Tudo depende então do que se quer: Eu olho nos teus olhos e sorrio. Tu me sorris de volta em desafio, Ambígua como sabe uma mulher.
Talvez tu não me olhasses a valer Ou me sorrisses bem ao teu feitio... A qu'eu, embora tímido e arredio, Passe a falar-te quando bem quiser.
Porque querer tem d'essas liberdades Que às vezes nos carregam pela mão E põe em turbilhão nossas vontades.
Mas mais busco as razões do coração, E, entre imaginações e realidades, O querer a querer -- quer sim quer não!
Betim - 26 09 2018
554
D'OLHOS FECHADOS
Deixo... Não sei se beijo ou sou beijado. Eu apenas te sinto e após me sinto... Pratico e o sofro o acto que desminto Tão-logo me percebo do teu lado.
Não deixo... Tudo ainda está errado! Sim, o amor vence tudo, mas pressinto Não ser a hora tão bela quanto pinto, Amando um olho aberto e outro fechado.
Não cuido se questão de sim ou não: É preciso cegar-me para cair D'amores e de dores pelo chão.
Mas busco o teu punhal a me ferir... E quando enfim partir meu coração Sei eu, d'olhos fechados, te sorrir.
Betim - 18 09 2018
341
FLORES INÚTEIS
Sinto como se tudo à minha volta Fosse uma epifania ainda adiada Ou meus olhos olhando para o nada Ardessem de desejo e de revolta.
Eu vago pela noite sem escolta A surpreender azuis na madrugada, E ignoraria o afã da caminhada Não fosse o eco d'alguma frase solta:
No altar d'um deus finado me persigno Enquanto velhos fiéis cantando um hino Ornam flores inúteis para os mortos.
Contribuo com meu cravo na lapela E deixo enternecido essa capela Aonde vieram dar meus passos tortos.
Belo Horizonte - 16 09 2018
306
CALEIDOSCÓPIO
A imagem que s'espelha tantas vezes Geometriza-se em formas coloridas, Repetindo ao infinito as divertidas Impressões d'uma mente sem reveses.
Microcósmico palco de entremeses Ao girogirar fábulas perdidas, Qual personas nos mostram nossas vidas Por miríades d'outros vãos talvezes...
Tudo passa como óptica ilusão, Embora eu saiba ver co'o coração Verdades intuídas ali dentro.
E busco, embasbacado, uma beleza Que me revele a própria natureza Em padrões repetidos desde o centro.
Betim - 13 09 2018
334
ZODÍACO
Quem sou senão aquele iluminado, Cujo Fado era escrito nas estrelas?... Na noite em que nasci, haviam elas Por asterismo Touro desenhado.
E desde então as tenho procurado Na abóboda celeste por sabê-las Contando a minha história sempre belas, Em tudo a qu'eu estava destinado.
Assim, quando a Fortuna me sorri Com os dons e as venturas que pedi, Eu elevo meus olhos ao Infinito
Do mesmo modo, quando uma desgraça Por sobre a minha vida inteira passa, Ao fim eu só observo: "Estava escrito...".
Betim - 15 09 2018
307
ASAS DE BORBOLETA
Quem me tocou roubou-me de mim mesma. Co'as asas aleijadas, não me movo; Pois sempre a reviver tudo de novo, Triste e pálida feito uma avantesma...
Não regrido à lagarta, sim à lesma! (Por mim, regressaria antes até do ovo...): Tudo envelhece ainda muito novo; De luto em flores roxas de quaresma.
Como pôde enodar-me por capricho? Como?! Abandonar-me que nem lixo, Quando pousada alvíssima entre os lírios?!...
Por cupidez estúpida e mal-sã, Não fez mais que deixar sem amanhã, Minh'alma obscurecida de delírios...
Belo Horizonte - 10 09 2018
312
TROCA-TROCA
As carícias seduzem por cambiantes, Alternando dos pares seus papéis. Perdidos, vão-se os dedos e os anéis... No afã com que se beijam dois amantes.
Tocar e ser tocado, por instantes, Faz o mundo e seus medos menos cruéis. N'um retinir de espadas e broquéis, àquele que se rende melhor e antes.
Certo de que, afinal, o encontro humano Afasta para além do desengano Cada pequena morte com barganhas,
Em dar e receber sentir-se vivo, Sem importar se activo ou se passivo O gozo que lhe sobe das entranhas.
Betim - 14 09 2018
343
DESBOCADO
Aperto a tecla "FODA-SE!", e depois S'ejecta a alma do corpo e vira luz. Posto para morrer co'os olhos nus, Não me resta senão dar nome aos bois:
-- "Vinde e vede, fascistas, por quem sois! Após tomardes fogo pelos cus, Servireis de repasto aos urubus! Logo o inferno ireis ver de dois em dois."
Eles riem perfilando o pelotão. E, abrindo fogo contra um paredão, Tombam-me n'alguma cova rasa...
Entanto, se tiverem ainda alma Carregarão consigo a culpa e o trauma, Retornando assassinos para casa.
Betim - 19 08 2018
355
EM SÃ CONSCIÊNCIA
Nunca! A não ser que já de todo louco... Nada nem ninguém há-de me mudar De ideia se as ideias fora do lugar, Falando até que fique quase rouco.
Não que das razões faça muito pouco: -- Razões que a Razão sabe ignorar... -- O facto é contra os factos eu sonhar, Ouvindo até deixar o ouvido mouco.
Sandice! Parvoíce!! Insanidade!!! Não há quem seja sábio de verdade Sem um grão de loucura mais fecundo.
Assim, para curar a mente insã, Há-que se andar ao sol cada manhã, Poetando para Deus e todo mundo.
Betim - 05 09 2018
302
ARTIMANHAS
Se me deixo enganar por aparências, É porque o olhar carece de bom senso. Vai quanto sinto à frente do que penso E adquiro por más artes boas ciências...
Foi por tentativa e erro que experiências M'ensinaram a ver quanto é pretenso Ser e parecer ser diante do imenso Jogo das circunstâncias e consciências.
Explico-me: O que a vida faz conosco É nos pôr as vontades indefesas, Mostrando reluzente o que era fosco.
E ao fim, ao cobiçar sem subtilezas, Torna-se um espetáculo tão tosco, Que só faz ludibriar nossas certezas.