Há quem se faça de bobo, Fingindo-se o que não é. Cordeiro em pele de lobo, Deseja a fama de probo Como se digno de fé. Mas, demasiado pedante, Fala do que não entende. Mais do que é se pretende, Visto o seu ego gigante Face às luzes que acende.
Por inteiro interesseiro, Aplaude a ser aplaudido. Lobo em pele de cordeiro, Nas letras busca dinheiro E um nome a fugir d'Olvido. Sem embargo, é infeliz Em tudo aquilo que escreve: Frases de incerto cariz Mal dissimulam as vis Intenções que sempre teve.
Do nada ele me procura Já se dando liberdade: -- "A mim parece loucura Tua intrigante figura Dizendo não ter vaidade..." Sabendo-o querer barulho A ele, respondo sem dó: -- "Deveras, muito me orgulho... Da minha falta de orgulho Haja vista ser eu pó".
-- "Se uns pecam por ser demais, Outros, por querer de menos..." Argumenta em tons desleais No afã de parecer mais Face a meus olhos serenos. De repente, ele s'exalta E me aponta os senões todos, Restando-me a fala incauta: -- "Antes ter orgulho em falta Do que ter falta de modos!"
Finalmente ele se afasta Sem m'entender patavina. Volta para a sua casta, Cujo aplauso bem lhe basta. Enquanto mais se amofina: Talvez sob monge descalço Outro impostor se revele De pé sobre o cadafalso!... Quem a seguir cai em falso, Eis lobo e cordeiro em pele!
Betim - 03 04 2018
419
NAS NUVENS
Tenho elevado versos às alturas Sem desejar senão frases honestas, E responder angústias tais como estas Que atravessam as noites mais escuras
Indiferente a vãs nomenclaturas, Não cuido se poesias imodestas Em árvores de arquivos ou florestas Guardiãs de digitais multiculturas.
Tão-só espalho alhures quanto tinha Sempre a se acumular na escrivaninha Em maços de papeis sem mais vaidades.
Mas... Feliz de quem topa em meus escritos E os lê com prazer porque bonitos... Ou os lê com ardor porque verdades!
Betim - 01 04 2018
350
DESQUITE
Eu não gosto de não gostar de ti Tanto quanto não gosto d'estar triste. Acontece que exacto o que anteviste Revelou-se 'inda pior quando o vivi.
Desilusões à parte, percebi Que nem o amor aos factos já resiste... Tudo o que nos passou não mais existe, Senão vaga miragem do que vi.
Estamos quites como sempre quis: Devolvo-te de novo ao meu passado E estás livre de mim, como se diz.
-- "Obrigado por já desobrigado Da culpa de te ver tão infeliz Depois de tantos anos ao meu lado."
Betim - 05 05 2005
422
ACONTECIMENTOS
Em face das recentes desventuras, Que tenho atravessado em meu caminho, Parece-me que nunca me avizinho Senão de noites mais e mais escuras.
Resta-me além de tolas conjecturas, De todas as verdades, a do vinho. Na multidão percebo-me sozinho, Ouvindo-os me espalhar as imposturas...
As coisas que me têm acontecido Deram o que pensar e o que falar A algum juízo alheio irrefletido.
Mas fica ainda a dúvida pelo ar, Se a vida, para além de todo o olvido, Não mais que um permanente mal-estar.
Betim - 10 02 2018
498
ARIDEZ
Como ouvisse trovão e não visse raio, No claro céu dos longes dos sertões. Assim também os secos corações No chão esturricado ao sol de maio.
Incoerências à parte, de soslaio, Surpreendo redemunhos d'emoções Varrendo as desoladas amplidões, Onde antes todo o campo verde gaio...
Brilhante, o contraforte do penedo Reluz igual matéria incandescente Àquela claridade onipresente.
De facto um novo sol cada rochedo, Espelhando-se a pino no meio-dia Por sobre a terra tórrida e vazia.
Mantena - 30 05 2017
442
EVASÃO
Qualquer lugar que não esse onde vivo! Qualquer tempo que não o meu presente!... A vida em devaneios por simplesmente Não lhe saber sentido nem motivo.
Em utopia estar contemplativo! Em fantasia ser quem tenho em mente!... Imaginar o mundo tão-somente Ao invés de o descrever tão objetivo.
Algures bem melhor do que eu aqui; Antanho bem melhor do que eu agora: Distinto é quanto sou do que senti...
Seja eu meio acolá ou meio outrora, Flanando enmimesmado em vão por aí, Diverso ao que hei vivido vida afora.
Betim - 04 02 2018
426
E A COISA TODA
E A COISA TODA
Não há-de haver debate verdadeiro Se se reduz ao absurdo um adversário. As certezas impostas pelo ideário Nos limitam somente ao costumeiro.
