Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
Lista de Poemas
ESTROBOSCÓPIA
Mostra-se quadro a quadro ou fotograma,
Como que congelando o movimento.
Somente a iluminar cada momento
No instante que o lampejo se derrama.
Sequência de instantâneos cujo drama
Põe entre claro e escuro um andamento.
Onde o corpo à luz do pensamento
Diverso espaço-tempo a si proclama.
Em longa exposição se lhe captura
A trajetória toda n'um só plano,
Fazendo o passo a passo da figura.
E se, por cinemático esse engano,
Revelar-se inusual nomenclatura,
Far-se-á tão-só de luzes outro humano.
Betim - 21 11 2018
Como que congelando o movimento.
Somente a iluminar cada momento
No instante que o lampejo se derrama.
Sequência de instantâneos cujo drama
Põe entre claro e escuro um andamento.
Onde o corpo à luz do pensamento
Diverso espaço-tempo a si proclama.
Em longa exposição se lhe captura
A trajetória toda n'um só plano,
Fazendo o passo a passo da figura.
E se, por cinemático esse engano,
Revelar-se inusual nomenclatura,
Far-se-á tão-só de luzes outro humano.
Betim - 21 11 2018
582
MALDITOS!
Quem são estes cuja luz fora apagada
E, insones, têm nas noites seu refúgio,
Atravessando em vão a madrugada?
Só querem ao poetar vago transfúgio
Da vida d’esperanças comezinhas,
Bem como contra o tédio subterfúgio?
Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas
Toda sorte de angústias autorais --
O que buscam por horas tão sozinhas?
Por que se fazem poetas? Por que mais
Buscam tirar das letras o sublime,
Senão por se sentirem sós demais?
Que furtaram aos deuses? Qual o crime
Cometido na aurora dos milênios,
Cuja pena a escrever nunca os redime?
Sem diferir se néscios ou se gênios,
D’onde foi que obtiveram tal saber
Que os obriga a versar entre proscênios?
Como estes que escrevem ousam ler
Nas linhas d’horizonte um sol errático
Por entre arranha-céus a amanhecer?
Como alguém -- entre excêntrico e lunático --
Gastando a vida inteira com escritos
Despidos de qualquer sentido prático?
Malditos! Sete mil vezes malditos!
Estes que têm os versos por oráculo
Havendo além dos céus mais infinitos...
Malditos os que têm pelo vernáculo
Um carinho de artista incompreendido,
Que se imola no altar do tabernáculo!...
Dom às avessas!... Bênção ao inavido!...
À margem das promessas e das glórias,
Poetar é desdenhar o conhecido...
É saber inventadas as memórias
Ou, de belas mentiras, a verdade
Pretendida em suas vãs histórias.
Desastrólogos do alto! Sede, poetas,
Malditos pelos séculos dos séculos,
No augúrio de catástrofes completas!...
Vinde e vede: Reviram-vos d’espéculos
As vossas cavidades buscando alma,
Tal como fazem monges ‘inda séculos.
Terminais por viver tão-só o trauma
Com que fordes há muito amaldiçoados
Com nenhuma paciência e pouca calma.
Facto: Malditos porque mal falados.
Porque muito mal lidos; mal descritos...
Os bons? Somente os mortos, os finados.
Tantos a maldizer-nos os escritos:
-- “Antiquados!! Herméticos!! Absurdos!!!”
Ou sem nem ler (assim assim): -- “Bonitos...”
Se declamamos, fingem estar surdos;
Se publicamos, fingem que são cegos;
Um povo sem país igual os curdos:
Poetas... Filhos de sós desassossegos
Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro,
Indo sobreviver de subempregos;
Ou distante vagando, aventureiro,
Que por entre as palavras em vão erra
Sem nunca encontrar um paradeiro.
Hoje, até Ahasverus possui terra!
No mesmo confim onde Israel governa
E o ismaelita de novo se desterra...
Não os malditos... D’esses é eterna
A caminhada errante vida afora
Atravessando as noites na taverna.
Ali, já sem saber se ri ou chora,
Senta-se e escreve em plena solitude,
Alheio mesmo da hora de ir embora.
Eis dos poetas a glória e a finitude:
Por fim, indiferentes se são lidos,
Já nada nem ninguém ora os ilude.
E ainda que por todos combatidos
Gargalham das desgraças do passado
Enquanto as do presente nos ouvidos.
