CIHUACÓATL - a mulher chorona introito I Quem foi, depois de ser tantas, A mais triste das mulheres?... Aquela a chorar quereres, Vagando nas noites santas Face a dores e prazeres.
II Deusa de imensos poderes, Servira aos Astecas na guerra. Hoje, está presa a essa terra Sem mais outros afazeres, Senão ser aquela que erra.
III Ela, a Chorona, que aterra Os sós em noite de lua E sobre as águas flutua: Espectro que alhures berra As dores da culpa sua...
IV Quem em prantos continua Sempre a vagar cerca às águas Onde se repete as mágoas Que leva após pela rua Aos sobrados e meias-águas
V D'alvos véus, saias e anáguas, A atravessar toda a vila... Que nas desoras, tranquila, Contrastava com as fráguas De seu olhar que cintila.
VI Gravada em minha pupila Feito uma fotografia: Defronte à matriz sombria, Enquanto no adro desfila Em meio à noite vazia.
VII Já sem descanso ou alegria, Anda a clamar pelos filhos E a murmurar estribilhos De cantigas que se ouvia Entre bardos andarilhos.
VIII Segue sem mais empecilhos Alhures a lamentar Até com algum topar E, refulgente de brilhos, Mais ess'outro assombrar.
IX Deveras n'esse lugar, Onde Deus é tão benquisto, Muitos ainda a têm visto Chorosa a Chorona a andar Sem jamais pôr termo n'isto... a chorona do lago X "Quem será esta que avisto, Por sobre as águas do lago!?" -- "Quem vem lá?" -- eu mais indago. -- "Quem lá vem?" - ainda insisto. "És ser d'outro mundo ou mago?!"
XI Só o vento, frio e pressago, Ora à minha voz responde. Na noite escura s'esconde Aquele ser tão aziago Vindo não se sabe d'onde.
XII -- "Mais às profundezas sonde À procura da verdade!" - Berrava para a entidade Ainda que a mesma estronde Sismos fendendo a cidade.
XIII Nas ondas, a claridade Se aproximou lentamente. Mas, incertos se alma ou gente, Fomos em comunidade Co'os sacerdotes na frente:
XIV O mais velho simplesmente Calou-se contemplativo. Ainda que sem motivo Ou outra razão aparente De tão súbito emotivo:
XV -- "É Cihuacóatl! Eu vivo A escutar de nosso fim..." - De facto, irrompe ela assim Clamar do povo cativo Ao soar d'estranho clarim:
XVI -- "Ai, meus filhos! Ai de mim! Aonde os levarei, de resto, Por de destino tão funesto Poderem fugir enfim? Só a lamentos me presto!..."
XVII E abria os braços n'um gesto Que abarcava toda a vila... Triste visão à pupila, Clamando em seu só protesto Desde a lagoa tranquila.
XVIII Nas águas o luar cintila E o vento frio do Norte Envolvente, agudo e forte, Sobre as campinas siliba Augúrios de dor e morte.
XIX Advertidos da má sorte, Antes que o mal se consuma Fomos ter com Montezuma, Anunciar em sua corte As profecias, uma a uma:
XX -- "Alteza, como costuma A deusa ao povo falar, Cihuacóatl a prantear É vista em meio à bruma Vossa desgraça anunciar."
XXI "Conta que vêm pelo mar Gentes mais sábias e antigas, Que muito embora inimigas Com poucos irão triunfar Quer com finezas; quer brigas."
XXII "Vossas alianças e ligas Que haveis na paz e na guerra -- A expandir do mar à serra Com glórias e com fadigas A ordem dos céus sobre a terra" -
XXIII "Caem sob a treva que aterra Os homens em confusão E os faz perdidos em vão: Sois império que s'encerra Na mais plena escuridão!..."
XXIV "Por tal, reporto a visão De sacerdotes e povo Que têm, de novo e de novo, Visto da deusa o clarão N'estes versos que vos trovo." os oito sinais XXV "Se este clamor vos renovo É por recordar sinais Que vos encadeiam finais. Se em face de vós me comovo É por sabê-los mortais:"
XXVI "À deusa com os seus ais Mais outros sete presságios Vêm se somar feito estágios De moléstias terminais Ou de sinistros naufrágios..."
XXVII "Ou tal contam os adágios: "'Nada há tão ruim que não piore.'"... Mas, antes que algo melhore, O invasor busca apanágios, Ainda que nos explore!"
