Se escrevo como escrevo é que não devo Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além. Escrevo como quero e me convém Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo é porque mais me aprazem e soam bem. De facto, minha escrita sempre tem Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira As coisas me mantêm a verdadeira Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha, O leitor que a tiver também me tenha, Mas com mais fantasia de permeio.
Belo Horizonte - 20 12 2017
466
UM QUARTO E UMA MEIA
UM QUARTO E UMA MEIA
Uma meia esquecida no meu quarto. Olho no relógio e é meia noite e meia... E igual àquela noite, outra lua cheia De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto, É teu cheiro que no ar tudo permeia... Dilata-se a pupila; estufa a veia: De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta... Da qual ora escureço; ora clareio Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio: Dividido por zero ou posto à quarta... O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
650
D'ORAVANTE
D'ORAVANTE Não mais ser um refém de meus problemas! Mas, no que depender de mim então, Poete eu a minha humana condição E não outra engrenagem nos sistemas... Para valer a pena escrever poemas Carece mais ter dúvidas à mão, Que sempre para tudo solução Na vida e seus inúmeros dilemas. D'oravante serei calmo, não frio Ciente de que a verdade, na verdade Se revela n'algum canto sombrio. E ainda que não seja novidade, -- Ao contrário, p'ra mim até tardio -- Saiba eu ver tudo com serenidade. Betim - 30 12 2017
741
ENLUARADA
ENLUARADA
Uma mulher me veio em meio ao sonho: Dizia que me amava, mas partia. E eu, pasmo n'uma estúpida apatia, Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho Recordando a imagem que fugia: O porte senhoril, a face esguia... Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma. Sequer podia haver d'algo nomeado: É todas as mulheres e nenhuma. Era ela um recordar, porém, sonhado; Alguém que a minha mente desarruma... A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
928
CONCORDES
CONCORDES De acordo co'os acordes que te fiz, Eu te acordo co'as cordas do violão E te acovardo a dor do coração N'um canto em cujo encanto és feliz. Incorporado o ritmo, um aprendiz Eu me faço no compasso da canção. E, passo a passo, passo-te a emoção Tão certo quanto bem te quero e quis. De cor o acorde, pois, te acode e acorda Quando, a poesia e a música concordes, Se veem canção que bem o amor aborda. Talvez assim de mim tu te recordes Enquanto meu amor por ti transborda: Na harmonia de versos, mais acordes... Betim - 09 08 1993
951
CORAÇÃO MAGOADO
CORAÇÃO MAGOADO
Tu, com tão estudada displicência, Soubeste d'algum modo me atingir: Sinto-te triste só em te sentir, Apesar dos sorrisos de aparência.
As máscaras que ostentas com frequência -- Não sei se por mentir ou se omitir (Às vezes é difícil distinguir...) -- Dizem muito do ardor de tua urgência.
Fingir-te sensações sem desejá-las Tornam mais fantasiosas estas falas, Que repetes qual texto decorado...
Em todo caso, admiro-te ora a atriz Atenta em parecer sempre feliz Embora um coração já tão magoado.
Belo Horizonte - 19 06 1996
926
À PROENÇAL
À PROENÇAL
Dormi, ó bela, em torres de marfim, Sem mais porvir, sem dor dormir, sem nada... Ei-vos o corpo estátua inacabada, Tendo voss'alma pálida por fim!
Não esperais por reis d'além-jardim, Sim por vós -- quintessência decantada -- Onde as virtudes todas têm morada, Enquanto os vícios todos sobre mim.
Mas seja meu cantar vosso acalanto. Pois, embora a poesia amor mundano, A música traz d'anjos o amor santo.
Sois toda ideal, não carne, cerne humano... Sede-o, ó bela: Incorpórea! Abstrato encanto!!! E eu tão-só os ouvidos vos profano...
Betim - 02 10 1998
987
CONHECENÇA
Mas como é bom rever a ponta aguda Depois de navegar por mar aberto!... Saber-me do canal de novo perto, Onde aos olhos cada angra se desnuda.
Pelos costões de pedra ir sem ajuda Até topar co'o cabo indescoberto. E em todo o litoral quase deserto, Reconhecer mesmo a ilha mais miúda.
Dos rasos de arrecifes e de abrolhos Passei ao largo pondo longos olhos Para avistar enfim a extensa costa.
Agora é só fundear a embarcação No estuário d'água doce d'um rincão Onde coisa nenhuma me desgosta.
Ubatuba - 16 07 2017
1 025
À DERIVA
Perdidos já o leme e a vela, corro Os olhos pelo oceano a ver o abismo Onde aprecio em meio ao cataclismo Lindas sereias cantando enquanto morro.
Vem tão-só um petrel em meu socorro E pouco pôde diante do que cismo A tempestade é um vão paroxismo Meu ao Universo sob olhar pachorro.
Não tenho muito tempo: Já a quilha Deixará de sulcar às ondas altas, Que se elevaram contra as minhas faltas.
Castigo ou não, resta a maravilha De saber quanto pode o amor, por sorte Em me levar, certeiro, até a morte.
Betim - 15 12 2015
1 173
A REDONDEZA
Mas é terra redonda... É mundo rotundo... A esfera onde se vive e, ao fim, se morre. Se escreves, é cuidar que não se borre A escura letra sobre o claro fundo.
Pois, isso de escrever parece oriundo D'algo que, subterrâneo, às vezes jorre Até se me alcançar o alto da torre, Trazendo um seu segredo nauseabundo.
E quando formos flores, margaridas A brotar sem cuidados nas campinas, Possam se recordar de nossas vidas...
...P'la letra: redondeza de meninas! Que, inopinadamente, mais bonita Faz-me o papel luzir a alheia escrita.