RicardoC

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n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
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UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
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Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

226

N'UMA NOITE D'ESSAS

Entre doses de vodca e solidão,
O poeta olha a puta o provocando
Até se perguntar, de quando em quando,
Se estava lá por tédio ou por tesão.

A puta está ali por profissão
E lhe vem, rebolativa, ao seu comando.
Sorri e bebe o qu'ele está tomando
Sabendo causar tórrida impressão.

Ela derrete o gelo nos seus lábios
E com voz maliciosa ela lhe diz,
Fazer o poeta um pouco mais feliz.

Mas ele, mesmo d'olhos menos sábios,
Declina de usufruir d'essa beleza,
Temendo ter a dar tão-só tristeza...

Belo Horizonte - 08 10 2018
532

AMAR

Não te amo por me amares ou quereres,
Mas sim porque te amando me conheço.
Amar foi me saber desde o começo
Aprendiz nos mistérios dos prazeres...

Desde então, entre todas as mulheres,
Eu quis o teu olhar a qualquer preço,
Mas tive muito mais do que mereço
Após me submeter aos teus poderes:

Amar? Não, eu não te amo. Eu te idolatro!
Deusa em meu templo; diva do meu teatro,
Deste-me a conhecer teu esplendor.

Não sei se aqui é inferno ou paraíso,
Apenas sei, divina, é qu'eu preciso
D'aquela em cujos olhos vi amor.

Belo Horizonte - 06 10 2018
608

ÍNTIMO TARDIO

Tenho estado acordado à noite toda
N'outra vigília em meio aos pernilongos,
A contar em sinalefas os ditongos
E ainda dispor hiatos à áurea moda.

A despeito de quanto me incomoda
Na insônia me buscar dias mais longos,
Adivinho no escuro camundongos,
Que sobre o forro vão e vêm em roda...

No silêncio onde habita mil ruídos,
Recordo de meus versos esquecidos
Enquanto o vento me uiva um assobio.

E, entendendo que contam minha vida,
Eu atravesso a noite mal dormida
Na escuta atenta do íntimo tardio.

Betim - 08 10 2018
584

CHORAMINGAS

Ela enxugava as lágrimas n'um lenço
E depois balbuciava alguma queixa.
Também caras e bocas feito gueixa
Fazia ao me mostrar despeito imenso.

Se sempre tinha seus motivos, penso,
Bem maiores do que eram ela os deixa.
Deveras, contrariada a mim se queixa
Após pôr as verdades em suspenso.

Tenho para mim qu'ela nem é triste
E chora tão clamosa porque insiste
Em ver sua vontade realizada.

Logo eu, que sou tão triste, lhe sorrio
E enxugo as suas lágrimas por brio:
-- "Não chores, meu neném, não muda nada..."

Belo Horizonte - 04 06 2018
320

QUER SIM QUER NÃO

Tudo depende então do que se quer:
Eu olho nos teus olhos e sorrio.
Tu me sorris de volta em desafio,
Ambígua como sabe uma mulher.

Talvez tu não me olhasses a valer
Ou me sorrisses bem ao teu feitio...
A qu'eu, embora tímido e arredio,
Passe a falar-te quando bem quiser.

Porque querer tem d'essas liberdades
Que às vezes nos carregam pela mão
E põe em turbilhão nossas vontades.

Mas mais busco as razões do coração,
E, entre imaginações e realidades,
O querer a querer -- quer sim quer não!

Betim - 26 09 2018
559

O APÓSTATA

Quanto às religiões, não lhe interessa
Trocar velhos grilhões por outros novos.
O divino ainda é imposto aos povos
Ora por ordem; ora por promessa.

À fé que inopinado se confessa
Deixou aos extremistas cristãos-novos
Ao assistir das Igrejas os renovos,
N'uma verborragia ouvida à pressa.

Vira-se desgarrado do rebanho,
Que seguira em verdade desde antanho
Após sozinho ouvir a própria voz.

E decidiu fazer-se diferente
Como gentio em meio àquela gente,
Por certeza do certo, tão feroz...

Betim - 28 09 2018
588

VERSILIBRISMO

Que meus versos não sirvam a ninguém,
E que mais nunca os prendam a cadenas!
Sem carecer senhores nem mecenas,
Ou mesmo esperar d’outrem qualquer bem.

São lumes que não sabem a que vêm
Estes versos que escrevo a duras penas.
Se de mim para mim servem apenas,
Serão de quem quiser lê-los também.

Passado o cativeiro, porém, ando
Serras e terras vãs atravessando
Tão-só pela alegria de escrever.

Alheio aos privilégios dos perversos,
Estejam por direito estes meus versos
Livres para que todos possam ler.

Betim – 17 09 2007
658

CODICILO

Pelo presente escrito a próprio punho 
E com pleno poder das faculdades,
Expresso as minhas últimas vontades 
Em dar, perto da morte, testemunho.

Deste modo: "Nos idos já de junho, 
Vendo me sem porvires nem verdades, 
Disponho do que é meu com liberdades 
E dou fé às más firmas que cunho:"

"Minha mobília e roupas podem doar,
Mas meu dinheiro o enterro há-de pagar, 
Tão pouco me servira quando vivo…"

"Meus versos deixo a quem os souber ler 
Mais os livros escritos sem saber 
Ao fim para viver qualquer motivo."

Contagem - 03 06 2004
630

ALFORRIA

Pois, se a liberdade é uma conquista,
De facto não se nasce livre, torna-se;
A face d'um sorriso aberto adorna-se
Com aquilo que os olhos têm em vista.

Ninguém nos dá ardor com que resista.
Ao que o espírito, aqui e ali, amorna-se.
Mas mesmo a escuridão d'estrelas orna-se
E as quedas não demovem o optimista.

Porque tal carta não me fora herdada,
Tampouco por senhores concedida,
Antes com sangue e lágrimas comprada.

E àqueles que hão-de vir, dou por sabida
N'uma alforria a ser reconquistada
Viver todos os dias d'essa vida.

Betim - 01 10 2018
576

FLORES INÚTEIS

Sinto como se tudo à minha volta
Fosse uma epifania ainda adiada
Ou meus olhos olhando para o nada
Ardessem de desejo e de revolta.

Eu vago pela noite sem escolta
A surpreender azuis na madrugada,
E ignoraria o afã da caminhada
Não fosse o eco d'alguma frase solta:

No altar d'um deus finado me persigno
Enquanto velhos fiéis cantando um hino
Ornam flores inúteis para os mortos.

Contribuo com meu cravo na lapela
E deixo enternecido essa capela
Aonde vieram dar meus passos tortos.

Belo Horizonte - 16 09 2018
313

Comentários (5)

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Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!