XXVIII "Primeiro, não se apavore Quem vir cair uma estrela Em pleno dia e, após ela, Qual sarça de fogo core O céu da noite singela!..."
XXIX "Depois, em meio à procela Chamas altas eu contemplo A consumir todo o templo Onde um deus se revela Nosso antepassado exemplo!"
XXX "E ainda, qual contraexemplo, Dois relâmpagos seguidos Explodem incandescidos Sobre o jardim do antetemplo De Tzonmolco e mil feridos!"
XXXI "Por mais e mais desvalidos Inunda-se Anáhuac, o vale... Das alturas da Huey teocale Tenochtitlã vê perdidos Os prédios de quanto se vale."
XXXII "Passados males seguidos, Eis que caminhando às pressas Homens de muitas cabeças De mundos desconhecidos Em meio a trevas espessas!..."
XXXIII "Por fim, cumprindo as promessas Da volta de nosso deus Trazem rara ave os plebeus A ver nas íris possessas Soldados nos olhos seus."
XXXIV "Montezuma, semideus E grão-senhor dos Astecas! Após quatro anos de secas, Eis diante dos olhos meus A deusa-mãe dos Toltecas..."
XXXV "Por entre agaves e arecas Andando junto a junquilhos Antevê tolos rastilhos Nos quais as hordas carecas São mortas feito novilhos."
XXXVI "E assim, coberta de brilhos, Vinha chorando lamúrias. Augúrios de tais penúrias Os massacres de seus filhos Ecoam pelas centúrias"... a filicida XXXVII -- "Quem é essa cujas fúrias Fizeram-na desgraçar?!? Como ousa uma mãe matar Filhos de suas luxúrias E seus amores sem par?..."
XXXVIII "Quem crianças fez afogar Para horror de seu amante!? -- Mas agora, a todo instante, Mira e remira o lugar Tendo-se os meninos diante.
XXXIX E desde então vaga errante Sempre a chorar, de sorte Que até se lhe nega a Morte De pôr-lhe termo consoante À maldição do ex-consorte.
XL Muito embora desconforte Seu choro a quem longe a vê, Logo lhe nega mercê Ao sabê-la por seu porte Alma, não gente que crê...
XLI O mal por paga se dê Este mal pior, pois, eterno! Falta do zelo materno, Fez o que nenhum porquê Responde senão no inferno.
XLII Porém, no mundo moderno Ainda a veem caminhando Pelas noites, quando em quando, Em meio às nevoas do inverno Chorosa e chorona errando. mulheres da meia-noite XLIII Pelos lugares onde ando Escuto histórias como estas De mulheres tão molestas Pela escuridão penando Por suas acções funestas.
XLIV Com semelhanças honestas Às famosas mexicanas, Lendas sul-americanas Também recordam modestas As tristes almas mundanas.
XLV Embora pareçam humanas, Há tempos elas não são... E alhures vagando em vão Espalham, belas e insanas, Murmúrios na escuridão.
XLVI Têm em comum a ilusão De repararem malfeitos Ao aterrorizar sujeitos Que encontram na escuridão E logo lhe estão afeitos.
XLVII Visto a princípio insuspeitos Seus olhos na noite escura, Aproximam-se à procura De serem por ela aceitos Face à tão bela figura.
XLVIII Têm uma certa finura De suaves gestos e falas Enquanto lh'enchem de galas E exaltam-lhe a formosura, Coçando-se as barbas ralas...
XLVII E ela, tentando tocá-las, Não dão senão arrepios Visto d'ela os dedos frios Lhe traem as mãos ao mostrá-las Pálidas a homens vadios.
XLVIII Estes percebem sombrios Os olhos d'aquela bela, Passando a ter junto d'ela Pasmos um tanto tardios Tal repulsa lhes revela.
XLIX -- "Mas que mulher era aquela?"... -- Dizem consigo ao partir Ainda sem descobrir Qual plano que teria ela Quando o parou a sorrir. a loura do bonfim L Em Minas costuma-se ouvir Da loura que ao sem-abrigo Leva, amorosa, consigo Para o seu lar sem porvir Que é o seu frio jazigo!...
LI Sim, esta de que algo digo Reside n'um cemitério... Buscando a si refrigério, Seduz quem se acha a perigo De cometer um adultério.
