Pretendo todo o tempo andar atento, Mas quanto mais eu tento mais me atenta: A distância à lembrança só aumenta, Conquanto nada esteja ora a contento.
Entanto, mesmo sem qualquer intento Sempre e sempre o passado se apresenta... E com ele quanto ele representa De novo em pensamento e sentimento..
Assim, para esquecer um grande amor, Que se faz presente por saudade e dor É preciso fingir que não me importe.
Amar, quando o passado é tão presente Seja algo em todo caso diferente, Não minha costumaz falta de sorte...
Belo Horizonte - 03 05 1993
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CONCORDES
CONCORDES De acordo co'os acordes que te fiz, Eu te acordo co'as cordas do violão E te acovardo a dor do coração N'um canto em cujo encanto és feliz. Incorporado o ritmo, um aprendiz Eu me faço no compasso da canção. E, passo a passo, passo-te a emoção Tão certo quanto bem te quero e quis. De cor o acorde, pois, te acode e acorda Quando, a poesia e a música concordes, Se veem canção que bem o amor aborda. Talvez assim de mim tu te recordes Enquanto meu amor por ti transborda: Na harmonia de versos, mais acordes... Betim - 09 08 1993
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PARABÉNS!!
PARABéNS!!
Se tu soubesses qu'eu sou teu poeta, Com certeza já não surpreenderia Cantar-te à sereníssima alegria Versos por tua data predileta.
Mas telegrama em mãos d'um estafeta Do meu amor por ti pouco diria. Ou mesmo um ramalhete ao fim do dia Celebrando a conquista d'outra meta...
No jardim dos teus anos, outra linda Flor entre as flores colhes hoje ainda Com toda a delicadeza que tu tens.
Hoje possam por ti se abrir os céus, A que recebas palmas e troféus: -- "Felicidades, linda! Parabéns!! "
Belo Horizonte - 11 12 1991
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D'ORAVANTE
D'ORAVANTE Não mais ser um refém de meus problemas! Mas, no que depender de mim então, Poete eu a minha humana condição E não outra engrenagem nos sistemas... Para valer a pena escrever poemas Carece mais ter dúvidas à mão, Que sempre para tudo solução Na vida e seus inúmeros dilemas. D'oravante serei calmo, não frio Ciente de que a verdade, na verdade Se revela n'algum canto sombrio. E ainda que não seja novidade, -- Ao contrário, p'ra mim até tardio -- Saiba eu ver tudo com serenidade. Betim - 30 12 2017
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GARAPA
GARAPA
Passa a cana na moenda, colhe o caldo E espreme dois limões mais o bagaço. Tem-de fazer do jeito como eu faço, Senão arrisca ao fim ser tudo baldo.
Nas contas lá do céu tem de ter saldo P'ra Deus abençoar nosso cansaço. Bebendo, estalo os beiços: -- "Geladaço!..." E eu um copo após outro já m'esbaldo.
Fazendo assim-assado há-de dar certo. Qualquer outro refresco nem de perto Me mata a fome e a sede n'um só gole.
Fica a palavra dada e o arranjo feito: Garapa preparada d'este jeito Deixa o sujeito até de miolo mole...
Belo Horizonte - 29 11 2017
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ILÓGICO
Outra vez, terminou sem começar. Qual ser sem ser do amor fosse premissa. Feito um fósforo cujo ardor se atiça Apenas para após ver se apagar...
Venceu a nulidade ao não amar Por premissa segunda ou por preguiça: Sentimento que em vão se desperdiça É tesouro no fundo d'algum mar...
Tendo por regra ser algo inseguro, Não me traz o amor mais que insanidade, Logo, n'ele não há o que procuro.
E em face d'essa ilógica verdade, Concluo de silogismo tão obscuro Ter por lugar-comum felicidade.
Betim - 05 05 1996
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UM DESALMADO
A vida é movimento continuado Do ser entre se almar e desalmar. Por pena ou humanidade, há-que encontrar Algum discernimento mais confiado.
O mundo fez de mim um desalmado No dia em que cessei de me importar E a esperança deixou de ter lugar Dentro do coração amargurado.
Com efeito, parece que minh'alma Perdera-se-me e bem com ela a calma Que tinha no semblante quando moço.
