Cheirava a almiscarado e cigarrilha. Interessante, mas... Assim-assim... Não sei que se dirá ela de mim Ou d'esse luar que, pleno, maravilha.
Vê-la tagarelar bem peralvilha, Convenceu-me não ser de todo ruim Deixar-me elanguescer, ainda e enfim, Se, a despeito de nós, a lua brilha.
Fosse como fosse, era noite clara. Pude notar-lhe ao rosto uma luz rara, Enquanto o seu perfume me instigava.
Então, tudo era mais belo do que era... Nem soube diferir n'esta quimera Quem, de facto, a mulher que ali estava.
Betim - 29 01 2015
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À DERIVA
Perdidos já o leme e a vela, corro Os olhos pelo oceano a ver o abismo Onde aprecio em meio ao cataclismo Lindas sereias cantando enquanto morro.
Vem tão-só um petrel em meu socorro E pouco pôde diante do que cismo A tempestade é um vão paroxismo Meu ao Universo sob olhar pachorro.
Não tenho muito tempo: Já a quilha Deixará de sulcar às ondas altas, Que se elevaram contra as minhas faltas.
Castigo ou não, resta a maravilha De saber quanto pode o amor, por sorte Em me levar, certeiro, até a morte.
Betim - 15 12 2015
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A REDONDEZA
Mas é terra redonda... É mundo rotundo... A esfera onde se vive e, ao fim, se morre. Se escreves, é cuidar que não se borre A escura letra sobre o claro fundo.
Pois, isso de escrever parece oriundo D'algo que, subterrâneo, às vezes jorre Até se me alcançar o alto da torre, Trazendo um seu segredo nauseabundo.
E quando formos flores, margaridas A brotar sem cuidados nas campinas, Possam se recordar de nossas vidas...
...P'la letra: redondeza de meninas! Que, inopinadamente, mais bonita Faz-me o papel luzir a alheia escrita.
Betim - 26 02 2015
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MOTU PROPRIO
Em sendo a vida toda uma ilusão, Na qual o coração se nos engana, De cada escolha feita ainda emana A dúvida em seguir em frente ou não.
Andamos sem saber qual direcção Em meio à multidão e à luz mundana, A atravessar a faina quotidiana, Na esperança do próximo verão…!
A ver… Ano após ano, a felicidade Revela-se uma impossibilidade A todo mundo pelo mundo todo.
De sorte que escolher é tão-somente A arte de contentar-se co’o presente E ser infeliz a seu próprio modo.
Betim - 08 03 2024
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AO CAIR DA NOITE
Sobre as águas do rio, os ingazeiros Avançam suas copas entre as margens No afã de espalharem n'outras vargens Sombrias os seus galhos sobranceiros.
Nada obstante, os lumes derradeiros Vão apagando o verde das almargens Ao obscurecer na noite as contramargens, Que então se ocultam d'olhos passageiros.
Húmida, a mata à borda do caminho Bafeja o seu frescor bem de mansinho Em minhas faces tépidas e exaustas.
Paro e reparo o dia indo-se embora, Ao pé da serra imensa que descora, A ouvir dos juritis canções infaustas.
Juatuba - 13 06 2023
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NEVES ETERNAS
O topo alcantilado da montanha, Visto desde as estepes quase infindas, Vem dar ao aventureiro boas-vindas E após sua jornada ele acompanha.
Parte em caminhada assim tamanha Em meio aos sós "aondes?..." ou aos "aindas!..." Buscando as panorâmicas mais lindas, Qual tesouros que ao léu a si apanha.
Alheio às incertezas do inaudito, Nosso herói tomará o longo aclive E um destino que temos por maldito.
Alcance a morte quem ousado vive, Mas no topo estará ainda escrito Junto a seu nome e a data: "Aqui estive".
Belo Horizonte – 10 01 2005
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VERSOS D'ALCOVA
Ainda em meio ao banho, por espelhos, Te observava os reflexos no azulejo. Desnuda-se a beleza n’um lampejo: Curvas d’ombros, seios, nádegas, joelhos...
Mas, se paixões desdenham de conselhos, Baldo é ditar razões contra o desejo…! Ao toque de meus dedos, suave arpejo, Deixaste nossos corpos já parelhos.
Logo não serei mais do que a loucura De, ávido, m’embriagar da formosura De tuas nuas curvas femininas.
Após, abandonado sobre a alcova, Com teus olhos nos meus eu me comova, Revendo o teu prazer pelas retinas.
Belo Horizonte – 02 02 1992
228
AS AMAZONAS
Nuas, as duas belas se entreolharam, Entregues aos prazeres mais proibidos. Na embriaguez de desejos escondidos. Admiradas de si, elas se amaram.
Logo os lábios das lésbias se tocaram. E seus mamilos já intumescidos, Como se figos alvos bem crescidos, Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.
Orvalhados os sexos, já arfantes Se trocavam carícias delirantes Com ardores e gozos inclementes.
Amazonas, guerreiras do amor, Cavalgam-se com tríbade furor, Para juntas tombarem inconscientes...
Belo Horizonte - 09 07 1993
190
O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
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O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.