade toda sexta
E partia para o baile da favela
Em permissividade paralela,
Atravessando a noite toda em festa.

Ao longo da semana manifesta
Uma extrema ansiedade que atropela
O seu curso acadêmico e revela
Outra procura intensa e pouco honesta:

Entre bebidas, música e mulheres
Dá-se sentido à vida nos prazeres,
Certo que tanta zoeira não tem fim.

Em poucos anos mais ele jubila,
Deixando essa vidinha tão tranquila
Já sem saber sequer se bom ou ruim.

Betim - 12 01 2018
351

A QUEM É D'AQUÉM-MAR

A QUEM é D'AQUéM-MAR

Se escrevo como escrevo é que não devo
Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além.
Escrevo como quero e me convém
Na herdade do vernáculo por coevo.

Se a tais lusitanismos eu me atrevo
é porque mais me aprazem e soam bem.
De facto, minha escrita sempre tem
Um quê de meio arcaico ou de longevo.

Pois escritas assim d'esta maneira
As coisas me mantêm a verdadeira
Maravilha que tenho quando as leio.

Certo que, se a estranheza se lhe venha,
O leitor que a tiver também me tenha,
Mas com mais fantasia de permeio.

Belo Horizonte - 20 12 2017
465

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!