Lista de Poemas

ÍNTIMO TARDIO

Tenho estado acordado à noite toda
N'outra vigília em meio aos pernilongos,
A contar em sinalefas os ditongos
E ainda dispor hiatos à áurea moda.

A despeito de quanto me incomoda
Na insônia me buscar dias mais longos,
Adivinho no escuro camundongos,
Que sobre o forro vão e vêm em roda...

No silêncio onde habita mil ruídos,
Recordo de meus versos esquecidos
Enquanto o vento me uiva um assobio.

E, entendendo que contam minha vida,
Eu atravesso a noite mal dormida
Na escuta atenta do íntimo tardio.

Betim - 08 10 2018
570

AMAR

Não te amo por me amares ou quereres,
Mas sim porque te amando me conheço.
Amar foi me saber desde o começo
Aprendiz nos mistérios dos prazeres...

Desde então, entre todas as mulheres,
Eu quis o teu olhar a qualquer preço,
Mas tive muito mais do que mereço
Após me submeter aos teus poderes:

Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro!
Deusa em meu templo; diva do meu teatro,
Deste-me a conhecer teu esplendor.

Não sei se aqui é inferno ou paraíso,
Apenas sei, divina, é qu'eu preciso
D'aquela em cujos olhos vi amor.

Belo Horizonte - 06 10 2018
594

ALFORRIA

Pois, se a liberdade é uma conquista,
De facto não se nasce livre, torna-se;
A face d'um sorriso aberto adorna-se
Com aquilo que os olhos têm em vista.

Ninguém nos dá ardor com que resista.
Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se.
Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se
E as quedas não demovem o optimista.

Porque tal carta não me fora herdada,
Tampouco por senhores concedida,
Antes com sangue e lágrimas comprada.

E àqueles que hão-de vir, dou por sabida
N'uma alforria a ser reconquistada
Viver todos os dias d'essa vida.

Betim - 01 10 2018
563

HOMENS DE BEM

Aqueles que se arvoram justiceiros
Pretendem ter as leis a seu favor.
Onde cada um juiz e executor,
Impondo veredictos a terceiros.

Têm-se em conta de grandes brasileiros,
Porém confundem ordem com vigor,
Quando em favelas tocam o terror
Como lá fossem todos desordeiros...

O autointitulado homem de bem,
No afã de justiçar co'as próprias mãos,
Atira sem saber ao certo em quem.

Até porque, se uns bons por entre os vãos
Forem vistos caídos lá também,
Vão contá-los ladrões, não cidadãos...

Betim - 05 10 2018
576

VERSILIBRISMO

Que meus versos não sirvam a ninguém,
E que mais nunca os prendam a cadenas!
Sem carecer senhores nem mecenas,
Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.

São lumes que não sabem a que vêm
Estes versos que escrevo a duras penas.
Se de mim para mim servem apenas,
Serão de quem quiser lê-los também.

Passado o cativeiro, porém, ando
Serras e terras vãs atravessando
Tão-só pela alegria de escrever.

Alheio aos privilégios dos perversos,
Estejam por direito estes meus versos
Livres para que todos possam ler.

Betim – 17 09 2007
646

O APÓSTATA

Quanto às religiões, não lhe interessa
Trocar velhos grilhões por outros novos.
O divino ainda é imposto aos povos
Ora por ordem; ora por promessa.

À fé que inopinado se confessa
Deixou aos extremistas cristãos-novos
Ao assistir das Igrejas os renovos,
N'uma verborragia ouvida à pressa.

Vira-se desgarrado do rebanho,
Que seguira em verdade desde antanho
Após sozinho ouvir a própria voz.

E decidiu fazer-se diferente
Como gentio em meio àquela gente,
Por certeza do certo, tão feroz...

Betim - 28 09 2018
576

CODICILO

Pelo presente escrito a próprio punho 
E com pleno poder das faculdades,
Expresso as minhas últimas vontades 
Em dar, perto da morte, testemunho.

Deste modo: "Nos idos já de junho, 
Vendo me sem porvires nem verdades, 
Disponho do que é meu com liberdades 
E dou fé às más firmas que cunho:"

"Minha mobília e roupas podem doar,
Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, 
Tão pouco me servira quando vivo…"

"Meus versos deixo a quem os souber ler 
Mais os livros escritos sem saber 
Ao fim para viver qualquer motivo."

Contagem - 03 06 2004
617

CHORAMINGAS

Ela enxugava as lágrimas n'um lenço
E depois balbuciava alguma queixa.
Também caras e bocas feito gueixa
Fazia ao me mostrar despeito imenso.

Se sempre tinha seus motivos, penso,
Bem maiores do que eram ela os deixa.
Deveras, contrariada a mim se queixa
Após pôr as verdades em suspenso.

Tenho para mim qu'ela nem é triste
E chora tão clamosa porque insiste
Em ver sua vontade realizada.

Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio
E enxugo as suas lágrimas por brio:
-- "Não chores, meu neném, não muda nada..."

Belo Horizonte - 04 06 2018
307

QUER SIM QUER NÃO

Tudo depende então do que se quer:
Eu olho nos teus olhos e sorrio.
Tu me sorris de volta em desafio,
Ambígua como sabe uma mulher.

Talvez tu não me olhasses a valer
Ou me sorrisses bem ao teu feitio...
A qu'eu, embora tímido e arredio,
Passe a falar-te quando bem quiser.

Porque querer tem d'essas liberdades
Que às vezes nos carregam pela mão
E põe em turbilhão nossas vontades.

Mas mais busco as razões do coração,
E, entre imaginações e realidades,
O querer a querer -- quer sim quer não!

Betim - 26 09 2018
546

ARREPENDIMENTOS

Tudo o que todos querem nos ouvir
É que as coisas vão dar certo no fim.
Fiz quanto pude; dei tudo de mim,
Mas hoje desconfio inexistir...

Do que vi e vivi deixo ao porvir
Esse passado tantas vezes ruim,
Que quase não distingo não e sim,
Receoso de que vá me ressentir.

Andando sem olhar mais para trás,
Passei a acreditar que tanto faz
O ponto aonde a gente vai chegar.

Talvez me reconheça arrependido
De tudo que podia ou não ter sido
Até poder de facto m'encontrar.

Betim - 24 09 2018
323

Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.