O olho que a tudo vê, segundo diz Todo aquele em mistérios iniciado, Evoca do deus morto-e-reencarnado A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz E os atravessa a ver o que guardado: Vidente do futuro e do passado, Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte, N’um olhar que, profundo, nos conforte, Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém Tem resposta quando olha para o Além… N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
185
ANTEPENÚLTIMO
A cada passo mais perto do fim Caminho inopinado para o nada. De ânsia apenas se fez a minha estrada, Onde nenhuma glória coube a mim.
Parto tão fracassado quanto vim À luz do vasto mundo… Na jornada, Vi o vento apagar cada pegada, Indiferente até se não ou sim.
Mais convém ao idealista a fantasia, Embora a realidade a cada dia Se imponha sobre os sonhos e os desejos.
No fim das contas, tudo é mais do mesmo: Atravessei desertos andando a esmo, A ter de fogos fátuos seus lampejos…
Belo Horizonte- 15 11 2022
212
NARCOLÉPTICO
O dia passa como se enevoado Co'os olhos entreabertos, salvo engano. N'um desarranjo de ciclo circadiano, Caminho de mim mesmo alienado.
Atravesso o expediente anestesiado, Visto incomunicável n'outro plano. Em pleno abandono do quotidiano, Arrasto-me de espírito alquebrado.
Cochilo entre vozes dissonantes A discutir assuntos importantes, Enquanto eu me congraço em evadir.
Fantasma pelo mundo material, Pareço errar em busca d'um final À minha nulidade de existir.
Betim - 18 11 1997
203
ORIUNDA
Não tanto os olhos, antes os olhares Contam de sua história e sua origem. Eram fundas miradas de vertigem, Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares E mesmo dos costumes que ‘inda afligem Mulheres que cobertas de fuligem S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia, Quando sustento o olhar para encará-la No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala E se retira certa de que, enfim, Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
367
SUBLIME
Estou triste esta noite, muito triste. Tanto, que até capaz de fazer versos… De modo geral, eu entre eus dispersos Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste Em fazer eu me outrar por eus diversos. Eu sou um deus que ao criar seus universos Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime Na noite ecoa vozes sacrossantas, Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas, Exijo um verso meu que legitime, Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
197
O CÉU N’AQUELE DIA
O CÉU N’AQUELE DIA
Era de tarde, o sol tinha se posto. O céu se abriu após um aguaceiro Em etéreo dourado que, ligeiro, Iluminou as rugas do meu rosto.
Eu sorri admirado e bem disposto Em vista do espetáculo que inteiro S’espalhou no horizonte derradeiro D’um dia bom deixado a contragosto.
Pareceu-me um presente do Universo Haver o céu em ouro assim disperso Alguns instantes pela eternidade.
Em êxtase de luzes envolvido, Gozei do entardecer agradecido Por sua áurea e fugaz realidade!
Betim - 30 06 2022
208
MUSSELINA
Através das florestas de amplos vales, Onde reinavam tigres colossais, Cultivam entre lírios algodoais De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis, Tecida a bem vestir às Casas Reais Com transparências leves e sensuais D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não. Mas todas buscam ter no coração O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio Em face d’um herdeiro cujo anseio Faísca em peito frio o ardor de amar!
Belo Horizonte - 04 06 2022
206
FRACASSADO
Assim, depois que a vida deu errado, — Ali pelos quarenta e poucos anos... — Parei de me iludir ou fazer planos, Visto ter só sinistros por legado!
A medo de buscar novos enganos Deixei as esperanças vãs de lado… Eu, entre mil fracassos, fracassado Agora a chafurdar solos mundanos:
No chão, enquanto a face toca a terra, Perdi tanto a batalha quanto a guerra Com aquela fé cega de quem sonha.
Resta escutar os hurras dos alaridos, Que os vencedores têm para os vencidos Ao passo que caminham na vergonha…!
Betim - 26 12 2020
189
A ESPADA DE DÂMOCLES
Busca antes à vaidade que à verdade Aquele se coloca sobre todos, Embora com bravatas e denodos A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade, Tentando aconselhar de muitos modos, Não percebe por sobre seus engodos A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono: Refestelado em luxo aqui e ali Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri. Até que horrorizado, quase ao sono, À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
593
NÓS COMO VÓS
Também nós temos sangue sob a pele -- Vermelho, não azul como sonhais... -- Mas, derramados, correm tão iguais, Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele Menos as diferenças do que os ais E mostre que todos perdem mais Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer, Andando n'esse mundo sem saber Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade E sorrir sem ser dono da verdade Àquele que m'estende a mão amiga.