Lista de Poemas

A MÃO ARMADA

-- "Estúpido! Facínora!! Assassino!!!" --
Berrava, d'além-túmulo, o coitado
Pelas mãos d'um outro assassinado
Após um entrevero vespertino.

Reteve-lhe tão-só o olhar malino
Ao baque do projétil disparado:
Seu corpo sobre o chão atravessado
Morria como se obra do Destino...

Espírito, porém, evocava às Fúrias,
Rogando maldições, pragas e injúrias
Àquele que lhe dera voz de assalto.

Porque, pior que a morte, era a ilusão
De ser ouvido em face da visão
De si mesmo estirado pelo asfalto...

Betim - 13 08 2018
450

ANTIFASCISTA

De embrutecido apelo aquela união
De fortes se fazendo 'inda mais fortes
Contra uma ordem corrupta de vãs cortes
Mais o Mercado e sua avara mão.

Assim bem se seduz uma nação
Ao atapetar co'o sangue de mais mortes
A estrada do Poder após recortes
Que expurguem d'entre os bons qualquer vilão...

Mas, o que pode a pena contra a espada
Co'a violência corroendo feito cárie
A voz esclarecida ante a barbárie?...

-- Que ela escreva até ser silenciada.
E, a despeito do horror ou do egoísmo,
Jamais se curve em face do fascismo!

Peruíbe - 22 07 2018
397

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO/ Primeira Parte: AO POENTE

Foi no tempo dos antigos
Quando dois arqui-inimigos
Viram-se enfim face a face.
Tinham os olhos sangrando
Ao longo de longo impasse,
Soltando, sem que findasse,
Faíscas de quando em quando...

Era o sol em agonia.
Era a lua em pleno dia.
Era ele o sol encarnado.
Era ela a lua de sangue!...
Eram os dois lado a lado:
Ele, rubro e envergonhado;
Ela, 'inda pálida e exangue.

O sol, ferido ao declínio,
Um firmamento sanguíneo
Deixa após si n'Ocidente.
Já a lua, vespertina,
Surgia em quarto crescente,
A luzir quase ao poente
Face ao sol e sua sina.

Como acontece há milênios
Pelos celestes proscênios,
Sucedia a lua ao sol.
D'esta feita, todavia,
Depois do rubro arrebol
Passando à cheia (um farol!)
Diversa se prometia...

Segundo efemeridades,
Estas astrais potestades
Transitam bem regulares
Quando vistas cá da Terra:
Têm das luzes estelares
Certas datas e lugares,
Que cada eclipse encerra.

N'aquela noite, portanto,
Para universal espanto
Mais um eclipse lunar
Estava escrito no quadro:
Havia-de se ocultar
A lua, até s'escutar
Mais alto de cães o ladro.

Com efeito, a lua cheia
Às imensidões clareia
Enluarando a cordilheira!
Pois, finda a fase crescente,
A lua se mostra inteira
E domina, companheira,
A noite resplandecente.

Pouco a pouco, todavia,
A sombra da Terra havia-
De lhe ocultar toda a face.
E o luar obscurecido
Avermelha-se fugace,
Tornando-se ao desenlace
Rubro qual sangue vertido.

* * *
381

CORDEL DA LUA DE SANGUE E DO SOL ENCARNADO - Segunda Parte: PROSÉLITOS

Segunda Parte: PROSÉLITOS

Contudo, por toda parte
E com toda a espécie d'arte
S'elevaram muitas vozes
De líderes religiosos,
Que com libelos ferozes
Arvoraram-se os algozes
Dos erros pecaminosos.

Como se o braço de Deus,
Espevitavam os seus
Com ardor contra os demais,
Porquanto o mal manifesto...
Corrompida a Humanidade,
Eram eles, na verdade,
Dos homens santos um resto.

Arrastavam multidões
Em extensas pregações
A relembrar profecias
D'esses eventos finais.
Afirmando em gritarias
Ser aquele o fim dos dias
Face aos bíblicos sinais.

