Entre doses de vodca e solidão, O poeta olha a puta o provocando Até se perguntar, de quando em quando, Se estava lá por tédio ou por tesão.
A puta está ali por profissão E lhe vem, rebolativa, ao seu comando. Sorri e bebe o qu'ele está tomando Sabendo causar tórrida impressão.
Ela derrete o gelo nos seus lábios E com voz maliciosa ela lhe diz, Fazer o poeta um pouco mais feliz.
Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios, Declina de usufruir d'essa beleza, Temendo ter a dar tão-só tristeza...
Belo Horizonte - 08 10 2018
531
AMAR
Não te amo por me amares ou quereres, Mas sim porque te amando me conheço. Amar foi me saber desde o começo Aprendiz nos mistérios dos prazeres...
Desde então, entre todas as mulheres, Eu quis o teu olhar a qualquer preço, Mas tive muito mais do que mereço Após me submeter aos teus poderes:
Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro! Deusa em meu templo; diva do meu teatro, Deste-me a conhecer teu esplendor.
Não sei se aqui é inferno ou paraíso, Apenas sei, divina, é qu'eu preciso D'aquela em cujos olhos vi amor.
Belo Horizonte - 06 10 2018
607
HOMENS DE BEM
Aqueles que se arvoram justiceiros Pretendem ter as leis a seu favor. Onde cada um juiz e executor, Impondo veredictos a terceiros.
Têm-se em conta de grandes brasileiros, Porém confundem ordem com vigor, Quando em favelas tocam o terror Como lá fossem todos desordeiros...
O autointitulado homem de bem, No afã de justiçar co'as próprias mãos, Atira sem saber ao certo em quem.
Até porque, se uns bons por entre os vãos Forem vistos caídos lá também, Vão contá-los ladrões, não cidadãos...
Betim - 05 10 2018
587
VERSILIBRISMO
Que meus versos não sirvam a ninguém, E que mais nunca os prendam a cadenas! Sem carecer senhores nem mecenas, Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.
São lumes que não sabem a que vêm Estes versos que escrevo a duras penas. Se de mim para mim servem apenas, Serão de quem quiser lê-los também.
Passado o cativeiro, porém, ando Serras e terras vãs atravessando Tão-só pela alegria de escrever.
Alheio aos privilégios dos perversos, Estejam por direito estes meus versos Livres para que todos possam ler.
Betim – 17 09 2007
657
CODICILO
Pelo presente escrito a próprio punho E com pleno poder das faculdades, Expresso as minhas últimas vontades Em dar, perto da morte, testemunho.
Deste modo: "Nos idos já de junho, Vendo me sem porvires nem verdades, Disponho do que é meu com liberdades E dou fé às más firmas que cunho:"
"Minha mobília e roupas podem doar, Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, Tão pouco me servira quando vivo…"
"Meus versos deixo a quem os souber ler Mais os livros escritos sem saber Ao fim para viver qualquer motivo."
Contagem - 03 06 2004
628
ALFORRIA
Pois, se a liberdade é uma conquista, De facto não se nasce livre, torna-se; A face d'um sorriso aberto adorna-se Com aquilo que os olhos têm em vista.
Ninguém nos dá ardor com que resista. Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se. Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se E as quedas não demovem o optimista.
Porque tal carta não me fora herdada, Tampouco por senhores concedida, Antes com sangue e lágrimas comprada.
E àqueles que hão-de vir, dou por sabida N'uma alforria a ser reconquistada Viver todos os dias d'essa vida.
Betim - 01 10 2018
574
O APÓSTATA
Quanto às religiões, não lhe interessa Trocar velhos grilhões por outros novos. O divino ainda é imposto aos povos Ora por ordem; ora por promessa.
À fé que inopinado se confessa Deixou aos extremistas cristãos-novos Ao assistir das Igrejas os renovos, N'uma verborragia ouvida à pressa.
Vira-se desgarrado do rebanho, Que seguira em verdade desde antanho Após sozinho ouvir a própria voz.
E decidiu fazer-se diferente Como gentio em meio àquela gente, Por certeza do certo, tão feroz...
Betim - 28 09 2018
586
QUER SIM QUER NÃO
Tudo depende então do que se quer: Eu olho nos teus olhos e sorrio. Tu me sorris de volta em desafio, Ambígua como sabe uma mulher.
Talvez tu não me olhasses a valer Ou me sorrisses bem ao teu feitio... A qu'eu, embora tímido e arredio, Passe a falar-te quando bem quiser.
Porque querer tem d'essas liberdades Que às vezes nos carregam pela mão E põe em turbilhão nossas vontades.
Mas mais busco as razões do coração, E, entre imaginações e realidades, O querer a querer -- quer sim quer não!
Betim - 26 09 2018
556
GRÃOS DE POESIA
Não me interessa ser mais e melhor N'esse mundo onde tantos são tão bons. Cuido de m'expressar tendo ou não dons Sem lhes pedir licença nem louvor.
Àqueles que me leem peço o favor Que não me julgueis mal em meus frissons Se entre preto e branco há mil entretons, Mesmo maus versos têm o seu valor...
Escrevo mal e pouco, mas escrevo. Ao menos do que faço nunca devo Inspiração a quem mais quer que seja.
Mas podem não gostar... Ninguém obrigo! Só obrigado estou de mim comigo Em dar grãos de poesia a quem deseja.
Betim - 23 09 2018
378
CHORAMINGAS
Ela enxugava as lágrimas n'um lenço E depois balbuciava alguma queixa. Também caras e bocas feito gueixa Fazia ao me mostrar despeito imenso.
Se sempre tinha seus motivos, penso, Bem maiores do que eram ela os deixa. Deveras, contrariada a mim se queixa Após pôr as verdades em suspenso.
Tenho para mim qu'ela nem é triste E chora tão clamosa porque insiste Em ver sua vontade realizada.
Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio E enxugo as suas lágrimas por brio: -- "Não chores, meu neném, não muda nada..."