Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.
Lista de Poemas
UM DESALMADO
A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.
O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.
Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.
E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...
Betim - 19 12 2017
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.
O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.
Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.
E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...
Betim - 19 12 2017
1 089
NA REBORDOSA
Mal acordo e começa a girar tudo...
Olhos cerrados contra o sol brilhando,
Enquanto latejava quando em quando
Minha cabeça a cada espasmo agudo.
No espelho, muito pálido e barbudo,
Eu miro e me remiro; ando e desando.
E então, suando frio e vomitando,
De noitadas assim me desiludo.
Eu tento me lembrar d'algo que fiz
Na esperança que um pouco mais feliz
Atravessara a insana bebedeira.
Mas não guardei sequer um só momento,
Pois, em plena alegria, o esquecimento:
Eis a manhã seguinte à noite inteira!...
São Paulo - 10 07 2018
Olhos cerrados contra o sol brilhando,
Enquanto latejava quando em quando
Minha cabeça a cada espasmo agudo.
No espelho, muito pálido e barbudo,
Eu miro e me remiro; ando e desando.
E então, suando frio e vomitando,
De noitadas assim me desiludo.
Eu tento me lembrar d'algo que fiz
Na esperança que um pouco mais feliz
Atravessara a insana bebedeira.
Mas não guardei sequer um só momento,
Pois, em plena alegria, o esquecimento:
Eis a manhã seguinte à noite inteira!...
São Paulo - 10 07 2018
1 018
SEJE!
Abundante esse verbo do meu ser
Que, imperativo, do sê até o seje
Por entre tantos seres se deseje
Até se outrar no tu que se quiser.
Um vir a ser de mim por melhor ver:
-- "Seje!" -- Para que alcance quanto almeje
Ainda que a galera me apedreje
Por simplesmente não me compreender.
Porque a língua está viva e se reinventa
Na fala d'essa gente que a bem fala
E na escrita que a bem ouvir se cala.
Ser trezentos, trezentos e cinquenta...
Quando mais e mais almas me consomem,
Mais eu saiba dizer a mim: -- "Seje, homem!..."
Contagem - 16 08 2018
Que, imperativo, do sê até o seje
Por entre tantos seres se deseje
Até se outrar no tu que se quiser.
Um vir a ser de mim por melhor ver:
-- "Seje!" -- Para que alcance quanto almeje
Ainda que a galera me apedreje
Por simplesmente não me compreender.
Porque a língua está viva e se reinventa
Na fala d'essa gente que a bem fala
E na escrita que a bem ouvir se cala.
Ser trezentos, trezentos e cinquenta...
Quando mais e mais almas me consomem,
Mais eu saiba dizer a mim: -- "Seje, homem!..."
Contagem - 16 08 2018
991
À NOITE
Escureceu e apenas vagalumes
Luzindo aqui e ali pelo caminho...
Nos longes, relampeava bem clarinho
Instantâneos de serras e seus cumes.
Em concerto ritmado nos friúmes
Solfejos que nas sombras adivinho:
Dois sapos coachando e um passarinho
Responde assoberbado de ciúmes...
Nem lua nem estrelas vêm brilhar
Tão carregado o céu de nuvens grossas
Pouco antes d'um dilúvio desabar.
Libélulas chapinham pelas poças
E as corujas azulam do lugar
Co'a chuva que abençoa nossas roças.
Pará de Minas - 26 12 2017
Luzindo aqui e ali pelo caminho...
Nos longes, relampeava bem clarinho
Instantâneos de serras e seus cumes.
Em concerto ritmado nos friúmes
Solfejos que nas sombras adivinho:
Dois sapos coachando e um passarinho
Responde assoberbado de ciúmes...
Nem lua nem estrelas vêm brilhar
Tão carregado o céu de nuvens grossas
Pouco antes d'um dilúvio desabar.
Libélulas chapinham pelas poças
E as corujas azulam do lugar
Co'a chuva que abençoa nossas roças.
Pará de Minas - 26 12 2017
1 021
ASSENTAMENTO
Era roça, mas tinha ardor de luta.
Não era terra herdada, era conquista.
Pois não fora comprada a prazo ou a vista,
Ao que a sua valia era absoluta.
Por nada nem ninguém se lhe permuta
Esta terra a seus olhos tão bem-quista,
Retomada d'algum monopolista,
Visto que improdutiva e devoluta...
Cabanas e roçados dão a posse
Aos homens e mulheres assentados
N'um chão regado à lágrima agridoce.
Mas sonhos pelos campos veem semeados.
E, prontos a enfrentar quem quer que fosse,
Verdejam os terrenos ocupados.
Pará de Minas - 26 12 2017
Não era terra herdada, era conquista.
Pois não fora comprada a prazo ou a vista,
Ao que a sua valia era absoluta.
Por nada nem ninguém se lhe permuta
Esta terra a seus olhos tão bem-quista,
Retomada d'algum monopolista,
Visto que improdutiva e devoluta...
Cabanas e roçados dão a posse
Aos homens e mulheres assentados
N'um chão regado à lágrima agridoce.
Mas sonhos pelos campos veem semeados.
E, prontos a enfrentar quem quer que fosse,
Verdejam os terrenos ocupados.
Pará de Minas - 26 12 2017
1 060
ENTANTO
Pretendo todo o tempo andar atento,
Mas quanto mais eu tento mais me atenta:
A distância à lembrança só aumenta,
Conquanto nada esteja ora a contento.