Havia, de facto, a imagem
-- No livro de Joel passagem
Dos oráculos do Senhor --
Contando a sua visão:
Onde um sol já sem ardor
Cede no céu seu fulgor
À mais plena escuridão

No lugar, tão-só a lua
Sem estrelas continua
A reluzir, contudo,
Plena e sanguínea no céu.
Indicando o fim de tudo,
Onde crentes sobretudo
Veem a desdita do infiel!...

Como Joel descreveu,
A lua em seu apogeu
Fez-se sanguínea também
E os céus não mais deixaria.
Somente um resto, porém
Reunido em Jerusalém
Com fé sobreviveria.

Os mais, perdidos nas trevas,
Co'as suas paixões malevas
Vendo os crentes verdadeiros
Livres de tão triste sorte
Onde desastres inteiros
E, ao fim, quatro cavaleiros:
Peste, guerra, fome e morte.

Após a última trombeta,
A cristandade completa
Veria o instante esperado
Só então, o crente fiel
Com Jesus ressuscitado
É também arrebatado
A ir ter com Deus no céu.

Aos que ficam -- diziam eles --
Resta a mesma a vida reles:
O mundo e sua injustiça
Permanece sem final.
Pois, onde o pecado viça
Na luxúria e na preguiça
Continua tudo igual!

A leituras desonestas
E tão obtusas quanto estas
É difícil contrapor,
Enfim o que quer que seja.
Se, para meu estupor,
Confundir mediante o horror
No fundo é o que deseja.

-- "Tendo fé como argumento,
A verdade é treinamento!" --
Eis como com inconstância
Um intolerante ensina
A sua própria intolerância
Àqueles que com grande ânsia
O veem igual lamparina...

Qualquer frase repetida
-- quer banal ou esclarecida --
Dogma virava em seus lábios.
Clamando em nome de Deus
Contra islamitas arábios,
Cientistas, artistas, sábios
E seculares ateus.

Tenho claro que tais falas
Ecoando por amplas salas
Tocam muitos corações.
Porém, são sobre política
E não sobre religiões...
A estes extensos sermões
Sempre falta autocrítica!

Mas as mensagens pastoras,
-- Autolegitimadoras!... --
Têm em comum entre si
O senso de que a Verdade
É a mesma aqui e ali,
A reluzir igual rubi
Para toda a Humanidade.

Em discussões cheias de nada
Tão-somente confirmada
A doutrina em seus enigmas
Deve ser por seus doutores...
Onde dogmas e querigmas,
De Jesus veem os estigmas
Ao celebrar-lhe louvores.

Assim, condenam o mundo
E o descrevem moribundo
À espera de seu final.
Em tudo vendo prodígios,
Já creem do bem contra o mal
A lua em sangue um sinal
Após guerras e litígios.
373

CICATRIZES

Não se vive essa vida impunemente...
Todo mundo, mais dia menos dia,
Faz o que não queria ou não devia
Face à necessidade mais urgente.

No fim ninguém -- nem um! -- é inocente.
Viver é ver perdida uma utopia,
Até se perceber sem fantasia
A éticas e morais indiferente.

À medida que vão passando os anos,
Ver-se às voltas com mais e mais enganos...
Tantas vezes partido o coração!

De resto, dos momentos infelizes,
Na pele contemplar as cicatrizes
Que n'alma são tão-só desilusão.

Betim - 20 06 2018
340

SAMAMBAIAÇUS

No barranco da estrada junto à mata,
Eis samambaiaçus por todo o morro!
Em maravilha, ao longe os olho corro
E a paisagem do bosque me arrebata.

Era em lugar incerto e hora insensata,
Quando lh'as surpreendi a andar mazorro
Ao longo d'esse vale que percorro,
Ouvindo sussurros de cascata...

