Amemo-nos sem pressa, suavemente, Ainda que a cidade a todo instante Se faça com mil sons sempre presente.
Olhemo-nos nos olhos, frente a frente: Tudo há-de acontecer ao teu talante... Amemo-nos sem pressa, suavemente.
Busquemos o sorriso mais contente, À espera que o prazer no peito arfante Se faça com mil sons sempre presente.
Porque doce é o amor quando se sente O rosto aberto em gozo d'uma amante: Amemo-nos sem pressa, suavemente...
E, alheados do que tínhamos em mente, Teu corpo no meu corpo d'oravante Se faça com mil sons sempre presente.
Assim talvez o amor -- tão inconstante... -- Se faça com mil sons sempre presente Até que em nós o gozo se agigante!... Amemo-nos sem pressa, suavemente...
Belo Horizonte - 10 04 2018
423
A BANHAR
O bulício das águas contra as lajes Ao descer os degraus da corredeira... Aonde eu te levei por companheira A nos havermos sem pejo nem trajes.
Não importa por onde ou com quem viajes, Jamais encontrarás igual ribeira! Tampouco te verás, aventureira, Tão mais longe dos vis e seus ultrajes... Onde toda a nudez jaz inocente E mulher e homem são naturalmente Dois bichos a banhar-se em pleno cio. Guarda no coração aquela tarde, Cujo recordo ainda em desejo arde Meu corpo sob as águas d'esse rio. Santana do Riacho - 12 10 2012
510
BRAVÍSSIMO!
Queres aplausos? Não os tenho. A árvore de louros secou... Escreves tu com arte e engenho Poemas que o século ignorou.
Poeta, o teu século passou! Baldo é poetar com tanto empenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.
Poeta, o teu século desdenho: Ouro de tolo, enferrujou... Baldo é poetar assim ferrenho: A árvore de louros secou... Queres aplausos? Não os tenho.
Das entranhas lhe vem estranha fome Que lhe consome toda a sua carne. Frêmitos de sentir-se à flor da pele Lhe agitam os desvãos da vaga mente Ao perceber-se entregue ao próprio toque, N'uma exploração húmida em si mesma.
Os dedos que percorrem a alma mesma Têm no êxtase o saciar d'aquela fome Certa de que, no corpo, o ser se toque. Assim, a aura que envolve a nua carne Revele-lhe os recônditos da mente Em seu dedilhar de harpas pela pele.
Exsude todo o ser por sobre a pele E, entorpecida, saía de si mesma No alheamento de quanto tinha em mente. Autófaga, de si sentia fome... Era o saciar da carne pela carne Ao s'entreter consigo em suave toque.
Das entranhas se vê estranha ao toque Que lhe provoque ardor em toda a pele E lhe revele a si apenas carne... Não obstante, perceba-se ela mesma Como fome de si a sua fome A ponto de absorver de todo a mente.
Incerta se de pele ou se de mente Sua explosão de si àquele toque; D'ela trazer consigo tanta fome. Incerta se de mente ou se de pele, Resta-lhe conhecer-se ora a si mesma No afã de se sentir na própria carne!...
Entenda-se na fome em sua carne, -- O que for: seja pele; seja mente -- Ser ela toda ao toque d'ela mesma.
Betim - 13 04 2018
427
DON'ANA (sextilhas)
Era uma mulher do lar; D'aquelas para casar E que se quer sempre sua. Que sabe bem seu lugar, Pois, tem recato no andar Quando passa pela rua.
"Don'Ana" tinha por nome E um desejo que a consome Desde que bem pequenina: Senhora sem sobrenome, De ser alguém tinha fome Pois para tal se destina.
Noiva, era muito feliz, Tendo tudo o que quis Porque sempre do seu lado. Por fim, para todos diz: -- "A minha sorte eu que fiz, Depois de tê-lo encontrado..."
Sim, entre quatro paredes, Ei-la sem sedas e suedes Em face d'ele despida. E cheia de fomes e sedes, Tal como sereia nas redes Deixava-se ser possuída.
Era no mundo uma dama, Mas uma puta na cama, Tendo-se melhor mulher, Do que quem no mundo puta E na cama só computa O quanto ou quando querer.