Mas por fim se revoltam contra o Fado,
Quando entregues à própria escuridão
Caminham co'a miséria lado a lado.
E, d’entre eles, eu: Com talento ou não,
Arrasto estes meus versos qual grilhões,
Sabendo-os meu tesouro e maldição.
Peno eu -- mais três ou quatro gerações --
Amaldiçoando todos no pecado
Que nos predestinou junto aos vilões!
Deveras, parvo e obscuro antepassado,
Pus minha iniquidade sobre os meus,
Uma vez para sempre amaldiçoado...
Antes já natimorto entre os plebeus
Que agora constranger-nos desde o gen
Viver em guerra infinda contra Deus!
Como ignorasse d’onde a bênção vem,
Sem temer me cobrir de pestilências...
Maldito, escolho o mal e evito o bem.
Ao desdenhar de Deus suas violências
Sobre mim e meus tristes descendentes
É que busquei nos vícios experiências.
Uma vez condenado, ranjo os dentes
Urrando contra as hostes celestiais
E a multidão submissa de seus crentes.
Sim, vêm me perseguir feito animais:
Tendo a marca de Caim -- homem de cor --
Com os filhos de Cam eu ergui baais!
Excluído do povo do Senhor,
Sigo a errar d’outro lado do Jordão
Como a face d’opróbrio e do terror:
Quem de longe me vê na imensidão
M’escojura qual visse o deus Moloque
Com chifres a queimar na escuridão!
E vem me apedrejar sem que o provoque
Para que assim me afaste mais ainda,
Pintando-me um demônio sem retoque.
Certo que minha culpa jamais finda,
Aos olhos d’estes homens bons e justos
Convém lhes evitar a terra linda.
Vagando nos desertos entre arbustos
A medo de topar quem quer que seja
E alerta de perigos e outros sustos...
Resta rogar a Deus, por onde esteja,
Que me mate antes qu’eu, de todo aflito,
Devolva ao mundo o mal que me deseja!
Só sei não ver justiça no infinito
Expurgo de más culpas cuja pena
Me faz eternamente ser maldito.
Turvando a vista pela tarde amena,
Como encontrasse Deus um peito ateu
Em ascensão por sobre a luz terrena.
Foi então, do profundo abismo, qu’eu
Tive a visão do fim de tudo e todos
Pós-que o sol trás-às-nuvens s’escondeu.
A noite fez-se eterna nos engodos
D’um extremista, homem de bem ou ambos
Para vencer por todos meios e modos:
Os narcotraficantes com escambos
Mais os supremacistas pelas armas
Contra negros, asiáticos ou jambos...
Seguem todos às voltas com seus carmas,
Fomentando desastres para, enfim,
Ouvir sete trombetas soando alarmas.
Fazem o escatológico festim:
Em celebrações de ódio genocida,
Urgem d’Humanidade o triste fim.
Rudes, vêm vomitar sobre a avenida
Toda espécie d’estúpida revolta
Tendo absoluto horror da própria vida.
Como fossem corcéis à rédea solta!...
Como em carga de audaz cavalaria!...
Vão levando violência à sua volta.
Irmanados na ardente primazia,
Impõem enfim seus males a oprimidos
Embora revestidos de ousadia.
Longe, escuta-se o pranto dos vencidos,
Bem como outros tantos uivos e ais
Já n’um clamor uníssono vertidos:
Partem agora para nunca mais
As utopias d’uma terra justa
Onde, sem males, todos são iguais.
Curvam-se a uma ilusão que nos assusta
Pelo que nos pretende distinguir
Por entre bons e maus à face augusta.
Senhores do presente e do porvir,
Os bárbaros já uivam sob a lua
E clamam por façanhas de se ouvir...
Jactam-se sobre gente seminua
Que vaga pelas sombras da cidade...
E acabara morando em plena rua.
Ameaçam, com toda a propriedade,
Àqueles que muito pouco têm...
Certos de que já donos da verdade!
Pois bodes expiatórios lhes convêm
E as cabeças jogadas contra o asfalto
Mal sobre seus pescoços se sustêm...
Avançam sobre o douto e sobre o incauto
Céleres em calar todas as vozes,
Nos mantendo em constante sobressalto.
Vão vindo como as hordas mais ferozes
Sempre com mais exércitos por trás,
Fazendo correr sangue feito algozes.
