Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
Lista de Poemas
O OLHO DE HÓRUS
O olho que a tudo vê, segundo diz
Todo aquele em mistérios iniciado,
Evoca do deus morto-e-reencarnado
A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz
E os atravessa a ver o que guardado:
Vidente do futuro e do passado,
Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte,
N’um olhar que, profundo, nos conforte,
Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém
Tem resposta quando olha para o Além…
N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
Todo aquele em mistérios iniciado,
Evoca do deus morto-e-reencarnado
A vingança contra o mal e seus ardis.
O olho que olha nos olhos do infeliz
E os atravessa a ver o que guardado:
Vidente do futuro e do passado,
Faz contemplar dos mortos seu país.
É quem sabe da vida após a morte,
N’um olhar que, profundo, nos conforte,
Até partirmos com ou sem revolta.
Pois símbolo d’aquilo que ninguém
Tem resposta quando olha para o Além…
N'ele, o Além para nós olha de volta.
Ouro Preto - 11 12 2022
175
NARCOLÉPTICO
O dia passa como se enevoado
Co'os olhos entreabertos, salvo engano.
N'um desarranjo de ciclo circadiano,
Caminho de mim mesmo alienado.
Atravesso o expediente anestesiado,
Visto incomunicável n'outro plano.
Em pleno abandono do quotidiano,
Arrasto-me de espírito alquebrado.
Cochilo entre vozes dissonantes
A discutir assuntos importantes,
Enquanto eu me congraço em evadir.
Fantasma pelo mundo material,
Pareço errar em busca d'um final
À minha nulidade de existir.
Betim - 18 11 1997
Co'os olhos entreabertos, salvo engano.
N'um desarranjo de ciclo circadiano,
Caminho de mim mesmo alienado.
Atravesso o expediente anestesiado,
Visto incomunicável n'outro plano.
Em pleno abandono do quotidiano,
Arrasto-me de espírito alquebrado.
Cochilo entre vozes dissonantes
A discutir assuntos importantes,
Enquanto eu me congraço em evadir.
Fantasma pelo mundo material,
Pareço errar em busca d'um final
À minha nulidade de existir.
Betim - 18 11 1997
192
ANTEPENÚLTIMO
A cada passo mais perto do fim
Caminho inopinado para o nada.
De ânsia apenas se fez a minha estrada,
Onde nenhuma glória coube a mim.
Parto tão fracassado quanto vim
À luz do vasto mundo… Na jornada,
Vi o vento apagar cada pegada,
Indiferente até se não ou sim.
Mais convém ao idealista a fantasia,
Embora a realidade a cada dia
Se imponha sobre os sonhos e os desejos.
No fim das contas, tudo é mais do mesmo:
Atravessei desertos andando a esmo,
A ter de fogos fátuos seus lampejos…
Belo Horizonte- 15 11 2022
Caminho inopinado para o nada.
De ânsia apenas se fez a minha estrada,
Onde nenhuma glória coube a mim.
Parto tão fracassado quanto vim
À luz do vasto mundo… Na jornada,
Vi o vento apagar cada pegada,
Indiferente até se não ou sim.
Mais convém ao idealista a fantasia,
Embora a realidade a cada dia
Se imponha sobre os sonhos e os desejos.
No fim das contas, tudo é mais do mesmo:
Atravessei desertos andando a esmo,
A ter de fogos fátuos seus lampejos…
Belo Horizonte- 15 11 2022
200
ORIUNDA
Não tanto os olhos, antes os olhares
Contam de sua história e sua origem.
Eram fundas miradas de vertigem,
Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares
E mesmo dos costumes que ‘inda afligem
Mulheres que cobertas de fuligem
S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia,
Quando sustento o olhar para encará-la
No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala
E se retira certa de que, enfim,
Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
Contam de sua história e sua origem.
Eram fundas miradas de vertigem,
Enviesadas a mim como a meus pares.
Contavam d’outras épocas, lugares
E mesmo dos costumes que ‘inda afligem
Mulheres que cobertas de fuligem
S’escondem atrás de homens e de altares.
Baixa a sua cabeça, todavia,
Quando sustento o olhar para encará-la
No afã de surpreender-lhe a fantasia.
Enigmaticamente, nada fala
E se retira certa de que, enfim,
Eu d’ela menos sei que ela de mim!
Betim - 05 09 2022
356
SUBLIME
Estou triste esta noite, muito triste.
Tanto, que até capaz de fazer versos…
De modo geral, eu entre eus dispersos
Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste
Em fazer eu me outrar por eus diversos.
Eu sou um deus que ao criar seus universos
Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime
Na noite ecoa vozes sacrossantas,
Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas,
Exijo um verso meu que legitime,
Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
Tanto, que até capaz de fazer versos…
De modo geral, eu entre eus dispersos
Em meio à algaravia que se assiste.
Tal tristeza por mim ainda insiste
Em fazer eu me outrar por eus diversos.
Eu sou um deus que ao criar seus universos
Distrai-se sem saber sequer se existe…
A inexacta medida do sublime
Na noite ecoa vozes sacrossantas,
Cujo cantar alhures me redime.
E ainda que através de mil gargantas,
Exijo um verso meu que legitime,
Ser triste, muito triste, vezes tantas…
Santa Bárbara - 23 08 1996
185
MUSSELINA
Através das florestas de amplos vales,
Onde reinavam tigres colossais,
Cultivam entre lírios algodoais
De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis,
Tecida a bem vestir às Casas Reais
Com transparências leves e sensuais
D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não.
