A vida é movimento continuado Do ser entre se almar e desalmar. Por pena ou humanidade, há-que encontrar Algum discernimento mais confiado.
O mundo fez de mim um desalmado No dia em que cessei de me importar E a esperança deixou de ter lugar Dentro do coração amargurado.
Com efeito, parece que minh'alma Perdera-se-me e bem com ela a calma Que tinha no semblante quando moço.
E o pouco ou quase nada que hoje sinto Só lembra do que tanto me ressinto, E tem me feito mais e mais insosso...
Betim - 19 12 2017
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NA REBORDOSA
Mal acordo e começa a girar tudo... Olhos cerrados contra o sol brilhando, Enquanto latejava quando em quando Minha cabeça a cada espasmo agudo.
No espelho, muito pálido e barbudo, Eu miro e me remiro; ando e desando. E então, suando frio e vomitando, De noitadas assim me desiludo.
Eu tento me lembrar d'algo que fiz Na esperança que um pouco mais feliz Atravessara a insana bebedeira.
Mas não guardei sequer um só momento, Pois, em plena alegria, o esquecimento: Eis a manhã seguinte à noite inteira!...
São Paulo - 10 07 2018
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SEJE!
Abundante esse verbo do meu ser Que, imperativo, do sê até o seje Por entre tantos seres se deseje Até se outrar no tu que se quiser.
Um vir a ser de mim por melhor ver: -- "Seje!" -- Para que alcance quanto almeje Ainda que a galera me apedreje Por simplesmente não me compreender.
Porque a língua está viva e se reinventa Na fala d'essa gente que a bem fala E na escrita que a bem ouvir se cala.
Ser trezentos, trezentos e cinquenta... Quando mais e mais almas me consomem, Mais eu saiba dizer a mim: -- "Seje, homem!..."
Contagem - 16 08 2018
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À NOITE
Escureceu e apenas vagalumes Luzindo aqui e ali pelo caminho... Nos longes, relampeava bem clarinho Instantâneos de serras e seus cumes.
Em concerto ritmado nos friúmes Solfejos que nas sombras adivinho: Dois sapos coachando e um passarinho Responde assoberbado de ciúmes...
Nem lua nem estrelas vêm brilhar Tão carregado o céu de nuvens grossas Pouco antes d'um dilúvio desabar.
Libélulas chapinham pelas poças E as corujas azulam do lugar Co'a chuva que abençoa nossas roças.
Pará de Minas - 26 12 2017
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ENTANTO
Pretendo todo o tempo andar atento, Mas quanto mais eu tento mais me atenta: A distância à lembrança só aumenta, Conquanto nada esteja ora a contento.
Entanto, mesmo sem qualquer intento Sempre e sempre o passado se apresenta... E com ele quanto ele representa De novo em pensamento e sentimento..
Assim, para esquecer um grande amor, Que se faz presente por saudade e dor É preciso fingir que não me importe.
Amar, quando o passado é tão presente Seja algo em todo caso diferente, Não minha costumaz falta de sorte...
Belo Horizonte - 03 05 1993
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EM LARGA MEDIDA
EM LARGA MEDIDA
Duvido porque penso, não por cético. Há-que se questionar tudo que é posto Para, ao invés d'escolher algo por gosto, Poder diferir o ético do antiético.
Mesmo a par dos limites do estro poético, Alinho o desejado co'o suposto. De modo que o ignorado por fim arrosto, Com risco d'após ser quase patético...
O metro com que meço todo o mundo Serve, desde o mais raso ao mais profundo, De medida na frase ao fim rimada.
Em todo o caso, escrevo por pioneiro. Pois é Poesia a busca entusiasmada, Senão da verdade; do verdadeiro.
Betim - 17 12 2017
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ASSENTAMENTO
Era roça, mas tinha ardor de luta. Não era terra herdada, era conquista. Pois não fora comprada a prazo ou a vista, Ao que a sua valia era absoluta.
Por nada nem ninguém se lhe permuta Esta terra a seus olhos tão bem-quista, Retomada d'algum monopolista, Visto que improdutiva e devoluta...
Cabanas e roçados dão a posse Aos homens e mulheres assentados N'um chão regado à lágrima agridoce.
Mas sonhos pelos campos veem semeados. E, prontos a enfrentar quem quer que fosse, Verdejam os terrenos ocupados.
Pará de Minas - 26 12 2017
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A APARÊNCIA DAS COISAS
é sempre sobre um tipo de pessoas: As mais belas e ricas que as normais... Vivendo vidas tão excepcionais Que os outros consideram muito boas.
Reis -- embora de insólitas coroas -- São, senão mesmo reis, ao menos reais Por se sentirem assim especiais No afã de merecer mais e mais loas...
Mas eu, precocemente envelhecido, Não serei mais o poeta desvalido A cantar as douradas excelências.
Não. Antes cantar suas misérias Enquanto garatujo as frontes sérias, Levando mais verdade às consciências.
Betim - 07 07 2015
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A BORDO
A barca que me leva para as ilhas Sulca as ondas d'um mar esmeraldino. D'olhos arregalados me amenino, Navegante entre sais e maravilhas...
Carreira dos Açores às Antilhas Onde poentes segredam-me o destino! Alma atlântica posta em desatino Após atravessar milhas e milhas.
Desperto em meio à névoa matutina Na qual mui lentamente em derredor A imensidão além se descortina.
Ali, envolto todo em pleno albor, O mundo evanescente na retina À voz que vem de dentro faz maior.
Peruíbe - 10 07 2018
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A MÃO ARMADA
-- "Estúpido! Facínora!! Assassino!!!" -- Berrava, d'além-túmulo, o coitado Pelas mãos d'um outro assassinado Após um entrevero vespertino. Reteve-lhe tão-só o olhar malino Ao baque do projétil disparado: Seu corpo sobre o chão atravessado Morria como se obra do Destino... Espírito, porém, evocava às Fúrias, Rogando maldições, pragas e injúrias Àquele que lhe dera voz de assalto. Porque, pior que a morte, era a ilusão De ser ouvido em face da visão De si mesmo estirado pelo asfalto... Betim - 13 08 2018