Lista de Poemas

O COCAINÔMANO

Quer ser o que não é; não pode ser:
Um herói e vilão da mesma história.
Como bom jogador, só a vitória
Lhe interessa em sua ânsia de poder.

Bem sabe o que é preciso para vencer
E faz o necessário pela ilusória
Sensação de sucesso, prazer, glória...
Que o branco ouro em pó deve trazer.

Freud explica: --"É bom estar liberto!"
Esse presente, ante um futuro incerto,
Faz mais sentido, às vezes, que promessas.

Celebra, em desespero, áurea alegria.
Malgrado o desafie um novo dia
De névoas 'inda mais brancas e espessas.

Betim - 21 05 2011
329

REVÊNCIA

À jusante, por onde o açude sangra
Roçados reverdecem os baixios.
E mesmo quando já rasos os rios
Ainda o milharal na névoa mangra...

Um pesqueiro fazendo as vezes d'angra
E barcos navegando igual navios.
Longes, os carcarás dos serros frios
Na rapina da preá e da calangra.

Sertãozinho bonito esse d'aqui!...
É por toda a planície uma verdura
Como por poucas vezes antes vi.

Os frutos do trabalho, com fartura,
Eu finalmente em paz usufruí,
Tão perto que cheguei da grã-ventura!...

Betim - 05 06 2018
423

INDO-EUROPEU

Indo, porque antiquíssimo e distante;
Europeu, porque louro e ocidental...
Assim o mais remoto fez-se igual
Na ilusão d'uma etnia dominante.

'Té gente inteligente e interessante
Caiu n'esta esparrela... E, no final,
Sendo o líder supremo um anormal,
Foi só dor e violência d'aí em diante...

Quem buscava dos povos as raízes
Viu se lhe deturparem a teoria,
Pinçando algo entre frases infelizes.

A saga dos arianos, todavia,
Deixou por sobre a pele cicatrizes,
Que se aprofundam mais a cada dia.

Betim - 04 06 2018
342

A SALVO

Depois de atravessar grandes perigos,
Peço licença aos donos d'esta terra
-- Refugiado que pelas nações erra,
A buscar recomeços entre abrigos --

Mal se comparam meus males antigos
Aos que tem-de passar quem se desterra!...
Mesmo olhos que já viram tanta guerra
Ou indistintos amigos e inimigos...

Tendo perdido tudo, reste a vida.
Vedado o amanhã, atenha-se ao hoje
À luz de quanto o novo sol convida.

Acolhei quem como eu ainda foge
E, em desespero, aqui busca guarida,
Permitindo que a salvo enfim se aloje!

Betim - 01 06 2018
381

TANGOLOMANGO

Fiquei n'uma mão de calango
Depois de dar tudo que tinha.
Agora debalde me zango
Por aquela que fora minha.

Agora debalde me vinha
Longe a zoeira do fandango:
Depois de dar tudo que tinha,
Fiquei n'uma mão de calango.

Agora debalde balango
A mão já de todo sozinha:
N'ela deu tangolomango...
Depois de dar tudo que tinha,
Fiquei n'uma mão de calango.

Betim - 02 06 2018
346

MADREPÉROLA

Segredada entre conchas, revestindo
Demão após demão um grão de areia:
Camada iridescente que permeia
A lenta gestação de quanto é lindo.

Deveras, o invasor seja bem-vindo
Como um profeta dentro da baleia...
Certo de só deixar morada alheia
Vestido d'esplendor quando for findo.

Pois matéria de sonhos onde a luz
Brinca de rebrilhar, por caprichosa,
À maravilha vã dos olhos nus.

Mas, sobretudo, mãe... Que generosa
Transforma o aperolado que seduz
N'uma gema a si mesma mais valiosa.

Betim - 31 05 2018
289

TEATRAL

De tanto fingir ser, talvez eu seja
Aquele que vos tenho apresentado.
Ou a máscara na face se grudado,
No afã de vos mostrar minha peleja.

Corre o risco de ter o que deseja
Quem como eu viveu desconfiado
De ser alguém algures inventado
Até me tornar outro que outrem veja.

Ser ou parecer ser?... Nem sei quem sou...
Como ora este; ora aquele me pareço:
Fazendo-os lembrar, de mim m'esqueço.

Tão-só pretendo ser n'este que estou
-- Seja quem for e ainda que não eu --
Aquele que de si já s'esqueceu.

Betim - 30 05 2018
315

FIM DA LINHA

Já não vivo esperando pelo dia
Que as contas estivessem todas pagas;
Ou por promessas débeis de tão vagas,
De que a felicidade chegaria.

Não conto com nenhuma fantasia
De me lerem alhures minhas sagas,
Tampouco de folgar por belas plagas
Se só de poetas mortos a poesia...

Pretendia antes ser que me tornar:
Não fui senão eu mesmo, no lugar
De ir de rastros na trilha do sucesso.

E embora me surpreenda o fim da linha,
Eu pouco fiz do tempo enquanto vinha...
Um tanto quanto atônito, eu confesso.

Betim - 28 05 2018
337

MAIS UM D'ESSES

Sou d'esses tipos tristes e confusos,
Que escrevem em lugar de desdizer.
Eu posso às vezes mau vos parecer,
Mas jamais me calei conforme os usos.

Não cito as circunstâncias como obtusos,
Tampouco já me finjo convencer.
Sou d'esses: O melhor que posso ser!
Em meio a pensamentos inconclusos...

Mas se vos digo não é porque sim:
Deixastes de me ouvir antes do fim
Ou me julgastes falso desde o início.

Talvez seja preguiça intelectual...
No mais, eu não escrevo assim tão mal:
São as incompreensões ossos do ofício...

Betim - 27 05 2018
350

NO AGORA-JÁ

Eu, no presente bem mais-que-perfeito,
Definitivamente quero estar.
Ir do lugar-comum a algum lugar,
Que o próprio tempo quede rarefeito.

E o verbo que conjugo d'este jeito
Expresse-me a vontade de ficar:
Ser e permanecer sem me notar
Em actos que independem de conceito.

Retorne ao particípio do presente
No momento em que estou evanescente
E me sentindo fluir de instante a instante.

Eu, de mim mesmo já falante-e-ouvinte,
Deixe-me surpreender pelo seguinte,
Aceitando ignorar o d'oravante!...

Betim - 29 05 2018
374

Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.