RicardoC

RicardoC

n. 1976 BR BR

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

n. 1976-05-01, Caratinga

Perfil
92 459 Visualizações

UM DESALMADO

A vida é movimento continuado
Do ser entre se almar e desalmar.
Por pena ou humanidade, há-que encontrar
Algum discernimento mais confiado.

O mundo fez de mim um desalmado
No dia em que cessei de me importar
E a esperança deixou de ter lugar
Dentro do coração amargurado.

Com efeito, parece que minh'alma
Perdera-se-me e bem com ela a calma
Que tinha no semblante quando moço.

E o pouco ou quase nada que hoje sinto
Só lembra do que tanto me ressinto,
E tem me feito mais e mais insosso...

Betim - 19 12 2017
Ler poema completo
Biografia
Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.

Poemas

226

NAS NUVENS

Tenho elevado versos às alturas
Sem desejar senão frases honestas,
E responder angústias tais como estas
Que atravessam as noites mais escuras

Indiferente a vãs nomenclaturas,
Não cuido se poesias imodestas
Em árvores de arquivos ou florestas
Guardiãs de digitais multiculturas.

Tão-só espalho alhures quanto tinha
Sempre a se acumular na escrivaninha
Em maços de papeis sem mais vaidades.

Mas... Feliz de quem topa em meus escritos
E os lê com prazer porque bonitos...
Ou os lê com ardor porque verdades!

Betim - 01 04 2018
346

VESTÍGIOS

'Inda devem haver restos de nós
Espalhados por esta residência.
Onde vestígios já d'outra existência
Debaixo de tudo quanto veio após...

Mas mais vazio há dentro quando sós
A saudade nos preenche toda a ausência.
Como quando uma luz na transparência
Revela em suspensão nuvens de pós.

Eu sem querer t'encontro de repente
E o passado fazendo-se presente
Me traz o teu sorriso uma outra vez.

E me pego sorrindo aqui também
Com meu olhar perdido para o além
A imaginar que tu longe me vês...

Betim - 02 01 2017
442

DESQUITE

Eu não gosto de não gostar de ti
Tanto quanto não gosto d'estar triste.
Acontece que exacto o que anteviste
Revelou-se 'inda pior quando o vivi.

Desilusões à parte, percebi
Que nem o amor aos factos já resiste...
Tudo o que nos passou não mais existe,
Senão vaga miragem do que vi.

Estamos quites como sempre quis:
Devolvo-te de novo ao meu passado
E estás livre de mim, como se diz.

-- "Obrigado por já desobrigado
Da culpa de te ver tão infeliz
Depois de tantos anos ao meu lado."

Betim - 05 05 2005
422

ACONTECIMENTOS

Em face das recentes desventuras,
Que tenho atravessado em meu caminho,
Parece-me que nunca me avizinho
Senão de noites mais e mais escuras.

Resta-me além de tolas conjecturas,
De todas as verdades, a do vinho.
Na multidão percebo-me sozinho,
Ouvindo-os me espalhar as imposturas...

As coisas que me têm acontecido
Deram o que pensar e o que falar
A algum juízo alheio irrefletido.

Mas fica ainda a dúvida pelo ar,
Se a vida, para além de todo o olvido,
Não mais que um permanente mal-estar.

Betim - 10 02 2018
497

EVASÃO

Qualquer lugar que não esse onde vivo!
Qualquer tempo que não o meu presente!...
A vida em devaneios por simplesmente
Não lhe saber sentido nem motivo.

Em utopia estar contemplativo!
Em fantasia ser quem tenho em mente!...
Imaginar o mundo tão-somente
Ao invés de o descrever tão objetivo.

Algures bem melhor do que eu aqui;
Antanho bem melhor do que eu agora:
Distinto é quanto sou do que senti...

Seja eu meio acolá ou meio outrora,
Flanando enmimesmado em vão por aí,
Diverso ao que hei vivido vida afora.

Betim - 04 02 2018
425

ARIDEZ

Como ouvisse trovão e não visse raio,
No claro céu dos longes dos sertões.
Assim também os secos corações
No chão esturricado ao sol de maio.

Incoerências à parte, de soslaio,
Surpreendo redemunhos d'emoções
Varrendo as desoladas amplidões,
Onde antes todo o campo verde gaio...

Brilhante, o contraforte do penedo
Reluz igual matéria incandescente
Àquela claridade onipresente.

De facto um novo sol cada rochedo,
Espelhando-se a pino no meio-dia
Por sobre a terra tórrida e vazia.

Mantena - 30 05 2017
438

E A COISA TODA

E A COISA TODA

Não há-de haver debate verdadeiro
Se se reduz ao absurdo um adversário.
As certezas impostas pelo ideário
Nos limitam somente ao costumeiro.

Cada homem é de si bom conselheiro,
Mas o mais, por complexo e mesmo vário,
Transita entre o caótico e o arbitrário
N'um posicionamento derradeiro.

Estar mais à direita ou mais à esquerda
Revela tão-só mais ou menos perda
Dos discursos em face da verdade.

Quem busca a verdade antes a investiga
E não repete o que quer que se lhe diga
Como se sem consciência nem vontade.

Betim - 19 01 2018
419

DAMA-DA-NOITE

DAMA-DA-NOITE

Eu com ela vez ou outra me deparo.
Tinha sombras escuras pelos olhos
E perfumada ao extremo em santos óleos,
Qual morresse d'amor sem meu amparo...

Alheado em seu olhar de brilho raro,
Talvez me pegue a andar de antolhos
Atrás de si, pois, qual campo de cóleos,
A roupa exuberante lhe reparo.

Não sei por onde andou ou o que procura,
Quem, insone, me fez sonhar fecundo
Diante de seu sorriso de luz pura.

Só sei que me devassa o olhar profundo,
Enquanto me entorpece com brandura
A nuca mais cheirosa d'este mundo.

Belo Horizonte - 10 12 2005
492

UM QUARTO E UMA MEIA

UM QUARTO E UMA MEIA

Uma meia esquecida no meu quarto.
Olho no relógio e é meia noite e meia...
E igual àquela noite, outra lua cheia
De cujo recordar jamais me farto.

O perfume, já por meio e um quarto,
É teu cheiro que no ar tudo permeia...
Dilata-se a pupila; estufa a veia:
De novo para aquela noite eu parto.

Brilho da lua em só noite de quarta...
Da qual ora escureço; ora clareio
Para ti cada poema, foto ou carta.

No fim das contas, perco-me no enleio:
Dividido por zero ou posto à quarta...
O que é ser nada? Ser um par ao meio?...

Cap. Andrade - 22 03 1995
648

A QUEM É D'AQUÉM-MAR

A QUEM é D'AQUéM-MAR

Se escrevo como escrevo é que não devo
Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além.
Escrevo como quero e me convém
Na herdade do vernáculo por coevo.

Se a tais lusitanismos eu me atrevo
é porque mais me aprazem e soam bem.
De facto, minha escrita sempre tem
Um quê de meio arcaico ou de longevo.

Pois escritas assim d'esta maneira
As coisas me mantêm a verdadeira
Maravilha que tenho quando as leio.

Certo que, se a estranheza se lhe venha,
O leitor que a tiver também me tenha,
Mas com mais fantasia de permeio.

Belo Horizonte - 20 12 2017
465

Comentários (5)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Luciana

Lindos poemas ,meu caro!

Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

EDUARDO POETA

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

bom vê-lo por aqui

natalia nuno

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!