Com guerra, vêm impor-nos sua paz
E após jogar na vala mais comum,
Onde pouco importa quem lá jaz.
Milhões vociferando como se um
Os mesmíssimos ódios e violências;
Indo apressados p’ra lugar nenhum.
Esvaziaram as suas consciências
Berram d'olhos vidrados para além,
Indiferentes já às consequências.
Culpa de todo mundo e de ninguém,
Co'as mãos sujas de sangue dizem ser
Maldade contra os maus acto de bem...
Vêm em nome de Deus estremecer
-- Frase após frase infeliz --
Amizades a ponto de as perder.
Clamam todos por Deus n'esse país!
Como o Senhor amasse uns e outros não.
Sem embargo, Ele nada faz ou diz...
Sim, Deus se cala face à escuridão
Que s'estende por sobre a Terra inteira,
E os homens abandona à danação.
Pois nega-se a negar a verdadeira
Razão por trás de tais atrocidades,
Queimando bons e maus pela fogueira.
Permite que a maldade nas cidades
S'eleve finalmente como regra
Acima de quaisquer necessidades.
Desunida, a Nação se desintegra
N'um fundamentalismo evangélico
Que ainda amaldiçoa a pele negra.
Dos generais, de novo o sonho bélico
D'entrar em território fronteiriço
Ou arrastá-lo n'um jogo maquiavélico.
Entrementes, o povo já submisso
Tolera que se mate e se torture,
Como fosse patriota tal serviço.
Mas homem com outro homem configure
Uma abominação contra a Natura,
Onde assassine ou exija que se cure!
E, evocando do Apóstolo a luz pura,
Com Doutrina cristã e militar
S'ensine nas escolas a Escritura.
Se mesmo contra Deus alguém ousar
Ainda escrever seus versos satânicos
Não deixe algum censor os apanhar.
Tempos mudam; as mentes, não... Tirânicos
Os modos de calar a quem escreve,
Enlouquecendo-o com cismas e pânicos.
No mais, nunca se julgue a pena leve
D'este que sempre às voltas com escritos
Tem p'ra si que longa a arte e a vida breve.
Poetas... Se no horizonte d'olhos fitos,
É sabermos ter logo de fugir
Ouvindo a multidão gritar: Malditos!
Betim - 06 11 2018
E, insones, têm nas noites seu refúgio,
Atravessando em vão a madrugada?
Só querem ao poetar vago transfúgio
Da vida d’esperanças comezinhas,
Bem como contra o tédio subterfúgio?
Estes -- que vêm deixar nas entrelinhas
Toda sorte de angústias autorais --
O que buscam por horas tão sozinhas?
Por que se fazem poetas? Por que mais
Buscam tirar das letras o sublime,
Senão por se sentirem sós demais?
Que furtaram aos deuses? Qual o crime
Cometido na aurora dos milênios,
Cuja pena a escrever nunca os redime?
Sem diferir se néscios ou se gênios,
D’onde foi que obtiveram tal saber
Que os obriga a versar entre proscênios?
Como estes que escrevem ousam ler
Nas linhas d’horizonte um sol errático
Por entre arranha-céus a amanhecer?
Como alguém -- entre excêntrico e lunático --
Gastando a vida inteira com escritos
Despidos de qualquer sentido prático?
Malditos! Sete mil vezes malditos!
Estes que têm os versos por oráculo
Havendo além dos céus mais infinitos...
Malditos os que têm pelo vernáculo
Um carinho de artista incompreendido,
Que se imola no altar do tabernáculo!...
Dom às avessas!... Bênção ao inavido!...
À margem das promessas e das glórias,
Poetar é desdenhar o conhecido...
É saber inventadas as memórias
Ou, de belas mentiras, a verdade
Pretendida em suas vãs histórias.
Desastrólogos do alto! Sede, poetas,
Malditos pelos séculos dos séculos,
No augúrio de catástrofes completas!...
Vinde e vede: Reviram-vos d’espéculos
As vossas cavidades buscando alma,
Tal como fazem monges ‘inda séculos.
Terminais por viver tão-só o trauma
Com que fordes há muito amaldiçoados
Com nenhuma paciência e pouca calma.
Facto: Malditos porque mal falados.
Porque muito mal lidos; mal descritos...
Os bons? Somente os mortos, os finados.
Tantos a maldizer-nos os escritos:
-- “Antiquados!! Herméticos!! Absurdos!!!”
