Entre doses de vodca e solidão, O poeta olha a puta o provocando Até se perguntar, de quando em quando, Se estava lá por tédio ou por tesão.
A puta está ali por profissão E lhe vem, rebolativa, ao seu comando. Sorri e bebe o qu'ele está tomando Sabendo causar tórrida impressão.
Ela derrete o gelo nos seus lábios E com voz maliciosa ela lhe diz, Fazer o poeta um pouco mais feliz.
Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios, Declina de usufruir d'essa beleza, Temendo ter a dar tão-só tristeza...
Belo Horizonte - 08 10 2018
532
AMAR
Não te amo por me amares ou quereres, Mas sim porque te amando me conheço. Amar foi me saber desde o começo Aprendiz nos mistérios dos prazeres...
Desde então, entre todas as mulheres, Eu quis o teu olhar a qualquer preço, Mas tive muito mais do que mereço Após me submeter aos teus poderes:
Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro! Deusa em meu templo; diva do meu teatro, Deste-me a conhecer teu esplendor.
Não sei se aqui é inferno ou paraíso, Apenas sei, divina, é qu'eu preciso D'aquela em cujos olhos vi amor.
Belo Horizonte - 06 10 2018
608
ÍNTIMO TARDIO
Tenho estado acordado à noite toda N'outra vigília em meio aos pernilongos, A contar em sinalefas os ditongos E ainda dispor hiatos à áurea moda.
A despeito de quanto me incomoda Na insônia me buscar dias mais longos, Adivinho no escuro camundongos, Que sobre o forro vão e vêm em roda...
No silêncio onde habita mil ruídos, Recordo de meus versos esquecidos Enquanto o vento me uiva um assobio.
E, entendendo que contam minha vida, Eu atravesso a noite mal dormida Na escuta atenta do íntimo tardio.
Betim - 08 10 2018
584
CHORAMINGAS
Ela enxugava as lágrimas n'um lenço E depois balbuciava alguma queixa. Também caras e bocas feito gueixa Fazia ao me mostrar despeito imenso.
Se sempre tinha seus motivos, penso, Bem maiores do que eram ela os deixa. Deveras, contrariada a mim se queixa Após pôr as verdades em suspenso.
Tenho para mim qu'ela nem é triste E chora tão clamosa porque insiste Em ver sua vontade realizada.
Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio E enxugo as suas lágrimas por brio: -- "Não chores, meu neném, não muda nada..."
Belo Horizonte - 04 06 2018
320
QUER SIM QUER NÃO
Tudo depende então do que se quer: Eu olho nos teus olhos e sorrio. Tu me sorris de volta em desafio, Ambígua como sabe uma mulher.
Talvez tu não me olhasses a valer Ou me sorrisses bem ao teu feitio... A qu'eu, embora tímido e arredio, Passe a falar-te quando bem quiser.
Porque querer tem d'essas liberdades Que às vezes nos carregam pela mão E põe em turbilhão nossas vontades.
Mas mais busco as razões do coração, E, entre imaginações e realidades, O querer a querer -- quer sim quer não!
Betim - 26 09 2018
559
O APÓSTATA
Quanto às religiões, não lhe interessa Trocar velhos grilhões por outros novos. O divino ainda é imposto aos povos Ora por ordem; ora por promessa.
À fé que inopinado se confessa Deixou aos extremistas cristãos-novos Ao assistir das Igrejas os renovos, N'uma verborragia ouvida à pressa.
Vira-se desgarrado do rebanho, Que seguira em verdade desde antanho Após sozinho ouvir a própria voz.
E decidiu fazer-se diferente Como gentio em meio àquela gente, Por certeza do certo, tão feroz...
Betim - 28 09 2018
588
VERSILIBRISMO
Que meus versos não sirvam a ninguém, E que mais nunca os prendam a cadenas! Sem carecer senhores nem mecenas, Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.
São lumes que não sabem a que vêm Estes versos que escrevo a duras penas. Se de mim para mim servem apenas, Serão de quem quiser lê-los também.
Passado o cativeiro, porém, ando Serras e terras vãs atravessando Tão-só pela alegria de escrever.
Alheio aos privilégios dos perversos, Estejam por direito estes meus versos Livres para que todos possam ler.
Betim – 17 09 2007
658
CODICILO
Pelo presente escrito a próprio punho E com pleno poder das faculdades, Expresso as minhas últimas vontades Em dar, perto da morte, testemunho.
Deste modo: "Nos idos já de junho, Vendo me sem porvires nem verdades, Disponho do que é meu com liberdades E dou fé às más firmas que cunho:"
"Minha mobília e roupas podem doar, Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, Tão pouco me servira quando vivo…"
"Meus versos deixo a quem os souber ler Mais os livros escritos sem saber Ao fim para viver qualquer motivo."
Contagem - 03 06 2004
630
ALFORRIA
Pois, se a liberdade é uma conquista, De facto não se nasce livre, torna-se; A face d'um sorriso aberto adorna-se Com aquilo que os olhos têm em vista.
Ninguém nos dá ardor com que resista. Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se. Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se E as quedas não demovem o optimista.
Porque tal carta não me fora herdada, Tampouco por senhores concedida, Antes com sangue e lágrimas comprada.
E àqueles que hão-de vir, dou por sabida N'uma alforria a ser reconquistada Viver todos os dias d'essa vida.
Betim - 01 10 2018
576
FLORES INÚTEIS
Sinto como se tudo à minha volta Fosse uma epifania ainda adiada Ou meus olhos olhando para o nada Ardessem de desejo e de revolta.
Eu vago pela noite sem escolta A surpreender azuis na madrugada, E ignoraria o afã da caminhada Não fosse o eco d'alguma frase solta:
No altar d'um deus finado me persigno Enquanto velhos fiéis cantando um hino Ornam flores inúteis para os mortos.
Contribuo com meu cravo na lapela E deixo enternecido essa capela Aonde vieram dar meus passos tortos.