Quem era aquela moça que beijei No sonho que sonhei em pleno dia? Desconheço-lhe tudo, mas sabia Ser ela alguém que ainda encontrarei.
Como posso lembrar do que não sei? Como não pode haver quem só eu via? Em meus lábios seus lábios eu sentia N'outro tempo insubmisso a qualquer lei:
Sem passado ou futuro no presente, Súbito amor alhures se pressente, Pois presença na ausência presumida.
Ela... Jamais a vi e nunca esqueço! Reencontro aquela qu'eu tão-só conheço Do sonho que sonhei por toda a vida...
Betim - 25 03 2018
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VESTÍGIOS
'Inda devem haver restos de nós Espalhados por esta residência. Onde vestígios já d'outra existência Debaixo de tudo quanto veio após...
Mas mais vazio há dentro quando sós A saudade nos preenche toda a ausência. Como quando uma luz na transparência Revela em suspensão nuvens de pós.
Eu sem querer t'encontro de repente E o passado fazendo-se presente Me traz o teu sorriso uma outra vez.
E me pego sorrindo aqui também Com meu olhar perdido para o além A imaginar que tu longe me vês...
Betim - 02 01 2017
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DESQUITE
Eu não gosto de não gostar de ti Tanto quanto não gosto d'estar triste. Acontece que exacto o que anteviste Revelou-se 'inda pior quando o vivi.
Desilusões à parte, percebi Que nem o amor aos factos já resiste... Tudo o que nos passou não mais existe, Senão vaga miragem do que vi.
Estamos quites como sempre quis: Devolvo-te de novo ao meu passado E estás livre de mim, como se diz.
-- "Obrigado por já desobrigado Da culpa de te ver tão infeliz Depois de tantos anos ao meu lado."
Betim - 05 05 2005
422
ACONTECIMENTOS
Em face das recentes desventuras, Que tenho atravessado em meu caminho, Parece-me que nunca me avizinho Senão de noites mais e mais escuras.
Resta-me além de tolas conjecturas, De todas as verdades, a do vinho. Na multidão percebo-me sozinho, Ouvindo-os me espalhar as imposturas...
As coisas que me têm acontecido Deram o que pensar e o que falar A algum juízo alheio irrefletido.
Mas fica ainda a dúvida pelo ar, Se a vida, para além de todo o olvido, Não mais que um permanente mal-estar.
Betim - 10 02 2018
498
EVASÃO
Qualquer lugar que não esse onde vivo! Qualquer tempo que não o meu presente!... A vida em devaneios por simplesmente Não lhe saber sentido nem motivo.
Em utopia estar contemplativo! Em fantasia ser quem tenho em mente!... Imaginar o mundo tão-somente Ao invés de o descrever tão objetivo.
Algures bem melhor do que eu aqui; Antanho bem melhor do que eu agora: Distinto é quanto sou do que senti...
Seja eu meio acolá ou meio outrora, Flanando enmimesmado em vão por aí, Diverso ao que hei vivido vida afora.
Betim - 04 02 2018
426
ARIDEZ
Como ouvisse trovão e não visse raio, No claro céu dos longes dos sertões. Assim também os secos corações No chão esturricado ao sol de maio.
Incoerências à parte, de soslaio, Surpreendo redemunhos d'emoções Varrendo as desoladas amplidões, Onde antes todo o campo verde gaio...
Brilhante, o contraforte do penedo Reluz igual matéria incandescente Àquela claridade onipresente.
De facto um novo sol cada rochedo, Espelhando-se a pino no meio-dia Por sobre a terra tórrida e vazia.
Mantena - 30 05 2017
442
E A COISA TODA
E A COISA TODA
Não há-de haver debate verdadeiro Se se reduz ao absurdo um adversário. As certezas impostas pelo ideário Nos limitam somente ao costumeiro.
Cada homem é de si bom conselheiro, Mas o mais, por complexo e mesmo vário, Transita entre o caótico e o arbitrário N'um posicionamento derradeiro.
Estar mais à direita ou mais à esquerda Revela tão-só mais ou menos perda Dos discursos em face da verdade.
Quem busca a verdade antes a investiga E não repete o que quer que se lhe diga Como se sem consciência nem vontade.
Betim - 19 01 2018
420
D'ORAVANTE
D'ORAVANTE Não mais ser um refém de meus problemas! Mas, no que depender de mim então, Poete eu a minha humana condição E não outra engrenagem nos sistemas... Para valer a pena escrever poemas Carece mais ter dúvidas à mão, Que sempre para tudo solução Na vida e seus inúmeros dilemas. D'oravante serei calmo, não frio Ciente de que a verdade, na verdade Se revela n'algum canto sombrio. E ainda que não seja novidade, -- Ao contrário, p'ra mim até tardio -- Saiba eu ver tudo com serenidade. Betim - 30 12 2017
742
ENLUARADA
ENLUARADA
Uma mulher me veio em meio ao sonho: Dizia que me amava, mas partia. E eu, pasmo n'uma estúpida apatia, Segui ao longe seu olhar tristonho.
Acordo de cenário tão medonho Recordando a imagem que fugia: O porte senhoril, a face esguia... Ao luar, seus olhos baixos recomponho.
Mas não fixei o rosto, coisa alguma. Sequer podia haver d'algo nomeado: É todas as mulheres e nenhuma. Era ela um recordar, porém, sonhado; Alguém que a minha mente desarruma... A mulher que me deixa em meu passado.
Belo Horizonte - 07 09 1997
930
CONCORDES
CONCORDES De acordo co'os acordes que te fiz, Eu te acordo co'as cordas do violão E te acovardo a dor do coração N'um canto em cujo encanto és feliz. Incorporado o ritmo, um aprendiz Eu me faço no compasso da canção. E, passo a passo, passo-te a emoção Tão certo quanto bem te quero e quis. De cor o acorde, pois, te acode e acorda Quando, a poesia e a música concordes, Se veem canção que bem o amor aborda. Talvez assim de mim tu te recordes Enquanto meu amor por ti transborda: Na harmonia de versos, mais acordes... Betim - 09 08 1993