Tenho elevado versos às alturas Sem desejar senão frases honestas, E responder angústias tais como estas Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas, Não cuido se poesias imodestas Em árvores de arquivos ou florestas Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha Sempre a se acumular na escrivaninha Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos E os lê com prazer porque bonitos... Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018
346
VESTÍGIOS
'Inda devem haver restos de nós Espalhados por esta residência. Onde vestígios já d'outra existência Debaixo de tudo quanto veio após...
Mas mais vazio há dentro quando sós A saudade nos preenche toda a ausência. Como quando uma luz na transparência Revela em suspensão nuvens de pós.
Eu sem querer t'encontro de repente E o passado fazendo-se presente Me traz o teu sorriso uma outra vez.
E me pego sorrindo aqui também Com meu olhar perdido para o além A imaginar que tu longe me vês...
Betim - 02 01 2017
442
DESQUITE
Eu não gosto de não gostar de ti Tanto quanto não gosto d'estar triste. Acontece que exacto o que anteviste Revelou-se 'inda pior quando o vivi.
Desilusões à parte, percebi Que nem o amor aos factos já resiste... Tudo o que nos passou não mais existe, Senão vaga miragem do que vi.
Estamos quites como sempre quis: Devolvo-te de novo ao meu passado E estás livre de mim, como se diz.
-- "Obrigado por já desobrigado Da culpa de te ver tão infeliz Depois de tantos anos ao meu lado."
Betim - 05 05 2005
422
ACONTECIMENTOS
Em face das recentes desventuras, Que tenho atravessado em meu caminho, Parece-me que nunca me avizinho Senão de noites mais e mais escuras.
Resta-me além de tolas conjecturas, De todas as verdades, a do vinho. Na multidão percebo-me sozinho, Ouvindo-os me espalhar as imposturas...
As coisas que me têm acontecido Deram o que pensar e o que falar A algum juízo alheio irrefletido.
Mas fica ainda a dúvida pelo ar, Se a vida, para além de todo o olvido, Não mais que um permanente mal-estar.
Betim - 10 02 2018
497
EVASÃO
Qualquer lugar que não esse onde vivo! Qualquer tempo que não o meu presente!... A vida em devaneios por simplesmente Não lhe saber sentido nem motivo.
Em utopia estar contemplativo! Em fantasia ser quem tenho em mente!... Imaginar o mundo tão-somente Ao invés de o descrever tão objetivo.
Algures bem melhor do que eu aqui; Antanho bem melhor do que eu agora: Distinto é quanto sou do que senti...
Seja eu meio acolá ou meio outrora, Flanando enmimesmado em vão por aí, Diverso ao que hei vivido vida afora.
Betim - 04 02 2018
425
ARIDEZ
Como ouvisse trovão e não visse raio, No claro céu dos longes dos sertões. Assim também os secos corações No chão esturricado ao sol de maio.
Incoerências à parte, de soslaio, Surpreendo redemunhos d'emoções Varrendo as desoladas amplidões, Onde antes todo o campo verde gaio...
Brilhante, o contraforte do penedo Reluz igual matéria incandescente Àquela claridade onipresente.
De facto um novo sol cada rochedo, Espelhando-se a pino no meio-dia Por sobre a terra tórrida e vazia.
Mantena - 30 05 2017
438
E A COISA TODA
E A COISA TODA
Não há-de haver debate verdadeiro Se se reduz ao absurdo um adversário. As certezas impostas pelo ideário Nos limitam somente ao costumeiro.
Cada homem é de si bom conselheiro, Mas o mais, por complexo e mesmo vário, Transita entre o caótico e o arbitrário N'um posicionamento derradeiro.
Estar mais à direita ou mais à esquerda Revela tão-só mais ou menos perda Dos discursos em face da verdade.
Quem busca a verdade antes a investiga E não repete o que quer que se lhe diga Como se sem consciência nem vontade.
Betim - 19 01 2018
419
DAMA-DA-NOITE
DAMA-DA-NOITE
Eu com ela vez ou outra me deparo. Tinha sombras escuras pelos olhos E perfumada ao extremo em santos óleos, Qual morresse d'amor sem meu amparo...
Alheado em seu olhar de brilho raro, Talvez me pegue a andar de antolhos Atrás de si, pois, qual campo de cóleos, A roupa exuberante lhe reparo.
Não sei por onde andou ou o que procura, Quem, insone, me fez sonhar fecundo Diante de seu sorriso de luz pura.
Só sei que me devassa o olhar profundo, Enquanto me entorpece com brandura A nuca mais cheirosa d'este mundo.
Belo Horizonte - 10 12 2005
492
UM QUARTO E UMA MEIA
UM QUARTO E UMA MEIA
Uma meia esquecida no meu quarto. Olho no relógio e é meia noite e meia... E igual àquela noite, outra lua cheia De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto, É teu cheiro que no ar tudo permeia... Dilata-se a pupila; estufa a veia: De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta... Da qual ora escureço; ora clareio Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio: Dividido por zero ou posto à quarta... O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
648
A QUEM É D'AQUÉM-MAR
A QUEM é D'AQUéM-MAR
Se escrevo como escrevo é que não devo Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além. Escrevo como quero e me convém Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo é porque mais me aprazem e soam bem. De facto, minha escrita sempre tem Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira As coisas me mantêm a verdadeira Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha, O leitor que a tiver também me tenha, Mas com mais fantasia de permeio.