Da rosa cor de rosa e de açucena, O rosa d'açucena cor de rosa. É cor da flor de cor impetuosa, É flor da cor da flor rosa e serena.
Se n'açucena cor a flor acena, Também na rosa flor a cor formosa: Rosa açucena, não açucena rosa!... A flor na qual a cor se faz mais plena.
Mas entre uma e outra flor, uma só cor: Da açucena e da rosa, o rosicler; Ao que adornasse a face da mulher.
Como se indistintas cor e flor, Tanto rosa e açucena têm por tino Em rosicler um tom mais feminino.
Betim - 15 06 2018
369
REVÊNCIA
À jusante, por onde o açude sangra Roçados reverdecem os baixios. E mesmo quando já rasos os rios Ainda o milharal na névoa mangra...
Um pesqueiro fazendo as vezes d'angra E barcos navegando igual navios. Longes, os carcarás dos serros frios Na rapina da preá e da calangra.
Sertãozinho bonito esse d'aqui!... É por toda a planície uma verdura Como por poucas vezes antes vi.
Os frutos do trabalho, com fartura, Eu finalmente em paz usufruí, Tão perto que cheguei da grã-ventura!...
Betim - 05 06 2018
431
TANGOLOMANGO
Fiquei n'uma mão de calango Depois de dar tudo que tinha. Agora debalde me zango Por aquela que fora minha.
Agora debalde me vinha Longe a zoeira do fandango: Depois de dar tudo que tinha, Fiquei n'uma mão de calango.
Agora debalde balango A mão já de todo sozinha: N'ela deu tangolomango... Depois de dar tudo que tinha, Fiquei n'uma mão de calango.
Betim - 02 06 2018
355
A SALVO
Depois de atravessar grandes perigos, Peço licença aos donos d'esta terra -- Refugiado que pelas nações erra, A buscar recomeços entre abrigos --
Mal se comparam meus males antigos Aos que tem-de passar quem se desterra!... Mesmo olhos que já viram tanta guerra Ou indistintos amigos e inimigos...
Tendo perdido tudo, reste a vida. Vedado o amanhã, atenha-se ao hoje À luz de quanto o novo sol convida.
Acolhei quem como eu ainda foge E, em desespero, aqui busca guarida, Permitindo que a salvo enfim se aloje!
Betim - 01 06 2018
392
INDO-EUROPEU
Indo, porque antiquíssimo e distante; Europeu, porque louro e ocidental... Assim o mais remoto fez-se igual Na ilusão d'uma etnia dominante.
'Té gente inteligente e interessante Caiu n'esta esparrela... E, no final, Sendo o líder supremo um anormal, Foi só dor e violência d'aí em diante... Quem buscava dos povos as raízes Viu se lhe deturparem a teoria, Pinçando algo entre frases infelizes. A saga dos arianos, todavia, Deixou por sobre a pele cicatrizes, Que se aprofundam mais a cada dia. Betim - 04 06 2018
349
MAIS UM D'ESSES
Sou d'esses tipos tristes e confusos, Que escrevem em lugar de desdizer. Eu posso às vezes mau vos parecer, Mas jamais me calei conforme os usos.
Não cito as circunstâncias como obtusos, Tampouco já me finjo convencer. Sou d'esses: O melhor que posso ser! Em meio a pensamentos inconclusos...
Mas se vos digo não é porque sim: Deixastes de me ouvir antes do fim Ou me julgastes falso desde o início.
Talvez seja preguiça intelectual... No mais, eu não escrevo assim tão mal: São as incompreensões ossos do ofício...
Betim - 27 05 2018
361
TEATRAL
De tanto fingir ser, talvez eu seja Aquele que vos tenho apresentado. Ou a máscara na face se grudado, No afã de vos mostrar minha peleja.
Corre o risco de ter o que deseja Quem como eu viveu desconfiado De ser alguém algures inventado Até me tornar outro que outrem veja.
Ser ou parecer ser?... Nem sei quem sou... Como ora este; ora aquele me pareço: Fazendo-os lembrar, de mim m'esqueço.
Tão-só pretendo ser n'este que estou -- Seja quem for e ainda que não eu -- Aquele que de si já s'esqueceu.
Betim - 30 05 2018
326
NO AGORA-JÁ
Eu, no presente bem mais-que-perfeito, Definitivamente quero estar. Ir do lugar-comum a algum lugar, Que o próprio tempo quede rarefeito. E o verbo que conjugo d'este jeito Expresse-me a vontade de ficar: Ser e permanecer sem me notar Em actos que independem de conceito. Retorne ao particípio do presente No momento em que estou evanescente E me sentindo fluir de instante a instante. Eu, de mim mesmo já falante-e-ouvinte, Deixe-me surpreender pelo seguinte, Aceitando ignorar o d'oravante!... Betim - 29 05 2018
383
MADREPÉROLA
Segredada entre conchas, revestindo Demão após demão um grão de areia: Camada iridescente que permeia A lenta gestação de quanto é lindo.
Deveras, o invasor seja bem-vindo Como um profeta dentro da baleia... Certo de só deixar morada alheia Vestido d'esplendor quando for findo.
Pois matéria de sonhos onde a luz Brinca de rebrilhar, por caprichosa, À maravilha vã dos olhos nus.
Mas, sobretudo, mãe... Que generosa Transforma o aperolado que seduz N'uma gema a si mesma mais valiosa. Betim - 31 05 2018
300
FIM DA LINHA
Já não vivo esperando pelo dia Que as contas estivessem todas pagas; Ou por promessas débeis de tão vagas, De que a felicidade chegaria.
Não conto com nenhuma fantasia De me lerem alhures minhas sagas, Tampouco de folgar por belas plagas Se só de poetas mortos a poesia...
Pretendia antes ser que me tornar: Não fui senão eu mesmo, no lugar De ir de rastros na trilha do sucesso.
E embora me surpreenda o fim da linha, Eu pouco fiz do tempo enquanto vinha... Um tanto quanto atônito, eu confesso.