A fuga em algazarra dos miquinhos
Em meio à matinal dos passarinhos
Completam-me o concerto d'alvorada.

Admirado de quanto vi e ouvi
Agradeço tão-só d'estar aqui
Em face da beleza sublimada.

Ubatuba - 20 07 2017
392

PASSADO UM ANO

De ti nada mais soube desde o dia
Que saíste de vez da minha vida...
Não houve rompimento ou despedida,
Apenas me negaste a companhia.

Tu jamais me soubeste, todavia,
O quanto a tua falta foi sentida.
Tampouco me viste a alma dividida
Em meio à realidade e à fantasia.

Certo é que me deixaste tão sozinho
Que mal posso lembrar do descaminho
Ao qual m'enveredei na noite escura.

Fuga que muito pouco me servira,
Enquanto repetia a vã mentira
Que foste apenas mais uma aventura.

Betim - 13 05 2018
405

À ESCRIVANINHA

Manuscritos a cair pela gaveta
E a pena sobre folhas espalhadas...
Palavras há décadas guardadas
Chegando aos quatro cantos do Planeta.

Onde o ofício estranhíssimo do poeta
Faz-se de ideias tão desencontradas.
Que logo após em versos transformadas
Assombram pela escolha mais correta.

No caos de sensações e sentimentos,
Expressa em filigranas todo o ser
Ao grafar no papel seus vãos momentos.

E indiferente a quanto fosse obter
À escrivaninha, enfim, sem mais intentos
Passou todos os dias a escrever...

Betim - 12 05 2018
380

AURA EXTENSA (sextilhas)

Estender-se no que se tem
Faz um homem maior do que é --
Quer lança que estica além
O braço e mais longe até;
Ou alavanca que, com fé,
Movesse o mundo também.

Assim, n'aquilo que se usa
Todo ser s'estende todo:
É cheiro que impregna a blusa;
É calor em pleno denodo
A arder em torno, de modo
Que a aura nas armas inclusa!

Como se a pessoal energia
Em vibrações oscilantes
S'expandisse, todavia,
Pelas coisas circunstantes
Para além do que eram antes
Pois pessoais em demasia.

Visto demasiado humanas
As coisas depois de usadas:
Se a princípio mundanas,
Pelo corpo desgastadas
São enfim humanizadas
À luz d'auras soberanas.

É chamado de "aura extensa"
Este estender-se do ser
Nas coisas a que dispensa
Um extremado prazer
Ou as agruras do afazer
Por sobre a matéria densa.

O imaterial na matéria
Como restos da existência,
Sua opulência e miséria
Confessa na permanência
Uma presença na ausência
Durante a ação deletéria.

E a vida que ali resiste
Depois que a vida se deixa
É a memória que insiste,
Indiferente da queixa
Que em meio às flores enfeixa
Lamúrias d'um luto triste.

É a verdade da vida
Que se nega ao vão d'Olvido!
É, talvez, a despedida
N'um detalhe percebido
Pelo coração partido
Diante de sua partida.

É a luz que permanece
Depois que o sol já se pôs.
E, pouco a pouco, anoitece
Nos versos que se compôs
Quando -- filhos, pais, avôs... --
O homem dos homens esquece.

É, enfim, tudo que se haura
Expresso em luz e revolta,
Enquanto a mente desaura
N'um clarão à sua volta
O ser que de si se solta
Quão extensa for sua aura...

Betim - 16 04 2018
378

BRAVÍSSIMO!

Queres aplausos? Não os tenho.
A árvore de louros secou...
Escreves tu com arte e engenho
Poemas que o século ignorou.

Poeta, o teu século passou!
Baldo é poetar com tanto empenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.

Poeta, o teu século desdenho:
Ouro de tolo, enferrujou...
Baldo é poetar assim ferrenho:
A árvore de louros secou...
Queres aplausos? Não os tenho.

Betim - 14 04 2018
341

Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns<br />

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.