Ou sem nem ler (assim assim): -- “Bonitos...”
Se declamamos, fingem estar surdos;
Se publicamos, fingem que são cegos;
Um povo sem país igual os curdos:
Poetas... Filhos de sós desassossegos
Sempre a vagar sem pátria e sem dinheiro,
Indo sobreviver de subempregos;
Ou distante vagando, aventureiro,
Que por entre as palavras em vão erra
Sem nunca encontrar um paradeiro.
Hoje, até Ahasverus possui terra!
No mesmo confim onde Israel governa
E o ismaelita de novo se desterra...
Não os malditos... D’esses é eterna
A caminhada errante vida afora
Atravessando as noites na taverna.
Ali, já sem saber se ri ou chora,
Senta-se e escreve em plena solitude,
Alheio mesmo da hora de ir embora.
Eis dos poetas a glória e a finitude:
Por fim, indiferentes se são lidos,
Já nada nem ninguém ora os ilude.
E ainda que por todos combatidos
Gargalham das desgraças do passado
Enquanto as do presente nos ouvidos.
Mas por fim se revoltam contra o Fado,
Quando entregues à própria escuridão
Caminham co'a miséria lado a lado.
E, d’entre eles, eu: Com talento ou não,
Arrasto estes meus versos qual grilhões,
Sabendo-os meu tesouro e maldição.
Peno eu -- mais três ou quatro gerações --
Amaldiçoando todos no pecado
Que nos predestinou junto aos vilões!
Deveras, parvo e obscuro antepassado,
Pus minha iniquidade sobre os meus,
Uma vez para sempre amaldiçoado...
Antes já natimorto entre os plebeus
Que agora constranger-nos desde o gen
Viver em guerra infinda contra Deus!
Como ignorasse d’onde a bênção vem,
Sem temer me cobrir de pestilências...
Maldito, escolho o mal e evito o bem.
Ao desdenhar de Deus suas violências
Sobre mim e meus tristes descendentes
É que busquei nos vícios experiências.
Uma vez condenado, ranjo os dentes
Urrando contra as hostes celestiais
E a multidão submissa de seus crentes.
Sim, vêm me perseguir feito animais:
Tendo a marca de Caim -- homem de cor --
Com os filhos de Cam eu ergui baais!
Excluído do povo do Senhor,
Sigo a errar d’outro lado do Jordão
Como a face d’opróbrio e do terror:
Quem de longe me vê na imensidão
M’escojura qual visse o deus Moloque
Com chifres a queimar na escuridão!
E vem me apedrejar sem que o provoque
Para que assim me afaste mais ainda,
Pintando-me um demônio sem retoque.
Certo que minha culpa jamais finda,
Aos olhos d’estes homens bons e justos
Convém lhes evitar a terra linda.
Vagando nos desertos entre arbustos
A medo de topar quem quer que seja
E alerta de perigos e outros sustos...
Resta rogar a Deus, por onde esteja,
Que me mate antes qu’eu, de todo aflito,
Devolva ao mundo o mal que me deseja!
Só sei não ver justiça no infinito
Expurgo de más culpas cuja pena
Me faz eternamente ser maldito.
Turvando a vista pela tarde amena,
Como encontrasse Deus um peito ateu
Em ascensão por sobre a luz terrena.
Foi então, do profundo abismo, qu’eu
Tive a visão do fim de tudo e todos
Pós-que o sol trás-às-nuvens s’escondeu.
A noite fez-se eterna nos engodos
D’um extremista, homem de bem ou ambos
Para vencer por todos meios e modos:
Os narcotraficantes com escambos
Mais os supremacistas pelas armas
Contra negros, asiáticos ou jambos...
Seguem todos às voltas com seus carmas,
Fomentando desastres para, enfim,
Ouvir sete trombetas soando alarmas.
Fazem o escatológico festim:
Em celebrações de ódio genocida,
Urgem d’Humanidade o triste fim.
Rudes, vêm vomitar sobre a avenida
Toda espécie d’estúpida revolta
Tendo absoluto horror da própria vida.
Como fossem corcéis à rédea solta!...
Como em carga de audaz cavalaria!...
Vão levando violência à sua volta.
Irmanados na ardente primazia,
Impõem enfim seus males a oprimidos
Embora revestidos de ousadia.
