Não te amo por me amares ou quereres, Mas sim porque te amando me conheço. Amar foi me saber desde o começo Aprendiz nos mistérios dos prazeres...
Desde então, entre todas as mulheres, Eu quis o teu olhar a qualquer preço, Mas tive muito mais do que mereço Após me submeter aos teus poderes:
Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro! Deusa em meu templo; diva do meu teatro, Deste-me a conhecer teu esplendor.
Não sei se aqui é inferno ou paraíso, Apenas sei, divina, é qu'eu preciso D'aquela em cujos olhos vi amor.
Belo Horizonte - 06 10 2018
605
HOMENS DE COR
Preto, branco, amarelo, pardo, mel... Diversos mas iguais por sob a pele. Inteira a humanidade se revele No seu existir entre a terra e o céu!
A História há-de correr com seu tropel, Arrastando as paixões aonde impele. O indivíduo, contudo, se rebele Em face dos tiranos quando réu.
Os homens são os mesmos, lá e aqui. Sua grandeza está no que constroem, E não nas amarguras que os corroem.
Libertos da opressão, mais lhes sorri A verdade através dos tempos idos Que a glória relativa dos temidos.
Betim - 10 10 2018
586
HOMENS DE BEM
Aqueles que se arvoram justiceiros Pretendem ter as leis a seu favor. Onde cada um juiz e executor, Impondo veredictos a terceiros.
Têm-se em conta de grandes brasileiros, Porém confundem ordem com vigor, Quando em favelas tocam o terror Como lá fossem todos desordeiros...
O autointitulado homem de bem, No afã de justiçar co'as próprias mãos, Atira sem saber ao certo em quem.
Até porque, se uns bons por entre os vãos Forem vistos caídos lá também, Vão contá-los ladrões, não cidadãos...
Betim - 05 10 2018
585
VERSILIBRISMO
Que meus versos não sirvam a ninguém, E que mais nunca os prendam a cadenas! Sem carecer senhores nem mecenas, Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.
São lumes que não sabem a que vêm Estes versos que escrevo a duras penas. Se de mim para mim servem apenas, Serão de quem quiser lê-los também.
Passado o cativeiro, porém, ando Serras e terras vãs atravessando Tão-só pela alegria de escrever.
Alheio aos privilégios dos perversos, Estejam por direito estes meus versos Livres para que todos possam ler.
Betim – 17 09 2007
654
ALFORRIA
Pois, se a liberdade é uma conquista, De facto não se nasce livre, torna-se; A face d'um sorriso aberto adorna-se Com aquilo que os olhos têm em vista.
Ninguém nos dá ardor com que resista. Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se. Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se E as quedas não demovem o optimista.
Porque tal carta não me fora herdada, Tampouco por senhores concedida, Antes com sangue e lágrimas comprada.
E àqueles que hão-de vir, dou por sabida N'uma alforria a ser reconquistada Viver todos os dias d'essa vida.
Betim - 01 10 2018
571
ARREPENDIMENTOS
Tudo o que todos querem nos ouvir É que as coisas vão dar certo no fim. Fiz quanto pude; dei tudo de mim, Mas hoje desconfio inexistir...
Do que vi e vivi deixo ao porvir Esse passado tantas vezes ruim, Que quase não distingo não e sim, Receoso de que vá me ressentir.
Andando sem olhar mais para trás, Passei a acreditar que tanto faz O ponto aonde a gente vai chegar.
Talvez me reconheça arrependido De tudo que podia ou não ter sido Até poder de facto m'encontrar.
Betim - 24 09 2018
333
CODICILO
Pelo presente escrito a próprio punho E com pleno poder das faculdades, Expresso as minhas últimas vontades Em dar, perto da morte, testemunho.
Deste modo: "Nos idos já de junho, Vendo me sem porvires nem verdades, Disponho do que é meu com liberdades E dou fé às más firmas que cunho:"
"Minha mobília e roupas podem doar, Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, Tão pouco me servira quando vivo…"
"Meus versos deixo a quem os souber ler Mais os livros escritos sem saber Ao fim para viver qualquer motivo."
Contagem - 03 06 2004
627
CHORAMINGAS
Ela enxugava as lágrimas n'um lenço E depois balbuciava alguma queixa. Também caras e bocas feito gueixa Fazia ao me mostrar despeito imenso.
Se sempre tinha seus motivos, penso, Bem maiores do que eram ela os deixa. Deveras, contrariada a mim se queixa Após pôr as verdades em suspenso.
Tenho para mim qu'ela nem é triste E chora tão clamosa porque insiste Em ver sua vontade realizada.
Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio E enxugo as suas lágrimas por brio: -- "Não chores, meu neném, não muda nada..."
Belo Horizonte - 04 06 2018
316
GRÃOS DE POESIA
Não me interessa ser mais e melhor N'esse mundo onde tantos são tão bons. Cuido de m'expressar tendo ou não dons Sem lhes pedir licença nem louvor.
Àqueles que me leem peço o favor Que não me julgueis mal em meus frissons Se entre preto e branco há mil entretons, Mesmo maus versos têm o seu valor...
Escrevo mal e pouco, mas escrevo. Ao menos do que faço nunca devo Inspiração a quem mais quer que seja.
Mas podem não gostar... Ninguém obrigo! Só obrigado estou de mim comigo Em dar grãos de poesia a quem deseja.
Betim - 23 09 2018
375
O APÓSTATA
Quanto às religiões, não lhe interessa Trocar velhos grilhões por outros novos. O divino ainda é imposto aos povos Ora por ordem; ora por promessa.
À fé que inopinado se confessa Deixou aos extremistas cristãos-novos Ao assistir das Igrejas os renovos, N'uma verborragia ouvida à pressa.
Vira-se desgarrado do rebanho, Que seguira em verdade desde antanho Após sozinho ouvir a própria voz.
E decidiu fazer-se diferente Como gentio em meio àquela gente, Por certeza do certo, tão feroz...