E o pouco ou quase nada que hoje sinto Só lembra do que tanto me ressinto, E tem me feito mais e mais insosso...
Betim - 19 12 2017
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N'OUTRAS PALAVRAS
N'OUTRAS PALAVRAS
Tem gente que se faz ora de mouca Certa que uma palavra mais aflita Não cale ao peito a dor, tão-só a grita, Seja a sua desdita muita ou pouca.
Contudo, mesmo quando dita louca, Soa à poesia ainda não escrita... Pode variar de errática à infinita Até deixar-me a fala quase rouca.
Tem gente que se faz ora de surda, Pois crê toda a poesia ser absurda, Ficando o dito por não dito ou mudo...
N'outras palavras, poeto do que quero Se, e somente se, quanto for sincero Emergir do inconsciente mais agudo!
Gov. Valadares - 04 04 1995
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ELA E ELE – amor em três actos
ELA E ELE - amor em três actos
PROÊMIO
Diante de nossos olhos acontece Alguma história assim todos os dias: Ela e Ele compartilham-se alegrias À medida que um ao outro mais conhece.
Esta história tantas mais parece... Tanto, que não importam as etnias, Pátrias, lugares, épocas, poesias Ou nem sequer o deus de cada prece.
Tampouco hão-de importar que nomes tomem... Seja Ela mulher; Ele, apenas homem. Vós-outros os chamais como quiserdes!
Resta, contudo, a vós eu advertir Que os três actos d'amor logo a seguir Também repetireis se não souberdes...
* * *
ACTO PRIMEIRO - O enamoro
PRAZER EM CONHECER
Ele vem sem saber para que vem... Anda tão distraído que por nada Espera que lhe exista alguma estrada Para se seguir junto com alguém.
Ela chega sem qu'Ele olhe. Porém, Quando a vê a percebe inalterada... Ao certo pensa ainda uma hora errada Para o querer consigo Ela também.
Ele conversa mesmo sendo em vão Manter-se longe o olhar do coração E deixar de qualquer outra esperança.
Ela, por mais sensata, se protege Por entender que a estrela que lhe rege Não brilha tanto quanto na lembrança.
* * *
ATÉ BREVE
Caminhos que se cruzam e após vão Aonde for possível e além ir... Ele não foi sequer se despedir Quando Ela partiu com seu coração.
Ela o levou consigo, embora em vão. Por temer consequências no porvir, Afastou-se a melhor se descobrir, Sem saber d'Ele e sua escuridão.
Ele espera; Ela, não. Ou melhor, vê Cada extremo senão, cada porquê, Em face já de sua ampla insistência.
Ele, por distraído ou tolo, fala Ao passo que, atenciosa, Ela se cala Sem saber que esperar da experiência.
* * *
POR OBSÉQUIO
Ele se derrama em mimos e atenções; E Ela, entre lisonjeada e reticente, Confrontando o homem ora à sua frente, Contesta uma a uma suas ilusões.
Ele responde já não ter opções: Precisa conhecê-la tão somente. E se algo acontecer qual tem em mente Não sofrem eles maiores decepções.
Curiosa, Ela já quer saber seu plano Apenas a mostrar com quanto engano Pretendia Ele entrar em sua vida.
Ele se reconhece enamorado D'Ela e, deverasmente, culpa o Fado Querer quem a Ele tão desconhecida.
* * *
ACTO SEGUNDO - os amantes
ANTEGOZO
Ela já se deleita em tê-lo ao lado E sente falta d'Ele se se ausenta. Ele, sempre que pode, se apresenta À sua porta com ledo cuidado.
Lá chegando, se sente transportado Ao aconchego que alegre experimenta. Horas gozosas... Quando Ela o contenta E às quais Ele, aliás, se fez rogado...
Ele lhe beija as mãos com tal ternura Qu'Ela enfim se abandona à calentura De o ter tão docemente junto d'Ela.
Mas sem um mais nem quê, logo Ela chora... Vendo-a emotiva, tímido, Ele cora E beija o rosto tépido à donzela.
* * *
TONS SOBRE TONS
Ela chora. Dois olhos d'água ao rosto. Ele lhe bebe as lágrimas... E sorri!... Beija-a violentamente aqui e ali Até da própria dor Ela ter gosto.
