Embora não findasse ainda o mundo, Os anos que seguiram ao dois mil Viram o transtornar quase febril Do terror mudar tudo n'um segundo. O ódio nos corações se fez fecundo, Mostrando-se ora fútil; ora vil. Mas Deus envelhecera... E já senil Evocam-no do abismo mais profundo. Sim, mais do que vigias p'la manhã Esperaram p'la aurora do Milênio Que se mostrou ao fim um tanto vã. Quando mal se difere o tolo e o gênio É porque toda esperança jaz mal-sã Frustrada em meio aos fogos do proscênio... Betim - 06 05 2018
343
DEVERAS
Seus olhos reluzindo o entardecer Davam-lhe uma beleza quase triste, -- Se é que, deveras, algo assim existe E, mesmo se existir, se possa ver... --
Talvez lhe contemplasse sem saber Que algo triste no belo 'inda persiste E mesmo que sorrisse d'algum chiste Não lhe perceberia um bem sequer.
Estando o belo e o triste pouco distos, Talvez não fosse nada de estupendo A luz n'aqueles olhos tão benquistos.
Deveras, tal tristeza ali havendo, Não estava em seus belos olhos vistos, Mas antes em meus tristes olhos vendo.
Betim - 04 05 2018
352
MIGO COMIGO
Tenho o estranho costume de sozinho Falar comigo mesmo a pensar alto. Talvez porque emoções vindas de assalto Deem voz ao sentimento em desalinho.
Talvez, em solidão, de mim mesquinho. Ou ainda extravagância d'um incauto... Verbalizar-me ao abismo n'outro salto, Que de mim sobre mim faz descaminho.
Assim -- meio neologismo; meio pleonasmo: Migo comigo, ou seja, enmimesmado E em autocompanhia ante o marasmo...
Chamem como quiser!... O mais errado É nunca a si falar para se ouvir Exacto o que lhe está a consumir.
Belo Horizonte - 19 10 2005
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REMORSOS
Se alguma utilidade têm os erros, Está no evidenciar a imperfeição... Tem consciência da própria condição Quem vaga taciturno pelos serros.
Na noite mais escura anda aos berros Em busca da impossível redenção. D'um abismo a outro, ecoa em cantochão O lamentar uivante dos desterros.
As pegadas que deixa pela terra São as mesmas que todo aquele que erra, Indo sem saber onde e sem porquê.
E os recordos d'escolhas infelizes Leva consigo feito cicatrizes Ao vazio que em seus olhos se vê.
Betim - 30 04 2018
360
ANGLO-SAXÃO
O macho adulto branco anglofalante Tão claramente enxerga o mundo todo, Que pouco ou nada toca de seu lodo, Enquanto lhe consome especulante.
O lucro -- funcional ou exorbitante -- Lhe alimenta os instintos, sobremodo Quando sabe vender algum engodo, Cuja cotação muda a cada instante.
O mérito, decerto desde o gene Traduz-se na indecência tão solene Da fortuna de séculos qu'ele herda.
Pois, se o sucesso mede-se em dinheiro, Tão claramente enxerga o mundo inteiro, Que pouco ou nada toca de sua merda.
Betim - 17 04 2018
290
AFRO-AMERICANO
Terra da Liberdade, a Norte-América Tornou republicana a escravidão: A todo "homem de cor", honesto ou não, Fez a face da lei sempre colérica.
A livre iniciativa, algo quimérica, Se lhe parece ao fim a exploração D'esse país que se crê grande nação, Embora a negra face cadavérica...
A África qu'ele traz em sua pele E a América qu'ele tem por sob os pés Inconciliáveis são aos olhos d'ele.
Mas, a um só tempo síntese e revés, A sua resiliência lhes revele, Da História dos vencidos, o outro viés.
Betim - 23 04 2018
352
FRANCO-CANADENSE
Desenharam um país de costa à costa à revelia então de quem se importe: Era a província entregue à própria sorte, Enquanto d'além-mar buscam resposta...
A paz que pelas armas foi imposta Por britânicos e yanques lhe conforte Se nem a independência e nem a morte à suave flor-de-lis por fim desgosta.
O grande norte branco se conquista A partir da corrida imperialista à Passagem Noroeste indescoberta!
Mas a gente que estava no caminho Em face de interesse tão daninho Da própria identidade viu-se incerta...
Betim - 22 04 2018
353
LUSO-BRASILEIRO
Assim como a cor d'olho não colore Aquilo que se tem à sua frente, Tampouco a cor da pele ao que se sente Altera o quanto ria e o quanto chore.
Não me queiram, portanto, que deplore A língua como força d'essa gente Na voz de quem não cala e não consente E à luz de quanto a mente rememore.
Ao contrário, mestiço que sou eu, Reconheçam pela híbrida linguagem O vernáculo audaz do verso meu. Pois certo de que não tão bom selvagem -- Cujo belo paraíso se perdeu... -- Transmito mais além minha mensagem! Betim - 24 04 2018
336
SÍRIO-LIBANÊS
Quando a guerra tornou-se realidade Despatriar-se foi a única saída. Por ironia, quem lhe deu guarida Chamava-lhe de "turco"... Na verdade,
Tomaram d'ele até a identidade Para que então seguisse sua vida. Aqui, a sua guerra foi vencida No trabalho, não na insanidade.
Hoje em dia, no campo damasceno De novo vê-se a guerra e seu veneno Como há séculos tem acontecido.
Entretanto, tamanha é a mudança Que essa terra que fora d'esperança Também agora o deixa desvalido.
Betim - 25 04 2018
327
LAMPEJOS
Eu pouco a pouco volto à realidade. Ao acordar, lamento antes o sonho perdido, Que o sono bruscamente interrompido: Sim, outra sensação pela metade...
É bem como se alguma alteridade Se colocasse diante do sentido E me perdesse vago em meio ao Olvido, Ao quase revelar d'uma verdade.
D'olhos abertos, cerra-se minh'alma. Permanecem imagens interiores... Talvez reminiscência ou mesmo trauma.
Já segue o quotidiano e seus rigores. Ainda qu'eu, por sob a face calma, Passe o dia à procura d'esplendores.