Longe, escuta-se o pranto dos vencidos,
Bem como outros tantos uivos e ais
Já n’um clamor uníssono vertidos:
Partem agora para nunca mais
As utopias d’uma terra justa
Onde, sem males, todos são iguais.
Curvam-se a uma ilusão que nos assusta
Pelo que nos pretende distinguir
Por entre bons e maus à face augusta.
Senhores do presente e do porvir,
Os bárbaros já uivam sob a lua
E clamam por façanhas de se ouvir...
Jactam-se sobre gente seminua
Que vaga pelas sombras da cidade...
E acabara morando em plena rua.
Ameaçam, com toda a propriedade,
Àqueles que muito pouco têm...
Certos de que já donos da verdade!
Pois bodes expiatórios lhes convêm
E as cabeças jogadas contra o asfalto
Mal sobre seus pescoços se sustêm...
Avançam sobre o douto e sobre o incauto
Céleres em calar todas as vozes,
Nos mantendo em constante sobressalto.
Vão vindo como as hordas mais ferozes
Sempre com mais exércitos por trás,
Fazendo correr sangue feito algozes.
Com guerra, vêm impor-nos sua paz
E após jogar na vala mais comum,
Onde pouco importa quem lá jaz.
Milhões vociferando como se um
Os mesmíssimos ódios e violências;
Indo apressados p’ra lugar nenhum.
Esvaziaram as suas consciências
Berram d'olhos vidrados para além,
Indiferentes já às consequências.
Culpa de todo mundo e de ninguém,
Co'as mãos sujas de sangue dizem ser
Maldade contra os maus acto de bem...
Vêm em nome de Deus estremecer
-- Frase após frase infeliz --
Amizades a ponto de as perder.
Clamam todos por Deus n'esse país!
Como o Senhor amasse uns e outros não.
Sem embargo, Ele nada faz ou diz...
Sim, Deus se cala face à escuridão
Que s'estende por sobre a Terra inteira,
E os homens abandona à danação.
Pois nega-se a negar a verdadeira
Razão por trás de tais atrocidades,
Queimando bons e maus pela fogueira.
Permite que a maldade nas cidades
S'eleve finalmente como regra
Acima de quaisquer necessidades.
Desunida, a Nação se desintegra
N'um fundamentalismo evangélico
Que ainda amaldiçoa a pele negra.
Dos generais, de novo o sonho bélico
D'entrar em território fronteiriço
Ou arrastá-lo n'um jogo maquiavélico.
Entrementes, o povo já submisso
Tolera que se mate e se torture,
Como fosse patriota tal serviço.
Mas homem com outro homem configure
Uma abominação contra a Natura,
Onde assassine ou exija que se cure!
E, evocando do Apóstolo a luz pura,
Com Doutrina cristã e militar
S'ensine nas escolas a Escritura.
Se mesmo contra Deus alguém ousar
Ainda escrever seus versos satânicos
Não deixe algum censor os apanhar.
Tempos mudam; as mentes, não... Tirânicos
Os modos de calar a quem escreve,
Enlouquecendo-o com cismas e pânicos.
No mais, nunca se julgue a pena leve
D'este que sempre às voltas com escritos
Tem p'ra si que longa a arte e a vida breve.
Poetas... Se no horizonte d'olhos fitos,
É sabermos ter logo de fugir
Ouvindo a multidão gritar: Malditos!
Betim - 06 11 2018
611
DE PÉS JUNTOS
Ele jurou. Não apenas pelos céus
Ou nem "por esta luz que me alumia!"...
E jurou "de pés juntos" -- qual dizia
Minha finada avó por sob os véus.
Como o acusado n'um banco de réus
Ou como o cristão-novo junto à pia.
Verdade verdadeira, pois -- dir-se-ia --
A de doutor dar fé; tirar chapéus...
E, embora fosse laico o juramento,
Evocava o Senhor todo momento,
Por lhe fazer o Altíssimo fiador.
Ao final, convencendo tudo e todos,
Traiu, mentiu e baniu de muitos modos,
Distorcendo a verdade ao seu sabor!
Betim - 04 11 2018
Ou nem "por esta luz que me alumia!"...
E jurou "de pés juntos" -- qual dizia
Minha finada avó por sob os véus.
Como o acusado n'um banco de réus
Ou como o cristão-novo junto à pia.
Verdade verdadeira, pois -- dir-se-ia --
A de doutor dar fé; tirar chapéus...