Cada homem é de si bom conselheiro, Mas o mais, por complexo e mesmo vário, Transita entre o caótico e o arbitrário N'um posicionamento derradeiro.
Estar mais à direita ou mais à esquerda Revela tão-só mais ou menos perda Dos discursos em face da verdade.
Quem busca a verdade antes a investiga E não repete o que quer que se lhe diga Como se sem consciência nem vontade.
Betim - 19 01 2018
420
A QUEM É D'AQUÉM-MAR
A QUEM é D'AQUéM-MAR
Se escrevo como escrevo é que não devo Nunca nada a ninguém d'aquém ou d'além. Escrevo como quero e me convém Na herdade do vernáculo por coevo.
Se a tais lusitanismos eu me atrevo é porque mais me aprazem e soam bem. De facto, minha escrita sempre tem Um quê de meio arcaico ou de longevo.
Pois escritas assim d'esta maneira As coisas me mantêm a verdadeira Maravilha que tenho quando as leio.
Certo que, se a estranheza se lhe venha, O leitor que a tiver também me tenha, Mas com mais fantasia de permeio.
Belo Horizonte - 20 12 2017
469
UM QUARTO E UMA MEIA
UM QUARTO E UMA MEIA
Uma meia esquecida no meu quarto. Olho no relógio e é meia noite e meia... E igual àquela noite, outra lua cheia De cujo recordar jamais me farto.
O perfume, já por meio e um quarto, É teu cheiro que no ar tudo permeia... Dilata-se a pupila; estufa a veia: De novo para aquela noite eu parto.
Brilho da lua em só noite de quarta... Da qual ora escureço; ora clareio Para ti cada poema, foto ou carta.
No fim das contas, perco-me no enleio: Dividido por zero ou posto à quarta... O que é ser nada? Ser um par ao meio?...
Cap. Andrade - 22 03 1995
653
CIHUACÓATL – a mulher chorona
CIHUACÓATL - a mulher chorona introito I Quem foi, depois de ser tantas, A mais triste das mulheres?... Aquela a chorar quereres, Vagando nas noites santas Face a dores e prazeres.
II Deusa de imensos poderes, Servira aos Astecas na guerra. Hoje, está presa a essa terra Sem mais outros afazeres, Senão ser aquela que erra.
III Ela, a Chorona, que aterra Os sós em noite de lua E sobre as águas flutua: Espectro que alhures berra As dores da culpa sua...
IV Quem em prantos continua Sempre a vagar cerca às águas Onde se repete as mágoas Que leva após pela rua Aos sobrados e meias-águas
V D'alvos véus, saias e anáguas, A atravessar toda a vila... Que nas desoras, tranquila, Contrastava com as fráguas De seu olhar que cintila.
VI Gravada em minha pupila Feito uma fotografia: Defronte à matriz sombria, Enquanto no adro desfila Em meio à noite vazia.
VII Já sem descanso ou alegria, Anda a clamar pelos filhos E a murmurar estribilhos De cantigas que se ouvia Entre bardos andarilhos.
VIII Segue sem mais empecilhos Alhures a lamentar Até com algum topar E, refulgente de brilhos, Mais ess'outro assombrar.
IX Deveras n'esse lugar, Onde Deus é tão benquisto, Muitos ainda a têm visto Chorosa a Chorona a andar Sem jamais pôr termo n'isto... a chorona do lago X "Quem será esta que avisto, Por sobre as águas do lago!?" -- "Quem vem lá?" -- eu mais indago. -- "Quem lá vem?" - ainda insisto. "És ser d'outro mundo ou mago?!"
XI Só o vento, frio e pressago, Ora à minha voz responde. Na noite escura s'esconde Aquele ser tão aziago Vindo não se sabe d'onde.
XII -- "Mais às profundezas sonde À procura da verdade!" - Berrava para a entidade Ainda que a mesma estronde Sismos fendendo a cidade.
XIII Nas ondas, a claridade Se aproximou lentamente. Mas, incertos se alma ou gente, Fomos em comunidade Co'os sacerdotes na frente:
XIV O mais velho simplesmente Calou-se contemplativo. Ainda que sem motivo Ou outra razão aparente De tão súbito emotivo:
XV -- "É Cihuacóatl! Eu vivo A escutar de nosso fim..." - De facto, irrompe ela assim Clamar do povo cativo Ao soar d'estranho clarim:
XVI -- "Ai, meus filhos! Ai de mim! Aonde os levarei, de resto, Por de destino tão funesto Poderem fugir enfim? Só a lamentos me presto!..."
XVII E abria os braços n'um gesto Que abarcava toda a vila... Triste visão à pupila, Clamando em seu só protesto Desde a lagoa tranquila.
