Não venham me falar do que inexiste Ou aquilo que está muito além de mim. Pois Deus e todo mundo veem, por fim, Que o que conta é tão-só não ser tão triste.
Certo que mais feliz é quem insiste Em jamais deixar tudo ser tão ruim E, sem se perturbar se não ou sim, Faz das próprias misérias algum chiste.
Todo mundo se faz mais crente ou casto, Na fé de que o Divino lhe acompanha E tem que Deus é pai; não é padrasto.
Mas a vida reduz-se a um perde-ganha, No qual as paixões levam-nos de arrasto E ao fim gozo por pranto se barganha...
Betim - 06 09 2018
308
PERFUROCORTANTE
A lâmina aprofunda pelo ventre O talho que divide todo um povo. E eu, embora lamente, me comovo Que a Nação à direita se descentre.
Mais as opiniões divergem entre O medo e o medo do medo de novo... Já nem a fala nem a acção aprovo Do que tão-só nos danos se concentre.
Quem com o ferro fere, mal ferido Ver-se-á pelo discurso ultraviolento, Que sustenta contra o outro desvalido.
Opor o bem e o mal todo momento Desconhece não ter armas partido, Bem como ter sangue o sanguinolento. Betim - 06 09 2018
333
VOSSO E REVOSSO
De tanto eu pertencer a vós, Senhora, Haveis de mim a posse e a propriedade. Tanto a alma quanto o corpo, em realidade, Possuis-me em vosso peito antes e agora...
Inelutavelmente, desde outrora Eu vivo sob a vossa autoridade. Na ânsia de merecer-vos amizade E graça aos vossos olhos vida afora.
E embora sejam muitos os haveres Que tendes recebido da Fortuna, Aceitai-me os impávidos quereres.
Vosso e revosso, clamo da tribuna: -- "Por quem sois, oh mulher entre as mulheres! Não vos negueis a mim na hora oportuna..."
Betim - 04 09 2018
300
AO PÉ DA LETRA
Entre tudo o que se diz E quanto se quis dizer, Carece reconhecer De quem dizia os ardis E quem ouvia o saber.
Porque ouvir é atentar àquilo que o outro nos disse Mas também ao que desdisse E, conforme a hora e o lugar, Saber se facto ou tolice.
Pois a palavra falada Pelo tom que se lhe dá Em bem ou mal haverá- De nos ser interpretada, Repetindo-a lá e cá.
Porém, à palavra escrita, A voz que fala se cala... E por calada intercala Tanto a verdade infinita, Quanto a mentira mais rala.
No mais, onde for Poesia Só o espírito penetra: Rima, ritmo, metro etcet'ra... Feliz quem tem a alegria De vivê-la ao pé da letra!
Belo Horizonte - 25 08 2018
339
EMPAREDADA
Nada podem as mãos contra o concreto E os gritos que jamais alcançam um. Resta apenas, sujeita à lei comum, Ser reduzida rápido a esqueleto.
De parede à parede, chão ao teto, O espaço não lhe dá conforto algum. Devora-se, por fim, em vão jejum, Vítima d'algum péssimo projeto.
Estranho é que a razão de tal clausura Fora justo a esperança libertária, Perdida em meio à noite mais escura.
E a pena que ela cumpre feito pária Tão-só prolonga a angústia em que figura, À espera d'uma morte solitária...
Betim - 30 08 2013
332
ENXAQUECA
Hipersensível, cubro-me as janelas E submerjo em silêncio e escuridão. Capto do ambiente cada vibração Por carregar da dor suas sequelas.
Isto me é existir quando procelas Põem à deriva mente e coração. Atravesso a absoluta solidão, D'outra noite sem lua nem estrelas.
Insônia, angústia, febre, forte estafa... Verificação cíclica de dados, Onde o fluxo de ideias engarrafa.
Finda em cerco aos meus eus enmimesmados, Mas nada nem ninguém dentro se safa E eu me abandono d'olhos bem fechados...
Betim - 21 08 2018
419
ZIRIGUIDUM, BALACOBACO E TELECOTECO
É festa de batuque no boteco, No que bate e rebate; ouve e repete. Samba é canção puxada no falsete Ao som de tamborim e reco-reco.
É do balacobaco o repeteco! No pique do repique pinta o sete. Quando, desde o barraco ao palacete, D'algum Brasil feliz escutam o eco.
Em zum-ziriguidum, voz e violão Vagueia ensimesmada outra emoção De juntos ver-ouvir a noite toda.
E ali, mais bela a pele mais morena, Enquanto a lua cheia se asserena A batida do samba lhe abre a roda.
Belo Horizonte - 14 08 2018
476
A BORDO
A barca que me leva para as ilhas Sulca as ondas d'um mar esmeraldino. D'olhos arregalados me amenino, Navegante entre sais e maravilhas...
Carreira dos Açores às Antilhas Onde poentes segredam-me o destino! Alma atlântica posta em desatino Após atravessar milhas e milhas.
Desperto em meio à névoa matutina Na qual mui lentamente em derredor A imensidão além se descortina.
Ali, envolto todo em pleno albor, O mundo evanescente na retina À voz que vem de dentro faz maior.
Peruíbe - 20 07 2018
365
A VOLTA DO MAR
Passando muito ao largo em seu retorno Mareavam para além do conhecido... E os ventos que governam desde o Olvido Encurvam caprichosos tal contorno.
Pois apesar do abismo logo em torno Ousaram pelo mundo reduzido Avançar com as velas que têm sido Na imensidão do mar estranho adorno.
Assim, de volta da Índia ou do Japão, Desviam-se do Norte em direcção Das Ilhas pelos céus afortunadas.
Ali gozam riquezas mais futuras Lavadas no suor das aventuras E ornadas no relato das jornadas.
Peruíbe - 21 07 2018
284
A RESPEITO
Quem tudo sabe mui pouco conhece. Não concordas? Convém olhar direito: Se desconheço, mais penso a respeito; Em vez de julgar como me apetece.
Sabes que menos sábio me parece Quando me impõem o mundo do seu jeito... Preguiça intelectual o preconceito! Mesmo elevado a Deus em meio à prece.
Mas, para censurar-me dedo em riste, Lês à pressa senões em demasia Já desqualificando quanto viste.
Peço que me respeites a poesia, Sem apenas taxar se alegre ou triste, S'encaixa em tua vã sabedoria...