LII Envolta em alvo mistério Cerca o rapaz linda e loura. Enquanto a coruja agoura, Lhe invita a falar a sério Antes d'aurora vindoura.
LIII Ela o coitado desdoura De admirar seu triste fim. E, manso, o encaminha enfim Qual rés furtada à lavoura Por ardiloso festim.
LIV Chorando, diz: "Ai de mim!!" E tão-logo o carro estaca Rápido o passa na faca!... "Cemitério do Bonfim" Estava escrito na placa!
LV Amanhã, no edifício Acaiaca, Pouco antes que o sol desponte, A ver o céu traz-do monte Que à serrania destaca A bela Belo Horizonte.
LVI A loura outra vez nos conte Sua história passional Estampada no jornal: "Dama do Bonfim na fronte Esfaqueia um marginal."
LVII Desgraçada tal-e-qual, Sabe viver seu papel: Morta sem amor e anel, Vagará espiritual Sem nunca chegar ao céu.
LVIII Andando de déu em déu Toda noite se renova Repetindo a sua trova: Dos altos do arranha-céu Até as funduras da cova!
LIX Mas quem de seus beijos prova Há-de viver assombrado Ferido ou não no costado. Certo de que se comova De à própria morte beijado... a saiona LX -- "Qual o mais terrível Fado D'entre as almas penadas? O da mulher das baixadas Que homens infiéis tem matado Vagando pelas estradas..."
LXI Como as outras desgraçadas Esta também enlouquece Ao ouvir quem mal a conhece Contar do esposo escapadas E grande ciúme padece.
LXII E logo após lhe acontece De homicida se tornar: Filho e esposo faz matar Além da mãe que parece Pouco antes a amaldiçoar:
LXIII -- "Matas quem soube te amar? Maldita sejas: Não morres! D'oravante tu percorres As planuras sem findar Buscando quem te desforres!"
LXIV E, n'isso, do alto das torres Das célebres catedrais Um brilho intenso demais Incandesceu sobre os jorres Das fontes dos mananciais...
LXV Desde então caça os mortais, Belíssima de saião preto A seduzir o incorreto: Quem da regra dos casais Burlando em passeio secreto.
LXVI Se d'esses o país repleto, Nos Llanos de Venezuela, Muito comentam d'aquela Que esmagava feito inseto Quantos bulissem com ela.
LXVII Tão violenta quanto bela Tem para nossos desvelos Negros e longos cabelos E olhos aos que sem cautela Têm sido o pior dos flagelos:
LXVIII Cortantes, são dois cutelos Sua mirada de luta, Que na amorosa disputa Hipnotizam os donzelos N'uma mudez absoluta!...
LXIX -- "Portanto, nem se discuta: Mulherengo d'esta zona, Que com as outras desfruta Reveja a sua conduta Antes que apareça a Saiona! epílogo LXX De volta à vossa poltrona, Eu vos deixo n'este ponto. Pois já, assombrado e tonto, Como alguma beladona M'entorpecesse de pronto...
LXXI Mas vós, leitor que confronto, Apurai vossos ouvidos A perceber os gemidos, Passando conto por conto, Em desespero vividos.
LXXII Buscai ouvir os sofridos Que vagam por esse mundo Para entender quão profundo O pavor dos tempos idos 'Inda nos homens fecundo.
LXXIII Ainda que horrendo e imundo Insisti, haja o que houver, Sobre os abismos do querer. Perguntai, sempre mais fundo: -- "Quem é aquela mulher!?"
Betim - 13 01 2017
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A MARIPOSA
A MARIPOSA
Atravessa comigo a noite em claro, Voando ao redor da luz da escrivaninha. Vez ou outra rente à pele me acarinha E vai-se sem que faça mais reparo.
Mas pousa no retrato do preclaro E -- por que não? -- errático poetinha!... De modo que elegante se sustinha Por sobre um rosto a mim sempre tão caro.
Atravessa comigo a noite escura A panejar sua asa adamascada Que bem na calva d'ele ora figura.
Registro que, poesia sublimada, A mariposa em sua desventura Deu vida àquela face iluminada.
Betim - 09 05 1995
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À PROENÇAL
À PROENÇAL
Dormi, ó bela, em torres de marfim, Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada... Ei-vos o corpo estátua inacabada, Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim, Sim por vós -- quintessência decantada -- Onde as virtudes todas têm morada, Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto. Pois, embora a poesia amor mundano, A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano... Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!! E eu tão-só os ouvidos vos profano...