XVIII Nas águas o luar cintila E o vento frio do Norte Envolvente, agudo e forte, Sobre as campinas siliba Augúrios de dor e morte.
XIX Advertidos da má sorte, Antes que o mal se consuma Fomos ter com Montezuma, Anunciar em sua corte As profecias, uma a uma:
XX -- "Alteza, como costuma A deusa ao povo falar, Cihuacóatl a prantear É vista em meio à bruma Vossa desgraça anunciar."
XXI "Conta que vêm pelo mar Gentes mais sábias e antigas, Que muito embora inimigas Com poucos irão triunfar Quer com finezas; quer brigas."
XXII "Vossas alianças e ligas Que haveis na paz e na guerra -- A expandir do mar à serra Com glórias e com fadigas A ordem dos céus sobre a terra" -
XXIII "Caem sob a treva que aterra Os homens em confusão E os faz perdidos em vão: Sois império que s'encerra Na mais plena escuridão!..."
XXIV "Por tal, reporto a visão De sacerdotes e povo Que têm, de novo e de novo, Visto da deusa o clarão N'estes versos que vos trovo." os oito sinais XXV "Se este clamor vos renovo É por recordar sinais Que vos encadeiam finais. Se em face de vós me comovo É por sabê-los mortais:"
XXVI "À deusa com os seus ais Mais outros sete presságios Vêm se somar feito estágios De moléstias terminais Ou de sinistros naufrágios..."
XXVII "Ou tal contam os adágios: "'Nada há tão ruim que não piore.'"... Mas, antes que algo melhore, O invasor busca apanágios, Ainda que nos explore!"
XXVIII "Primeiro, não se apavore Quem vir cair uma estrela Em pleno dia e, após ela, Qual sarça de fogo core O céu da noite singela!..."
XXIX "Depois, em meio à procela Chamas altas eu contemplo A consumir todo o templo Onde um deus se revela Nosso antepassado exemplo!"
XXX "E ainda, qual contraexemplo, Dois relâmpagos seguidos Explodem incandescidos Sobre o jardim do antetemplo De Tzonmolco e mil feridos!"
XXXI "Por mais e mais desvalidos Inunda-se Anáhuac, o vale... Das alturas da Huey teocale Tenochtitlã vê perdidos Os prédios de quanto se vale."
XXXII "Passados males seguidos, Eis que caminhando às pressas Homens de muitas cabeças De mundos desconhecidos Em meio a trevas espessas!..."
XXXIII "Por fim, cumprindo as promessas Da volta de nosso deus Trazem rara ave os plebeus A ver nas íris possessas Soldados nos olhos seus."
XXXIV "Montezuma, semideus E grão-senhor dos Astecas! Após quatro anos de secas, Eis diante dos olhos meus A deusa-mãe dos Toltecas..."
XXXV "Por entre agaves e arecas Andando junto a junquilhos Antevê tolos rastilhos Nos quais as hordas carecas São mortas feito novilhos."
XXXVI "E assim, coberta de brilhos, Vinha chorando lamúrias. Augúrios de tais penúrias Os massacres de seus filhos Ecoam pelas centúrias"... a filicida XXXVII -- "Quem é essa cujas fúrias Fizeram-na desgraçar?!? Como ousa uma mãe matar Filhos de suas luxúrias E seus amores sem par?..."
XXXVIII "Quem crianças fez afogar Para horror de seu amante!? -- Mas agora, a todo instante, Mira e remira o lugar Tendo-se os meninos diante.
XXXIX E desde então vaga errante Sempre a chorar, de sorte Que até se lhe nega a Morte De pôr-lhe termo consoante À maldição do ex-consorte.
XL Muito embora desconforte Seu choro a quem longe a vê, Logo lhe nega mercê Ao sabê-la por seu porte Alma, não gente que crê...
XLI O mal por paga se dê Este mal pior, pois, eterno! Falta do zelo materno, Fez o que nenhum porquê Responde senão no inferno.
XLII Porém, no mundo moderno Ainda a veem caminhando Pelas noites, quando em quando, Em meio às nevoas do inverno Chorosa e chorona errando. mulheres da meia-noite XLIII Pelos lugares onde ando Escuto histórias como estas De mulheres tão molestas Pela escuridão penando Por suas acções funestas.
XLIV Com semelhanças honestas Às famosas mexicanas, Lendas sul-americanas Também recordam modestas As tristes almas mundanas.
XLV Embora pareçam humanas, Há tempos elas não são... E alhures vagando em vão Espalham, belas e insanas, Murmúrios na escuridão.
XLVI Têm em comum a ilusão De repararem malfeitos Ao aterrorizar sujeitos Que encontram na escuridão E logo lhe estão afeitos.