E, embora fosse laico o juramento,
Evocava o Senhor todo momento,
Por lhe fazer o Altíssimo fiador.
Ao final, convencendo tudo e todos,
Traiu, mentiu e baniu de muitos modos,
Distorcendo a verdade ao seu sabor!
Betim - 04 11 2018
601
AMENIDADES
Sim, falemos do tempo, da cidade;
Evitemos falar de tudo o mais...
Passemos por dois superficiais
Incapazes de ver qualquer verdade.
Tratemo-nos com grande liberdade,
Fingindo-nos ao máximo normais.
E a sorrir -- nem de menos nem demais --
Como se verdadeira ora a amizade.
Sem passado, presente e nem futuro
Busquemos pelo assunto mais seguro
N'uma hora de forçada convivência.
E depois, no momento de ir embora
Ao nos acompanharmos para fora
Esqueçamos-nos já por conveniência.
Betim - 27 10 2018
Evitemos falar de tudo o mais...
Passemos por dois superficiais
Incapazes de ver qualquer verdade.
Tratemo-nos com grande liberdade,
Fingindo-nos ao máximo normais.
E a sorrir -- nem de menos nem demais --
Como se verdadeira ora a amizade.
Sem passado, presente e nem futuro
Busquemos pelo assunto mais seguro
N'uma hora de forçada convivência.
E depois, no momento de ir embora
Ao nos acompanharmos para fora
Esqueçamos-nos já por conveniência.
Betim - 27 10 2018
515
O SUBVERSIVO
Apenas escrevia ele seus versos
E se dizia um livre pensador.
Talvez também sonhasse algo melhor
Em utopias d'outros Universos.
Poucos liam-lhe os poemas por dispersos
E menos d'ele ouviam o alto ardor.
Ainda assim passou por corruptor
De jovens por uns ditos controversos...
A Ordem clamada pela autoridade
Acusou do mais vil charlatanismo
Àquele que buscava só verdade.
Mas d'olhos expectantes face ao abismo
Prefere antes a morte à liberdade
Pelas mãos dos chacais do imbecilismo.
Betim - 28 10 2018
E se dizia um livre pensador.
Talvez também sonhasse algo melhor
Em utopias d'outros Universos.
Poucos liam-lhe os poemas por dispersos
E menos d'ele ouviam o alto ardor.
Ainda assim passou por corruptor
De jovens por uns ditos controversos...
A Ordem clamada pela autoridade
Acusou do mais vil charlatanismo
Àquele que buscava só verdade.
Mas d'olhos expectantes face ao abismo
Prefere antes a morte à liberdade
Pelas mãos dos chacais do imbecilismo.
Betim - 28 10 2018
568
DILACERADO
Hoje, o meu coração está ferido
Como se cortes fundos pelos pulsos
Perdessem-me os sentidos já convulsos
Face à completa falta de sentido.
Torturadores, ou algo parecido,
Declaram, desde já, presos ou expulsos
Oponentes, descrentes e uns avulsos
Que marginalizados tenham sido:
-- "Não lutem mais por terra e moradia,
Tampouco liberdade d'expressão,
Visto que terrorismos hoje em dia!"...
A ordem é o progresso da ilusão
Que busca corromper a fantasia
De Justiça Social e Comunhão.
Betim - 22 10 2018
Como se cortes fundos pelos pulsos
Perdessem-me os sentidos já convulsos
Face à completa falta de sentido.
Torturadores, ou algo parecido,
Declaram, desde já, presos ou expulsos
Oponentes, descrentes e uns avulsos
Que marginalizados tenham sido:
-- "Não lutem mais por terra e moradia,
Tampouco liberdade d'expressão,
Visto que terrorismos hoje em dia!"...
A ordem é o progresso da ilusão
Que busca corromper a fantasia
De Justiça Social e Comunhão.
Betim - 22 10 2018
587
CÓLICAS
No hotel d'uma cidade bem distante
Eu tento parir pedras e opiniões...
Em vão rolo de dor sobre os colchões,
Enquanto a noite cai extenuante.
Eu saio pelas ruas claudicante,
Buscando analgesias pr'os culhões!
Ainda que tomado de tensões
Nas rugas que carrego no semblante:
A cada rosto estranho que me estranha
Percebo minha angústia ser tamanha,
Que sequer dignidade tenho mais.
Na farmácia, opioides pela veia
Me dobram com seu canto de sereia
Certo de que a paz vem tarde demais.