Entanto, mesmo sem qualquer intento
Sempre e sempre o passado se apresenta...
E com ele quanto ele representa
De novo em pensamento e sentimento..
Assim, para esquecer um grande amor,
Que se faz presente por saudade e dor
É preciso fingir que não me importe.
Amar, quando o passado é tão presente
Seja algo em todo caso diferente,
Não minha costumaz falta de sorte...
Belo Horizonte - 03 05 1993
Mas quanto mais eu tento mais me atenta:
A distância à lembrança só aumenta,
Conquanto nada esteja ora a contento.
Entanto, mesmo sem qualquer intento
Sempre e sempre o passado se apresenta...
E com ele quanto ele representa
De novo em pensamento e sentimento..
Assim, para esquecer um grande amor,
Que se faz presente por saudade e dor
É preciso fingir que não me importe.
Amar, quando o passado é tão presente
Seja algo em todo caso diferente,
Não minha costumaz falta de sorte...
Belo Horizonte - 03 05 1993
989
EM LARGA MEDIDA
EM LARGA MEDIDA
Duvido porque penso, não por cético.
Há-que se questionar tudo que é posto
Para, ao invés d'escolher algo por gosto,
Poder diferir o ético do antiético.
Mesmo a par dos limites do estro poético,
Alinho o desejado co'o suposto.
De modo que o ignorado por fim arrosto,
Com risco d'após ser quase patético...
O metro com que meço todo o mundo
Serve, desde o mais raso ao mais profundo,
De medida na frase ao fim rimada.
Em todo o caso, escrevo por pioneiro.
Pois é Poesia a busca entusiasmada,
Senão da verdade; do verdadeiro.
Betim - 17 12 2017
Duvido porque penso, não por cético.
Há-que se questionar tudo que é posto
Para, ao invés d'escolher algo por gosto,
Poder diferir o ético do antiético.
Mesmo a par dos limites do estro poético,
Alinho o desejado co'o suposto.
De modo que o ignorado por fim arrosto,
Com risco d'após ser quase patético...
O metro com que meço todo o mundo
Serve, desde o mais raso ao mais profundo,
De medida na frase ao fim rimada.
Em todo o caso, escrevo por pioneiro.
Pois é Poesia a busca entusiasmada,
Senão da verdade; do verdadeiro.
Betim - 17 12 2017
958
A APARÊNCIA DAS COISAS
é sempre sobre um tipo de pessoas:
As mais belas e ricas que as normais...
Vivendo vidas tão excepcionais
Que os outros consideram muito boas.
Reis -- embora de insólitas coroas --
São, senão mesmo reis, ao menos reais
Por se sentirem assim especiais
No afã de merecer mais e mais loas...
Mas eu, precocemente envelhecido,
Não serei mais o poeta desvalido
A cantar as douradas excelências.
Não. Antes cantar suas misérias
Enquanto garatujo as frontes sérias,
Levando mais verdade às consciências.
Betim - 07 07 2015
1 251
A BORDO
A barca que me leva para as ilhas
Sulca as ondas d'um mar esmeraldino.
D'olhos arregalados me amenino,
Navegante entre sais e maravilhas...
Carreira dos Açores às Antilhas
Onde poentes segredam-me o destino!
Alma atlântica posta em desatino
Após atravessar milhas e milhas.
Desperto em meio à névoa matutina
Na qual mui lentamente em derredor
A imensidão além se descortina.
Ali, envolto todo em pleno albor,
O mundo evanescente na retina
À voz que vem de dentro faz maior.
Peruíbe - 10 07 2018
Sulca as ondas d'um mar esmeraldino.
D'olhos arregalados me amenino,
Navegante entre sais e maravilhas...
Carreira dos Açores às Antilhas
Onde poentes segredam-me o destino!
Alma atlântica posta em desatino
Após atravessar milhas e milhas.
Desperto em meio à névoa matutina
Na qual mui lentamente em derredor
A imensidão além se descortina.
Ali, envolto todo em pleno albor,
O mundo evanescente na retina
À voz que vem de dentro faz maior.
Peruíbe - 10 07 2018
420
DESESPERANÇA
Às voltas co'os excessos do presente,
Andava com saudades do futuro.
Até me acostumei a ver no escuro
De tanto não ter nada à minha frente.
A decepção me fez indiferente,
A ponto de ignorar onde é seguro.
Há tempos que não sonho nem procuro
Senão obrigações de displicente.
Se já não sei torcer pelo melhor,
Tampouco me preparo pr'o pior:
Apenas sigo sombras pela noite.
Entrementes, os homens passarão
E a História julgará se a escuridão
Veio pela ilusão ou pelo açoite...
Belo Horizonte - 14 08 2018
Andava com saudades do futuro.
Até me acostumei a ver no escuro
De tanto não ter nada à minha frente.
A decepção me fez indiferente,
A ponto de ignorar onde é seguro.
Há tempos que não sonho nem procuro
Senão obrigações de displicente.
Se já não sei torcer pelo melhor,
Tampouco me preparo pr'o pior:
Apenas sigo sombras pela noite.
Entrementes, os homens passarão
E a História julgará se a escuridão
Veio pela ilusão ou pelo açoite...
Belo Horizonte - 14 08 2018
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Comentários (5)
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Lindos poemas ,meu caro!
Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />
POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!
bom vê-lo por aqui
Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!