Ele toma do cinto ao largo posto E ata seus pulsos bem junto de si. Cheira-lhe o pescoço, a colibri... Após, rasga o vestido descomposto.
Suga faminto, pálidos, seus seios... Mais torturando-a até sentir anseios: Faz com que implore ser toda desnuda.
Ele a olha... Ela é mais bela que a beleza! Vê em seus olhos sós a chama acesa E afinal a possui, confusa e muda.
* * *
ÊXTASE
Amaram-se em silêncio, sem ousar Que palavras quebrassem esse encanto. Ela se arqueia e freme... Cai a um canto E o abraça forte sem nada falar.
Ele logo a aninha ávido a secar Aquela última lágrima em seu pranto. Quando beija seus olhos ao acalanto De carícia impossível de findar.
Ela reluz igual gema brilhante Ao palor que Ele exsuda n'esse instante E molha os lençóis sob o casal.
Ela sorri. Alumbra-se seu rosto. Ele registra o quadro ali composto E adormece em seus braços afinal.
* * *
ACTO TERCEIRO - o desenlace
DEPOIS DO AMOR
Acorda co'o barulho do retrete E levanta, automático, para ir. Espera que Ela saia para partir, Despedindo-se pouco antes das sete.
E, na saída, a cena se repete: Mais beijos estalados a se ouvir! Ela o abraça, querendo lhe impedir. Ele a beija, deixando-a no tapete...
No caminho, remorsos e segredos O acompanham até os arvoredos Onde tenta ocultar todo pecado.
Sob as sombras, mil vezes se maldiz... Infeliz por ter sido tão feliz, Ainda que em lugar ou dia errado!
* * *
ANTES DA DOR
Ela está tão contente! Mal sabe Ela... Pensa qu'Ele saiu para o trabalho. Mas volta n'um horário incerto e falho Enquanto Ela observava da janela.
Passou as horas lívida e singela, À espera d'um patético espantalho, Que volta com cara de paspalho E ainda atucanado para vê-la.
Abre a porta sorrindo e o faz entrar. Ela procura em vão lhe animar, A Ele que vai partir seu coração.
Quando sua mudez enfim se impôs, Percebe o seu silêncio ser o algoz, Que traz a Ela de volta a escuridão.
* * *
ENTRE OLHOS
Ela olha para Ele: Estava arredio. A conversa sem fio e sem lugar. Ela o acarinha; Ele a repele ao tocar: Enquanto o arde d'amor, gela-a de frio.
Perdido o olhar, Ele a olha vazio. Em si vagou e só foi se encontrar: O coração, medroso para amar; O corpo, seco por saciado o cio.
Ela o olha, mas Ele não está ali! Ora chora quem por último ri E os olhos nos seus olhos não são seus...
Espelham-se sem ver quem bem à frente... Se impossível dizer que têm em mente Só o silêncio entre olhos diz -- "Adeus..."
* * *
EPÍLOGO
Como vos adverti, conto comum Esse que a vós narrei de amor e dor. Ide de volta ao lar com mais ardor Reviver tudo com alguém ou algum.
Se o gozo d'essa vida for nenhum, Ao menos a lembrança tem valor D'aqueles que se amaram sem supor, Que repetissem um lugar-comum.
Assim também amais e sois amados, Mas vós -- por bem ou mal enamorados Ou que buscais no amor algum conforto. --
Ouvi, portanto, a luz da narrativa: -- "Antes morrer d'amor para que viva, Que avivar o amor depois morto."
Galileia - 04 01 1994
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ASSENTAMENTO
Era roça, mas tinha ardor de luta. Não era terra herdada, era conquista. Pois não fora comprada a prazo ou a vista, Ao que a sua valia era absoluta.
Por nada nem ninguém se lhe permuta Esta terra a seus olhos tão bem-quista, Retomada d'algum monopolista, Visto que improdutiva e devoluta...
Cabanas e roçados dão a posse Aos homens e mulheres assentados N'um chão regado à lágrima agridoce.
Mas sonhos pelos campos veem semeados. E, prontos a enfrentar quem quer que fosse, Verdejam os terrenos ocupados.