Lista de Poemas

BISMILÉSIMOS ANOS

Embora não findasse ainda o mundo,
Os anos que seguiram ao dois mil
Viram o transtornar quase febril
Do terror mudar tudo n'um segundo.

O ódio nos corações se fez fecundo,
Mostrando-se ora fútil; ora vil.
Mas Deus envelhecera... E já senil
Evocam-no do abismo mais profundo.

Sim, mais do que vigias p'la manhã
Esperaram p'la aurora do Milênio
Que se mostrou ao fim um tanto vã.

Quando mal se difere o tolo e o gênio
É porque toda esperança jaz mal-sã
Frustrada em meio aos fogos do proscênio...

Betim - 06 05 2018
334

DEVERAS

Seus olhos reluzindo o entardecer
Davam-lhe uma beleza quase triste,
-- Se é que, deveras, algo assim existe
E, mesmo se existir, se possa ver... --

Talvez lhe contemplasse sem saber
Que algo triste no belo 'inda persiste
E mesmo que sorrisse d'algum chiste
Não lhe perceberia um bem sequer.

Estando o belo e o triste pouco distos,
Talvez não fosse nada de estupendo
A luz n'aqueles olhos tão benquistos.

Deveras, tal tristeza ali havendo,
Não estava em seus belos olhos vistos,
Mas antes em meus tristes olhos vendo.

Betim - 04 05 2018
342

REMORSOS

Se alguma utilidade têm os erros,
Está no evidenciar a imperfeição...
Tem consciência da própria condição
Quem vaga taciturno pelos serros.

Na noite mais escura anda aos berros
Em busca da impossível redenção.
D'um abismo a outro, ecoa em cantochão
O lamentar uivante dos desterros.

As pegadas que deixa pela terra
São as mesmas que todo aquele que erra,
Indo sem saber onde e sem porquê.

E os recordos d'escolhas infelizes
Leva consigo feito cicatrizes
Ao vazio que em seus olhos se vê.

Betim - 30 04 2018
348

MIGO COMIGO

Tenho o estranho costume de sozinho
Falar comigo mesmo a pensar alto.
Talvez porque emoções vindas de assalto
Deem voz ao sentimento em desalinho.

Talvez, em solidão, de mim mesquinho.
Ou ainda extravagância d'um incauto...
Verbalizar-me ao abismo n'outro salto,
Que de mim sobre mim faz descaminho.

Assim -- meio neologismo; meio pleonasmo:
Migo comigo, ou seja, enmimesmado
E em autocompanhia ante o marasmo...

Chamem como quiser!... O mais errado
É nunca a si falar para se ouvir
Exacto o que lhe está a consumir.

Belo Horizonte - 19 10 2005
365

ANGLO-SAXÃO

O macho adulto branco anglofalante
Tão claramente enxerga o mundo todo,
Que pouco ou nada toca de seu lodo,
Enquanto lhe consome especulante.

O lucro -- funcional ou exorbitante --
Lhe alimenta os instintos, sobremodo
Quando sabe vender algum engodo,
Cuja cotação muda a cada instante.

O mérito, decerto desde o gene
Traduz-se na indecência tão solene
Da fortuna de séculos qu'ele herda.

Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro,
Tão claramente enxerga o mundo inteiro,
Que pouco ou nada toca de sua merda.

Betim - 17 04 2018
277

LUSO-BRASILEIRO

Assim como a cor d'olho não colore
Aquilo que se tem à sua frente,
Tampouco a cor da pele ao que se sente
Altera o quanto ria e o quanto chore.

Não me queiram, portanto, que deplore
A língua como força d'essa gente
Na voz de quem não cala e não consente
E à luz de quanto a mente rememore.

Ao contrário, mestiço que sou eu,
Reconheçam pela híbrida linguagem
O vernáculo audaz do verso meu.

Pois certo de que não tão bom selvagem
-- Cujo belo paraíso se perdeu... --
Transmito mais além minha mensagem!

Betim - 24 04 2018
325

LAMPEJOS

Eu pouco a pouco volto à realidade.
Ao acordar, lamento antes o sonho perdido,
Que o sono bruscamente interrompido:
Sim, outra sensação pela metade...

É bem como se alguma alteridade
Se colocasse diante do sentido
E me perdesse vago em meio ao Olvido,
Ao quase revelar d'uma verdade.

D'olhos abertos, cerra-se minh'alma.
Permanecem imagens interiores...
Talvez reminiscência ou mesmo trauma.

Já segue o quotidiano e seus rigores.
Ainda qu'eu, por sob a face calma,
Passe o dia à procura d'esplendores.

Betim - 26 04 2018
331

SÍRIO-LIBANÊS

Quando a guerra tornou-se realidade
Despatriar-se foi a única saída.
Por ironia, quem lhe deu guarida
Chamava-lhe de "turco"... Na verdade,

Tomaram d'ele até a identidade
Para que então seguisse sua vida.
Aqui, a sua guerra foi vencida
No trabalho, não na insanidade.

Hoje em dia, no campo damasceno
De novo vê-se a guerra e seu veneno
Como há séculos tem acontecido.

Entretanto, tamanha é a mudança
Que essa terra que fora d'esperança
Também agora o deixa desvalido.

Betim - 25 04 2018
315

AFRO-AMERICANO

Terra da Liberdade, a Norte-América
Tornou republicana a escravidão:
A todo "homem de cor", honesto ou não,
Fez a face da lei sempre colérica.

A livre iniciativa, algo quimérica,
Se lhe parece ao fim a exploração
D'esse país que se crê grande nação,
Embora a negra face cadavérica...

A África qu'ele traz em sua pele
E a América qu'ele tem por sob os pés
Inconciliáveis são aos olhos d'ele.

Mas, a um só tempo síntese e revés,
A sua resiliência lhes revele,
Da História dos vencidos, o outro viés.

Betim - 23 04 2018
342

FRANCO-CANADENSE

Desenharam um país de costa à costa
à revelia então de quem se importe:
Era a província entregue à própria sorte,
Enquanto d'além-mar buscam resposta...

A paz que pelas armas foi imposta
Por britânicos e yanques lhe conforte
Se nem a independência e nem a morte
à suave flor-de-lis por fim desgosta.

O grande norte branco se conquista
A partir da corrida imperialista
à Passagem Noroeste indescoberta!

Mas a gente que estava no caminho
Em face de interesse tão daninho
Da própria identidade viu-se incerta...

Betim - 22 04 2018
341

Comentários (5)

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Poeta gosto do que escreve! A sua poesia toca, sente, provoca, mostra... Parabéns

edu2018

POEMAS INTELIGENTES,RICARDOC PARABÊNS. Abraços EDUARDO POETA!

namastibet

bom vê-lo por aqui

rosafogo

Gosto da sua poesia...parabéns, bom ano!

Escrevo. Gosto de escrever. Se sou escritor ou poeta, eu deixo para o leitor ponderar.