Às voltas co'os excessos do presente, Andava com saudades do futuro. Até me acostumei a ver no escuro De tanto não ter nada à minha frente.
A decepção me fez indiferente, A ponto de ignorar onde é seguro. Há tempos que não sonho nem procuro Senão obrigações de displicente.
Se já não sei torcer pelo melhor, Tampouco me preparo pr'o pior: Apenas sigo sombras pela noite.
Entrementes, os homens passarão E a História julgará se a escuridão Veio pela ilusão ou pelo açoite...
Belo Horizonte - 14 08 2018
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ANTIFASCISTA
De embrutecido apelo aquela união De fortes se fazendo 'inda mais fortes Contra uma ordem corrupta de vãs cortes Mais o Mercado e sua avara mão.
Assim bem se seduz uma nação Ao atapetar co'o sangue de mais mortes A estrada do Poder após recortes Que expurguem d'entre os bons qualquer vilão...
Mas, o que pode a pena contra a espada Co'a violência corroendo feito cárie A voz esclarecida ante a barbárie?...
-- Que ela escreva até ser silenciada. E, a despeito do horror ou do egoísmo, Jamais se curve em face do fascismo!
Peruíbe - 22 07 2018
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO/ Primeira Parte: AO POENTE
Foi no tempo dos antigos Quando dois arqui-inimigos Viram-se enfim face a face. Tinham os olhos sangrando Ao longo de longo impasse, Soltando, sem que findasse, Faíscas de quando em quando...
Era o sol em agonia. Era a lua em pleno dia. Era ele o sol encarnado. Era ela a lua de sangue!... Eram os dois lado a lado: Ele, rubro e envergonhado; Ela, 'inda pálida e exangue.
O sol, ferido ao declínio, Um firmamento sanguíneo Deixa após si n'Ocidente. Já a lua, vespertina, Surgia em quarto crescente, A luzir quase ao poente Face ao sol e sua sina.
Como acontece há milênios Pelos celestes proscênios, Sucedia a lua ao sol. D'esta feita, todavia, Depois do rubro arrebol Passando à cheia (um farol!) Diversa se prometia...
Segundo efemeridades, Estas astrais potestades Transitam bem regulares Quando vistas cá da Terra: Têm das luzes estelares Certas datas e lugares, Que cada eclipse encerra.
N'aquela noite, portanto, Para universal espanto Mais um eclipse lunar Estava escrito no quadro: Havia-de se ocultar A lua, até s'escutar Mais alto de cães o ladro.
Com efeito, a lua cheia Às imensidões clareia Enluarando a cordilheira! Pois, finda a fase crescente, A lua se mostra inteira E domina, companheira, A noite resplandecente.
Pouco a pouco, todavia, A sombra da Terra havia- De lhe ocultar toda a face. E o luar obscurecido Avermelha-se fugace, Tornando-se ao desenlace Rubro qual sangue vertido.
* * *
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CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO - Segunda Parte: PROSÉLITOS
Segunda Parte: PROSÉLITOS
Contudo, por toda parte E com toda a espécie d'arte S'elevaram muitas vozes De líderes religiosos, Que com libelos ferozes Arvoraram-se os algozes Dos erros pecaminosos.
Como se o braço de Deus, Espevitavam os seus Com ardor contra os demais, Porquanto o mal manifesto... Corrompida a Humanidade, Eram eles, na verdade, Dos homens santos um resto.
Arrastavam multidões Em extensas pregações A relembrar profecias D'esses eventos finais. Afirmando em gritarias Ser aquele o fim dos dias Face aos bíblicos sinais.
Havia, de facto, a imagem -- No livro de Joel passagem Dos oráculos do Senhor -- Contando a sua visão: Onde um sol já sem ardor Cede no céu seu fulgor À mais plena escuridão
No lugar, tão-só a lua Sem estrelas continua A reluzir, contudo, Plena e sanguínea no céu. Indicando o fim de tudo, Onde crentes sobretudo Veem a desdita do infiel!...
Como Joel descreveu, A lua em seu apogeu Fez-se sanguínea também E os céus não mais deixaria. Somente um resto, porém Reunido em Jerusalém Com fé sobreviveria.
Os mais, perdidos nas trevas, Co'as suas paixões malevas Vendo os crentes verdadeiros Livres de tão triste sorte Onde desastres inteiros E, ao fim, quatro cavaleiros: Peste, guerra, fome e morte.
Após a última trombeta, A cristandade completa Veria o instante esperado Só então, o crente fiel Com Jesus ressuscitado É também arrebatado A ir ter com Deus no céu.
Aos que ficam -- diziam eles -- Resta a mesma a vida reles: O mundo e sua injustiça Permanece sem final. Pois, onde o pecado viça Na luxúria e na preguiça Continua tudo igual!
A leituras desonestas E tão obtusas quanto estas É difícil contrapor, Enfim o que quer que seja. Se, para meu estupor, Confundir mediante o horror No fundo é o que deseja.
-- "Tendo fé como argumento, A verdade é treinamento!" -- Eis como com inconstância Um intolerante ensina A sua própria intolerância Àqueles que com grande ânsia O veem igual lamparina...
Qualquer frase repetida -- quer banal ou esclarecida -- Dogma virava em seus lábios. Clamando em nome de Deus Contra islamitas arábios, Cientistas, artistas, sábios E seculares ateus.
