O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
185
O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
166
INDECÊNCIAS
Mais promete a beleza da mulher Quando faz recordar doces prazeres, Mostrando os ombros nus entre afazeres Para acender-me os olhos de querer.
Parece em me atentar mais s’entreter, Certa de ter em mim novos lazeres. Na ânsia de devorar-me sem talheres, Chega perto demais por m’envolver:
Encosta no seu colo a minha face De modo que ao virar-me (se eu ousasse…!) Teria já meus lábios no seu sexo…
E depois de entreabrir o seu decote, Chegaria fungando em meu cangote Para me balbuciar coisas sem nexo…
Belo Horizonte - 13 08 1999
208
NARCOLÉPTICO
O dia passa como se enevoado Co'os olhos entreabertos, salvo engano. N'um desarranjo de ciclo circadiano, Caminho de mim mesmo alienado.
Atravesso o expediente anestesiado, Visto incomunicável n'outro plano. Em pleno abandono do quotidiano, Arrasto-me de espírito alquebrado.
Cochilo entre vozes dissonantes A discutir assuntos importantes, Enquanto eu me congraço em evadir.
Fantasma pelo mundo material, Pareço errar em busca d'um final À minha nulidade de existir.
Betim - 18 11 1997
203
ANTEPENÚLTIMO
A cada passo mais perto do fim Caminho inopinado para o nada. De ânsia apenas se fez a minha estrada, Onde nenhuma glória coube a mim.
Parto tão fracassado quanto vim À luz do vasto mundo… Na jornada, Vi o vento apagar cada pegada, Indiferente até se não ou sim.
Mais convém ao idealista a fantasia, Embora a realidade a cada dia Se imponha sobre os sonhos e os desejos.
No fim das contas, tudo é mais do mesmo: Atravessei desertos andando a esmo, A ter de fogos fátuos seus lampejos…
Belo Horizonte- 15 11 2022
212
ESPERANÇOSO
Um pouco antes do dia amanhecer, Cantam os passarinhos ao redor. Tudo parece em paz e até melhor, Renovado ao que quer que venha a ser.
Mais um dia de vida p’ra viver; Mais uma hora vivida para o amor… Enquanto a solidão torna maior A consciência de si em cada ser.
Espero pelo sol que não demora, Embevecido pela rósea aurora Que enche de matizes todo o céu.
E ao concerto fugaz dos passarinhos Eu contemplo os sinais circunvizinhos, Enchendo de impressões outro papel…
Betim - 27 09 2022
18
ORIUNDA
Não tanto os olhos, antes os olhares Contam de sua história e sua origem. Eram fundas miradas de vertigem, Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares E mesmo dos costumes que ‘inda afligem Mulheres que cobertas de fuligem S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia, Quando sustento o olhar para encará-la No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala E se retira certa de que, enfim, Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
367
SUBLIME
Estou triste esta noite, muito triste. Tanto, que até capaz de fazer versos… De modo geral, eu entre eus dispersos Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste Em fazer eu me outrar por eus diversos. Eu sou um deus que ao criar seus universos Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime Na noite ecoa vozes sacrossantas, Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas, Exijo um verso meu que legitime, Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
197
NÃO TITUBEEI
Em face das falácias dos obtusos,
Não deixei de falar o que pensava.
Fosse correto ou não, não me negava
A questionar conceitos por confusos.
Jamais me conformei com certos usos,
Tampouco dava amém a quem pregava
Mudar a manter tudo como estava
Na má-fé de historiar em parafusos…
Denuncio a maldade do bonzinho
Assim como a inverdade do bisonho,
Ambos a sofismar pelo caminho.
Porém, livre é todo homem em seu sonho:
Ainda que ao deserto ande sozinho,
Quem anda pelas sombras vai tristonho.
Betim - 10 08 2022
24
MUSSELINA
Através das florestas de amplos vales, Onde reinavam tigres colossais, Cultivam entre lírios algodoais De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis, Tecida a bem vestir às Casas Reais Com transparências leves e sensuais D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não. Mas todas buscam ter no coração O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio Em face d’um herdeiro cujo anseio Faísca em peito frio o ardor de amar!