Atravessa comigo a noite em claro, Voando ao redor da luz da escrivaninha. Vez ou outra rente à pele me acarinha E vai-se sem que faça mais reparo.
Mas pousa no retrato do preclaro E -- por que não? -- errático poetinha!... De modo que elegante se sustinha Por sobre um rosto a mim sempre tão caro.
Atravessa comigo a noite escura A panejar sua asa adamascada Que bem na calva d'ele ora figura.
Registro que, poesia sublimada, A mariposa em sua desventura Deu vida àquela face iluminada.
Betim - 09 05 1995
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DAMA-DA-NOITE
DAMA-DA-NOITE
Eu com ela vez ou outra me deparo. Tinha sombras escuras pelos olhos E perfumada ao extremo em santos óleos, Qual morresse d'amor sem meu amparo...
Alheado em seu olhar de brilho raro, Talvez me pegue a andar de antolhos Atrás de si, pois, qual campo de cóleos, A roupa exuberante lhe reparo.
Não sei por onde andou ou o que procura, Quem, insone, me fez sonhar fecundo Diante de seu sorriso de luz pura.
Só sei que me devassa o olhar profundo, Enquanto me entorpece com brandura A nuca mais cheirosa d'este mundo.
Belo Horizonte - 10 12 2005
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CONHECENÇA
Mas como é bom rever a ponta aguda Depois de navegar por mar aberto!... Saber-me do canal de novo perto, Onde aos olhos cada angra se desnuda.
Pelos costões de pedra ir sem ajuda Até topar co'o cabo indescoberto. E em todo o litoral quase deserto, Reconhecer mesmo a ilha mais miúda.
Dos rasos de arrecifes e de abrolhos Passei ao largo pondo longos olhos Para avistar enfim a extensa costa.
Agora é só fundear a embarcação No estuário d'água doce d'um rincão Onde coisa nenhuma me desgosta.
Ubatuba - 16 07 2017
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CORAÇÃO MAGOADO
CORAÇÃO MAGOADO
Tu, com tão estudada displicência, Soubeste d'algum modo me atingir: Sinto-te triste só em te sentir, Apesar dos sorrisos de aparência.
As máscaras que ostentas com frequência -- Não sei se por mentir ou se omitir (Às vezes é difícil distinguir...) -- Dizem muito do ardor de tua urgência.
Fingir-te sensações sem desejá-las Tornam mais fantasiosas estas falas, Que repetes qual texto decorado...
Em todo caso, admiro-te ora a atriz Atenta em parecer sempre feliz Embora um coração já tão magoado.
Belo Horizonte - 19 06 1996
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D'ORAVANTE
D'ORAVANTE Não mais ser um refém de meus problemas! Mas, no que depender de mim então, Poete eu a minha humana condição E não outra engrenagem nos sistemas... Para valer a pena escrever poemas Carece mais ter dúvidas à mão, Que sempre para tudo solução Na vida e seus inúmeros dilemas. D'oravante serei calmo, não frio Ciente de que a verdade, na verdade Se revela n'algum canto sombrio. E ainda que não seja novidade, -- Ao contrário, p'ra mim até tardio -- Saiba eu ver tudo com serenidade. Betim - 30 12 2017
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CONCORDES
CONCORDES De acordo co'os acordes que te fiz, Eu te acordo co'as cordas do violão E te acovardo a dor do coração N'um canto em cujo encanto és feliz. Incorporado o ritmo, um aprendiz Eu me faço no compasso da canção. E, passo a passo, passo-te a emoção Tão certo quanto bem te quero e quis. De cor o acorde, pois, te acode e acorda Quando, a poesia e a música concordes, Se veem canção que bem o amor aborda. Talvez assim de mim tu te recordes Enquanto meu amor por ti transborda: Na harmonia de versos, mais acordes... Betim - 09 08 1993
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ENLUARADA
ENLUARADA
Uma mulher me veio em meio ao sonho: Dizia que me amava, mas partia. E eu, pasmo n'uma estúpida apatia, Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho Recordando a imagem que fugia: O porte senhoril, a face esguia... Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma. Sequer podia haver d'algo nomeado: É todas as mulheres e nenhuma. Era ela um recordar, porém, sonhado; Alguém que a minha mente desarruma... A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
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À PROENÇAL
À PROENÇAL
Dormi, ó bela, em torres de marfim, Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada... Ei-vos o corpo estátua inacabada, Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim, Sim por vós -- quintessência decantada -- Onde as virtudes todas têm morada, Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto. Pois, embora a poesia amor mundano, A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano... Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!! E eu tão-só os ouvidos vos profano...
Betim - 02 10 1998
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A CAVALEIRO
Gritava:--"Aqui-d'el-Rey! Aqui-d'el-Rey!!!"-- Para a guarnição no alto do baluarte, Como se lhe alertasse d'outra parte Pronta para atacá-los:--"Acorrei!".
No entanto, a fortaleza e sua greii Há muito abandonaram o estandarte... Visto que só silêncio me comparte Cada pedra em ruína que aí verei.
Galgo-lhe a esplanada que, vazia, Creram inexpugnável algum dia, E chego com esforço ao revelim.
Lá me apresento para outra vigia, Na esperança que a aurora traga a mim Por outra perspectiva, um outro fim.
Betim - 03 06 2015
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À PRIMEIRA VISTA
Sim, eu quero te amar como se minha Fosses por toda a vida, muito embora Só te conheça há pouco mais d'uma hora E sequer estivesses cá sozinha...
Chegando em ti eu nem sei porque vinha, Mas confesso que já quero ir embora Para, insolitamente, vermos lá fora O quanto a tua boca me avizinha.
Se dissesse que te amo não mentiria, Mesmo sem saber teu nome ou quem és: Cuido que o Amor é cego ou vê de viés!
E deixo-me levar pela ousadia, No avanço temerário onde o revés Se oculta em luz de plena fantasia.