Tenho claro que tais falas Ecoando por amplas salas Tocam muitos corações. Porém, são sobre política E não sobre religiões... A estes extensos sermões Sempre falta autocrítica!
Mas as mensagens pastoras, -- Autolegitimadoras!... -- Têm em comum entre si O senso de que a Verdade É a mesma aqui e ali, A reluzir igual rubi Para toda a Humanidade.
Em discussões cheias de nada Tão-somente confirmada A doutrina em seus enigmas Deve ser por seus doutores... Onde dogmas e querigmas, De Jesus veem os estigmas Ao celebrar-lhe louvores.
Assim, condenam o mundo E o descrevem moribundo À espera de seu final. Em tudo vendo prodígios, Já creem do bem contra o mal A lua em sangue um sinal Após guerras e litígios.
398
CICATRIZES
Não se vive essa vida impunemente... Todo mundo, mais dia menos dia, Faz o que não queria ou não devia Face à necessidade mais urgente.
No fim ninguém -- nem um! -- é inocente. Viver é ver perdida uma utopia, Até se perceber sem fantasia A éticas e morais indiferente. À medida que vão passando os anos, Ver-se às voltas com mais e mais enganos... Tantas vezes partido o coração! De resto, dos momentos infelizes, Na pele contemplar as cicatrizes Que n'alma são tão-só desilusão.
Betim - 20 06 2018
357
SAMAMBAIAÇUS
No barranco da estrada junto à mata, Eis samambaiaçus por todo o morro! Em maravilha, ao longe os olho corro E a paisagem do bosque me arrebata.
Era em lugar incerto e hora insensata, Quando lh'as surpreendi a andar mazorro Ao longo d'esse vale que percorro, Ouvindo sussurros de cascata...
A fuga em algazarra dos miquinhos Em meio à matinal dos passarinhos Completam-me o concerto d'alvorada.
Admirado de quanto vi e ouvi Agradeço tão-só d'estar aqui Em face da beleza sublimada.
Ubatuba - 20 07 2017
415
PASSADO UM ANO
De ti nada mais soube desde o dia Que saíste de vez da minha vida... Não houve rompimento ou despedida, Apenas me negaste a companhia.
Tu jamais me soubeste, todavia, O quanto a tua falta foi sentida. Tampouco me viste a alma dividida Em meio à realidade e à fantasia.
Certo é que me deixaste tão sozinho Que mal posso lembrar do descaminho Ao qual m'enveredei na noite escura.
Fuga que muito pouco me servira, Enquanto repetia a vã mentira Que foste apenas mais uma aventura.
Betim - 13 05 2018
427
À ESCRIVANINHA
Manuscritos a cair pela gaveta E a pena sobre folhas espalhadas... Palavras há décadas guardadas Chegando aos quatro cantos do Planeta.
Onde o ofício estranhíssimo do poeta Faz-se de ideias tão desencontradas. Que logo após em versos transformadas Assombram pela escolha mais correta.
No caos de sensações e sentimentos, Expressa em filigranas todo o ser Ao grafar no papel seus vãos momentos.
E indiferente a quanto fosse obter À escrivaninha, enfim, sem mais intentos Passou todos os dias a escrever...
Betim - 12 05 2018
403
ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante Tão claramente enxerga o mundo todo, Que pouco ou nada toca de seu lodo, Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante -- Lhe alimenta os instintos, sobremodo Quando sabe vender algum engodo, Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene Traduz-se na indecência tão solene Da fortuna que há séculos ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro, Tão claramente enxerga o mundo inteiro, Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
449
AURA EXTENSA (sextilhas)
Estender-se no que se tem Faz um homem maior do que é -- Quer lança que estica além O braço e mais longe até; Ou alavanca que, com fé, Movesse o mundo também.
Assim, n'aquilo que se usa Todo ser s'estende todo: É cheiro que impregna a blusa; É calor em pleno denodo A arder em torno, de modo Que a aura nas armas inclusa!
Como se a pessoal energia Em vibrações oscilantes S'expandisse, todavia, Pelas coisas circunstantes Para além do que eram antes Pois pessoais em demasia.
Visto demasiado humanas As coisas depois de usadas: Se a princípio mundanas, Pelo corpo desgastadas São enfim humanizadas À luz d'auras soberanas.
É chamado de "aura extensa" Este estender-se do ser Nas coisas a que dispensa Um extremado prazer Ou as agruras do afazer Por sobre a matéria densa.
O imaterial na matéria Como restos da existência, Sua opulência e miséria Confessa na permanência Uma presença na ausência Durante a ação deletéria.
E a vida que ali resiste Depois que a vida se deixa É a memória que insiste, Indiferente da queixa Que em meio às flores enfeixa Lamúrias d'um luto triste.
É a verdade da vida Que se nega ao vão d'Olvido! É, talvez, a despedida N'um detalhe percebido Pelo coração partido Diante de sua partida.
É a luz que permanece Depois que o sol já se pôs. E, pouco a pouco, anoitece Nos versos que se compôs Quando -- filhos, pais, avôs... -- O homem dos homens esquece.
É, enfim, tudo que se haura Expresso em luz e revolta, Enquanto a mente desaura N'um clarão à sua volta O ser que de si se solta Quão extensa for sua aura...