Mas todas buscam ter no coração
O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio
Em face d’um herdeiro cujo anseio
Faísca em peito frio o ardor de amar!
Belo Horizonte - 04 06 2022
Onde reinavam tigres colossais,
Cultivam entre lírios algodoais
De fibras tão finas que sem males.
Divina manufatura dos bengalis,
Tecida a bem vestir às Casas Reais
Com transparências leves e sensuais
D’alvíssimos véus, túnicas ou xales.
Algumas belas amam; outras, não.
Mas todas buscam ter no coração
O encanto que hipnotiza o nobre olhar.
Deixam ver a nudez do níveo seio
Em face d’um herdeiro cujo anseio
Faísca em peito frio o ardor de amar!
Belo Horizonte - 04 06 2022
194
O CÉU N’AQUELE DIA
O CÉU N’AQUELE DIA
Era de tarde, o sol tinha se posto.
O céu se abriu após um aguaceiro
Em etéreo dourado que, ligeiro,
Iluminou as rugas do meu rosto.
Eu sorri admirado e bem disposto
Em vista do espetáculo que inteiro
S’espalhou no horizonte derradeiro
D’um dia bom deixado a contragosto.
Pareceu-me um presente do Universo
Haver o céu em ouro assim disperso
Alguns instantes pela eternidade.
Em êxtase de luzes envolvido,
Gozei do entardecer agradecido
Por sua áurea e fugaz realidade!
Betim - 30 06 2022
Era de tarde, o sol tinha se posto.
O céu se abriu após um aguaceiro
Em etéreo dourado que, ligeiro,
Iluminou as rugas do meu rosto.
Eu sorri admirado e bem disposto
Em vista do espetáculo que inteiro
S’espalhou no horizonte derradeiro
D’um dia bom deixado a contragosto.
Pareceu-me um presente do Universo
Haver o céu em ouro assim disperso
Alguns instantes pela eternidade.
Em êxtase de luzes envolvido,
Gozei do entardecer agradecido
Por sua áurea e fugaz realidade!
Betim - 30 06 2022
198
FRACASSADO
Assim, depois que a vida deu errado,
— Ali pelos quarenta e poucos anos... —
Parei de me iludir ou fazer planos,
Visto ter só sinistros por legado!
A medo de buscar novos enganos
Deixei as esperanças vãs de lado…
Eu, entre mil fracassos, fracassado
Agora a chafurdar solos mundanos:
No chão, enquanto a face toca a terra,
Perdi tanto a batalha quanto a guerra
Com aquela fé cega de quem sonha.
Resta escutar os hurras dos alaridos,
Que os vencedores têm para os vencidos
Ao passo que caminham na vergonha…!
Betim - 26 12 2020
— Ali pelos quarenta e poucos anos... —
Parei de me iludir ou fazer planos,
Visto ter só sinistros por legado!
A medo de buscar novos enganos
Deixei as esperanças vãs de lado…
Eu, entre mil fracassos, fracassado
Agora a chafurdar solos mundanos:
No chão, enquanto a face toca a terra,
Perdi tanto a batalha quanto a guerra
Com aquela fé cega de quem sonha.
Resta escutar os hurras dos alaridos,
Que os vencedores têm para os vencidos
Ao passo que caminham na vergonha…!
Betim - 26 12 2020
181
A ESPADA DE DÂMOCLES
Busca antes à vaidade que à verdade
Aquele se coloca sobre todos,
Embora com bravatas e denodos
A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade,
Tentando aconselhar de muitos modos,
Não percebe por sobre seus engodos
A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono:
Refestelado em luxo aqui e ali
Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri.
Até que horrorizado, quase ao sono,
À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
Aquele se coloca sobre todos,
Embora com bravatas e denodos
A jactar-se com grande propriedade.
Quem se dá excessiva liberdade,
Tentando aconselhar de muitos modos,
Não percebe por sobre seus engodos
A espada por um fio de maldade...
Assemelha-se a Dâmocles no trono:
Refestelado em luxo aqui e ali
Como de tudo aquilo fosse dono.
Patético, dos outros zomba e ri.
Até que horrorizado, quase ao sono,
À espada vê pendente sobre si!
Betim - 12 12 2018
582
NÓS COMO VÓS
Também nós temos sangue sob a pele
-- Vermelho, não azul como sonhais... --
Mas, derramados, correm tão iguais,
Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele
Menos as diferenças do que os ais
E mostre que todos perdem mais
Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer,
Andando n'esse mundo sem saber
Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade
E sorrir sem ser dono da verdade
Àquele que m'estende a mão amiga.
Belo Horizonte - 17 11 2018
-- Vermelho, não azul como sonhais... --
Mas, derramados, correm tão iguais,
Que sequer se distingue este d'aquele.
Entre nós e vós, tal sangue enfim revele
Menos as diferenças do que os ais
E mostre que todos perdem mais
Quando o afã de vitórias os impele.
Nós como vós havemos-de morrer,
Andando n'esse mundo sem saber
Aonde se vai dar com tanta briga.
O certo é respeitar a liberdade
E sorrir sem ser dono da verdade
Àquele que m'estende a mão amiga.
Belo Horizonte - 17 11 2018
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Comentários (5)
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Lindos poemas ,meu caro!
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
bom vê-lo por aqui
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!