XLVII Visto a princípio insuspeitos Seus olhos na noite escura, Aproximam-se à procura De serem por ela aceitos Face à tão bela figura.
XLVIII Têm uma certa finura De suaves gestos e falas Enquanto lh'enchem de galas E exaltam-lhe a formosura, Coçando-se as barbas ralas...
XLVII E ela, tentando tocá-las, Não dão senão arrepios Visto d'ela os dedos frios Lhe traem as mãos ao mostrá-las Pálidas a homens vadios.
XLVIII Estes percebem sombrios Os olhos d'aquela bela, Passando a ter junto d'ela Pasmos um tanto tardios Tal repulsa lhes revela.
XLIX -- "Mas que mulher era aquela?"... -- Dizem consigo ao partir Ainda sem descobrir Qual plano que teria ela Quando o parou a sorrir. a loura do bonfim L Em Minas costuma-se ouvir Da loura que ao sem-abrigo Leva, amorosa, consigo Para o seu lar sem porvir Que é o seu frio jazigo!...
LI Sim, esta de que algo digo Reside n'um cemitério... Buscando a si refrigério, Seduz quem se acha a perigo De cometer um adultério.
LII Envolta em alvo mistério Cerca o rapaz linda e loura. Enquanto a coruja agoura, Lhe invita a falar a sério Antes d'aurora vindoura.
LIII Ela o coitado desdoura De admirar seu triste fim. E, manso, o encaminha enfim Qual rés furtada à lavoura Por ardiloso festim.
LIV Chorando, diz: "Ai de mim!!" E tão-logo o carro estaca Rápido o passa na faca!... "Cemitério do Bonfim" Estava escrito na placa!
LV Amanhã, no edifício Acaiaca, Pouco antes que o sol desponte, A ver o céu traz-do monte Que à serrania destaca A bela Belo Horizonte.
LVI A loura outra vez nos conte Sua história passional Estampada no jornal: "Dama do Bonfim na fronte Esfaqueia um marginal."
LVII Desgraçada tal-e-qual, Sabe viver seu papel: Morta sem amor e anel, Vagará espiritual Sem nunca chegar ao céu.
LVIII Andando de déu em déu Toda noite se renova Repetindo a sua trova: Dos altos do arranha-céu Até as funduras da cova!
LIX Mas quem de seus beijos prova Há-de viver assombrado Ferido ou não no costado. Certo de que se comova De à própria morte beijado... a saiona LX -- "Qual o mais terrível Fado D'entre as almas penadas? O da mulher das baixadas Que homens infiéis tem matado Vagando pelas estradas..."
LXI Como as outras desgraçadas Esta também enlouquece Ao ouvir quem mal a conhece Contar do esposo escapadas E grande ciúme padece.
LXII E logo após lhe acontece De homicida se tornar: Filho e esposo faz matar Além da mãe que parece Pouco antes a amaldiçoar:
LXIII -- "Matas quem soube te amar? Maldita sejas: Não morres! D'oravante tu percorres As planuras sem findar Buscando quem te desforres!"
LXIV E, n'isso, do alto das torres Das célebres catedrais Um brilho intenso demais Incandesceu sobre os jorres Das fontes dos mananciais...
LXV Desde então caça os mortais, Belíssima de saião preto A seduzir o incorreto: Quem da regra dos casais Burlando em passeio secreto.
LXVI Se d'esses o país repleto, Nos Llanos de Venezuela, Muito comentam d'aquela Que esmagava feito inseto Quantos bulissem com ela.
LXVII Tão violenta quanto bela Tem para nossos desvelos Negros e longos cabelos E olhos aos que sem cautela Têm sido o pior dos flagelos:
LXVIII Cortantes, são dois cutelos Sua mirada de luta, Que na amorosa disputa Hipnotizam os donzelos N'uma mudez absoluta!...
LXIX -- "Portanto, nem se discuta: Mulherengo d'esta zona, Que com as outras desfruta Reveja a sua conduta Antes que apareça a Saiona! epílogo LXX De volta à vossa poltrona, Eu vos deixo n'este ponto. Pois já, assombrado e tonto, Como alguma beladona M'entorpecesse de pronto...
LXXI Mas vós, leitor que confronto, Apurai vossos ouvidos A perceber os gemidos, Passando conto por conto, Em desespero vividos.
LXXII Buscai ouvir os sofridos Que vagam por esse mundo Para entender quão profundo O pavor dos tempos idos 'Inda nos homens fecundo.
LXXIII Ainda que horrendo e imundo Insisti, haja o que houver, Sobre os abismos do querer. Perguntai, sempre mais fundo: -- "Quem é aquela mulher!?"