Betim - 02 10 1998
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CONHECENÇA
Mas como é bom rever a ponta aguda Depois de navegar por mar aberto!... Saber-me do canal de novo perto, Onde aos olhos cada angra se desnuda.
Pelos costões de pedra ir sem ajuda Até topar co'o cabo indescoberto. E em todo o litoral quase deserto, Reconhecer mesmo a ilha mais miúda.
Dos rasos de arrecifes e de abrolhos Passei ao largo pondo longos olhos Para avistar enfim a extensa costa.
Agora é só fundear a embarcação No estuário d'água doce d'um rincão Onde coisa nenhuma me desgosta.
Ubatuba - 16 07 2017
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CONCORDES
CONCORDES De acordo co'os acordes que te fiz, Eu te acordo co'as cordas do violão E te acovardo a dor do coração N'um canto em cujo encanto és feliz. Incorporado o ritmo, um aprendiz Eu me faço no compasso da canção. E, passo a passo, passo-te a emoção Tão certo quanto bem te quero e quis. De cor o acorde, pois, te acode e acorda Quando, a poesia e a música concordes, Se veem canção que bem o amor aborda. Talvez assim de mim tu te recordes Enquanto meu amor por ti transborda: Na harmonia de versos, mais acordes... Betim - 09 08 1993
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D'ORAVANTE
D'ORAVANTE Não mais ser um refém de meus problemas! Mas, no que depender de mim então, Poete eu a minha humana condição E não outra engrenagem nos sistemas... Para valer a pena escrever poemas Carece mais ter dúvidas à mão, Que sempre para tudo solução Na vida e seus inúmeros dilemas. D'oravante serei calmo, não frio Ciente de que a verdade, na verdade Se revela n'algum canto sombrio. E ainda que não seja novidade, -- Ao contrário, p'ra mim até tardio -- Saiba eu ver tudo com serenidade. Betim - 30 12 2017
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CORAÇÃO MAGOADO
CORAÇÃO MAGOADO
Tu, com tão estudada displicência, Soubeste d'algum modo me atingir: Sinto-te triste só em te sentir, Apesar dos sorrisos de aparência.
As máscaras que ostentas com frequência -- Não sei se por mentir ou se omitir (Às vezes é difícil distinguir...) -- Dizem muito do ardor de tua urgência.
Fingir-te sensações sem desejá-las Tornam mais fantasiosas estas falas, Que repetes qual texto decorado...
Em todo caso, admiro-te ora a atriz Atenta em parecer sempre feliz Embora um coração já tão magoado.
Belo Horizonte - 19 06 1996
925
ENLUARADA
ENLUARADA
Uma mulher me veio em meio ao sonho: Dizia que me amava, mas partia. E eu, pasmo n'uma estúpida apatia, Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho Recordando a imagem que fugia: O porte senhoril, a face esguia... Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma. Sequer podia haver d'algo nomeado: É todas as mulheres e nenhuma. Era ela um recordar, porém, sonhado; Alguém que a minha mente desarruma... A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
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À DERIVA
Perdidos já o leme e a vela, corro Os olhos pelo oceano a ver o abismo Onde aprecio em meio ao cataclismo Lindas sereias cantando enquanto morro.
Vem tão-só um petrel em meu socorro E pouco pôde diante do que cismo A tempestade é um vão paroxismo Meu ao Universo sob olhar pachorro.
Não tenho muito tempo: Já a quilha Deixará de sulcar às ondas altas, Que se elevaram contra as minhas faltas.
Castigo ou não, resta a maravilha De saber quanto pode o amor, por sorte Em me levar, certeiro, até a morte.
Betim - 15 12 2015
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À MEIA LUZ
Cheirava a almiscarado e cigarrilha. Interessante, mas... Assim-assim... Não sei que se dirá ela de mim Ou d'esse luar que, pleno, maravilha.
Vê-la tagarelar bem peralvilha, Convenceu-me não ser de todo ruim Deixar-me elanguescer, ainda e enfim, Se, a despeito de nós, a lua brilha.
Fosse como fosse, era noite clara. Pude notar-lhe ao rosto uma luz rara, Enquanto o seu perfume me instigava.
Então, tudo era mais belo do que era... Nem soube diferir n'esta quimera Quem, de facto, a mulher que ali estava.