Mas, para sua surpresa, Era bem da natureza Do seu noivo, de primeiro, Na mais pura safadeza Após deixar a princesa, Ir pernoitar no puteiro:
Contam à boca pequena A alguma vaga morena As visitas do seu amor... Que sentiam até pena Da noiva que ele apequena Por não se lhe dar valor.
Que não o deixava em paz, Dando-se como lhe apraz E quando se lhe convém. Vivia lhe andando atrás... Mas, tanto fez; tanto faz: Logo há-de passar também.
-- "Don'Ana é quem é Senhora!" -- Diziam cidade afora -- "As outras, só vêm e vão..." D'ele mais s'enamora Havendo em conta que mora Dentro do seu coração.
E, mais dia, menos dia, Quem se deu tal ousadia Mal s'engana de que a engana. Há-de vê-la, todavia, Desfilando fidalguia: -- "É aquela que é Don'Ana!"
Belo Horizonte - 10 04 2018
420
ASSOMBRAÇÃO
Não andes pela estrada da ribeira, A mesma que vai dar no mangueiral. Além d'aquela curva, o bem e o mal Têm para si uma última fronteira.
Jamais vá por ali sem companheira, Tampouco adentre ao sítio seu portal: N'ele vaga alguma alma tal e qual A que nos vela a noite derradeira...
Apressa-te ao passares sob o luar, Senão na encruzilhada a atravessar O medo te domina com sua arte.
Pois muito pior que a morte, este terror Te livra de armadilhas d'opressor Que ronda ao teu redor por devorar-te!
Betim - 29 03 2018
396
VESTÍGIOS
'Inda devem haver restos de nós Espalhados por esta residência. Onde vestígios já d'outra existência Debaixo de tudo quanto veio após...
Mas mais vazio há dentro quando sós A saudade nos preenche toda a ausência. Como quando uma luz na transparência Revela em suspensão nuvens de pós.
Eu sem querer t'encontro de repente E o passado fazendo-se presente Me traz o teu sorriso uma outra vez.
E me pego sorrindo aqui também Com meu olhar perdido para o além A imaginar que tu longe me vês...
Betim - 02 01 2017
444
NAS NUVENS
Tenho elevado versos às alturas Sem desejar senão frases honestas, E responder angústias tais como estas Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas, Não cuido se poesias imodestas Em árvores de arquivos ou florestas Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha Sempre a se acumular na escrivaninha Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos E os lê com prazer porque bonitos... Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018
346
EM FALSO (décimas)
Há quem se faça de bobo, Fingindo-se o que não é. Cordeiro em pele de lobo, Deseja a fama de probo Como se digno de fé. Mas, demasiado pedante, Fala do que não entende. Mais do que é se pretende, Visto o seu ego gigante Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro, Aplaude a ser aplaudido. Lobo em pele de cordeiro, Nas letras busca dinheiro E um nome a fugir d'Olvido. Sem embargo, é infeliz Em tudo aquilo que escreve: Frases de incerto cariz Mal dissimulam as vis Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura Já se dando liberdade: -- "A mim parece loucura Tua intrigante figura Dizendo não ter vaidade..." Sabendo-o querer barulho A ele, respondo sem dó: -- "Deveras, muito me orgulho... Da minha falta de orgulho Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais, Outros, por querer de menos..." Argumenta em tons desleais No afã de parecer mais Face a meus olhos serenos. De repente, ele s'exalta E me aponta os senões todos, Restando-me a fala incauta: -- "Antes ter orgulho em falta Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta Sem m'entender patavina. Volta para a sua casta, Cujo aplauso bem lhe basta. Enquanto mais se amofina: Talvez sob monge descalço Outro impostor se revele De pé sobre o cadafalso!... Quem a seguir cai em falso, Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
418
AQUELA MOÇA
Quem era aquela moça que beijei No sonho que sonhei em pleno dia? Desconheço-lhe tudo, mas sabia Ser ela alguém que ainda encontrarei.
Como posso lembrar do que não sei? Como não pode haver quem só eu via? Em meus lábios seus lábios eu sentia N'outro tempo insubmisso a qualquer lei:
Sem passado ou futuro no presente, Súbito amor alhures se pressente, Pois presença na ausência presumida.
Ela... Jamais a vi e nunca esqueço! Reencontro aquela qu'eu tão-só conheço Do sonho que sonhei por toda a vida...