É porque ao diapasão do trem de ferro Que se afina a alvorada do sertão... A passarada vem da imensidão A s'espalhar nas névoas pelo serro.
Agudo, canta em solo o trinca-ferro; Respondem zabelês em cantochão. E, uma após outra, as aves de arribação Solfejam seus lamentos no desterro.
Mais ao longe, entre errático e dolente, O concerto dos bois e dos aboios Ecoa pelos vales amplamente.
É porque no andamento dos comboios Que se compassa logo ao sol nascente, A música a verter pelos arroios. Betim - 28 06 2018
370
PLEONÁSTICO n°1
Às vezes, a entender o que se diz Carece reforçar a frase dita. Mesmo que não pareça tão bonita... A alguns soando até meio infeliz.
O facto é que a clareza que se quis Importa mais que a falta que ora irrita: Ao mau entendedor, que se repita Até que bem diante do nariz.
Ora redundante; ora reticente, O discurso ardiloso se apresente, Primeiro sendo e após especulando.
Não caiba dúvida onde comunica, Certo de que a linguagem é mais rica Se bem enfatizar de vez em quando.
Betim - 28 06 2018
326
APENAS EU
Primeiro e único a estar aqui e agora, Admiro enmimesmado a quietude Da distância galgada em solitude N'uma clareza qu'hoje me apavora.
Há muito tempo atrás eu fui embora, Das terras d'este vale imenso e rude. Mas, não importa o quanto tudo mude: Mais em mim a saudade se assenhora...
Apenas eu passei por essa estrada Que, inapelavelmente, é minha vida, Entre idas e vindas caminhada.
Olho-a como se sempre de partida, Na iminência da próxima jornada, Embora à luz da lágrima incontida.
Caratinga - 12 10 2013
438
CONTRALUZ
Olhei e vi o céu todo rajado Co'o sol dourando as nuvens de través. Vendo-me ver a luz em seu revés, Parou uma mulher logo ao meu lado.
Ela também olhava. Impressionado, Eu vi descer o sol quase aos meus pés E refulgir em mil tons através Das cores de seu rosto iluminado.
Ali, diante do belo, ela sorria. Ainda que não visse como a via Em forte contraluz de claro-escuro.
Porquanto bela, sim, a Natureza. Faz-se, porém, mais bela que a beleza, Uma mulher mudada em ouro puro!...
Betim - 26 06 2018
489
À LUZ DE LAMPIÕES (rondó)
E se, por uma rua escura, Luzindo em minha desventura, Os lampiões junto ao sobrado. Talvez ali, iluminado, Eu m'embriagasse de ternura,
Se nem a lua àquela altura Me iluminava a conjectura Por onde havia madrugado... -- E se, por uma rua escura...
Se nem a lua mais figura Na ouropretana arquitetura, Talvez lampiões do passado Em meio ao largo serenado, Trouxessem enfim calentura... -- E se, por uma rua escura...
Ouro Preto - 10 02 2012
390
ROSICLER
Da rosa cor de rosa e de açucena, O rosa d'açucena cor de rosa. É cor da flor de cor impetuosa, É flor da cor da flor rosa e serena.
Se n'açucena cor a flor acena, Também na rosa flor a cor formosa: Rosa açucena, não açucena rosa!... A flor na qual a cor se faz mais plena.
Mas entre uma e outra flor, uma só cor: Da açucena e da rosa, o rosicler; Ao que adornasse a face da mulher.
Como se indistintas cor e flor, Tanto rosa e açucena têm por tino Em rosicler um tom mais feminino.
Betim - 15 06 2018
373
PAU DE FITAS
Dançam as raparigas cá em roda D'um mastro d'onde fitas coloridas, Que passo a passo à música tecidas, Vão cobrindo a madeira quase toda.
Quer virgens suspirantes pela boda Ou belas a sorrir desinibidas, O quadro que compõem bem parecidas, N'um canto da memória se acomoda.
Jovens elas; velho eu... Tão-só recordo, Em face do presente, o meu passado: Belezas e tristezas tão de acordo!...
Elas sorriem. E eu, cá do meu lado, Em transes melancólicos transbordo, Por entre as suas fitas prisionado.
Betim - 15 08 2018
494
NU ARTÍSTICO
Entre uma artista e seu modelo -- De gozo, graça, risco e dano --- Mostra-se, desnudo e mundano, O precário prazer humano.
Entre aquele tenso desvelo E o acariciar de pele e pelo De gozo, graça, risco e dano... Entre uma artista e seu modelo.
Entre ele e ela se faz o elo. Há-de revelar-se algo insano N'um olhar pleno, salvo engano, De gozo, graça, risco e dano... Entre uma artista e seu modelo.
Belo Horizonte - 06 05 1998
327
ETERNAL (rondó)
Não o poeta, sim a poesia Em cada verso haveria- De permanecer por inteiro. E, tal como era de primeiro, Ser alimento à fantasia!
E, sem saber porque escrevia, Fazer caber tudo o que havia Dentro do metro mais certeiro -- Não o poeta, sim a poesia.
E, sem saber o que queria, Buscar-se mais, dia após dia, Não por fama ou por dinheiro Até o instante derradeiro... No afã de que eternal fazia -- Não o poeta, sim a poesia.
Betim - 18 06 2018
351
O COCAINÔMANO
Quer ser o que não é; não pode ser: Um herói e vilão da mesma história. Como bom jogador, só a vitória Lhe interessa em sua ânsia de poder.
Bem sabe o que é preciso para vencer E faz o necessário pela ilusória Sensação de sucesso, prazer, glória... Que o branco ouro em pó deve trazer.
Freud explica: --"É bom estar liberto!" Esse presente, ante um futuro incerto, Faz mais sentido, às vezes, que promessas.
Celebra, em desespero, áurea alegria. Malgrado o desafie um novo dia De névoas 'inda mais brancas e espessas.