Ibiá - 12 10 2018
Eu tento parir pedras e opiniões...
Em vão rolo de dor sobre os colchões,
Enquanto a noite cai extenuante.
Eu saio pelas ruas claudicante,
Buscando analgesias pr'os culhões!
Ainda que tomado de tensões
Nas rugas que carrego no semblante:
A cada rosto estranho que me estranha
Percebo minha angústia ser tamanha,
Que sequer dignidade tenho mais.
Na farmácia, opioides pela veia
Me dobram com seu canto de sereia
Certo de que a paz vem tarde demais.
Ibiá - 12 10 2018
585
N'UMA NOITE D'ESSAS
Entre doses de vodca e solidão,
O poeta olha a puta o provocando
Até se perguntar, de quando em quando,
Se estava lá por tédio ou por tesão.
A puta está ali por profissão
E lhe vem, rebolativa, ao seu comando.
Sorri e bebe o qu'ele está tomando
Sabendo causar tórrida impressão.
Ela derrete o gelo nos seus lábios
E com voz maliciosa ela lhe diz,
Fazer o poeta um pouco mais feliz.
Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios,
Declina de usufruir d'essa beleza,
Temendo ter a dar tão-só tristeza...
Belo Horizonte - 08 10 2018
O poeta olha a puta o provocando
Até se perguntar, de quando em quando,
Se estava lá por tédio ou por tesão.
A puta está ali por profissão
E lhe vem, rebolativa, ao seu comando.
Sorri e bebe o qu'ele está tomando
Sabendo causar tórrida impressão.
Ela derrete o gelo nos seus lábios
E com voz maliciosa ela lhe diz,
Fazer o poeta um pouco mais feliz.
Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios,
Declina de usufruir d'essa beleza,
Temendo ter a dar tão-só tristeza...
Belo Horizonte - 08 10 2018
520
HOMENS DE COR
Preto, branco, amarelo, pardo, mel...
Diversos mas iguais por sob a pele.
Inteira a humanidade se revele
No seu existir entre a terra e o céu!
A História há-de correr com seu tropel,
Arrastando as paixões aonde impele.
O indivíduo, contudo, se rebele
Em face dos tiranos quando réu.
Os homens são os mesmos, lá e aqui.
Sua grandeza está no que constroem,
E não nas amarguras que os corroem.
Libertos da opressão, mais lhes sorri
A verdade através dos tempos idos
Que a glória relativa dos temidos.
Betim - 10 10 2018
Diversos mas iguais por sob a pele.
Inteira a humanidade se revele
No seu existir entre a terra e o céu!
A História há-de correr com seu tropel,
Arrastando as paixões aonde impele.
O indivíduo, contudo, se rebele
Em face dos tiranos quando réu.
Os homens são os mesmos, lá e aqui.
Sua grandeza está no que constroem,
E não nas amarguras que os corroem.
Libertos da opressão, mais lhes sorri
A verdade através dos tempos idos
Que a glória relativa dos temidos.
Betim - 10 10 2018
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O LIVRO DE JÓ
Quando senti as dores dos meus rins,
Eu me lembrei de Jó e seus amigos.
Deveras, o que é o homem nos perigos
Em seu tergiversar por nãos e sins?
Os meios não justificam mais os fins,
Nem viver qual viviam os antigos...
E de reis, parecemos mais mendigos
Em sobressalto quando dos clarins:
Javé e Satanás fazem apostas,
Ao provar em desgraças e sem dó
O jugo que mantêm em nossas costas.
Ao fim, farto de dias como Jó,
Talvez ouça de Deus vagas respostas,
Sabendo eu já ser pó de volta ao pó.
Betim - 09 10 2018
Eu me lembrei de Jó e seus amigos.
Deveras, o que é o homem nos perigos
Em seu tergiversar por nãos e sins?
Os meios não justificam mais os fins,
Nem viver qual viviam os antigos...
E de reis, parecemos mais mendigos
Em sobressalto quando dos clarins:
Javé e Satanás fazem apostas,
Ao provar em desgraças e sem dó
O jugo que mantêm em nossas costas.
Ao fim, farto de dias como Jó,
Talvez ouça de Deus vagas respostas,
Sabendo eu já ser pó de volta ao pó.
Betim - 09 10 2018
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Comentários (5)
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Lindos poemas ,meu caro!
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
bom vê-lo por aqui
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!