Sim, eu quero te amar como se minha Fosses por toda a vida, muito embora Só te conheça há pouco mais d'uma hora E sequer estivesses cá sozinha...
Chegando em ti eu nem sei porque vinha, Mas confesso que já quero ir embora Para, insolitamente, vermos lá fora O quanto a tua boca me avizinha.
Se dissesse que te amo não mentiria, Mesmo sem saber teu nome ou quem és: Cuido que o Amor é cego ou vê de viés!
E deixo-me levar pela ousadia, No avanço temerário onde o revés Se oculta em luz de plena fantasia.
Betim - 08 02 2015
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A CAVALEIRO
Gritava:--"Aqui-d'el-Rey! Aqui-d'el-Rey!!!"-- Para a guarnição no alto do baluarte, Como se lhe alertasse d'outra parte Pronta para atacá-los:--"Acorrei!".
No entanto, a fortaleza e sua greii Há muito abandonaram o estandarte... Visto que só silêncio me comparte Cada pedra em ruína que aí verei.
Galgo-lhe a esplanada que, vazia, Creram inexpugnável algum dia, E chego com esforço ao revelim.
Lá me apresento para outra vigia, Na esperança que a aurora traga a mim Por outra perspectiva, um outro fim.
Betim - 03 06 2015
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A REDONDEZA
Mas é terra redonda... É mundo rotundo... A esfera onde se vive e, ao fim, se morre. Se escreves, é cuidar que não se borre A escura letra sobre o claro fundo.
Pois, isso de escrever parece oriundo D'algo que, subterrâneo, às vezes jorre Até se me alcançar o alto da torre, Trazendo um seu segredo nauseabundo.
E quando formos flores, margaridas A brotar sem cuidados nas campinas, Possam se recordar de nossas vidas...
...P'la letra: redondeza de meninas! Que, inopinadamente, mais bonita Faz-me o papel luzir a alheia escrita.
Betim - 26 02 2015
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MOTU PROPRIO
Em sendo a vida toda uma ilusão, Na qual o coração se nos engana, De cada escolha feita ainda emana A dúvida em seguir em frente ou não.
Andamos sem saber qual direcção Em meio à multidão e à luz mundana, A atravessar a faina quotidiana, Na esperança do próximo verão…!
A ver… Ano após ano, a felicidade Revela-se uma impossibilidade A todo mundo pelo mundo todo.
De sorte que escolher é tão-somente A arte de contentar-se co’o presente E ser infeliz a seu próprio modo.
Betim - 08 03 2024
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AO CAIR DA NOITE
Sobre as águas do rio, os ingazeiros Avançam suas copas entre as margens No afã de espalharem n'outras vargens Sombrias os seus galhos sobranceiros.
Nada obstante, os lumes derradeiros Vão apagando o verde das almargens Ao obscurecer na noite as contramargens, Que então se ocultam d'olhos passageiros.
Húmida, a mata à borda do caminho Bafeja o seu frescor bem de mansinho Em minhas faces tépidas e exaustas.
Paro e reparo o dia indo-se embora, Ao pé da serra imensa que descora, A ouvir dos juritis canções infaustas.
Juatuba - 13 06 2023
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VERSOS D'ALCOVA
Ainda em meio ao banho, por espelhos, Te observava os reflexos no azulejo. Desnuda-se a beleza n’um lampejo: Curvas d’ombros, seios, nádegas, joelhos...
Mas, se paixões desdenham de conselhos, Baldo é ditar razões contra o desejo…! Ao toque de meus dedos, suave arpejo, Deixaste nossos corpos já parelhos.
Logo não serei mais do que a loucura De, ávido, m’embriagar da formosura De tuas nuas curvas femininas.
Após, abandonado sobre a alcova, Com teus olhos nos meus eu me comova, Revendo o teu prazer pelas retinas.
Belo Horizonte – 02 02 1992
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NEVES ETERNAS
O topo alcantilado da montanha, Visto desde as estepes quase infindas, Vem dar ao aventureiro boas-vindas E após sua jornada ele acompanha.
Parte em caminhada assim tamanha Em meio aos sós "aondes?..." ou aos "aindas!..." Buscando as panorâmicas mais lindas, Qual tesouros que ao léu a si apanha.
Alheio às incertezas do inaudito, Nosso herói tomará o longo aclive E um destino que temos por maldito.
Alcance a morte quem ousado vive, Mas no topo estará ainda escrito Junto a seu nome e a data: "Aqui estive".
Belo Horizonte – 10 01 2005
195
AS AMAZONAS
Nuas, as duas belas se entreolharam, Entregues aos prazeres mais proibidos. Na embriaguez de desejos escondidos. Admiradas de si, elas se amaram.
Logo os lábios das lésbias se tocaram. E seus mamilos já intumescidos, Como se figos alvos bem crescidos, Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.
Orvalhados os sexos, já arfantes Se trocavam carícias delirantes Com ardores e gozos inclementes.
Amazonas, guerreiras do amor, Cavalgam-se com tríbade furor, Para juntas tombarem inconscientes...
Belo Horizonte - 09 07 1993
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O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
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INDECÊNCIAS
Mais promete a beleza da mulher Quando faz recordar doces prazeres, Mostrando os ombros nus entre afazeres Para acender-me os olhos de querer.
Parece em me atentar mais s’entreter, Certa de ter em mim novos lazeres. Na ânsia de devorar-me sem talheres, Chega perto demais por m’envolver:
Encosta no seu colo a minha face De modo que ao virar-me (se eu ousasse…!) Teria já meus lábios no seu sexo…
E depois de entreabrir o seu decote, Chegaria fungando em meu cangote Para me balbuciar coisas sem nexo…