Sobre as águas do rio, os ingazeiros Avançam suas copas entre as margens No afã de espalharem n'outras vargens Sombrias os seus galhos sobranceiros.
Nada obstante, os lumes derradeiros Vão apagando o verde das almargens Ao obscurecer na noite as contramargens, Que então se ocultam d'olhos passageiros.
Húmida, a mata à borda do caminho Bafeja o seu frescor bem de mansinho Em minhas faces tépidas e exaustas.
Paro e reparo o dia indo-se embora, Ao pé da serra imensa que descora, A ouvir dos juritis canções infaustas.
Juatuba - 13 06 2023
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VERSOS D'ALCOVA
Ainda em meio ao banho, por espelhos, Te observava os reflexos no azulejo. Desnuda-se a beleza n’um lampejo: Curvas d’ombros, seios, nádegas, joelhos...
Mas, se paixões desdenham de conselhos, Baldo é ditar razões contra o desejo…! Ao toque de meus dedos, suave arpejo, Deixaste nossos corpos já parelhos.
Logo não serei mais do que a loucura De, ávido, m’embriagar da formosura De tuas nuas curvas femininas.
Após, abandonado sobre a alcova, Com teus olhos nos meus eu me comova, Revendo o teu prazer pelas retinas.
Belo Horizonte – 02 02 1992
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NEVES ETERNAS
O topo alcantilado da montanha, Visto desde as estepes quase infindas, Vem dar ao aventureiro boas-vindas E após sua jornada ele acompanha.
Parte em caminhada assim tamanha Em meio aos sós "aondes?..." ou aos "aindas!..." Buscando as panorâmicas mais lindas, Qual tesouros que ao léu a si apanha.
Alheio às incertezas do inaudito, Nosso herói tomará o longo aclive E um destino que temos por maldito.
Alcance a morte quem ousado vive, Mas no topo estará ainda escrito Junto a seu nome e a data: "Aqui estive".
Belo Horizonte – 10 01 2005
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POR VIA DE REGRA, para Marielle Franco
Com efeito, era negra e era mulher. Estatisticamente, o seu lugar Não era este que soube ela ocupar, Incomodando os donos do poder.
Dignou-se pela coragem e o saber E quantos a ela vieram destratar Antes tinham em mente lhe calar, Que verdadeiramente algo a dizer...
Aquela linda e sábia mulher negra Fora a exceção que só confirma a regra De ser o mundo para alguns somente.
Inobstante, nem mesmo a sua morte Há-de calar-lhe a voz sempre mais forte: Marielle, mulher eleita — "Presente!".
Belo Horizonte - 04 10 2018
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AS AMAZONAS
Nuas, as duas belas se entreolharam, Entregues aos prazeres mais proibidos. Na embriaguez de desejos escondidos. Admiradas de si, elas se amaram.
Logo os lábios das lésbias se tocaram. E seus mamilos já intumescidos, Como se figos alvos bem crescidos, Uma à outra, dulcíssimos, beijaram.
Orvalhados os sexos, já arfantes Se trocavam carícias delirantes Com ardores e gozos inclementes.
Amazonas, guerreiras do amor, Cavalgam-se com tríbade furor, Para juntas tombarem inconscientes...