Era uma mulher do lar; D'aquelas para casar E que se quer sempre sua. Que sabe bem seu lugar, Pois, tem recato no andar Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome E um desejo que a consome Desde que bem pequenina: Senhora sem sobrenome, De ser alguém tinha fome Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz, Tendo tudo o que quis Porque sempre do seu lado. Por fim, para todos diz: -- "A minha sorte eu que fiz, Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes, Ei-la sem sedas e suedes Em face d'ele despida. E cheia de fomes e sedes, Tal como sereia nas redes Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama, Mas uma puta na cama, Tendo-se melhor mulher, Do que quem no mundo puta E na cama só computa O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa, Era bem da natureza Do seu noivo, de primeiro, Na mais pura safadeza Após deixar a princesa, Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena A alguma vaga morena As visitas do seu amor... Que sentiam até pena Da noiva que ele apequena Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz, Dando-se como lhe apraz E quando se lhe convém. Vivia lhe andando atrás... Mas, tanto fez; tanto faz: Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" -- Diziam cidade afora -- "As outras, só vêm e vão..." D'ele mais s'enamora Havendo em conta que mora Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia, Quem se deu tal ousadia Mal s'engana de que a engana. Há-de vê-la, todavia, Desfilando fidalguia: -- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
422
ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante Tão claramente enxerga o mundo todo, Que pouco ou nada toca de seu lodo, Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante -- Lhe alimenta os instintos, sobremodo Quando sabe vender algum engodo, Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene Traduz-se na indecência tão solene Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro, Tão claramente enxerga o mundo inteiro, Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
451
BRAVÍSSIMO!
Queres aplausos? Não os tenho. A árvore de louros secou... Escreves tu com arte e engenho Poemas que o século ignorou.
Poeta, o teu século passou! Baldo é poetar com tanto empenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.
Poeta, o teu século desdenho: Ouro de tolo, enferrujou... Baldo é poetar assim ferrenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.
Das entranhas lhe vem estranha fome Que lhe consome toda a sua carne. Frêmitos de sentir-se à flor da pele Lhe agitam os desvãos da vaga mente Ao perceber-se entregue ao próprio toque, N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma Têm no êxtase o saciar d'aquela fome Certa de que, no corpo, o ser se toque. Assim, a aura que envolve a nua carne Revele-lhe os recônditos da mente Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele E, entorpecida, saía de si mesma No alheamento de quanto tinha em mente. Autófaga, de si sentia fome... Era o saciar da carne pela carne Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque Que lhe provoque ardor em toda a pele E lhe revele a si apenas carne... Não obstante, perceba-se ela mesma Como fome de si a sua fome A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente Sua explosão de si àquele toque; D'ela trazer consigo tanta fome. Incerta se de mente ou se de pele, Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne, -- O que for: seja pele; seja mente -- Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
428
NAS NUVENS
Tenho elevado versos às alturas Sem desejar senão frases honestas, E responder angústias tais como estas Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas, Não cuido se poesias imodestas Em árvores de arquivos ou florestas Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha Sempre a se acumular na escrivaninha Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos E os lê com prazer porque bonitos... Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018
348
DOIS EFEBOS
Nus, têm pele de mármore polido E cabelos em cachos sobre os ombros. Por entre colunas jônicas, escombros Do templo de Apolo, o esclarecido.
Eternamente púberes, ao Olvido Ignoram em seus amores sem assombos. Enquanto sob as árvores, ressombros Filtram os raios d'um sol enternecido.
Mal se tocando as faces, abraçados... Como se a vislumbrar d'olhos fechados A expressão de gozo em seu amante.
Dois efebos sorrindo frente a frente Onde lograsse a pedra simplesmente Reter-lhes a beleza d'esse instante.
Betim - 29 03 2018
393
CARÍCIAS (vilanela)
Amemo-nos sem pressa, suavemente, Ainda que a cidade a todo instante Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente: Tudo há-de acontecer ao teu talante... Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente, À espera que o prazer no peito arfante Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente O rosto aberto em gozo d'uma amante: Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente, Teu corpo no meu corpo d'oravante Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... -- Se faça com mil sons sempre presente Até que em nós o gozo se agigante!... Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
425
EM FALSO (décimas)
Há quem se faça de bobo, Fingindo-se o que não é. Cordeiro em pele de lobo, Deseja a fama de probo Como se digno de fé. Mas, demasiado pedante, Fala do que não entende. Mais do que é se pretende, Visto o seu ego gigante Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro, Aplaude a ser aplaudido. Lobo em pele de cordeiro, Nas letras busca dinheiro E um nome a fugir d'Olvido. Sem embargo, é infeliz Em tudo aquilo que escreve: Frases de incerto cariz Mal dissimulam as vis Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura Já se dando liberdade: -- "A mim parece loucura Tua intrigante figura Dizendo não ter vaidade..." Sabendo-o querer barulho A ele, respondo sem dó: -- "Deveras, muito me orgulho... Da minha falta de orgulho Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais, Outros, por querer de menos..." Argumenta em tons desleais No afã de parecer mais Face a meus olhos serenos. De repente, ele s'exalta E me aponta os senões todos, Restando-me a fala incauta: -- "Antes ter orgulho em falta Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta Sem m'entender patavina. Volta para a sua casta, Cujo aplauso bem lhe basta. Enquanto mais se amofina: Talvez sob monge descalço Outro impostor se revele De pé sobre o cadafalso!... Quem a seguir cai em falso, Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
419
EM SÉPIA
Atravessava o largo sob garoa Abrigado de chapéu e sobretudo. Quando, entre surpreendido e mudo, Em sépia figurou sua pessoa.
Sim, um clarão vermelho lhe destoa O reflexo dos óculos. Contudo, Causava espécie o rosto 'inda desnudo Onde um jovem artista se apregoa.
Registo d'um momento interrompido, Apenas d'entretons foi colorido Na exposição do filme àquela luz.
Mas a imagem fixada mais provoca Pelo monocromático que evoca Bela época a que dândis fazem jus.
Betim - 06 04 2018
437
ASSOMBRAÇÃO
Não andes pela estrada da ribeira, A mesma que vai dar no mangueiral. Além d'aquela curva, o bem e o mal Têm para si uma última fronteira.
Jamais vá por ali sem companheira, Tampouco adentre ao sítio seu portal: N'ele vaga alguma alma tal e qual A que nos vela a noite derradeira...
Apressa-te ao passares sob o luar, Senão na encruzilhada a atravessar O medo te domina com sua arte.
Pois muito pior que a morte, este terror Te livra de armadilhas d'opressor Que ronda ao teu redor por devorar-te!