Enquanto quatro fases mostra a lua, Também eu apresento aos meus iguais Mais personalidades disformais, Onde algum mal da mente se insinua.
Penso que quando um eu meu s'extenua Outro o sucede e, assim, um outro mais... De modo que com modos impessoais Evite enfim expor minh'alma nua.
Em vão: Muitos me têm por louco à solta! Como se fosse à lua alguém sujeito E andasse sempre ao léu não sem revolta.
Embora não o negue, contrafeito, Sinto a lua afastar-se a cada volta D'um mundo cada vez mais imperfeito.
Betim - 24 03 2018
378
OÁSIS
No meio do meu caminho, haja um lugar Onde eu queira parar quando cansado. Lá, me ocupe em estar desocupado E em contemplar os céus me demorar.
A vida ali transcorra devagar Como se, sem futuro nem passado, Pudesse meus pesares pôr de lado Para mais docemente repousar.
Quedas d'água brilhando contra o sol N'um chiado permanente mas tranquilo, Enquanto olho o ir e vir do meu anzol.
E, indiferente em ser eu isto ou aquilo, Inclinar-me tal-qual o girassol Grato pela ventura d'este asilo.
Betim - 08 03 2018
360
SARAU
Vinde bem todo aquele que é bem-vindo! Assim que atravesseis os meus umbrais, Comigo o bom da vida desfrutais Antes que o nosso tempo seja findo.
Se não me acompanhais pelo que é lindo, Ao menos não choreis d'estes meus ais... Retribuo-vos com ósculos cordiais Mil salves ao vestíbulo se ouvindo!
Trazei vossa alegria para a festa, Certos de que a verdade que nos resta Cabe inteira n'um cálice de vinho.
Pois, quando vós enfim fordes embora, Sabereis de mim quanto sei agora: Eu tão-somente andando tão sozinho.
Betim - 15 03 2018
393
LIVRÍSSIMO
Eu no livro me livro do que ignoro, E me transporto então para além-mim... Tudo que era verdade -- não e sim -- Ora soa como um vago desaforo.
Pois não importa se escrito ao riso ou choro, Letra a letra me leva para o fim; Aonde o olhar avança ainda assim A perder-se nos vãos que rememoro.
Porém no livro tomo a liberdade De ser quem nunca fui (jamais serei!...); Seja eu herói, vilão, guerreiro ou rei...
Se em sua fantasia outra verdade, Que já da realidade me desperta E, para o bem e o mal, a mim liberta.
Belo Horizonte - 20 03 2018
397
LICENÇA DE USO
Tu podes me citar e recitar, Fazendo o melhor uso de meus versos Que há algum tempo veem por aí dispersos, Subscritos pela data mais lugar.
Basta-me a gentileza de indicar Notas de rodapé ou mesmo anversos Onde figurem nomes controversos Aos quais também eu possa me juntar.
Em boa companhia ou já nem tanto N'outro texto o meu texto mostre o encanto Com que a palavra escrita me possuiu.
Deixo, assim, de bens maiores ou melhores Em favor cá d'aqueles escritores Em que ainda a poesia mal influi.
Betim - 14 03 2018
447
POR ESTUPIDEZ
A mesma mão que afaga é a que agride... E a boca que antes beija após maldiz! é querer longe quem junto se quis Ou ter a mão já pronta p'ro revide.
Não importa quão bem co''o mal se lide: Um dia falham todos os ardis!... E pensar que buscando ser feliz Para casa um demônio se convide...
Foge como fugisse então da guerra, Certa que se ficar um pouco mais Ele te deixa exangue sobre a terra!...
Antes estar sozinha mas em paz Que viver com alguém que a ti aterra E enfim te mata por te amar demais!
Belo Horizonte - 13 03 2018
387
O ANTAGONISTA
Mas tudo à minha volta me revolta E eu não sei ser senão insatisfeito... Sim, de tanto ver tudo do meu jeito, Te antagonizo sem reviravolta...
Não cuido se demônios meus a solta Ou se personifico algum conceito: Vivia eu n'um pretérito imperfeito Do qual nunca ninguém verás de volta.
Quanto buscas tentando ser feliz Me fez dar n'este extremo cafundó Que é há tantos anos meu país...
Vá! Logo morrerei e serei pó... E para o bem de todo o mal que fiz Conflito em tua história fui tão-só.
Betim - 01 03 2018
356
INÓSPITO
Que lugar será esse o coração? Eu olho e vejo apenas chão maninho!... Só galhada seca, cacto e espinho, Onde antes verdejante imensidão.
Não há qualquer sinal ou direcção, E tudo leva ao mesmo descaminho: 'Trás do monte outro monte eu adivinho Onde a mais absoluta solidão.
A carga que me pesa sobre o dorso Parece-me antes culpa que remorso Depois dos sucessivos insucessos.
E tanto amor que aqui lancei semente Perde-se, inexorável e somente, À espera de improváveis recomeços...
Betim - 25 02 2018
383
POLIAMOR
-- "Tu podes me xingar, se isto te conforta. Disse-lhe sem tirar os olhos d'ele -- -- "Vá! Eu não entendo isto que te impele..." -- Respondeu-me parado já na porta.
-- "O que quero é querer! Já não importa Se cu, boceta ou pinto (o que se revele!) Se índio, branco ou retinto, a cor da pele. Só não serei feliz depois de morta!"
-- "Não sabes me causar senão assombros..." -- E ficou ali olhando os olhos meus Com aquela frase à guisa já de adeus.
-- "Meu corpo, minhas regras." -- e dei de ombros. -- "Teu amor, tuas negras..." -- e explodiu: -- "Poliamor é a puta que o pariu!"
Belo Horizonte - 20 02 2018
399
O PIROMANÍACO
Eu, que aos vinte me fiz incendiário, Aos quarenta pretendo-me bombeiro... Quer pseudo-radical; quer embusteiro O facto é que já fora um temerário.
Louco, salvo evidências em contrário, Hoje em dia me têm por muito ordeiro E dos grandes um grande companheiro, Mesmo não sendo nada extraordinário.
Deliro co'a cidade ardendo em chamas, Mas depois, entre alarmas e proclamas, Exorto o povo a vir em meu socorro.
Da esquerda para o centro se transita Sob pena de tornar-me um parasita, De agravos em juízo 'inda recorro...